Bia Soull reimagina erotismo na música com álbum 'meio sombrio, mas muito sexy'
A mãe da cantora Bia Soull trabalhava numa academia em São Paulo quando um frequentador do espaço soube que sua filha era cantora. O homem, com deficiência visual, pediu para ouvir as músicas dela. Dias depois, reapareceu com um comentário: "Isso é pornografia auditiva. É pornografia para cegos".
Foi a partir dessa observação que Bia Soull, uma das revelações da música brasileira neste ano, retirou o nome de seu celebrado primeiro álbum. Em "Pornografia Auditiva", ela usa vocais sussurrados sobre batidas experimentais de funk, de rap e de R&B para tocar em tabus e recriar maneiras de se cantar o desejo sexual e o erotismo a partir da imaginação e de uma atmosfera sombria.
"O que me diferencia não é falar sobre sexo, mas o que estou falando dentro do universo do sexo", ela afirma. "Outras cantoras já falaram sobre sexo como uma mulher desejante, mas ainda não abordavam esses assuntos que trago, que são mais delicados."
Bia Soull canta, por exemplo, do ponto de vista de uma profissional do sexo a partir do eu-lírico que assume na faixa-título do disco. "Dentro do mundo do funk, os caras falam muito sobre a garota de programa", diz. "E qual é o olhar dela sobre essas coisas?"
A música "Pornografia Auditiva" é autobiográfica, assim como 90% das letras do álbum, segundo a autora. Bia Soull conta que atuou como profissional do sexo com o objetivo de levantar dinheiro para vir de Florianópolis a São Paulo gravar suas composições.
Nascida em Apucarana, no interior paranaense, ela teve o pai de sangue, como diz, preso quando tinha um ano de idade. Quatro anos depois, conheceu seu pai de criação, um guitarrista que tinha uma banda de blues e MPB, da qual sua mãe era cantora, e tocava em bares da região.
Essa foi sua base musical, antes de os pais se separarem e a então adolescente se mudar para Curitiba, onde passou a frequentar a cena hip-hop. Com a mãe, que ensinou Bia a compor como MC, ela chegou inclusive a ter uma dupla de rap. Aos 18, de volta a Apucarana, entrou na faculdade de turismo, passou a comandar um brechó e a morar sozinha.
"Comecei a ter mais liberdade sexual e fazer as minhas composições nessa pegada de 'storytelling', reverenciando a putaria e o erotismo", diz. "Passei a escutar mais funk e criar minha própria identidade."
Nessa época, Bia se mudou para Florianópolis com um plano: trabalhar como garota de programa para viabilizar sua carreira como cantora. "Foi como se eu fizesse uma imersão dentro do mundo do sexo em muitas esferas", afirma. "Eu tinha minhas relações casuais, com pessoas de que realmente gostava, mas também tinha esse acesso a mundos totalmente diferentes do meu."
A experiência mudou sua visão sobre essa atividade. "Existe um preconceito com as trabalhadoras sexuais que eu também tinha", diz. "A prostituição existe principalmente por causa da desigualdade social. É uma profissão que dá tempo e dinheiro e viabiliza possibilidades. Mulheres trans não conseguem entrar no mercado de trabalho e veem isso como a única alternativa."
Nesse universo, Bia enxergou situações de dificuldade, como "ser vista mesmo como um pedaço de carne", mas também de inspiração. Aquelas mulheres, diz, tinham sonhos tão bonitos quanto o dela, e estavam ali trabalhando para realizá-los.
Antes de chegar em São Paulo, a cantora já tinha feito sua primeira composição no estilo de "Pornografia Auditiva". "Ifude", uma brincadeira com o aplicativo de entregas, nasceu de uma experiência real: achou um entregador tão bonito que queria fazer sexo com ele. "Não transei [na vida real], mas na música eu transei."
Três cenas de São Paulo formaram a identidade sonora de Bia: os bailes funk, como o de Heliópolis; o rap, em especial as mulheres; e as boates LGBTQIA+. Se foi abraçada de primeira por esses dois últimos grupos, no primeiro, causou estranhamento.
"Eu ia a esses estúdios de funk, como os da [produtora] GR6, cantava minhas paradas e os caras ficavam tipo: 'mano, nada a ver', 'como assim você quer enfiar o dedo no cu? No cu de quem?'", diz.
Bia se refere a faixas como "Malandro Touchscreen", um R&B em que o eu-lírico faz um homem gozar ao praticar sexo oral e anal nele ao mesmo tempo. "Isso não te faz 'veado', não sejamos imaturos", diz a letra. Em "Menage", um rap guiado por guitarra, a cantora tenta convencer o parceiro a fazer sexo a três com outro homem.
A bissexualidade é tema recorrente das músicas, em que Bia também fala sobre masturbação feminina, sexo casual e outros tipos de prazer. Em "Preliminares", que sugestivamente abre o disco, o eu-lírico faz uma ameaça a homens que não fazem sexo oral em mulheres: expô-los no grupo das amigas.
Apesar de conter descrições explícitas, algo comum no funk, a poesia de "Pornografia Auditiva" não se resume a isso, e constrói, frase a frase, uma narrativa de desejo sexual. "É como se eu estivesse aguçando a criatividade das pessoas, porque você vai se imaginar naquela história — ou imaginar a história na sua frente. É a experiência de imaginar o sexo — e não ver. É pensar nele."
Esteticamente, o álbum traz elementos do funk paulista, do minimalismo às batidas no estilo industrial. Entre os produtores estão alguns dos mais talentosos beatmakers do gênero atualmente, como Mu540 e D. Silvestre.
Bia também desloca o estilo macabro, de mistério e de terror do funk bruxaria para os tabus que existem em torno do sexo. "Quando a gente fala 'pornografia', as pessoas ficam muito assustadas, né? No sentido de ser um negócio meio proibido. Trago isso para o álbum de um jeito em que estou falando sobre liberdade sexual. E tudo bem falar sobre isso. Não precisa ficar assustado. Todo mundo pensa nessas coisas."
O clima etéreo é reforçado pela ambientação das produções, com vozes sussurradas que vão passando de um ouvido ao outro na divisão estéreo do som. É uma atmosfera, ela diz, "meio sombria, mas muito sexy".
A cantora dialoga com a Geração Z, da qual ela, com 24 anos, faz parte. Os jovens hoje são mais expostos à pornografia explícita e, segundo algumas pesquisas, transam com menos frequência que as gerações anteriores.
Para Bia, eles buscam mais prazer sozinhos. "Vejo que temos tratado a sexualidade com medo, de um jeito 'vou lidar com isso sozinho'. As pessoas estão mais distantes umas das outras. Temos esse acesso ao prazer rápido. E, apesar de eu achar isso interessante, principalmente falando sobre mulheres, que por muito tempo tiveram medo de explorar isso sozinhas, é algo que precisamos fazer diferente."
A cantora, entretanto, defende que essa geração tem mais autonomia para se expressar sexualmente. "Temos mais liberdade de ser o que a gente quer, e acho que não tem nada mais bonito do que isso", diz. "A gente perde de um lado, mas ganha do outro."
Ainda que "Pornografia Auditiva" se destaque nas vias do funk e do rap, Bia não se vê como funkeira ou rapper. Afirma que tem composições não lançadas no estilo MPB e aponta para os diferentes ritmos presentes no álbum. Gosta da alcunha "under diva pop", porque tem pretensões pop, mas ainda se vê como artista underground, de nicho.
No futuro, quer cantar mais sobre as paixões para além do sexo e também falar de erotismo de maneira menos explícita. Por enquanto, diz, tem dificuldade de desapegar da putaria — algo que, para ela, não é só entretenimento.
"A sexualidade também é um problema coletivo. E como a gente a trata também é um problema coletivo --principalmente como os homens veem isso", afirma. "O feminicídio é fruto do machismo, que vem da repreensão da sexualidade das mulheres. Falar sobre sexo é político."
Nisso está incluso não servir de marionete para uma indústria que sexualiza as mulheres para o prazer masculino. "Não é como se a indústria, que é comandada por homens, quisesse que eu enfiasse o dedo no cu deles, sabe? Ou quisesse um 'ménage' com dois caras --e os dois se 'comendo'. Não é como se eu estivesse cantando o que eles esperam que eu cante. Eles me querem submissa. Me querem como uma trabalhadora do sexo."
