Extrema direita promete zerar passado da Alemanha se voltar ao poder após um século
"Você está vendo algum neonazista aqui?" Com uma garrafa de cerveja na mão, que pretende beber antes de passar pela revista de seguranças, Enrico Ehlers aponta para crianças pequenas que acompanham os pais na entrada de um comício da AfD, em um terreno cercado ao lado do rio Elba, em Magdeburgo.
O ambiente está mais para entrada de um show. O rosto de Ulrich Siegmund, principal nome da festa, aparece em diversos formatos. O mais óbvio deles é um que lembra o pôster "Hope", da campanha de 2008 de Barack Obama. Outro enaltece o candidato como "homem mais perigoso da Alemanha", título de uma capa da revista Der Spiegel subvertido em uma espécie de ativo na campanha.
Às vésperas de uma eleição decisiva em sua cidade, Ehlers acha curioso haver jornalistas do mundo inteiro na manifestação. Afinal, os grandes problemas da Alemanha não são nenhum mistério em sua opinião: imigração, trabalho, desemprego, impostos, gasolina.
Qual é a solução para tanto? "Não faço ideia. Eu não posso resolver nada disso. Você também não. Isso tem que ser feito pelo governo, pelo partido. Pelo partido lá em cima."
O partido é a AfD, Alternativa para a Alemanha, que promete que "tudo é possível" já no slogan. Lá em cima é o Parlamento de Saxônia-Anhalt, em jogo neste domingo (6), com potencial para abrigar o primeiro governo da extrema direita no país desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Para tanto, Siegmund precisa de uma "maioria segura", como vem descrevendo em entrevistas, algo maior do que as 39 cadeiras que as pesquisas de opinião apontam como certas para a sigla. A polícia alemã trabalha com a perspectiva de protestos e violência de ativistas e grupos extremistas se o resultado não for alcançado.
A matemática parlamentar é condicionada pela cláusula de barreira de 5%. Com mais partidos na Casa, mais difícil fica para a AfD indicar Siegmund como ministro-presidente do estado, cargo equivalente a governador. "Assunto para segunda-feira", diz o candidato.
Diante do evidente peso simbólico de um eventual governo populista, cerca de um século após a ascensão de Adolf Hitler e do Partido Nazista na Alemanha, surpreende o comportamento daquilo que é visto pelos críticos como seu equivalente atual.
Criada por economistas em 2013, na esteira da crise do euro, a AfD se notabiliza por ganhar tração com temas controversos e por não ter nenhum pudor de repetir o passado. Surfou na onda anti-imigração, detonada a partir da política de portas abertas de Angela Merkel, de 2015, assim como na contestação de bandeiras associadas à esquerda, como ambientalismo, transição energética e direitos de minorias.
Siegmund é um dos produtos dessa lógica oportunista. Sua presença no partido cresceu durante a pandemia, quando viralizou com críticas às restrições impostas pelo governo.
A AfD replica padrões do populismo europeu, mas destaca-se de seus pares por abdicar, pelo menos até aqui, de qualquer tipo de amenização na prática política ou no discurso.
Como fez Marine Le Pen, na França, que se afastou da figura do próprio pai, um antissemita convicto, para se tornar mais palatável ao eleitorado de centro; ou como Giorgia Meloni, recordista de permanência no posto de primeira-ministra, abraçando causas que contestava enquanto candidata, como o europeísmo.
Na Alemanha, pelo contrário, a AfD vai dobrando a aposta no radicalismo.
Em 2024, Siegmund foi flagrado discutindo reimigração com empresários em uma reunião secreta em Potsdam. Dois anos mais tarde, Alice Weidel, colíder do partido, bradava o termo durante discurso embalado por Elon Musk, na véspera da eleição federal —a sigla alcançou a segunda maior bancada no Bundestag, o Parlamento federal alemão.
Aquilo que um dia foi escândalo agora faz parte do programa de governo.
Entre as propostas estão não apenas a deportação em massa, mas também a proibição de professores de expressar opinião em sala de aula, a demissão de profissionais de saúde estrangeiros, o fim do imposto de radiodifusão, que sustenta as TVs públicas, e a saída do euro e da União Europeia.
Só os dois últimos itens custariam € 690 bilhões (R$ 4,06 trilhões) ao país nos primeiros cinco anos de uma eventual separação, segundo o Instituto de Economia Alemã. Ou 2,5 milhões de postos de trabalho. Expulsar imigrantes deixaria o país sem um quarto dos motoristas de caminhão e dos chefes de cozinha. Sem metade dos médicos.
Boa parte da opinião pública e diversos setores se mobilizam contra o partido. Talvez tardiamente, observam analistas.
"Os políticos antigos tiveram várias décadas para mudar alguma coisa, mas basicamente não fizeram nada ou apenas disseram palavras vazias. Sim, os políticos da AfD também podem estar dizendo palavras vazias, mas prefiro algo novo ao antigo que nunca funcionou", diz o jovem de 23 anos, eletricista, que chega ao comício de bicicleta.
Ele prefere omitir seu nome, mas responde com desenvoltura. O que há de novo na AfD, tão reacionária? "Alguém que se importa ou que parece se importar mais do que outros. Alguém com planos."
m boa parte inverossímil, o plano da AfD tem um propósito declarado —zerar o passado da Alemanha. Ou pelo menos a parte que, segundo o partido, parece funcionar como um peso à geração atual, a do experimento totalitário que iludiu com a ideia de um país superior.
Zerar o passado para se livrar da culpa do ocorrido ou da culpa de pensar igual, um século mais tarde? A promessa, talvez de propósito, não parece clara.
