PGR investigará relatório da PF que revelou mensagens de Vorcaro a Moraes
A PGR (Procuradoria-Geral da República) informou ao STF (Supremo Tribunal Federal) que investigará se houve interferência na elaboração do relatório da Polícia Federal que revelou mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes.
A Procuradoria-Geral diz que não houve espaço para se manifestar sobre a investigação. Afirma que ficou impedida de realizar o "necessário controle externo da atividade policial". O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu para notificar a Polícia Federal para esclarecer as circunstâncias da produção do relatório e a "possível ocorrência de ordem ou interferência externa".
Na terça-feira (1º), Gonet pediu a nulidade do relatório. Para a PGR, a ordem dada à PF para investigar pessoas específicas, sem pedido da PGR ou da própria polícia, excede os limites de competência do ministro na fase pré-processual. Gonet foi citado no relatório da PF. O Conselho Superior do Ministério Público Federal abriu procedimento para investigar a conduta dele.
Mesmo que o ministro André Mendonça encontrasse algum indício de irregularidade, não caberia a ele aprofundar a investigação sobre Moraes, disse o PGR. A Procuradoria afirma que, acreditando haver algo para ser investigado, era necessário passar pelo presidente do STF, Edson Fachin, para que o plenário da corte pudesse concordar, ou não, com a investigação. No ofício de hoje para investigar o relatório da PF, o procurador-geral não cita nominalmente Mendonça, mas é uma referência à conduta do magistrado.
"Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais. Não lhe é dado valer-se da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas. Paradigmáticas decisões do Supremo Tribunal Federal não deixam dúvida de que a assunção pelo juiz de funções alheias às suas é causa de nulidade, que afeta os resultados da ação", escreveu Paulo Gonet, ao pedir nulidade de relatório
As conversas foram obtidas pela PF em investigação sobre o Banco Master. O ministro Mendonça retirou na terça o sigilo do relatório que mostra a relação entre Moraes e Vorcaro.
O inquérito revela troca de mensagens entre os dois. Em novembro de 2025, o banqueiro consultou Moraes sobre o risco de prisão e a possibilidade de deixar o Brasil. "Acha que segunda já tenho que estar fora?", escreveu em 15 de novembro.
Os investigadores veem indício de que eles tratavam do avanço da Operação Compliance Zero.
Na véspera de sua prisão, Vorcaro voltou a questionar Moraes. "Você acha que existe alguma chance de isso acontecer amanhã de manhã?", perguntou em 16 de novembro, quando a ordem de prisão ainda não havia sido assinada pela 10ª Vara Federal do Distrito Federal.
A prisão do banqueiro ocorreu no dia seguinte no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando ele tentava embarcar em um jatinho particular.
Não é possível saber o que Moraes teria respondido. O banqueiro e o ministro do STF trocavam conteúdos em modo de visualização única, por meio de capturas de tela de textos redigidos no aplicativo de notas do celular, o que preservou apenas imagens enviadas por Vorcaro.
Gonet é citado no relatório. Em uma das mensagens do inquérito, Vorcaro pediu para que Moraes tentasse reverter as investigações sobre o Master com Gonet e Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF. A Polícia Federal registra que Vorcaro não tem o contato de Gonet, mas destaca contatos entre os dois através de terceiros.
Em 15 de março de 2025, o advogado Ciro Soares envia a Vorcaro foto acompanhado de Gonet. Ele pede para o dono do Master ligar: "Ele quer falar com você". Segundo a PF, quatro chamadas de voz entre Vorcaro e Soares foram completadas na sequência. Em outro trecho, a PF reproduz trocas de mensagens entre Vorcaro e Ciro Soares, que chama o banqueiro de "irmão" e fala que "Gonet é ponta firme".
Em 11 de abril, ao aprovar com funcionária uma lista de convidados para evento em Londes com despesas pagas, o banqueiro escreveu "Pedro e ciro ok". A PF diz que a menção é a Pedro Gonet, filho do procurador-geral da República, e a Ciro Soares. O evento, um fórum jurídico que ocorreria no ano passado, acabou não acontecendo.
