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Mudança climática intensifica variabilidade do El Niño, mostra estudo

Por José Henrique Mariante | Folhapress

Foto: Reprodução / C3S / ECMWF

El Niño, o fenômeno que favorece de secas a inundações e promete eventos extremos neste restante de 2026 e em 2027, está se intensificando com o aquecimento global. Dados coletados de corais em Galápagos (Equador), arquivo natural com um milênio de informações, mostram que a oscilação está ao menos 36,5% mais intensa do que durante o período pré-industrial.
 

A conclusão é de um artigo publicado nesta quinta-feira (27) na revista Science e confirma o que dados observacionais já sugeriam: o El Niño também está sendo impactado pela mudança climática provocada sobretudo pela queima de petróleo, carvão e gás natural.
 

Ainda que presumida, tal relação era de difícil comprovação pela falta de registros mais remotos e pela grande variabilidade natural do fenômeno. O estudo liderado por Julia Cole, professora da Universidade de Michigan, contorna o problema por meio da análise geoquímica de alta resolução de corais do arquipélago no Pacífico e de exemplares fossilizados.
 

A paleoclimatologia, especialidade de Cole, permitiu a seu grupo de pesquisadores estimar as temperaturas da superfície do oceano naquela região nos últimos mil anos. Assim como ocorre com bolhas de ar aprisionadas em gelo de glaciares e anéis de árvores, fósseis de corais guardam informações climáticas de outras eras.
 

Como Galápagos fica no Pacífico equatorial oriental, próximo à região em que o El Niño por padrão científico é monitorado, o conjunto trabalhado pelo estudo tinha potencial para refletir seu histórico de comportamento.
 

Os dados obtidos na análise foram então comparados com outras medições feitas a partir de corais do Pacífico. Restava, porém, determinar se a variabilidade do fenômeno obedecia a uma ordem natural. Para tanto, foram utilizadas simulações com 12 modelos climáticos.
 

O resultado demonstrou uma disparada da variabilidade nas últimas quatro décadas. A atual variação é 36,5% mais alta do que a observada na era pré-industrial, com El Niños cada vez mais frequentes e mais intensos.
 

"Era o esperado", afirma Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e integrante da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas. "El Niño é um regulador do clima. E, como a gente está em desequilíbrio energético com as mudanças climáticas, o oceano está tentando tirar mais calor da atmosfera, acelerando seu ciclo", diz a oceanóloga, que não participa do estudo.
 

El Niño é uma fase da Oscilação Sul-El Niño (Enso, na sigla em inglês), um dos padrões climáticos mais poderosos do planeta. Enquanto o El Niño está relacionado a um Pacífico Equatorial mais quente, a La Niña acontece quando as águas nessa região ficam mais frias do que a média histórica. Quando as temperaturas estão dentro dessa média, considera-se que o planeta passa por uma fase de neutralidade.
 

A variabilidade maior apontada pelo artigo se traduz em mais La Niñas e mais El Niños se alternando em uma frequência também maior, como demonstra a memória recente.
 

El Niños fortes ocorriam em intervalos de 10 a 15 anos, como registrado em 1982/83, 1997/98 e 2015/16. Nesta década, o ritmo mudou. O último El Niño intenso foi em 2023/24 e o seguinte, segundo projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa), dos EUA, tem 93% de chances de ocorrer de setembro a novembro deste ano.
 

Essa aceleração na frequência, agora confirmada como fruto das emissões provocadas pela atividade humana, tende a agravar as consequências de eventos extremos também devido à potencial sobreposição de ocorrências.
 

"Estudos mostram que o PIB mundial cai após episódios de El Niño e que a recuperação leva cinco anos se eles forem fortes. A gente não se recuperou ainda de um e já vamos ter outro", observa Rodrigues, lembrando das inundações no Rio Grande do Sul, em 2024. "As coisas ainda não foram totalmente reconstruídas, existem bairros com lixo ainda."
 

"Esses resultados têm implicações importantes para os riscos climáticos", escrevem Cole e seus colegas no artigo. "Se essa tendência continuar, ela intensificará ainda mais o impacto do fenômeno dentro e fora do Pacífico tropical."
 

A constatação de que a mudança climática também altera a intensidade do fenômeno reforça a urgência global por mecanismos de mitigação, da busca pela neutralidade das emissões à aceleração da transição energética, assim como por esforços de adaptação.
 

Apenas o último item, no entanto, tem aparecido com força no debate político, a despeito do ano já repleto de tragédias antes mesmo dos efeitos do El Niño entrarem na conta. Dizer que se trata apenas de um fenômeno natural não funciona mais.

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