Ator cadeirante critica escalação de atores sem deficiência em peça sobre Marcelo Rubens Paiva
A escalação de Bruno Garcia e Hugo Bonemer para interpretar Marcelo Rubens Paiva em diferentes momentos de "Feliz Ano Velho - O Musical" provocou críticas de pessoas com deficiência.
Um deles foi Tato Amorim, ator cadeirante que publicou um vídeo nas redes sociais em que questiona a ausência de um intérprete PCD no papel principal da montagem, baseada no livro autobiográfico do escritor e jornalista. O espetáculo tem estreia marcada para 19 de setembro, no Teatro Frei Caneca, em São Paulo.
"Eu realmente estou muito cansado. Eu já não aguento mais me deparar com retrocesso que a cada dia que passa parece que continua a mesma coisa", afirma Tato no vídeo.
O ator questiona argumentos como falta de verba ou de profissionais com deficiência disponíveis no mercado e diz conhecer diversos artistas PCDs que buscam oportunidades. "Os testes não chegam, os convites não aparecem", declarou.
A publicação, que ultrapassou 100 mil visualizações, recebeu apoio de outros artistas e influenciadores.
Ivan Baron, que possui deficiência motora causada por uma paralisia cerebral, chamou a situação de "cripface", termo utilizado para criticar a escalação de pessoas sem deficiência para interpretar personagens com deficiência, em uma comparação com o conceito de blackface.
ATORES E DIRETOR RESPONDEM
Procurado pela reportagem, Marcelo Rubens Paiva afirmou que "é justa a luta dos atores com deficiência", mas "não faz sentido nesse caso". Segundo ele, seria preciso mostrar momentos da vida dele de antes. "Eu era um rapaz que surfava, tocava violão, e o livro [que serviu de inspiração ao musical] mostra justamente a luta para eu me reencontrar no meu novo corpo. O antes e o depois de um mesmo homem."
Hugo Bonemer respondeu diretamente ao comentário de Tato e afirmou que levou a crítica a sério. "O Marcelo, no espetáculo, é vivido antes e depois do acidente que o deixou tetraplégico, e essa construção também é parte do que estamos discutindo internamente", explicou. O ator disse ainda ter procurado Tato por mensagem privada para conversar sobre o assunto.
Diretor e idealizador do musical, Gustavo Barchilon foi mais um a se manifestar. Ele reforça o discurso de que a estrutura da peça acompanha Marcelo em diferentes períodos de sua vida por meio de flashbacks, incluindo a fase anterior ao acidente que o deixou tetraplégico.
Por isso, argumenta, a montagem não poderia ter o protagonista interpretado exclusivamente por uma pessoa cadeirante. Barchilon destacou ainda a presença de Luciano, ator com deficiência que interpreta um médico no espetáculo.
"Ele interpreta um médico, desconstruindo esse tipo de estereótipo e ocupando o palco simplesmente como o grande ator que é", afirmou. A resposta, porém, não encerrou a discussão levantada por Tato sobre a representatividade de artistas PCDs em papéis que envolvem deficiência.
No vídeo, o próprio Tato contesta a escalação de Luciano para esse papel. "Mas por que o ator com deficiência não está compondo o lugar que deveria ser dele por direito?", questionou.
