Iniciativa permite paciente comparar dados de hospitais como mortalidade e infecção antes de internação
A partir desta quarta (19), um grupo de 52 hospitais privados de excelência passa a tornar públicos dez indicadores assistenciais, entre eles taxas de infecção e mortalidade hospitalar, até então tratados como sensíveis ou confidenciais pela maioria das instituições.
A falta de transparência empurra a escolha de hospital para critérios subjetivos, como indicação médica, conforto das instalações ou marketing institucional. A iniciativa é da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados), que reúne um total de 200 instituições.
Entre os que aderiram de forma voluntária ao programa estão Einstein Hospital Israelita, Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz, A.C.Camargo, unidades da Rede D'Or e Santas Casas de Porto Alegre e Maceió. Juntos, somam 14.971 leitos, menos da metade do total de leitos dos associados à Anahp (33.288).
O Sistema de Indicadores Hospitalares da Anahp existe há duas décadas e mede mais de 200 procedimentos e atividades. Segundo Antonio Britto, diretor-executivo da entidade, a ideia de tornar parte desses dados pública sempre esteve no horizonte, mas esbarrava em problemas metodológicos que impediam a comparação.
A taxa de ocupação de UTI é um exemplo: alguns hospitais mediam às 9h, outros às 14h, outros no fim do turno. A resposta foi um processo de padronização, com fichas técnicas detalhando o que cada hospital deveria registrar, seguido, há dois anos, pela introdução de auditoria externa independente, hoje feita pela QGA.
Vinte hospitais já passaram por essa auditoria, segundo Britto. A etapa seguinte foi reduzir os mais de 200 indicadores a dez, considerados os que mais falam sobre o resultado entregue ao paciente: mortalidade institucional, infecção hospitalar, quedas, lesão por pressão, tempo porta-balão em infarto (período entre a chegada do paciente e o momento da abertura da artéria obstruída por meio de angioplastia primária), letalidade de sepse, reinternação em 30 dias, taxa de cesárea, tempo de internação e infecção em sítio cirúrgico.
A partir desta quarta, qualquer pessoa poderá acessar o site da Anahp (anahp.com.br), escolher um hospital da lista e visualizar seus resultados nos dez indicadores, atualizados mensalmente, no ritmo em que cada hospital os envia.
Britto faz questão de sublinhar que a iniciativa não vai gerar ranking nem sistema de "estrelas" comparando hospitais entre si. "Um hospital não se compara nunca com o outro. A maternidade não é igual a um pronto-socorro", diz.
Um hospital oncológico, por natureza, tende a ter tempo médio de permanência maior que um oftalmológico. O objetivo, reforça, não é eleger o "melhor", mas dar à população parâmetros para questionar o próprio médico sobre determinado resultado. Ainda assim, a comparação numérica passa a ser tecnicamente possível, já que os dados seguem a mesma metodologia auditada.
Questionado se há risco de a iniciativa divulgar apenas bons resultados, Britto é enfático: "Não tem risco de seleção. É o resultado real". Cada instituição publica o próprio dado sem acesso prévio ao desempenho das demais, o que, segundo ele, reforça a credibilidade do sistema, somada à auditoria externa.
Os 52 hospitais representam uma fração pequena do universo hospitalar brasileiro. O setor privado reúne 4.015 instituições com fins lucrativos e filantrópicas, e o público, 3.463 hospitais administrados por governos municipais, estaduais e federal.
Britto reconhece a limitação, mas aposta no peso simbólico da adesão dos hospitais mais reconhecidos do país como fator de indução: "Isso vai servir de estímulo para quem não tá na lista inicial." O sistema segue aberto a novas adesões, incluindo Santas Casas e hospitais públicos, movimento já em curso por meio de parcerias com o Hospital das Clínicas de São Paulo, outros hospitais estaduais paulistas e o Ministério da Saúde.
Sobre o papel da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e de outros reguladores, Britto elogia o esforço já iniciado pela agência, mas o classifica como "muito, muito limitado" diante da complexidade do processo.
Em fevereiro, a ANS tornou público um painel com indicadores de qualidade de hospitais que atendem planos de saúde, mas apenas 48 deles haviam enviado dados completos. Em nota, a agência afirmou que desde a criação do programa, em 2022, há um crescimento contínuo da adesão dos hospitais elegíveis.
Os dados dos indicadores são reportados pelos próprios hospitais, com base em metodologia disponibilizada pela ANS e compete a eles a responsabilidade pela veracidade das informações. Não há um auditoria externa validando os dados, como no caso da Anahp.
Para Britto, a experiência da associação pode servir de modelo, mas a entidade não pretende ter exclusividade: "Nós precisamos implantar a cultura de indicadores no Brasil". A meta é ampliar progressivamente o número de indicadores públicos além dos dez iniciais. Mas não há intenção de disponibilizar o conjunto completo de mais de 200 indicadores hoje coletados, já que muitos têm pouco significado direto para o paciente.
Um desafio ainda em aberto é a publicização de indicadores econômico-financeiros e de custos hospitalares — as chamadas "caixas pretas" das contas, que surpreendem pacientes com cobranças de honorários e itens não cobertos pelo plano só na hora da alta.
Segundo ele, um obstáculo técnico é a heterogeneidade na forma como diferentes redes organizam seus dados financeiros: algumas por hospital individual, outras de forma consolidada por grupo, o que ainda impede uma comparação nesse eixo.
A iniciativa chega num momento em que a ausência de indicadores públicos e comparáveis é apontada por especialistas como falha estrutural do sistema de saúde brasileiro, tanto no SUS (Sistema Único de Saúde) quanto na saúde suplementar.
Um estudo de 2016 estimou que 302,6 mil vidas são perdidas por ano no país por eventos adversos evitáveis dentro de hospitais, com custo médio anual de R$ 10,9 bilhões. Uma década depois, o país segue sem uma política nacional de transparência que obrigue hospitais a coletar e publicar indicadores mínimos de forma padronizada e auditável.
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Lista de hospitais no país que aderiram ao programa:
BP Mirante (SP) Casa de Saúde São José (RJ) Check Up Hospital (AM) Complexo de Saúde São João de Deus (MG) Complexo Hospitalar de Niterói (RJ) Einstein Hospital Israelita (SP) Hospital Albert Sabin (SP) Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP) Hospital Alvorada Moema (SP) Hospital Bom Samaritano (PR) Hospital BP (SP) HCor – Hospital do Coração (SP) Hospital Divina (RS) Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima – Unimed Curitiba (PR) Hospital e Maternidade São Marcos (PR) Hospital Edmundo Vasconcelos (SP) Hospital Evangélico de Sorocaba (SP) Hospital Itamed (PR) Hospital Márcio Cunha (MG) Hospital Mater Dei Betim-Contagem (MG) Hospital Mater Dei Santa Clara (MG) Hospital Mater Dei Santa Genoveva (MG) Hospital Mater Dei Santo Agostinho (MG) Hospital Nipo-Brasileiro (SP) Hospital Nove de Julho (SP) Hospital Primavera - Unidade Jardins (SE) Hospital PUC-Campinas (SP) Hospital Santa Catarina Paulista (SP) Hospital Santa Helena (GO) Hospital Santa Izabel (BA) Hospital Santa Marta (DF) Hospital Santa Rita (ES) Hospital São Camilo Pompeia (SP) Hospital São Lucas Copacabana (RJ) Hospital São Vicente Curitiba (PR) Hospital São Vicente de Paulo (RS) Hospital Sepaco (SP) Hospital Sírio-Libanês (SP) Hospital Tacchini Bento Gonçalves (RS) Hospital Unimed Blumenau (SC) Hospital Vita Batel (PR) Real Hospital Português de Beneficência em Pernambuco (PE) Rede D´Or - Hospital CopaStar (RJ) Rede D´Or - Hospital Memorial São José (PE) Rede D´Or - Hospital Nossa Senhora das Neves (PB) Rede D´Or - Hospital São Luiz – Itaim (SP) Rede D´Or - Hospital Vila Nova Star (SP) Santa Casa de Misericórdia de Maceió (AL) Santa Casa de Misericórdia de Passos (MG) Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (RS) Vitória Apart Hospital (ES
