IA prejudica aprendizado na escola e piora desempenho nas provas, diz estudo
O uso de inteligência artificial prejudica o aprendizado e reduz o desempenho em exames escolares de estudantes entre 12 e 18 anos. A conclusão é de um dos primeiros estudos a acompanhar a adoção espontânea de ferramentas de IA por adolescentes e seu uso para resolver lições de casa.
O artigo "The Generative AI Learning Penalty" (a perda de aprendizado causada pela IA generativa, em português) apresenta as conclusões da investigação dos padrões de uso da IA e do desempenho em provas de mais de 25 mil alunos chineses, matriculados naquilo que no Brasil seriam os anos finais do ensino fundamental e do ensino médio.
O texto foi divulgado pelo CEPR, sigla em inglês para Centro de Pesquisa de Política Econômica, que reúne alguns dos principais economistas europeus, mas ainda não foi publicado em revista científica.
O economista sueco David Strömberg, que há anos trabalha com dados chineses e tem diversos artigos publicados nas melhores revistas de economia, e os pesquisadores Victor Lei e Yanhui Wu, da Universidade de Hong Kong, descobriram que o uso de inteligência artificial para ajudar nas tarefas de casa acarreta um desempenho 20% pior nas provas que os estudantes chineses devem fazer a cada mês.
Os estudantes tiveram a sua produção escolar perscrutada por 30 meses, entre setembro de 2022 e junho de 2025. Nesse período, modelos da DeepSeek e da ByteDance, com capacidades semelhantes às de ferramentas ocidentais, foram lançados e rapidamente adotados.
Em média, quem passou a delegar o trabalho de casa para a IA obteve, seis meses depois de começar a usar a ferramenta, notas um quinto menores em um conjunto de nove disciplinas (que incluem línguas, matemática, ciências exatas e humanas), avaliadas mensalmente, em comparação com alunos que nunca chegaram a utilizar a inteligência artificial para resolver tarefas escolares.
Os resultados foram piores em disciplinas de humanas, com queda de 27% em relação ao grupo que não usou IA; seguidas por exatas, com 22% de queda; e línguas, com desempenho 17% pior em inglês, e 9% pior em chinês.
Os economistas também avaliaram o desempenho dos alunos nas duas grandes provas de acesso a novas etapas da trajetória escolar, na China: Zhongkao, que é o exame de entrada no ensino médio, prestado ao final do 9º ano, e o Gaokao, de seleção para entrar na universidade, ao final do 12º ano.
No exame de acesso ao ensino médio, a nota dos alunos que passaram a usar IA pelo menos dois anos antes da prova foi em média 24% menor do que a de estudantes que não pediram ajuda à ferramenta. Para quem tinha começado a delegar tarefas para a inteligência artificial em data mais próxima do exame, o efeito foi menor.
No equivalente ao vestibular deles, o desempenho de quem passou a terceirizar o dever de casa pelo menos dois anos antes foi 18% pior.
O desempenho dos alunos nas provas foi obtido pelos economistas em dados administrativos das autoridades locais. A data em que cada estudante passa a usar a ferramenta de IA foi declarada em um questionário enviado pelas escolas, no qual os professores pediam aos alunos que checassem o registro de adesão ao serviço que utilizavam, antes de preencher o formulário.
Os pesquisadores argumentam que a autodeclaração é confiável porque há coincidência entre as datas reportadas e os efeitos constatados nas notas das lições de casa e das provas mensais.
Strömberg e seus coautores observaram uma relação entre delegar para o computador o trabalho diário, maçante, de fazer exercícios e a queda no desempenho nas provas. Aliás, eles fazem a ressalva de que não é o uso em si da IA que prejudica a aprendizagem, mas o modo como as ferramentas de inteligência artificial são mobilizadas.
As ferramentas podem funcionar como professores particulares -e, nesse caso, elas ajudam os alunos a aprender- ou como aquele colega mais estudioso para quem você pede socorro com o dever de casa, ou simplesmente terceiriza a lição, quem sabe em troca de algum pagamento.
No estudo, os autores constataram uma melhora expressiva na avaliação do dever de casa de quem passou a pedir a ajuda da IA. Depois de seis meses de uso da ferramenta, as notas desse grupo subiam 18% em relação às de quem não recorria à inteligência artificial.
O tempo de conclusão de cada tarefa feita em casa também caiu. Em média, quando ninguém ainda usava a IA, as lições demandavam pouco mais de uma hora dos estudantes. Como os exercícios são feitos em um aplicativo, a escola tem o registro do horário em que os alunos abrem o arquivo com a lição e de quando o remetem para avaliação.
No grupo que passou a usar a ferramenta, os exercícios de casa semanais consumiram cerca de 30% a menos de tempo, passando de 64 minutos, em média, para 45 minutos. Os alunos que nunca adotaram a IA seguiram precisando, em média, de pouco mais de uma hora para fazer a lição.
Até aí, aparentemente, tudo bem. O problema é que há grande correlação entre a diminuição no tempo dedicado ao dever de casa, bem como o aumento da nota recebida por ele (indícios claros de uso da IA), de um lado, e um pior desempenho nas provas mensais sem consulta, de outro.
Esse resultado quebra a relação tradicionalmente constatada entre nota alta na lição e bom desempenho na prova. Para quem passa a utilizar IA, a relação se inverte: quanto maior a nota no dever de casa, menor a nota na prova.
"Nossa descoberta de que o desempenho nas provas deteriora gradualmente com o tempo [de uso da ferramenta] sugere que terceirizar a lição de casa pode prejudicar não apenas a retenção do material estudado naquele momento, mas também a capacidade de absorção de conteúdos no futuro."
Em entrevista, Strömberg disse que os efeitos deletérios da IA são preocupantes inclusive porque a capacidade que se perde, nesse processo, não pode ser suprida ou substituída pela própria inteligência artificial, mais tarde.
"Para tarefas complexas, a IA funciona como um assistente, enquanto o ser humano assume o papel de um gerente que decide quais tarefas delegar, que avalia se as respostas estão corretas e que dirige o processo como um todo. Isso exige um alto grau de expertise", afirmou Strömberg. Parte dessa capacidade, que deveria estar sendo construída na escola, pode estar sendo perdida.
O pesquisador deu um exemplo: "Se você não sabe programar, você não consegue delegar tarefas de programação para a IA de forma eficaz ou avaliar se o código produzido está correto".
Strömberg afirma que é preciso encontrar maneiras de convencer os estudantes de que eles sairão prejudicados caso deleguem todo trabalho de casa -ou seja, uma boa parte do processo de aprendizagem- para a IA.
De alguma maneira, a própria realização de provas ao final do ensino fundamental e do ensino médio, como acontece na China, pode servir de incentivo ao estudo, impondo limites à terceirização de exercícios.
"Mesmo assim, verificamos que os alunos usam IA e, consequentemente, aprendem menos. Uma razão pode ser que os estudantes não percebem o tamanho dos efeitos negativos, porque a perda de conhecimento ocorre de forma gradual, enquanto as consequências plenas só se manifestam dois anos depois."
"Outra razão pode ser a de que os adolescentes são imediatistas e valorizam mais a economia de tempo instantânea de delegar a lição de casa à IA do que a possibilidade de uma colocação melhor na universidade daqui a vários anos."
