Efeito rebote do endividamento recorde pode levar à ressaca da economia em 2027
O nível recorde do endividamento das famílias pode levar a uma perda de ritmo significativa do consumo em 2027, em um efeito rebote que, para economistas, embute o risco de uma desaceleração mais forte que o esperado da atividade econômica.
O cenário, dizem eles, é considerado particularmente arriscado porque muitos brasileiros estão endividados em linhas de crédito caras, o que tende a intensificar a ressaca que tradicionalmente se segue a períodos de expansão acelerada do crédito como o atual.
Análises recentes do BTG Pactual e do FGV Ibre sobre o tema citam um estudo de 2020 do Banco Central que mostra que, quando as famílias se endividam em excesso, há uma queda acentuada do consumo no futuro como consequência.
O trabalho, intitulado "Endividamento das Famílias e Recessão Econômica no Brasil", investigou o ciclo de crédito que precedeu a recessão de 2014 a 2016. quanto maiores eram os juros das linhas, maior era o impacto negativo posterior sobre o consumo.
Hoje, modalidades com as taxas mais altas, como cartão parcelado e rotativo, cheque especial e crédito pessoal sem consignação, já representam quase 25% da carteira das pessoas físicas, segundo dados do BC, contra 20% no pré-pandemia.
Boa parte dessas linhas é absorvida por brasileiros de renda mais baixa. O estudo do FGV Ibre aponta que, em outubro do ano passado, 39,3% das contratações do cartão rotativo se concentravam naqueles que ganham até dois salários mínimos.
"Houve uma mudança de comportamento. Nos últimos anos, a baixa renda foi absorvendo cada vez mais modalidades de crédito sem garantia", diz Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV Ibre, economista da consultoria BRCG e uma das autoras do trabalho.
Ela destaca que o endividamento em relação à renda está em 49,8%, segundo os últimos dados do BC, e que o valor médio da dívida inadimplida do Serasa atingiu R$ 6.300, quase o dobro do rendimento real médio divulgado pelo IBGE.
"A situação financeira das famílias hoje é pior que a que precedeu a crise de 2014 a 2016", avalia.
Para Hennings, os atuais níveis de emprego, renda e consumo são insustentáveis. "Isso não dura para sempre. É como se a economia fosse um balão que vai enchendo, e que pode ser esvaziado devagar ou estourar", disse.
O relatório do BTG Pactual, que também cita o trabalho da autoridade monetária, estima que o avanço do consumo deve se reduzir de uma alta de 2% em 2026 a uma expansão bem mais tímida de 0,8% em 2027. Caso o ritmo de expansão da renda se estagne, a projeção é de uma queda de 0,4%.
"Uma possível desaceleração desses impulsos, combinada com juros elevados por um período prolongado e choques recentes de oferta, pode transformar o elevado endividamento em uma restrição efetiva ao consumo", dizem os economistas do banco.
A perspectiva de atividade enfraquecida já começa a ser assimilada pelo mercado. Nas estimativas captadas pelo Boletim Focus, do Banco Central, a projeção para a expansão do PIB do próximo ano vem passando por revisões sucessivas para baixo, recuando de 1,80% no início do ano para 1,69% no levantamento mais recente.
Na avaliação de Daniel Leichsenring, sócio e CIO da divisão de Wealth Management da gestora WHG, a dúvida é sobre a natureza da desaceleração que se aproxima.
"Se os bancos apertam condições, reduzem as concessões e aumentam taxas para se proteger do risco, a gente entra em um ciclo de crédito mais pronunciado e a ameaça é de uma trajetória bem mais fraca do que a atual", diz. "Se isso vai ser suficiente para levar o consumo para o negativo, o futuro vai dizer. Mas há um risco relevante."
Ele destaca que as famílias estão muito endividadas no melhor momento da renda familiar da história do país.
"O que acontecerá quando deixar de ser o melhor momento? É necessário bastante cautela nos próximos trimestres, e é importante monitorar qual será a reação do governo se isso acontecer. Se quiser gastar ainda mais, vai agudizar o problema."
Um relatório do banco UBS mostra que as medidas para estimular o crédito e a renda chegavam a R$ 189 bilhões até o primeiro semestre deste ano. Apenas o novo consignado privado, por exemplo, totalizava R$ 22,9 bilhões.
Para Marcos Lisboa, economista, ex-presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica, a situação financeira das famílias é uma das razões pelas quais não está descartada a chance de uma recessão nos próximos anos.
"As perspectivas para 2027 e 2028 não são boas, porque temos uma série de problemas estruturais e distorções na economia que vêm sendo adicionadas desde o governo Temer. Se o governo não enfrentar os problemas fiscais, podemos ter recessão", disse.
Ele diz que o cenário é preocupante pelo baixo nível de poupança das famílias brasileiras e pelo fato de a economia do Brasil ser extremamente volátil. "De 1980 a 2019, o Brasil teve 26 anos de crescimento bom, mas 14 anos de crise. E nossas crises costumam ser bem mais severas do que as dos demais países", afirma.
A secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Débora Freire, rejeita qualquer comparação do momento atual com a crise dos anos 2010, e lembra que a taxa de juros está em queda, diferentemente do período que precedeu a recessão.
"São cenários completamente diferentes. Hoje o momento é de endividamento elevado, mas as perspectivas são de queda nos juros", afirma. "Lá atrás estávamos com a projeção em alta para juros e inflação e as contas públicas estavam bastante deterioradas, ao contrário de hoje, em que temos o arcabouço fiscal, cujos limites estão sendo cumpridos."
Para ela, o endividamento preocupa mas está sendo combatido por meio do programa de renegociação Desenrola, com foco na troca de dívidas mais caras pelas mais baratas. "Com o programa, permitimos que as pessoas possam repactuar as dívidas. Precisamos melhorar a qualidade do endividamento."
Para Hennings, do FGV Ibre, o Desenrola acaba permitindo que mais brasileiros se endividem ao saírem da negativação dos birôs de crédito. "O Desenrola é o processo pelo qual as famílias conseguem sair do Serasa para voltar a consumir. Não me parece muito sustentável", disse.
