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Marca Bahia Notícias

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Dan Stulbach foge de clichês de vilão em novela

Por Ana Cora Lima | Folhapress

Foto: Manoella Mello/Globo

Se você já sentiu vontade de entrar na tela só para dar uma bronca em Ademir, Dan Stulbach, 47, considera sua missão cumprida. Depois de cinco anos longe das novelas, o ator voltou como o advogado inescrupuloso de "Quem Ama Cuida" e comemora justamente o fato de o público detestar o personagem.
 

"Eu fico feliz das pessoas se indignarem com ele, porque isso mostra que há um espírito ético nas pessoas", diz, aos risos, em bate-papo com a Folha de S.Paulo. "Se eu estivesse sendo amado nas ruas, estava tudo errado."
 

Dan diz ser abordado o tempo todo por telespectadores revoltados. A bronca, no entanto, sempre vem acompanhada de elogios. "Estou sendo muito xingado e muito elogiado. Está ótimo", brinca. "Outro dia peguei um Uber. O motorista ficou meia hora em silêncio e, quando eu estava saindo, falou: 'Pô, você está mal na novela, hein?'. Entrei no hotel e o porteiro disse: 'Continua mal, pelo amor de Deus'."
 

O ator acredita que a irritação do público passa pelas escolhas feitas na construção do personagem. Em vez de apostar em um vilão explosivo e cheio de trejeitos, preferiu seguir pelo caminho oposto.
 

"Eu queria que as pessoas ficassem incomodadas porque estavam gostando de mim em algum momento", explica. "Queria que ele fosse engraçado, brincalhão, amoroso, afetuoso. Pessoas detestáveis também podem ser cativantes. Isso incomoda mais quem assiste."
 

Segundo Dan, o trabalho foi construído em parceria com a direção para evitar caricaturas e investir em pequenas reações, silêncios e ambiguidades. "Acho que a gente investiu na inteligência do espectador", comenta. "Não entregar tudo sobre o que ele está pensando tem causado ainda mais raiva e angústia."
 

Essa ausência de culpa também virou regra para interpretar Ademir. O ator mergulhou no universo jurídico, assistiu a documentários, filmes e séries sobre advogados e criou uma espécie de manual interno para o personagem." Eu quero fazer uma cena sem culpa. O Ademir não tem culpa de nada do que faz e sempre acha que vai dar um jeito."
 

Entre as inspirações está Roy Marcus Cohn (1927–1986) advogado que mentorou Donald Trump. "Tem alguns lemas que ficam na minha cabeça: não reconheça seu erro, não sinta culpa, ande em linha reta e sempre ache que vai dar um jeito."
 

Dan garante que Ademir não se enxerga como um vilão, mesmo usando de recursos pouco escusos na profissão. "Ele conhece um sistema que considera corrupto e joga conforme essas regras", avalia. "Se ele não jogar, acha que vai perder. Então ele não se reconhece como errado."
 

Sobre os próximos capítulos, o ator faz mistério. Nem mesmo a descoberta da traição envolvendo a mulher de Ademir, Dora (interpretada por Mariana Ximenes), e o sobrinho do personagem, André (Henrique Barreira), ele quis saber. "Eu não leio os capítulos na frente. Vou até onde minha cena chega", afirma. "Gosto de descobrir a história conforme ela acontece."
 

Ele também destaca a relação de Ademir com o filho, Pedro (Chay Suede), como uma das camadas mais interessantes do personagem. Segundo o ator, a dupla sempre procurou mostrar que o afeto existia, mesmo nos momentos de maior conflito.
 

"O Chay e eu sempre falávamos: 'A gente vai brigar, mas a gente se ama'. Eu queria criar contrapontos. Pessoas assim também têm qualidades, têm afeto. Isso deixa tudo menos óbvio."
 

Uma das cenas favoritas de Dan é quando Pedro diz que tem vergonha do pai. O advogado chega a se emocionar, mas logo recupera o controle. "Ele sente o baque do filho falar isso. Mas o ego dele não deixa pensar que aquilo possa ser verdade. Ele já acha: 'Coitado desse garoto, ele não sabe o que está dizendo'. O Ademir não admite culpa. Acho que é isso que tem funcionado."
 

Quando o assunto é o mistério sobre a morte de Artur Brandão (Antonio Fagundes), Dan diz acreditar que existe uma possibilidade de Ademir ser o assassino. Questionado se foi um dos oito atores que gravaram versões da cena, ele pergunta para a assessora de imprensa da Globo que acompanha a entrevista.
 

"Não pode", diz ela, sem tirar o bom humor do ator. "Olha... é a pergunta que eu mais ouço todos os dias", diz Dan, rindo. "Na verdade, são duas: quem matou o Artur Brandão e o que vai ser do Corinthians."
 

O convite para viver Ademir veio diretamente dos autores, Walcyr Carrasco e Claudia Souto, e da direção da novela. O ator conta que aceitou praticamente na hora, atraído principalmente pela equipe. "Hoje, para mim, é fundamental saber com quem vou trabalhar. O texto, a direção da Amora [Mautner], os autores escrevendo enquanto acompanham o que você faz... Isso é um privilégio."
 

O retorno às novelas também fez o ator redescobrir a força da televisão aberta, mesmo na era do streaming. "As coisas mudaram, claro, mas continua muito intenso. Só a televisão consegue falar com todo mundo ao mesmo tempo", diz. "Você vai para qualquer cidade e as pessoas estão acompanhando a novela."
 

No fim das contas, Dan parece se divertir tanto com esse retorno quanto o público. E, se depender da quantidade de broncas que recebe diariamente, Ademir ainda tem muita lenha para queimar. "Eu queria voltar para a novela fazendo um trabalho que tivesse esse reconhecimento. Saber que pessoas críticas estão percebendo esse cuidado é muito gratificante."

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