PSOL tem mudança geracional na Câmara com saída de Erundina e Ivan Valente e tenta voltar ao Senado
Nos 29 anos em que atuou como deputado federal, Ivan Valente diz nunca ter discursado da tribuna do lado direito da Câmara. O costume de discursar no lado do plenário correspondente ao seu campo ideológico, conta, é comum em congressistas radicais --sejam de direita, que preferem o lado oposto, sejam de esquerda, como ele. "Claro, me considero radical", responde à Folha. "Radical é atacar as questões pela raiz."
Fundador do PT, deixou o partido em 2005, por insatisfações que tiveram início após a carta de Lula para acalmar o empresariado e o mercado financeiro em 2002. Desde então, Valente, 79, é filiado ao Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, do qual também é um dos criadores.
Hoje, a sigla tem apenas 13 das 513 cadeiras na Câmara, número que precisa manter nas eleições deste ano para não ser engolida pela cláusula de barreira. Para partidos que não atingirem determinado percentual de votos, a norma restringe o acesso ao dinheiro do fundo partidário, além da propaganda gratuita em rádio e televisão.
Considerando-se também os parlamentares da federação com a Rede, a quantidade de assentos sobe para 16.
"Em 2022, atingimos mais do que o dobro do percentual estabelecido pela cláusula", afirma o ex-congressista, que deixou o gabinete em Brasília recentemente e o devolveu à ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede), de quem é suplente. Agora, ele pretende atuar nos bastidores. "A gente tem a expectativa de que é possível manter o partido independente", acrescenta.
No escritório de Valente em São Paulo, uma casa de dois andares a 30 minutos do centro da capital paulista, há bustos de revolucionários da esquerda, como os ex-presidentes Mao Tse-Tung, da China, e o russo Vladimir Lenin.
Caixas de papelão reúnem adesivos redondos críticos ao atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de apoio à Palestina, e, próximas ao cômodo onde trabalha, estão aquelas com o rosto do herdeiro político do deputado: Juliano Medeiros, ex-presidente nacional do PSOL e quem chefia a federação com a Rede.
Ativo nas redes sociais e sorridente, Medeiros, 42, faz parte da estratégia do partido para as eleições deste ano de conquistar o eleitorado jovem. Para isso, há também na mira o deputado estadual Guilherme Cortez, 28, que vai tentar uma vaga na Câmara.
Em São Paulo, hoje as cadeiras de deputados federais do PSOL estão ocupadas por Erika Hilton, 33, Sonia Guajajara, 53, e Sâmia Bomfim, 36, além de uma quarta, de Luiza Erundina, a decana do grupo.
Com 91 anos, a ex-prefeita de São Paulo não adotou um herdeiro para a vaga, como é o caso de Ivan Valente e Medeiros. Ela mantém uma agenda ocupada entre a capital paulista, Brasília e a sua pré-candidatura para a Assembleia Legislativa de São Paulo, onde quer disputar uma vaga como deputada estadual.
Outro investimento político, mais ambicioso, é o nome da ex-deputada federal Manuela D'Ávila, 44, na região Sul do país. Ela deixou o PC do B após mais de duas décadas para se filiar ao PSOL em dezembro de 2025, tornando-se a principal aposta interna da sigla para o Senado. A Casa Legislativa não conta com um membro do partido desde 2015, quando o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) o deixou para se filiar à Rede.
O Senado protagonizou a derrota histórica do governo Lula (PT) ao recusar a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, ao STF (Supremo Tribunal Federal). A Casa, responsável por decidir indicações ao Supremo e ao Banco Central, hoje é tomada principalmente por partidos de direita, como o PL.
O Senado é uma prioridade para o PSOL em 2026, segundo a presidente nacional do partido, Paula Coradi.
"Temos a impressão de que a eleição para o Senado vai ser muito estratégica. Vai ser onde a extrema direita vai centrar sua força política", disse à Folha. "Temos investido politicamente muito nessas candidaturas. Apoio político incondicional e articulações estão sendo feitas para que a gente possa avançar, principalmente no Senado."
Sem citar nomes, Coradi afirma que há a "construção de figuras públicas", ou seja, desconhecidos que concorrem para construir uma imagem na cabeça dos eleitores aos poucos, mas também diz enxergar uma disputa real para o Senado. Além de Manuela D'Ávila pelo Rio Grande do Sul, a região conta com o vereador de Florianópolis, Afrânio Boppré, como pré-candidato ao Senado por Santa Catarina.
"Não é do perfil do PSOL ter sucesso no Senado", declara Mateus de Albuquerque, cientista político, professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).
"Existe uma parcela da sociedade que é psolista, mas ela é minoritária. Então, o PSOL consegue em eleições proporcionais, como Câmara, Assembleias Legislativas. Mas o PSOL tem dificuldade em formar maiorias sociais, como é o caso do Senado", explica.
Para Albuquerque, a aposta em Manuela D'Ávila é "interessante" parte pelo capital que ela já herda anterior ao PSOL e parte porque a ex-PC do B, na sua militância pessoal dos últimos anos, tem conseguido articular com setores mais amplos da sociedade, principalmente o público feminino de classe média que não são eleitores psolistas.
A Câmara e a cláusula de barreira, contudo, continuam no radar. "Temos uma expectativa de aumentar a nossa bancada", prossegue a presdente do PSOL, que projeta conseguir 18 assentos no Congresso em 2026.
A expectativa inclui, segundo a dirigente partidária, manter as cadeiras de deputados em São Paulo. O estado elege 70 deputados no total, a maior fatia da Câmara.
