Fóssil revela forma muito primitiva de anfíbio que habitou o Nordeste há 280 milhões de anos
Nove mandíbulas fossilizadas, descobertas por paleontólogos na divisa entre o Maranhão e o Piauí, revelaram que um membro do grupo mais antigo de vertebrados com quatro patas habitou o interior nordestino há cerca de 280 milhões de anos, no período Permiano.
Mesmo tendo vivido em época tão remota, o bicho, que possivelmente media uns dois metros de comprimento, já seria considerado muito primitivo, porque compartilha diversas características com animais quase 100 milhões de anos mais velhos, os primeiros cuja linhagem se separou da dos peixes.
A espécie recebeu o nome científico Tanyka amnicola, numa mistura de guarani e latim (na língua indígena, a palavra tañykã significa "mandíbula" ou "queixo", enquanto a segunda parte do nome designa um animal que vive dentro de um rio ou perto dele). A descrição oficial do bicho foi publicada no começo deste mês no periódico especializado Proceedings B por uma equipe internacional que inclui o paleontólogo Juan Carlos Cisneros, da UFPI (Universidade Federal do Piauí).
Tecnicamente, o T. amnicola é o que os pesquisadores chamam de tetrápode basal, sendo que "tetrápodes" são todos os vertebrados cuja linhagem desenvolveu quatro membros -ou seja, todos menos os peixes. Do ponto de vista moderno, seria natural pensar no bicho como uma forma muito primitiva de anfíbio, embora os grupos de anfíbios que conhecemos hoje e incluem os sapos, salamandras e cobras-cegas, sejam muito diferentes e tenham evoluído bem depois.
Cisneros explicou à Folha que, embora seja um pouco difícil estimar o tamanho do bicho inteiro quando em vida, considerando que a equipe não encontrou um esqueleto articulado, faz sentido imaginar que ele tivesse mais ou menos o porte das atuais salamandras-gigantes-da-china, que alcançam 50 quilos e 1,8 metro de comprimento. "Pode ser que haja material do pós-crânio também [ou seja, do corpo abaixo da cabeça] e nós ainda não o tenhamos identificado."
"Sabemos que é um animal bastante basal, o que nos levou a pedir ao artista Vitor Silva, responsável pela reconstrução, que o retratasse com cinco dedos nas patas da frente, e não quatro, como nos anfíbios atuais. Ainda assim é uma liberdade artística", pondera ele.
Por conservar características dos primeiros tetrápodes, o animal poderia ser visto como uma relíquia evolutiva numa época em que grupos mais inovadores de grandes anfíbios e diversos répteis já estavam colonizando os ambientes terrestres. Mas só o conjunto de mandíbulas -achadas nos municípios de Pastos Bons, Timon (ambos no Maranhão) e Nazária (PI)- já é suficiente para contrariar essa impressão de "preguiça evolutiva".
Isso porque a bocarra da criatura é simplesmente muito bizarra e tem traços completamente inesperados, diz Cisneros, sem meias palavras.
"No começo, chegamos a achar que as mandíbulas tinham essa aparência por causa de algum problema tafonômico [da maneira como o fóssil foi preservado]. Pareciam amassadas, torcidas, deformadas. Mas depois fomos identificando várias do mesmo animal, algumas delas muito bem preservadas." A esquisitice se manteve.
Ocorre que os dentes do Tanyka, em especial os grandes, de formato cônico, são muito lateralizados -ou seja, literalmente voltados mais para o lado, em vez de para cima, como seria de esperar se eles trabalhassem em conjunto com os dentes do maxilar, os quais, espera-se, estariam voltados para baixo. O mesmo vale, em menor medida, para os dentículos (de porte relativamente diminuto) da mandíbula.
Uma possibilidade é que esse modelo estranhíssimo de dentição se explique, em parte, porque o bicho passaria o tempo todo dentro d'água e se alimentasse por meio de um processo de sucção do alimento, tal como muitos peixes e como o Tiktaalik, antiquíssima espécie canadense que seria um precursor dos tetrápodes. "Ainda assim, a dentição dos dois é muito diferente uma da outra", ressalta Cisneros.
É aí que entraria a outra peça do quebra-cabeças proposta pelo pesquisador da UFPI e seus colegas. Eles propõem que, para funcionar direito, a dentição lateralizada da mandíbula trabalharia em conjunto com uma bateria de dentes no céu da boca, algo que se vê em algumas espécies atuais de répteis e peixes e também em animais extintos, como o réptil Edaphosaurus.
"Não eram dentes bons para agarrar ou cortar, mas sim para raspar, ajudando a processar algum alimento não muito nutritivo, como algas ou talvez pequenos invertebrados. A mandíbula provavelmente se movimentava em seu eixo, girando um pouco de dentro para fora", diz o pesquisador. "Estaria efetivamente mastigando a comida."
Se a hipótese estiver correta, o fóssil é uma prova de que ao menos alguns tetrápodes basais desse período não estavam simplesmente parados no tempo, esperando serem finalmente suplantados pelas novas linhagens de anfíbios e répteis.
Em vez disso, argumentam os paleontólogos, o Tanyka estaria seguindo caminhos evolutivos inovadores e surpreendentes, conforme indica sua morfologia inusitada. Isso significa, segundo os pesquisadores, que é preciso repensar a ideia de que o grupo do bicho era simplesmente antiquado demais para sobreviver diante da chegada dos novos concorrentes e investigar novos cenários que poderiam explicar seu desaparecimento.
