EUA decidem deportar última fugitiva do 8/1 no país; defesa recorre
Um juiz de imigração dos Estados Unidos decidiu deportar a última brasileira fugitiva dos ataques aos três Poderes no Brasil que se arriscou a entrar ilegalmente na América do Norte e foi presa pela gestão de Donald Trump.
Decisão foi tomada por juiz administrativo de imigração em El Paso, no Texas. "O juiz decidiu pela deportação", informa documento do Ministério da Justiça norte-americano de 9 de fevereiro.
Defesa entrou com recurso. Representantes da comerciante de Limeira (SP) Michely Paiva Alves recorreram ao Tribunal de Apelação de Imigração do ministério, o BIA (Board of Immigration Appeals).
Novo julgamento está previsto para 11 de março. É o dia em que Michelly completará 39 anos. A brasileira está presa numa unidade da Polícia de Imigração e Alfândega (ICE) em El Paso, no Texas, há mais de um ano.
No Brasil, Michely é ré por cinco crimes ligados aos atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023. Ela é acusada de financiar um ônibus que levou 30 pessoas de Limeira para o QG do Exército em Brasília. Do quartel, os militantes foram à Praça dos Três Poderes, onde houve invasões e quebra-quebra para, segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República, tentar um golpe de Estado contra o presidente recém-empossado Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O UOL procurou familiares e advogados de Michely por telefone e email, sem retorno. Em sua defesa, os advogados afirmaram ao STF, inicialmente, que a denúncia deveria ser rejeitada.
Não há provas de que a acusada depredou o Congresso Nacional, bem como participa de movimentos criminosos que a acusam da prática dos crimes denunciados pela Procuradoria-Geral da República.Mariana Cristina Peres, advogada de Michely, em março de 2023
Outras três mulheres processadas pelo 8 de Janeiro já foram deportadas dos EUA. Elas são Cristiane Silva, Rosana Maciel e Raquel Lopes —as últimas duas seguem presas no Brasil.
Outros fugitivos não estão presos. Existem outros fugitivos dos ataques de 8 de Janeiro ou investigados por crimes contra a democracia vivendo nos EUA, mas eles não foram presos por imigração ilegal ao contrário das quatro mulheres. Dentre eles, estão o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), os empresários Esdras Santos e Flávia Cordeiro Soares e o blogueiro Allan dos Santos.
Não há informações se o recurso de Michely ao BIA a impede de ser deportada antes de 11 de março. No Brasil, funcionários que recebem deportados imaginavam que ela embarcaria no final de fevereiro. No entanto, outra fugitiva que estava nos EUA, Raquel Lopes, só foi mandada de volta ao Brasil 20 dias após perder o recurso no BIA.
O julgamento do BIA é última instância em âmbito administrativo. Mas, em tese, Michely ainda poderia recorrer ao Poder Judiciário norte-americano, no tribunal do "Quinto Circuito" federal, em Nova Orleans. Não há garantias, porém, de que a deportação fique suspensa enquanto um eventual terceiro julgamento não aconteça.
PF DESCOBRIU PLANO, E RÉ TENTOU ACORDO
Michely é uma das 1.399 pessoas responsabilizadas ou investigadas pelos ataques dos 8 de Janeiro. Vinte e nove são consideradas como parte dos núcleos de liderança, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em 2024, Michely estava em Limeira, usando tornozeleira eletrônica, enquanto seu processo não era julgado. Em julho daquele ano, a Polícia Federal concluiu investigações sobre ela e descobriu que a comerciante "foi responsável pela contratação do ônibus placa NTQ-8D39 da empresa Transmega Transporte e Turismo Eireli". O veículo saiu de de Limeira em 6 de janeiro para Brasília. Com a informação, a Procuradoria-Geral da República aumentou de dois para cinco crimes a denúncia que já havia contra ela.
O dono do ônibus disse à polícia que o frete custou R$ 12 mil. Michely pagou R$ 6.500 por meio de transferências bancárias. Outras duas pessoas bancaram o restante.
O veículo levou 30 passageiros, incluindo a própria Michely. Em depoimento, a comerciante admitiu a contratação e disse que chamou pessoas que estavam em frente à unidade do Exército em Limeira. Ela disse que recolheu contribuições dos militantes para custear a viagem.
Mesmo de tornozeleira, em agosto de 2024, Michely se registrou como candidata a vereadora pelo Podemos em Limeira. Mas, com a descoberta da PF, a defesa se apressou e pediu um acordo de não persecução penal com o Ministério Público em 18 de agosto; 40% dos réus dos ataques (ou 564 pessoas) fizeram acordos para apenas pagarem multas, fazerem cursos e serviços comunitários em troca de uma solução mais rápida
Michely não conseguiu o acordo. Com a informação de que ela havia ajudado a financiar os ataques, a PGR reformou a denúncia e a acusou por mais três crimes, como golpe de Estado e dano ao patrimônio tombado. O Ministério Público listou o dono do ônibus como testemunha no processo.
ACUADA POR DESCOBERTA, COMERCIANTE FUGIU
Michely quebrou sua tornozeleira oito dias depois da nova denúncia. Em 28 de agosto, fugiu para a Argentina, seguindo o movimento de dezenas de militantes bolsonaristas. A Justiça Eleitoral rejeitou sua candidatura a vereadora por não conseguir localizá-la.
Na Argentina, os militantes bolsonaristas fugitivos passaram a ser presos por ordem do Judiciário local. Por isso, em novembro de 2024, Michely e um grupo de investigados fizeram nova fuga, desta vez a Peru, Colômbia e México.
Um dia após a posse de Trump, Michelly, Cristiane e Rosana foram presas nos EUA por imigração ilegal. Elas haviam cruzado a fronteira mexicana com o Texas. Cristiane e Rosana ficaram num conjunto de celas separado do de Michelly. A mais de 1.000 quilômetros dali, em Raymondville, no Texas, a brasileira Raquel Lopes ficou presa em outra unidade da ICE, onde estava detida desde 12 de janeiro.
Outros fugitivos dos ataques de 8 de Janeiro que chegaram ao México permanecem lá. Entre eles, Alethea Verusca e Romário Garcia. Um deles, Apolo Carvalho, enganou o Itamaraty, fez nova fuga e chegou à Espanha. Dezenas ainda estão foragidos na Argentina e no Chile, segundo apurou o UOL.
