Recordista em Olimpíadas de Inverno, piloto do trenó brasileiro busca 'grande resultado' em Milão
Grande sucesso dos cinemas na década de 1990, o filme de comédia "Jamaica abaixo de zero", de Jon Turteltaub, narra de forma bem-humorada a inusitada estreia da equipe de bobsled do país caribenho nas Olimpíadas de Inverno de 1988 em Calgary, no Canadá.
Natural do pequeno município de Camamu, na Bahia, Edson Bindillati, 46, teve por meio da película o seu primeiro contato com o esporte praticado em pistas congeladas de concreto, em que os tripulantes podem atingir uma velocidade de até 150 km/h a bordo do trenó, tendo apenas o capacete como proteção.
Em 2026, na Olimpíada de Inverno de Milão e Cortina, que acontece entre 6 e 22 de fevereiro, na Itália, Bindilatti completará sua sexta participação olímpica defendendo as cores do Brasil no bobsled.
O piloto se tornará o recordista isolado do país em participações olímpicas de inverno, ultrapassando Jaqueline Mourão, que competiu em cinco edições diferentes no esqui cross-country e no biatlo.
Assim como o protagonista do filme de 1993, Bindilatti —que foi adotado e se mudou criança para Santo André, no Grande ABC— começou sua trajetória no mundo dos esportes no atletismo. Ele chegou a ser campeão brasileiro e sul-americano de decatlo.
O desempenho nas pistas não foi o suficiente para que ele pudesse realizar o sonho de participar de uma edição dos Jogos Olímpicos de Verão, mas despertou a atenção da CBDG (Confederação Brasileira de Desportos no Gelo), que o convidou a conhecer o bobsled em meados dos anos 2000.
"A maioria dos atletas do bobsled vem do atletismo pela velocidade, força e explosão muscular", explicou Bindilatti à reportagem.
Após assistir ao filme sobre a equipe jamaicana para ter uma primeira noção a respeito do que se tratava o esporte, o atleta baiano teve de superar o medo de altura para encarar a subida íngreme que leva os atletas até o topo da pista e fazer a sua primeira descida experimental a bordo do trenó.
"Começamos a descer aquela ladeira cheia de curva, com a cabeça batendo de um lado para o outro. Lembro que na hora cheguei a pensar: ‘papai do céu, o que é que eu estou fazendo aqui?’ [risos]. Mas, depois que passou a linha de chegada, falei: ‘até que não foi tão ruim assim. Dá para ir de novo?’", recordou Bindilatti.
Rapidamente ele tomou gosto pela modalidade, passando a realizar incontáveis descidas a bordo do trenó em alta velocidade. Até que, em 2002, pôde finalmente realizar o sonho de disputar uma edição dos Jogos, justamente na estreia do Brasil no bobsled em uma edição da Olimpíada de Inverno, em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Na ocasião, o Brasil terminou em 27º, dentre 33 países na disputa.
Bindilatti esteve novamente presente a bordo do trenó verde-amarelo nas Olimpíadas de Inverno de Turim-2006, Sochi-2014, PyeongChang-2018 e Pequim-2022. Na última edição, na China, a equipe brasileira conseguiu a sua melhor participação, quando se classificou às finais, terminando na 20ª colocação.
"Mesmo competindo [na China] com um trenó alugado da Coreia do Sul e as lâminas emprestadas do time americano, tivemos um bom resultado. Mostramos que, além da parte física, que já vínhamos melhorando, o que nos faltava era material", afirmou Bindilatti.
Após a disputa na capital chinesa, o piloto do trenó brasileiro chegou a anunciar sua aposentadoria das pistas geladas, mas voltou atrás pouco depois, no início de 2024, atendendo aos apelos da CBDG. A confederação temia que, sem poder contar com seu atleta mais experiente, o país talvez não conseguisse se classificar para os Jogos na Itália.
Tendo pela primeira vez à sua disposição um trenó mais moderno, produzido por uma fabricante da Letônia orçado em cerca de R$ 350 mil, o time brasileiro alcançou o 13º lugar no Campeonato Mundial de 2025, entre 24 equipes participantes —a melhor colocação do Brasil na história da competição—, e, no início de janeiro, assegurou a vaga olímpica, após ficar com a quarta colocação na Copa América.
Além de Bindilatti à frente, o trenó brasileiro na Itália será composto por Davidson de Souza, Luís Bacca, Rafael Souza e Gustavo Ferreira (reserva).
"Vamos tentar fazer um grande resultado nesses Jogos Olímpicos. Esse é o objetivo. Eu chego na minha melhor forma, tanto física como mental", afirmou Bindilatti, que preferiu não projetar qualquer tipo de resultado para o Brasil na competição.
"Acredito que vamos chegar com uma preparação muito boa. Agora, resultado a gente não sabe. Todos os times estão bem preparados. São 28 equipes para três medalhas", acrescentou o piloto baiano.
Ele disse ainda que planeja seguir atuante na modalidade mesmo após sua aposentadoria como atleta profissional, passando às novas gerações o conhecimento que adquiriu ao longo de mais de duas décadas dentro do trenó.
"Seria muita maldade me afastar de uma modalidade esportiva que a gente lutou tanto para que chegasse no nível que está hoje."
Bindilatti cita com carinho um projeto em andamento para formar novos talentos para o bobsled brasileiro: uma pista para treinar a largada que começou a ser construída em um terreno cedido pela prefeitura de São Caetano do Sul em meados de 2020, com recursos arrecadados entre os próprios atletas.
O piloto segue agora em busca de apoio para conseguir o restante do financiamento —ele estima que faltam cerca de R$ 700 mil— para que as obras possam ser concluídas. "Hoje a maioria dos atletas do bobsled vêm do atletismo, do rugby também, que são modalidades explosivas, de velocidade. Mas queremos começar a iniciação e fazer um trabalho social e de desenvolvimento desde a base."
