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Desmatamento cai 9% na amazônia e no cerrado em 2025

Por Jéssica Maes | Folhapress

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Após iniciar 2026 com o pé esquerdo, com um vazamento durante a perfuração da Petrobras na Foz do Amazonas, o governo Lula (PT) tem uma boa notícia na área ambiental: o desmatamento caiu nos dois maiores biomas do país no ano passado.
 

Em 2025, a área sob alerta de desmatamento na amazônia foi de 3.817 km², redução de 8,7% na comparação com 2024. No cerrado, o índice foi de 5.369 km², queda de 9% em relação ao ano anterior.
 

O índice na amazônia em 2025 foi o menor em oito anos, enquanto no cerrado foi a taxa mais baixa desde 2021.
 

Os dados são do sistema Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e foram divulgados nesta sexta-feira (9).
 

O Deter mapeia e emite alertas de desmate com o objetivo de orientar ações do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e outros órgãos de fiscalização. Os resultados representam um alerta precoce, mas não são o dado fechado do desmatamento.
 

Os números oficiais são de outro sistema do Inpe, o Prodes, mais preciso e divulgado anualmente.
 

Este foi o segundo ano consecutivo em que houve queda no desmate em ambas as regiões. Ainda assim, o estrago foi grande: somando os dois biomas, o total de vegetação perdida no ano passado foi de 9.186 km² —o equivalente a seis vezes a área da cidade de São Paulo.
 

O ritmo de queda nas áreas sob alerta de desmate na floresta amazônica vem desacelerando. Partindo de patamares altíssimos -de mais de 10 mil km² em 2022- deixados pela gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2023 o índice caiu pela metade. Já em 2024, a redução foi de 19%.
 

Procurado, o MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima) afirma, em nota, que a desaceleração observada em parte de 2024 está associada à seca extrema, que elevou os índices de degradação florestal, especialmente em razão dos incêndios florestais. "Ainda assim, a tendência de queda do desmatamento foi mantida", diz a pasta.
 

"A partir de agosto de 2025, início de um novo ciclo de monitoramento, os alertas do Deter ficaram abaixo dos registrados no mesmo período do ano anterior, indicando a continuidade da redução. Esse resultado reflete a ampliação contínua, pelo governo do Brasil, das ações de prevenção e combate ao desmatamento e aos incêndios florestais, com atuação interministerial e de órgãos federais".
 

Mato Grosso respondeu por quase metade da área desmatada na amazônia, 1.497 km². Terceiro maior índice da série histórica, iniciada em 2015, o valor representa um aumento de quase 60% em relação a 2024.
 

Pará (979 km²) e Amazonas (721 km²) também se destacam na região. Apesar do patamar alto, porém, ambos tiveram melhoras nos números, com redução de 36% e 9% do desmatamento, respectivamente.
 

"Desde o início da gestão da ministra Marina Silva, vemos o governo federal focando fortemente em ações de fiscalização, que se reflete na queda do desmatamento. Mas sabemos, por experiências anteriores, que chega uma hora que a gente não consegue diminuir mais o desmatamento [apenas com essa estratégia]", avalia Erika Berenguer, cientista sênior na Universidade de Oxford.
 

"Como fazer a chave virar? O que está faltando? E eu acho que a gente ainda não tem, enquanto sociedade, portanto, enquanto governo federal, uma resposta para isso", diz ela.
 

Na nota, o MMA também destaca um conjunto de ações adotadas pelo governo federal para alcançar a meta de zerar o desmatamento até 2030.
 

Entre elas, estão a retomada e aceleração dos investimentos do Fundo Amazônia, com R$ 3,6 bilhões aplicados nos últimos três anos; o aumento da verba para fiscalização ambiental na amazônia; e a implementação do programa União com Municípios, que prevê R$ 785 milhões em investimentos para o desenvolvimento sustentável de 81 municípios amazônicos.
 

No cerrado, Maranhão (1.190 km²), Tocantins (1.133 km²) e Piauí (1.005 km²) lideram o ranking do desmate, com um cenário parecido entre si. Em seguida vem a Bahia, com 703 km² de vegetação perdida.
 

Os quatro estados compõem a região chamada de Matopiba, que abriga, simultaneamente, uma fronteira do agronegócio e a porção mais preservada do bioma.
 

Pelo terceiro ano seguido, a área desmatada no cerrado (que ocupa aproximadamente 24% do território brasileiro) é maior do que na amazônia (que cobre cerca de metade do Brasil).
 

O MMA ressalta que as dinâmicas do desmatamento nas duas regiões são distintas.
 

Ao contrário da amazônia, no cerrado o desmate ocorre principalmente em propriedades privadas. Um dos motivos para isso é que, segundo o Código Florestal, no bioma é possível desmatar até 80% da área deste tipo de imóvel (ou até 65% em alguns locais, quando estão em regiões de transição para a floresta amazônica). Na amazônia, o limite é de 20%.
 

"Nesse contexto, o governo do Brasil intensificou o diálogo com os estados do Matopiba, promovendo cooperação técnica, aprimoramento dos processos de autorização de desmatamento e fortalecimento do monitoramento e da fiscalização, com reflexos já perceptíveis em reduções e maior rigor nos controles estaduais", afirma a pasta, em nota.
 

Para o geógrafo Yuri Salmona, diretor executivo do Instituto Cerrados, a redução registrada no cerrado se deve à retomada da fiscalização pelo governo federal e da articulação junto aos estados.
 

"Não é uma bala de prata. É um conjunto de fatores que consistentemente e aos poucos foram trazendo resultado, por isso vemos queda em dois anos consecutivos", analisa.
 

Ele lista como medidas importantes a adoção de mais requisitos para que proprietários recebam a autorização para desmate por parte dos governos locais e também mais restrição da parte dos bancos para liberação de crédito, em caso de áreas desmatadas ilegalmente.
 

No entanto, o especialista ressalta o fato de os índices de destruição do cerrado continuarem em milhares de quilômetros quadrados ao ano, mesmo que mais da metade da área do bioma já tenha sido desmatada.
 

"Havíamos previsto que aos poucos o desmatamento do cerrado iria reduzir, tendo em vista que teria menos área propensa a ser desmatada disponível. As principais áreas a serem desmatadas já foram desmatadas, teriam só áreas marginais. Mas não, os números ainda são muito altos", diz o pesquisador.
 

Para ele, "temos que ser muito cautelosos ao comemorar uma redução de 10% [no desmate] de um ano para o outro, sendo que estávamos num patamar muito alto".
 

"Ainda tem muito desmatamento que está migrando da amazônia para o cerrado. O governo federal tem muito mais capacidade de intervenção na área da amazônia", afirma Salmona. Grande parte da floresta amazônica é composta por áreas federais (tanto regiões protegidas como não destinadas), enquanto no cerrado a maior parte da área é privada.

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