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Entrevistas

Entrevista

Paulo Barbosa diz que camadas mais pobres também podem aderir à dermatologia estética - 15/06/2009

Por Lucas Esteves

Fotos: Tiago Melo/Bahia Notícias

Por Lucas Esteves

Bahia Notícias: Salvador é a terceira maior cidade do Brasil, mas a demanda dela por tratamentos dermato-estéticos é proporcional à representatividade dela?

Paulo Barbosa - Não. O pessoal do sul, do sudeste, especialmente do sudeste, se cuida muito mais. A mulher carioca, paulista, o homem também. É bem uma coisa de clima e outros detalhes. O carioca, por exemplo, hoje em dia é um povo do mundo. O sul do país, Paraná. Porto Alegre,. Então você mede isso pela quantidade de clínicas voltadas para esse tipo de coisa e a quantidade de farmácias de manipulação, que tratam desse segmento dermato-cosméticos, digamos assim, que tem muito mais lá do que aqui. E a própria quantidade de profissionais que atua nessa área. Então, o que tem crescido aqui pra gente é, por conta destas pontes-aéreas hoje em dia, esta possibilidade de estar em vários lugares rapidamente. Você tem voos diretos da Europa. Você tem um monte de voos da Alemanha, Itália. Eu atendo muito português, espanhol e italiano aqui. Existe uma demanda regular de pessoas que vem pro Iberostar, pro Eco Resort, pro Vila Galé, que fazem pacotes “bate-volta” de uma semana e passam por aqui para fazer os procedimentos. O custo é menor, a qualidade é maior. Então, um vai falando para o outro. Tem muito paciente que faz isso.

BN: O senhor atua então não só na Bahia como fora dela e também fora do Brasil?

Paulo Barbosa – Além de atender muita gente de fora, de outros países, também dou aula fora. Europa, Estados Unidos. Se você juntar congressos em que se dá aula, simpósios nacionais e internacionais, dá uma média de 16 por ano. A demanda do paciente aqui fica um pouco prejudicada. Este ano praticamente de 15 em 15 dias eu dou cursos fora da Bahia. Este ano já fui para o Chile, para a Califórnia, deveria ter ido agora para o México, mas o congresso ibero-americano teve um problema com essa história de gripe, mas agora estamos indo para Berlim. Tem aulas para dar também em Minas Gerais de cirurgia dermatológica e por aí vai. Não para.

BN: A fila, então, deve estar imensa.

Paulo Barbosa - É porque a gente não atende convênio, não é? Então as coisas que nós fazemos aqui são pontuais. O paciente vem, faz um procedimento. Às vezes ele enrola, então quando chega no fim da tarde, umas 17h, 18h entope de gente que sai do trabalho. Normalmente, eu trabalho até 20, 20h30.

BN: Na Bahia, qual o principal tipo de gente que procura este tratamento?

Paulo Barbosa - É mais a mulher. A mulher, hoje em dia, a maioria trabalha. Ela se “libertou”. Mas tem muita dondoca, muita madame. O que é incrível é que você vê cada vez mais as faixas etárias mais jovens também fazendo e as da melhor idade. As mulheres depois de 70 anos que antigamente não faziam nada, e hoje se preocupam. Está no terceiro tempo da vida. Eu já vi fazer botox, laser em mulher com mais de 70 anos, muitas. Eu tive caso de chegar aqui uma mulher de 80 anos de cadeira de rodas e se dar de presente de aniversário um botox para o almoço de aniversário dela. Era um encontro de família e ela queria estar bem.

BN: Existe algum tipo de restrição para adolescentes, como é o caso de cirurgia plástica? As aplicações envolvem uso de seringas. Não seria perigoso para o corpo em desenvolvimento?

Paulo Barbosa – Não, não tem, porque hoje em dia o botox se usa até para pacientes que tem dificuldades de preambulação. Usa para crianças que tem aquele “pé eqüino”. A medicina corretiva faz uso desse tipo de produto. Você tem que ter bom senso. Eu não vou chegar para uma menina de 18, 20 anos, toda esticadinha e ficar aplicando produto, mesmo que ela peça. Mas existem máquinas e tratamentos para corpo e flacidez que são disponíveis. Aí fora estão passando aqueles tratamentos do tipo Vela Shape, comse fossem lasers. Há, também, outros que eliminam um pouco de gordura. Há outros para pacientes que fizeram cirurgia bariátrica, redução de peso. Depilação definitiva, que se faz hoje em dia sem dor, tratamento para estria, que é feito muito com laser. São lasers fracionados, como a gente fala. Ele atua não só em ruga como em estria, marcas e acne.

BN: Algum desses tratamentos pode ser considerado definitivo ou eles precisam sempre de renovação de tempos em tempos?

Paulo Barbosa – Um exemplo é um homem que tenha um excesso de pelos nas costas. Tem pacientes assim que vêm aqui e fazem costas, pelos do braços, barba. Mas definitivo é uma coisa que você não pode nem dizer, porque quando você diz que uma depilação dessas é definitiva, mas daqui a dez anos aparece um pelo e o paciente volta e reclama, porque eu disse que era definitivo. Então eu não digo definitivo, eu digo “prolongado”. Mas o pelo diminui, afina. Então dá para um resultado bacana.

BN: E o botox? Ele é realmente a salvação que promete e que se diz que é? O que é tão legal no botox para tanta gente procurar por ele.

Paulo Barbosa – O grande lance é que as pessoas chegam no escritório com um monte de rugas e, depois das aplicações, deixam aqui a clínica com um rosto com muito mais naturalidade. É como se ganhasse alguns anos de idade. Em pessoas de mais de 60 anos, por exemplo, dá um grande realce no rosto, especialmente nos lados dos olhos. Tudo isso é aplicação de botox. O cara que sua, fica com um “pizza” inconveniente debaixo do braço. Dá umas injeçõezinhas, vai embora e fica oito meses sem suar. Pára de suar, desodorante e tudo. Porque a glândula sudorípara trabalha excretando suor. Este excesso é uma hiperatividade da glândula. Então ela sua demais. O botox atua relaxando o músculo, paralisando praticamente. Ela faz isso em qualquer região que você colocar. Então quando o músculo é paralisado, relaxado em excesso, ele não tem nenhuma utilidade e fica lá parado. Se a glândula não excreta, não sai o suor. E aí isto dura durante algum tempo. Depois daquele tempo, vai voltando aos poucos, ele começa a suar de novo. No caso do rosto, que é o que muita gente faz de procedimento, e especialmente nos cantos dos olhos, há um músculo chamado orbicular. Ele é uma bola, e então eu injeto o botox no músculo com umas agulhas fininhas. O paciente pode até trabalhar logo depois. O que acontece? Quando esta toxina começa a atuar dentro do músculo, ele relaxa o músculo. Há a camada de músculo e a camada de pele. Quando se pisca o olho, as duas se contraem juntas. Se eu relaxo o músculo, ele estica a pele em cima e a pele fica parada, não contrai mais, e então some, ou reduz bastante aquele pé-de-galinha que incomoda tanto. Com o passar dos meses o efeito vai passando e ele vai voltando à atividade.
 

BN: E qual o limite disso? É bem comum se ver pessoas com rostos deformados por causa de excesso de aplicação de botox.

Paulo Barbosa – Aí é mal-feito. É o caso da mulher de Lula (Dona Marisa), Marta Suplicy, essas coisas horrorosas que se vê por aí. Ana Maria Braga. Sylvester Stallone, Amaury Júnior. Isto  foi culpa deles e dos médicos que fizeram. Então, o que está acontecendo também é isso: todo mundo quer fazer estética. Toma dois meses de curso e diz que faz “medicina estética”. Você vê proctologista aplicando botox, urologista. Aí você vai vendo as barbaridades que encontra pelas ruas. Um monte de gente andando e parecem uns peixes de aquário. Imagine um peixe olhando prá você no aquário? É assim que elas são. Você tem que escolher um bom dermatologista, fazer a coisa com cuidado. Tem que ser uma pessoa com diferencial e também recomendado. Não é só dizer “eu faço isso, eu faço aquilo” e as pessoas irem lá e saírem fazendo. A gente faz isso há quantos anos? Pesquisa, estuda e trabalha com isso para que, para chegar alguém despreparado e fazer o trabalho mal-feito? Você é jornalista, mas agora eu vou chegar e vou te entrevistar dizendo que eu sou jornalista. Não pode, não é? É isto que está acontecendo. É oftalmologista e todo tipo de médico que não tem nada a ver fazendo uns cursos aí em qualquer esquina de “medicina estética”. E dizem que fazem e acontecem. Para fazer isso você tem que procurar um bom cirurgião plástico, um bom dermatologista, ver referências, ver se tem título de especialista na área, para poder se submeter. Porque uma vez feita a besteira fica difícil se reverter. Injetar as coisas a sua cozinheira injeta. Ela não recheia lombo quando vai fazer a comida? Agora quando dá problema, quem é que vai arrumar? É isso o que acontece. O pessoal está perdendo o bom-senso. Recebi uma ligação dia desses de uma pessoa reclamando dos preços e dizendo que não-sei-quem tem uma clínica de estética. Então disse para ela “vá lá fazer, então. Não faça aqui, faça lá” (risos). “E os riscos, quais são?”. “O risco é a senhora ter de voltar aqui. Então vai gastar duas vezes. Se der para eu refazer” (risos). Esta é a realidade.

BN: Um médico que se forma agora e quiser fazer medicina estética, o que é preciso?

Paulo Barbosa – Medicina estética? Isto é uma aberração. É Uma generalização. Não é reconhecido. Não é reconhecido pelo MEC. Se você montar uma faculdade de Jornalismo em Camaçari e der entrada no MEC, o MEC acata o pedido  dá entrada no protocolo para analisar o curso. Aí você sai dizendo que o curso é aprovado pelo MEC, porque o MEC aprovou o seu protocolo, mas não chancelou. É isso o que acontece. Como demora anos, porque processos são assim no Brasil, o que acontece? As pessoas então já dizem logo “aprovado pelo MEC”. Mas veja se o Conselho Regional de Medicina aprovou? Se a Associação Brasileira de Medicina aprovou? Não, nada disso é aprovado. Mas o pessoal vai fazer. Se você quer fazer uma cirurgia, procure um cirurgião plástico. Quer fazer um tratamento de pele, de laser, de botox? Procure um dermatologista. Não tem que ir atrás de medicina estética, pois você pode estar sendo atendido por um urologista. Qual é o feedback que esse cara tem? Qual o follow-up que ele tem? Qual é a experiência dele? Então por isto é que você está vendo por aí aberrações. E você pode ver: 90% das pessoas não tem título para isto. Por isso que se cansa de ver mulheres que fazem cirurgia plástica, por exemplo, e morrem logo depois. Então o método, que é bom, termina queimado por maus profissionais, mal preparados. Se você quiser melhorar as manchas e rugas na sua pele, quem é o médico de pele? É o dermatologista, tem que ir no médico especializado. Por que vai no genérico? Vou até sugerir isto para a Sociedade de Dermatologia. “Não use o genérico, exija o verdadeiro”, pronto (risos).

BN: Mais cedo, o senhor disse que o tratamento era muito procurado por madames, pessoas que tem dinheiro. É possível que as pessoas de classes e rendas mais baixas tenham acesso a este tipo de tratamento?

Paulo Barbosa – Sim. Há vários tratamentos que são altamente acessíveis. Hoje em dia você divide tudo. Atualmente, o profissional de renda baixa é quem está mantendo o país. Então, tem tudo, você divide, tem como parcelar. Atualmente no Brasil você tem a medicina do Canadá e a de Bangladesh. Infelizmente esta é a nossa realidade. Mas mesmo dentro desta “Medicina do Canadá” você tem produtos diferenciados, acessíveis. Cada paciente deve procurar saber o que mais o incomoda e partir para tratar. Mas a gente faz muito aqui tratamentos que eu posso dizer que são revolucionários para face, flacidez, rejuvenescimento, estimular crescimento de pelo ou depilação definitiva e também estrias. Há uma gama enorme de tratamentos hoje em dia. Não-invasivos ou pouco invasivos. E como dizem os americanos, com um curto “downtime”. Você faz aquele procedimento e, no outro dia, já pode voltar às suas atividades normais.

BN: E a crise atrapalhou o mercado de dermatologia estética em Salvador e no Brasil?

Paulo Barbosa – Acho o que atrapalha mais é a mídia feita em cima dela. Aqui foi o que eu percebi e eu acho que nós estamos em um país que se paga tanto imposto, somos tão roubados pelo governo, tão sobretaxado que quando eles reduzem um pouco essas taxas o país chega até a ter uma demanda de crescimento grande. Você vê que agora os impostos é que diminuíram, então o custo diminuiu e o pessoal busca mais as coisas. Diria que de novembro a janeiro, quando houve aquele pico, aquela campanha forte de crise na mídia, houve uma retração natural. O paciente diz “ôpa, deixa eu ver o que vai acontecer primeiro”. Então o marido segura, pensa em esperar um pouco, porque é uma cosia que não é de urgência, mas depois tudo voltou ao normal. Porque a vaidade é uma coisa muito forte. Você pode ver uma mendiga debaixo de uma ponte, mas se notar, lá tem também um pedacinho de toco de batom. É impressionante.

BN: O que falta para os homens aderirem mais aos tratamentos de dermatologia?

Paulo Barbosa – Os homens ás vezes impulsionados pelas mulheres tem procurado mais os consultórios. Diariamente você vê cada vez mais homens em busca dos consultórios dermatológicos. Antigamente, eles vinham mais ressabiados, mais cabreiros, acusando um problema e, se encontrasse algum amigo ou conhecido mentia e dizia que estava com alguma alergia, mas hoje em dia já dizem abertamente. Porque a mulher quer que o cara esteja bem. E a mídia enfoca a cosia da aparência, está muito em voga isso. E como dizem que a pele é o espelho da alma, todo mundo está se cuidando.

BN: As celebridades baianas aderem muito a este tipo de processo?

Paulo Barbosa - Eles vêm. E sempre tem mais gente vindo no período de verão, apesar de a melhor época para você cuidar disso seja exatamente o inverno. Porque você tira o prejuízo do verão, com as manchas e marcas, e prepara a pele para o próximo verão. Mas sempre nessa época pré-carnaval, um ou dois meses antes, eles procuram mais, embora procurem mais sempre o eixo Rio-São Paulo. Até também para não se expor tanto, mas eles procuram. Eles fazem muito laser, botox. Para tirar mancha e rejuvenescer a pele. Atualmente, o foco anda sendo não agredir a pele. Mas nem adianta que eu não vou dizer quem são (risos).

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