César Borges: "Aprendi a fazer política sem guardar rancor de ninguém" - 19/05/2009

"Aprendi a fazer política sem guardar rancor de ninguém"
Por Daniel Pinto
Bahia Notícias - O Sr. foi um dos senadores baianos que não assinou o requerimento para instalação da CPI da Petrobras. Até que ponto a CPI pode arranhar a imagem e atrapalhar o desempenho da Petrobras? Há alguma motivação política por trás desta iniciativa?
César Borges - Sempre há motivação política em qualquer Comissão Parlamentar de Inquérito. Eu, particularmente, acredito que a CPI da Petrobras era desnecessária. O depoimento do presidente Sérgio Gabrielli e de outros diretores e funcionários seria suficiente para esclarecer todas as dúvidas. Uma investigação desta natureza é sempre desgastante. Mas, é preciso entender que a Petrobras é um patrimônio nacional e a gestão dessa empresa precisa ser feita de forma transparente e responsável.
BN - Será que a Comissão vai estender os trabalhos até a Bahia e, caso isso aconteça, Rosemberg Pinto será convocado?
CB - Sem dúvida alguma! O patrocínio de festas juninas pela Petrobras promoveu grande discussão. Acredito que essa não seja uma prerrogativa da Petrobras. Uma empresa desse porte não precisa fazer esse tipo de acordo, ainda mais usar uma ONG para transferir recursos para Prefeituras. A alegação de que DEM e outros partidos de oposição foram contemplados não é justificável. É nítido que havia intenção de cooptar os prefeitos e vereadores para a base aliada do governo do Estado. Aliás, o governo Wagner é especialista nisso. O assessor da presidência Rosemberg Pinto foi pivô desse escândalo e deverá ser convocado.
BN - O PR pretende compor o colegiado?
CB - Isso ainda não foi discutido internamente. Depende dos próximos acontecimentos.
BN - Senador, vamos falar de política baiana. Como será possível manter a unidade do PR em 2010, uma vez que membros do partido mantêm posições antagônicas?
CB - Olha Daniel, quando fui convidado a assumir a presidência do PR na Bahia encontrei deputados que se mantinham na oposição e outros que tinham aproximação com o governo. Desde o início decidimos manter uma posição de independência. É uma atitude muito reducionista pensar política de forma maniqueísta. Não dá para restringir tudo a governo e oposição. Na vida pública é imprescindível ter coerência e honestidade. A unidade não significa necessariamente unanimidade. Seria utopia. Entretanto, o PR segue discutindo para criar um projeto consolidado e que tenha a contribuição de todos.
BN - Apesar da independência política do PR, particularmente o Sr. se sente traído pelos deputados Gilberto Brito e Pedro Alcântara?
CB - Aprendi a fazer política sem guardar rancor de ninguém. Posso até ter posições contrárias a qualquer um deles, mas não levo isso para o lado pessoal. Sempre tive um carinho especial pelos dois. Eles trabalharam comigo quando fui governador e, inclusive, Alcântara foi líder do governo na Assembléia Legislativa. Lembro que segurei ele quando havia uma grande campanha para que ele fosse afastado. Gilberto Brito foi do meu gabinete de vice-governador, depois nomeei prefeito interventor em Jandaíra, foi chefe de gabinete na Secretaria de Segurança Pública e ainda ajudei na eleição. Acho que traído não seria o termo adequado. Acho que as benesses do governo são maiores que as minhas (risos). Toda atitude traz conseqüências que só o tempo poderá mostrar.

"Mas, um conselheiro não é um agente político. Para desempenhar sua função ele precisa de isenção partidária. Não posso acreditar nessa teoria. No entanto, é sabido que Otto não se afastou completamente da política"
BN - O Sr. tentou impedir que Pedro Alcântara fosse indicado líder do PR na Assembléia?
CB - De forma alguma! Tenho a última palavra no PR, mas quem vence é a maioria. Ele foi escolhido pela maioria dos deputados e não cabia a mim questionar essa decisão.
BN - O Sr. acha que o conselheiro Otto Alencar está por trás disso? Dizem que ele exerce certa influência na, digamos assim, banda “B” do PR?
CB - Não acredito nisso da forma que você coloca. Eu trabalhei com Otto Alencar, fomos secretários do governo de Antonio Carlos Magalhães, depois ele foi meu vice no governo do Estado. Mas, um conselheiro não é um agente político. Para desempenhar sua função ele precisa de isenção partidária. Não posso acreditar nessa teoria. No entanto, é sabido que Otto não se afastou completamente da política.
BN - Verdade que a Codeba foi ofertada ao PR?
CB - Nada disso foi apresentado ao diretório regional nem a Executiva nacional do partido. Portanto, não há legitimidade. Há muito que o PR não discute questões desta natureza com o governo Wagner. Além do mais, a Codeba é um órgão técnico, que deve ter uma condução técnica, não servir para barganha política. Se a Codeba está sendo utilizada para cooptar este ou aquele dirigente, é de se lamentar.
BN - Senador, apesar do PR ter a intenção de compor chapa na disputa majoritária em 2010, os nomes do governador Jaques Wagner, do ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) e do ex-governador Paulo Souto surgem como os principais na disputa pelo Palácio de Ondina. Com qual dos três o PR tem mais afinidade?
CB - Você tem razão quando diz que o PR estará na chapa majoritária. Não sabemos se para governador, vice, senador, mas certamente estaremos presentes. Nunca tive nenhuma grande divergência com o ex-governador Paulo Souto e também pertencemos por muito tempo ao mesmo grupo político. Pode ser um caminho. Mas, apesar de nunca ter dito nenhuma aproximação com o ministro Geddel, estivemos juntos no segundo turno em Salvador. A partir daí surgiu uma abertura e temos conversado bastante sobre o cenário baiano.
BN - Há quem diga que o PR foi o “fiel da balança” em Salvador, apesar do bispo Marinho ter fechado com Pinheiro.
CB - Pois é. Mas, foi aberto o canal de comunicação com o PMDB. Pode ser uma alternativa viável. Por enquanto, não há nada definido. Ainda é cedo, mas as conversações estão se desenrolando. Vamos aguardar.

"Ele (Aécio Neves) tem mais de 70% de aprovação entre bom e ótimo, bem diferente do governador do nosso Estado"
BN - E na esfera federal, onde o PR pertence à base, há acordo para apoio automático ao candidato do PT?
CB -Não, nada disso! Tanto o acordo do PR quanto o do PMDB é restrito a sustentação do governo e, não, a apoio para a eleição. Acredito que a situação nos Estado será definida após o estabelecimento de alianças nacionais.
BN - O Sr. esteve recentemente em Minas com o governador Aécio Neves. Por acaso, ele comentou alguma coisa sobre o boato de que seria vice de Serra numa possível chapa puro sangue do PSDB?
CB - Ele contestou essa informação publicamente. Acredito que o governador Aécio é um grande quadro da política nacional e tem feito um grande trabalho em Minas, tanto que é muito bem avaliado pela população. Ele tem mais de 70% de aprovação entre bom e ótimo, bem diferente do governador do nosso Estado (risos). Estivemos com ele para demonstrar nosso apoio e dizer que o PR está aberto para ajudá-lo. Temos muitas bandeiras em comum, a exemplo da gestão eficiente, o federalismo e a austeridade nos gastos públicos. Acho que Aécio está preparado para dar uma contribuição maior ao país, como o governador José Serra também está. Não temos candidato a presidente, mas todos esperamos que o PSDB consiga encontrar uma solução que seja a melhor para o país, unindo seus dois pré-candidatos, que são muito bem preparados.
