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Entrevistas

Entrevista

João Henrique fala sobre resultados do Carnaval 2009 e diz que não ter queixas do governo - 02/03/2009

Por Lucas Esteves

Por Lucas Esteves - Fotos: Max Haack

BAHIA NOTÍCIAS – Nas palavras do prefeito, qual foi o balanço do carnaval 2009?

João Henrique Carneiro: Eu acho que foi acima das expectativas. Nós passamos aí cinco dias onde ninguém falou a palavra “crise” em Salvador. Pelo menos os que estavam aqui (na prefeitura), ninguém pensou ou falou em crise. Foram cinco dias só de alegria, de foliam, de felicidade. Eu diria que superou as minhas expectativas, o de 2009, porque levando-se em conta o contexto no qual nós também estamos inseridos nele, que é o contexto da crise financeira internacional você ter uma festa em que ninguém se lembrou da crise e onde a crise também não prejudicou a festa, eu acho que nós só temos o que comemorar. Eu acho que o Carnaval foi extremamente positivo.

BN – A coletiva para apresentar os resultados do Carnaval foi bastante exultante e trouxe muitas boas notícias. Ao que o senhor atribui a chegada de tantas boas notícias?

JH - Uma série de coisas. Porque o Carnaval é feito pelo povo, o próprio povo, com a sua alegria contagiante, a imprensa, o governo do estado, que dá uma contribuição com a segurança pública principalmente, os atores, artistas, cantores, músicos, trios, todos fazem o carnaval. Mas, no que tange à prefeitura, eu diria que algumas coisas colaboraram e muito para que este ano fosse melhor do que os outros anos. A experiência, em primeiro lugar, porque é o quinto Carnaval. Organizado por nós é o quarto, porque o de 2005 eu já encontrei praticamente pronto. Então, é o quinto carnaval que a gente comanda, mas organizado por nós é o quarto. Então há uma experiência acumulada, é como um aluno que entra na faculdade e quatro anos mais tarde ele sai com um outro nível de aprendizado e experiência. Então o Carnaval tem isso, tem esse aprendizado crescente, ano a ano. Então, da nossa parte, acho que a reeleição, o fato de eu ser um prefeito que já vem de outro mandato, já vim de outros carnavais, eu acho que isto ajudou e muito. O folião e sua consciência, além das campanhas pela não-violência feitas tanto pela prefeitura quanto pelo governo do estado e pelos artistas. Acho que tudo isto influenciou muito. O carnaval é fruto de mais experiência, fruto do saber fazer. Você vai transferindo de um Carnaval para outro as experiências e novidades. É uma série de coisas novas que você vai observando e pensando “aquilo precisa mudar”, “aquilo precisa mudar”.  E a equipe agora é menor, são 11 secretários apenas, uma equipe mais coesa. Acho que tudo isto ajudou. Tudo isto tem seu papel, quando você junta o coletivo disto, vê que o carnaval, com a alegria do seu povo, com os esforços tanto do governo estadual quanto do governo federal, blocos, trios, artistas, trade e empresários do carnaval, todos têm sua importância, sem exceção.

BN – Houve uma curva crescente de investimentos do Carnaval até o ano passado, mas este ano a arrecadação da prefeitura juntamente com o dinheiro cedido pelo governo do estado ficou em R$ 7,3 milhões. É isto exatamente o que o Carnaval custa?


JH – Não, é muito mais do que isto. Mas aí, o resto fica como investimento. É a nossa parcela de investimento público. É um investimento cultural, é um investimento na internacionalização da cidade, na promoção da cidade como destino turístico. Porque quem vem brincar o carnaval, e brinca como foi neste Carnaval de 2009, com baixíssimos índices de violência, de acidentes de carros também, traz para o ano outras pessoas e retorna. Traz seus amigos e familiares porque é um Carnaval que deixa saudades. É um Carnaval que deixa as pessoas querendo mais. Você vê que teve o arrastão de Ivete e o pessoal não queria que o Carnaval acabasse. Quarta-Feira de Cinzas e as pessoas ainda queriam mais Carnaval. Eu confesso que eu queria! Ficou aquele gostinho de saudade, não é? Então eu acho que é um investimento cultural também. O município tem que fazer a sua parte também. Aquilo que não for captado na iniciativa privada fica como investimento da prefeitura em sua própria cidade.

BN – mas o senhor espera recuperar este investimento ainda este ano, seja com arrecadação de impostos ou com qualquer outra coisa, ou recuperar no Carnaval do ano que vem?

JH – Tem uma cosia aí muito subjetiva, difícil de mensurar, mas que é fato. Com que foi o Carnaval de 2009, ao longo do ano a tendência é Salvador receber mais turistas. Porque como a nossa maior bandeira de visibilidade cultural, de expressão da cultura negra, da diversidade, é o Carnaval, se você faz uma boa festa, baixos índices de violência e acidentes, etc., a tendência é ao longo do ano você ter Salvador como um referencial positivo de turismo cultural. Então nós vamos ter outros eventos culturais Em Salvador ainda este ano. Por exemplo, o Cirque Du Soleil. Está programado para passar o mês de agosto todo aqui em Salvador com espetáculos diários. Ele estará aqui em Salvador e os navios já estão saindo de navio do Canadá. Eles estão trazendo cerca de 80 caminhões de navio e vão ficar ali no Parque de Exposições. Ele vai ficar o mês inteiro aqui fazendo apresentações. Então quem passou o Carnaval aqui e saiu satisfeito tem uma tendência de fazer uma propaganda positiva da cidade lá fora. E, com o Cirque de Soleil, também esperamos que apareça mais gente para assisti-lo. No final do ano nós deveremos ter aqui uma (etapa da categoria de automobilismo) Stock Car. Estava programada para junho, mas a gente conseguiu com a organização do evento empurrar para novembro ou dezembro, mas provavelmente teremos uma etapa da Stock Car também. E outros eventos culturais, sobretudo musicais. Se você tem um carnaval que é um cartão-postal como foi o de 2009, então você tem um rebatimento no fluxo turístico na cidade melhor. O contrário também seria verdadeiro. Se o Carnaval tivesse sido violento, você teria um rebatimento também em um fluxo turístico ruim. Mas como foi bom, a expectativa é que ao longo dos anos, sobretudo 2009, a gente tenha um fluxo maior de turistas. E, com isto, mais impostos para a cidade, mais empregos, aquecimento da economia informal, sobretudo, do artesanato. Enfim, todos estes produtos que o turista mais consome quando vem a Salvador.


BN - O gasto total do Governo foi de R$ 2,790 milhões. Mas o senhor acha que poderia ter sido mais dinheiro, que o que foi repassado à festa em Salvador foi apenas o mínimo aceitável?

JH - O governo investiu na segurança pública e investiu bem. Vocês viram os números da violência como caíram. Eu acho que a cada ano que passa a Polícia Militar está se especializando na prevenção de violência no Carnaval a ponto de – eu soube – já estar até exportando para outras cidades a tecnologia de prevenção de violência no carnaval. Esta é uma coisa que já vem de muitos anos, mas a cada ano há uma especialização, e isso é bom para a gente. Eu acho que o governador teve de ajudar outros carnavais, e inclusive ele explicou isto à opinião pública, que não tinha só o Carnaval de Salvador, ele tinha outros carnavais de outras cidades para ajudar. Então eu acho que, para o sucesso que foi o Carnaval de 2009, eu acho até que a gente não tem o direito de se queixar de nada. O prefeito foi eleito para cobrar. Se eu não fizer meu papel, o eleitor que votou em mim não ficará satisfeito. Então o eleitor votou em João Henrique para João Henrique cobrar. Por ele, pela cidade, e eu estou cumprindo meu papel, eu trabalho para isso, fui eleito para isso. Agora, o governador por sua vez tem suas limitações. Ele tem que ver quantas cidades ele tem para ajudar o carnaval, quanto ele pode disponibilizar. Mas eu diria, ao cabo destes cinco dias, terminado como já terminou o Carnaval, que foi um sucesso tão grande, tão bonito, tão alegre, com baixíssimos índices de violência, que não tenho do que me queixar.


BN – Entre estas cobranças feitas ao prefeito está exatamente o aumento do espaço para que o folião pipoca brinque o Carnaval. Há anos há promessas da prefeitura de que haverá uma definitiva política para o folião que brinca fora das cordas, mas é difícil ver qualquer medida ser aplicada na realidade e impactar na festa para quem não está em blocos nem camarotes. Como e quando a pipoca poderá enfim sentir que está sendo beneficiada no Carnaval?


JH – Apesar da gente já ter avançado na questão do folião pipoca e na sua maior participação no Carnaval, a exemplo da cobertura das arquibancadas populares, que historicamente não eram cobertas... Eu me lembro que o folião que estava na arquibancada popular tomava chuva e sol, fosse criança ou idoso. E aquilo me deixava indignado. Então nós passamos a oferecer cobertura. A mesma cobertura que cobre os camarotes cobre também as arquibancadas. Arquibancadas na Barra, não tinha. Hoje nós já temos uma, muito tímida. No próximo ano ela vai crescer e muito, mas foi uma inovação. O recuo dos camarotes, deixando mais espaço nas calçadas. Isto começou este ano. A Sucom baixou portaria por determinação nossa recuando o espaço ocupado por camarotes em calçadas e passeios. Então eles trabalharam mais com arquitetura de balanço, para deixar o espaço de baixo vazio para o folião pipoca. Eu acho que houve alguns avanços, mas agora, para uma cidade com três milhões de habitantes e baixo poder aquisitivo como é Salvador, por mais que você avance ano a ano procurando atender as necessidades do folião pipoca, por mais que você faça, ainda é pouco. Tanto que em 2010 a gente quer dar um grande salto em direção ao folião pipoca. Outro exemplo são os carnavais de bairro. Eram quatro, agora são seis. Não tinha Carnaval nas ilhas, agora tem nas três ilhas. De 2006 para cá, nós não deixamos um ano sequer sem fazer carnaval nas ilhas. Mas ainda é pouco. Fica sempre aquela disputa camarote versus folião pipoca. Mas estamos sempre quebrando paradigmas procurando deselitizar o carnaval. Na última década, muito foi criticado o carnaval por conta da sua elitização. E a gente está entrando agora procurando quebrar esse paradigma, queremos popularizar. Agora observe o quanto já fizemos no sentido de valorizar o folião pipoca, mas ainda é pouco, reconheço. Precisa avançar mais, precisa que o morador desta cidade, o cidadão que mora aqui, tenha as mesmas oportunidades, espaços qualificado, possa assistir a trios e blocos da mesma forma do turista. Então há esta briga incessante, constante. A todo momento a gente ta preocupando com o folião pipoca. Mas prometo que até 2010 teremos muitas novidades para o folião pipoca.

BN - As recentes declarações de Nizan Guanaes dizem que a briga entre PMDB e PT em Salvador fez com que ele pessoalmente se desencantasse com o trabalho na festa. O senhor acha que esta reclamação procede ou Nizan Guanaes não trabalhou o tanto quanto poderia para arrecadar dinheiro para o Carnaval, como fez nos últimos anos?

JH – Não, acho que nem uma coisa nem outra. Acho que Nizan, pela sua própria natureza, só entra nas cosias de cabeça. Ele é um batalhador, é um touro para trabalhar. E ele trabalhou muito, mas todos nós fomos vítimas por uma fase pela qual está passando o mundo que é a crise financeira. Então estas grandes marcas, multinacionais sobretudo, que financiam as grandes festas populares do mundo, foram vítimas dessa crise. Então eu diria que tanto nós como a própria OCPTudo, estamos todos sendo vítimas dessa fase, mas ela vai passar. Nesses cinco dias mesmo veja que ninguém falou em Cris, ninguém pensou em crise, foi só alegria. E eu espero que essa crise passe o mais rápido possível. Mas eu queria ressaltar aqui que a OCPTudo trabalhou com afinco. Agora, se a arrecadação não foi maior foi por causa disso, que ta muito além de nossas forças.

BN – Chegou a ficar chateado com o que ele disse?
 
JH - Não, de maneira alguma. Pelo contrário. Eu compreendo que foi um problema internacional. Então, estou consciente disto. Então quando você tem consciência de alguma coisa, não t m como ficar abalado.

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