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Entrevista

"PCdoB precisa de mais espaço no governo Jerônimo", avalia Olívia - 05/12/2022

Por Leonardo Almeida

Foto: Bahia Notícias

Recém reeleita para o cargo de deputada estadual, sendo a mais votada da Federação Brasil da Esperança (PCdoB, PT e PV), e indicada para a equipe de transição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT),  Olívia Santana (PCdoB) avaliou que seu partido precisa de mais espaço no futuro mandato de Jerônimo Rodrigues (PT) no governo do Estado, podendo ampliar a participação em secretarias ou assumindo pastas de maior relevância.

 

“Em termos de parlamentares, nós somos o terceiro partido, é necessário levar essa situação em conta na configuração do novo governo. O PCdoB precisa ter mais espaço no governo de Jerônimo e ampliar nossa presença em secretarias ou, pelo menos, termos secretarias maiores do que a situação que temos agora”, avaliou Olívia.

 

A Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) tem se mobilizado em relação à vaga da Casa no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). A deputada endossou o nome de seu correligionário, Fabrício Falcão, que tem sido cogitado para assumir a cadeira. “Nunca indicamos ninguém e o nome dele tem que ser levado em conta”, disse Olívia.

 

Nesta entrevista, a deputada do PCdoB também comenta sobre as movimentações dentro da AL-BA, a possibilidade de uma candidatura em busca da prefeitura de Salvador em 2024 e aborda uma declaração da deputada federal, Alice Portugal (PCdoB), em torno de sua declaração racial.

 

Confira:

 

A Assembleia e a Federação têm se movimentado em relação à vaga no TCM. O nome do deputado Fabrício tem sido veiculado a esse posto, você apoia o nome de Fabrício ou tem outra preferência para a cadeira?

Apoio sim, claro, é uma das possibilidades, é legítimo. O PCdoB, nós nunca indicamos ninguém, e a possibilidade do nome dele, é claro que tem outros nomes, mas nós entendemos que o nome como de Fabrício, de Daniel Almeida, são nomes importantes que devem realmente ser levados em conta.

 

Ainda sobre as movimentações na AL-BA, você atualmente é presidente da Comissão dos Direitos da Mulher, você pretende continuar na presidência da comissão e/ou tem a pretensão, por exemplo, de ser a liderança da Federação na Assembleia?

Nós ainda estamos em processo de debate, estou junto com Bobô representando o PCdoB nas tratativas sobre a configuração da Federação na Assembleia. Esse é um debate que é verticalizado e também está sendo feito em relação à Câmara dos Deputados, mas como lá ainda não foi instituído o regimento da Casa, nós demos aqui os primeiros passos para a discussão. Ainda está muito incipiente para termos definições sobre quem vai liderar a Federação. Nós somos hoje a terceira força do bloco de apoio ao governador Rui Costa, ou melhor, do próximo governador Jerônimo Rodrigues. O PCdoB saiu dessas eleições muito fortalecido, reelegendo os quatro mandatos e ampliando nossa votação nominal, nossa presença foi a maior votação de toda a esquerda. A gente se saiu muito bem desse processo eleitoral, o que nos credencia a nos colocarmos em relação a cadeira no TCM. A gente também faz o debate em relação a composição da Federação, levando em conta que no bloco nós somos a segunda força, estamos em uma posição confortável, mas a política é a arte do debate, da construção dos consensos.

 

Sobre esse crescimento do PCdoB, foi veiculado que o partido vai poder indicar um nome para ocupar uma secretaria de Jerônimo. Como estão essas conversas? Tem chance de você assumir alguma pasta?

Tudo está muito preliminar. A própria composição do Governo na Bahia também está relacionada em como será a composição do Governo Federal. Nós estamos como uma situação que é um “bom problema”, nós conseguimos eleger o presidente Lula, que é uma aliadíssimo do governo baiano a Bahia e, além de eleger Lula, elegemos um governador aliado de Lula. Isso foi uma vitória fantástica, é uma vitória completa. Isso nos possibilita ficar em um compasso de espera, não precisamos correr para termos uma definição da composição do governo baiano porque nós temos essa relação com o Governo Federal e, enquanto as coisas não se delinearem de uma maneira mais efetiva, quais são os ministérios que a Bahia vai assumir, por exemplo, quem são os nomes que vão compor esses ministérios, fica também comprometida a decisão em relação ao secretariado baiano. É preciso ter o diálogo, que já está acontecendo. Em termos de parlamentares, nós somos o terceiro partido, é necessário levar essa situação em conta na configuração do novo governo. O PCdoB precisa ter mais espaço no governo de Jerônimo e ampliar nossa presença em secretarias ou, pelo menos, termos secretarias maiores do que a situação que temos agora.

 

Se o convite para assumir uma secretaria vier, você aceitaria e deixaria o mandato como deputada estadual?

A minha questão em relação a mim mesma, o principal é que eu consegui renovar o mandato com mais de 60% de aprovação, é uma situação confortável. Estou com muita disposição de cumprir o mandato, mas estou aberta a contribuir com a experiência do nosso grupo. Se o meu nome servir para contribuir para o governo de Jerônimo, ele está à disposição, se não estiver, também, não tem nenhum problema, nós vamos continuar colaborando na Assembleia Legislativa. O PCdoB tem nomes, no plural, tem meu nome, mas tem outros nomes também e eu estou muito tranquila, muito à vontade. Não é uma condição eu ir ou não para o governo, eu posso me manter no legislativo e Jerônimo tem que ter a tranquilidade e não ser pressionado, ele que irá definir como será a composição de seu governo e escolher os nomes, em diálogo com os partidos, que sirvam melhor para os cargos. Estamos com um diálogo muito positivo, estando ou não no governo.

 

O governador Rui Costa chegou a citar seu nome em relação a uma possível candidatura para a prefeitura de Salvador em 2024. Aqui, para o Bahia Notícias, o presidente do PT na Bahia afirmou que o partido começa a se organizar para o pleito municipal em janeiro de 2023. Você foi candidata em 2020, seu nome pode se repetir na disputa de 2024?

Nós temos boas perspectivas nesse bloco de esquerda. Acho que foi superado esse mito em relação, por exemplo, ao ACM Neto, aquela ideia de que ele era imbatível, o nome dele para o governo do estado, e a gente mostrou que um nome novo, como de Jerônimo, conseguiu ser eleito. O projeto para Salvador será construído coletivamente, acho que está cedo, não devemos precipitar nenhuma posição, mas a esquerda também está bem posicionada considerando que nós conseguimos eleger o governo do estado e o governo federal. É um arco de alianças importante que pode nos levar sim a disputar Salvador.

 

Você foi indicada para o GT de Combate ao Racismo da equipe de transição de Lula. Como foram essas conversas? Já houve algum encontro seu com a equipe de transição?

Nós tivemos a primeira reunião na sexta-feira (2), foi um encontro de apresentação dos novos membros. Temos entendimento de que o quadro é muito grave, o governo Bolsonaro foi um governo de destruição das políticas públicas que já estavam em desenvolvimento desde o governo Lula. Hoje, o que a gente tem é uma situação de terra arrasada, mas há um grupo de lideranças com experiência política, social e de gestão que está repensando essas estruturas. Ao mesmo tempo, esse elenco, esse planejamento de políticas públicas que o governo Lula precisará adotar para gente reposicionar o Brasil no caminho do combate ao racismo, com políticas não só de governo, mas que vão se transformando em políticas de Estado. Então, o desafio é grande, mas a disposição de contribuir na área de educação, área do empreendedorismo. Na educação, considerando que nós passamos por uma pandemia e passamos por um governo que trancou os investimentos, não apresentou nenhum projeto para educação brasileira, ao contrário teve uma ação verdadeiramente deletéria, nós temos um entendimento, pelo menos a minha contribuição, vai na direção de defender o investimento em educação integral e integrada. Não é só o tempo que tem que ser integral, mas é preciso um projeto educacional que integre esporte, cultura que ofereça oportunidade de formação integral dessa juventude. Nós precisamos rever esse ensino médio que está aí e garantir de fato um modelo educacional que empurre essa juventude para frente e que que possa sanar os buracos abertos pela pandemia, pelo tempo que as pessoas ficaram sem ter aulas ou com aulas precárias. Mesmo com o acesso virtual, a população mais pobre ainda tem muita dificuldade em acessar a internet e mesmo os que acessaram não tem, muitas vezes, em sua família, pessoas que apoiassem seus estudos. A gente está vendo um declínio em relação ao Enem a cada ano o governo Bolsonaro foi marcado por esse declínio, cada vez uma participação menor de estudantes.

 

Sua correligionária, a deputada federal Alice Portugal, deu uma declaração recentemente defendendo sua autodeclaração como parda por defender as políticas antirracistas. Foi uma fala que repercutiu negativamente, houve algum tipo de conversa com a deputada? Como isso reverberou dentro do partido?

Acho que cada pessoa é responsável pelos seus atos e suas declarações. A política antirracista tem essa condição da distribuição do fundo eleitoral, essa situação exige muita fidelidade a legislação. Uma pessoa que é socializada como branca que se declara parda tem duas implicações: a primeira é em relação à política de distribuição no fundo eleitoral; e a segunda é em relação a uma que acaba tendo o impacto de falseamento dos dados sobre a eleição. Por exemplo, há uma uma informação de que cresceu o número de membros de parlamentares eleitos 137 pessoas negras se elegeram. Quando a gente vai olhar as fotografias, muita gente que não é negra que se declarou branca entra nessa conta. Isso fura as estatísticas, isso acaba falseando as estatísticas. Eu tenho um respeito muito grande pela deputada Alice Portugal, não sei o que é motivou a fazer esse tipo de declaração, o fato de uma pessoa ser aliada da luta de racista, não credencia essa pessoa a se definir como negra, porque é a realidade concreta de como racismo impacta as nossas vidas te faz com que a gente possa, não só se definir como negra, mas também buscar políticas públicas que ajudem a corrigir os efeitos nocivos do racismo nas nossas vida. Essa questão precisa ser muito bem compreendida com todo mundo de A a Z, seja na direita, que a gente critica, seja na esquerda. A esquerda tem a prerrogativa de forjar novos valores e portanto de garantir conquistas de políticas públicas para grupos historicamente excluídos. Que possam suprir o impacto das discriminações em forma de exclusão e a gente sente de maneira muito forte a subrepresentação da população negra, de mulheres negras, de homens negros nos espaços de poder político. Todas as pessoas da esquerda, sejam elas negras ou brancas, precisam ter compromisso com essa agenda.

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