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Entrevista

'A gente sabia que o povo saberia reconhecer', diz Éden sobre vitória de Jerônimo - 04/11/2022

Por Lula Bonfim

Foto: Divulgação / Partido dos Trabalhadores

O presidente estadual do PT, Éden Valadares, está de bem com a vida. Mesmo sem ter parado ainda desde as articulações para a montagem da chapa no início do ano, o dirigente partidário comemora a vitória de Jerônimo Rodrigues (PT) para o governo da Bahia, o que considera um reconhecimento do povo baiano ao trabalho feito pelo partido no estado nos últimos 16 anos.

 

“Era alguém que, apesar do grande público não conhecer, com uma trajetória de vida muito semelhante, muito similar, à do povo baiano. A gente sabia que o povo saberia reconhecer isso. Em termos de capacidade política, de liderança técnica, quem o conhecia já gostava. Então nosso desafio foi apresentar, foi fazer Jerônimo ser reconhecido”, afirmou Éden, em entrevista ao Bahia Notícias nesta sexta-feira (4).

 

Junto a nomes como Adolpho Loyola, Lucas Reis, Luiz Caetano, André Curvello e Diogo Medrado, Éden integrou a “coordenação de campanha horizontalizada” de Jerônimo e agora integra um núcleo duro que discute a transição de governos petistas na Bahia. Segundo ele, o momento agora é de organizar a nova gestão; articulações ficarão para depois.

 

“A próxima legislatura começa dia 1º de fevereiro, então o governo terá um mês entre a posse de Jerônimo e a posse dos deputados para, aí sim, com articulação política montada, secretariado montado, para a gente começar um processo de diálogo sobre a Assembleia. É claro que, quanto maior a base, mais conforto traz para aprovar os projetos, para tocar a nossa agenda, mas nós não estamos dialogando agora não”, declarou o dirigente.

 

Éden ainda disse que não tem pretensão pessoal de se candidatar nem de assumir qualquer cargo na administração estadual, mas se colocou à disposição do PT para atuar onde quer que desejem.

 

“Sempre estive à disposição e continuo à disposição do nosso partido. Tenho um mandato ainda [como presidente estadual do PT], meu mandato vai até 2023. Caso o governador Jerônimo avalie que é necessário eu contribuir de alguma forma com a sua gestão, eu vou sentar com os meus colegas dirigentes, meus companheiros e companheiras de direção, e avaliar. Mas eu não me governo não. Eu sou fruto de um projeto coletivo e nós vamos debater essas possibilidades coletivamente”, comentou Éden.

 

Confira abaixo a entrevista completa.

 

O PT da Bahia foi um dos grandes vencedores das eleições deste ano no Brasil. Mais uma vez, o partido lançou uma figura desconhecida do grande público e, com um trabalho de campanha amplo, conseguiu torná-la conhecida e a preferida pelo eleitorado. Qual é a avaliação que o PT-BA faz da campanha em 2022, depois da oposição crescer aqui no estado nas eleições de 2020?

Eu aprendi com meu professor de política e da vida, o senador Jaques Wagner, que nas derrotas a gente tem que resignar e nas vitórias devemos ser humildes. Eu acolho essa ideia de que nós somos um dos grandes vencedores do Brasil com humildade e como reconhecimento do nosso trabalho. Essa fórmula, de estar sempre renovando a política baiana – Wagner foi uma renovação importante; depois, em 2014, Rui Costa mais uma renovação; e agora Jerônimo Rodrigues – tem se mostrado vitoriosa. Tem se mostrado um acerto da nossa parte. Sobretudo [um acerto] do nosso bruxo, do nosso guru, que eu avalio como sendo o maior político da Bahia neste século: o senador Jaques Wagner. Mas claro, com a força da aprovação do trabalho do governador Rui Costa, da nossa aliança com o senador Otto Alencar e do grupo. Nós apostamos, como foi dito, numa figura ainda desconhecida, mas que nós reconhecemos o seu trabalho, a sua trajetória de vida, alguém que tem a cara, o jeito, a cor e uma vida muito parecida com a maioria do povo baiano. Jerônimo nasceu em uma cidade pequena do interior, teve que migrar para estudar, depois migrar para se tornar professor e alcançou cargos de alto escalão no Executivo nacional – no governo federal – e no governo do estado da Bahia, como secretário de Desenvolvimento Rural e como secretário de Educação. Então era alguém que, apesar do grande público não conhecer, com uma trajetória de vida muito semelhante, muito similar, à do povo baiano. A gente sabia que o povo saberia reconhecer isso. Em termos de capacidade política, de liderança técnica, quem o conhecia já gostava. Então nosso desafio foi apresentar, foi fazer Jerônimo ser reconhecido. E também a estratégia de colar no projeto. A campanha foi, digamos assim, “de um homem só” do outro lado, o ex-prefeito de Salvador [ACM Neto], contra um projeto coletivo, que tem Lula como principal estandarte, como principal símbolo, mas que aqui na Bahia também carrega um signo muito forte de de trabalho e de vitórias.

 

Rui Costa teria sinalizado, em uma reunião com prefeitos nesta semana, a possibilidade dele compor a Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Existe a possibilidade do PT Bahia ter, além de Rui, a presença de Jaques Wagner entre os ministros de Lula?

Eu não estive na reunião ontem com os prefeitos. Não estava lá com os prefeitos, mas sei das especulações que correm. É claro que quem tem um saldo tão vitorioso, como foi dessas eleições em 2022 na Bahia, onde a gente não só elegeu Jerônimo, como também conseguiu dar uma votação histórica para Lula, 6 milhões de votos para Lula na Bahia, é claro que os nomes dos nossos principais líderes são sempre lembrados. Quem não gostaria de ter alguém do calibre do governador Rui Costa na equipe, com a sua capacidade de trabalho, com sua competência? Ou alguém com a capacidade de elaboração política, de articulação política, do senador Jaques Wagner? Isso não é um pleito do PT da Bahia. Nós estamos à disposição do presidente Lula, para este momento importantíssimo da República, de reconstrução do nosso país, de reposicionamento do nosso país no cenário internacional, de reconstrução do cinturão de proteção social do nosso Brasil. Gerar de novo o crescimento econômico, desenvolvimento econômico, justiça social, prosperidade para as famílias… Penso eu que tanto Jaques Wagner quanto Rui Costa estão para lá de gabaritados para auxiliar o presidente Lula nessa tarefa.

 

O PT da Bahia tem sido muito criticado no tocante à Segurança Pública. A população tem reclamado bastante da violência em todo o estado, mas especialmente em Salvador. Onde é que você acha que o PT baiano tem errado na gestão da Segurança Pública? E como fazer para enfrentar isso?

Eu penso que há uma situação sobre a segurança no país. E também na Bahia, obviamente, é difícil, complicado em níveis insustentáveis. Mas que é um desafio nacional, não só do presidente da República, mas dos governadores também. E penso que a sociedade baiana percebe isso. É aflita por isso, mas reconhece os esforços do governo do PT. Isso foi tema de campanha. A nossa oposição apostou nisso, como se isso fosse mudar voto. E, na verdade, o que eu penso que veio das urnas é o reconhecimento do trabalho dos nossos governos, de como era a Segurança Pública na Bahia antes do PT e como é agora. Temos muito a fazer. A gente precisa melhorar os índices, precisamos investir mais fortemente em inteligência, em tecnologia, em aparelhar, no sentido do aparato tecnológico, os nossos agentes de segurança, colocar as câmeras… Enfim, todos os compromissos que a gente assumiu na campanha. Mas eu tenho uma opinião diferente da sua, no sentido da reprovação. É um tema sensível, sim. Mas a sociedade baiana reconhece tudo que foi feito: como eram as viaturas antes do PT e como são agora; como eram as unidades militares, como era o aparato da polícia, como era o salário dos policiais. É um desafio gigantesco, eu reconheço. Jerônimo tem colocado isso como prioridade para sua gestão.

 

Enquanto presidente do PT na Bahia, você tem tido uma atuação destacada, bem presente, bem participativa. Quais são seus planos pessoais ou políticos para os próximos anos? Eles envolvem apenas a gestão interna do Partido dos Trabalhadores ou há a ideia de assumir algum posto na administração pública para contribuir com a gestão de Jerônimo?

Eu não tenho um plano pessoal. Converso muito aqui em casa, com minha família, com meus filhos, com a minha companheira. Eu não faço disso uma trajetória pessoal. Não vejo política como uma carreira a ser seguida. Eu milito no PT há 21 anos. Desde os meus 18 anos. Eu tenho 22 anos agora dedicados ao PT. Tenho mais da metade da minha vida dedicada ao nosso partido. Já pude contribuir como dirigente partidário, como secretário de Juventude, hoje sou presidente, já pude contribuir nos movimentos sociais, no movimento estudantil, na UNE [União Nacional dos Estudantes] e pude contribuir também em governo. Eu já fui do governo do estado. Fui coordenador de Políticas para Juventude do governo e fui chefe de gabinete de Wagner lá em Brasília, lá na Casa Civil do governo Dilma. Então, eu sempre estive à disposição e continuo à disposição do nosso partido. Tenho um mandato ainda [como presidente estadual do PT], meu mandato vai até 2023. Caso o governador Jerônimo avalie que é necessário eu contribuir de alguma forma com a sua gestão, eu vou sentar com os meus colegas dirigentes, meus companheiros e companheiras de direção, e avaliar. Mas eu não me governo não. Eu sou fruto de um projeto coletivo e nós vamos debater essas possibilidades coletivamente. Agora, fetiche de ser candidato, eu nunca tive. O cara que faz política como vocação, como a minha turma faz, assumir o mandato de vereador, de deputado, senador, é um grau de dedicação gigantesco, que por vezes a gente acaba de alguma maneira penalizando a parte familiar, a vida pessoal. Então, esse fetiche eu nunca tive não. Eu só vou ser candidato se o PT me obrigar.

 

Hoje, a Assembleia Legislativa da Bahia, não tem mais uma grande maioria governista, como chegou a ter até pouco tempo. Nesta semana, chegamos a ouvir sobre um possível retorno do Republicanos à base do governo. Existe alguma negociação em curso para que essa base aumente?

Não. Não há negociação em curso. Nós não dialogamos com nenhum outro partido sem ser aqueles que formaram nossa coligação ou que nos apoiaram no segundo turno. Nós não ampliamos esse debate, de forma alguma. A próxima legislatura começa dia 1º de fevereiro, então o governo terá um mês entre a posse de Jerônimo e a posse dos deputados para, aí sim, com articulação política montada, secretariado montado, para a gente começar um processo de diálogo sobre a Assembleia. É claro que, quanto maior a base, mais conforto traz para aprovar os projetos, para tocar a nossa agenda, mas nós não estamos dialogando agora não. Ainda estamos iniciando o processo de transição e dialogando internamente com quem nos apoiou desde o primeiro turno e com quem veio a nos apoiar no segundo turno. Por vezes, a gente acaba queimando a largada nesses debates sobre algumas disputas ou indicativos que ocorrerão, como está acontecendo, por exemplo, na Assembleia. É óbvio que o presidente Adolfo [Menezes] tem toda a legitimidade para se apresentar para um novo mandato na presidência e nós, do PT, temos um carinho enorme pelo PSD e pela figura do presidente Adolfo. Mas já estão falando de presidente da Assembleia, de presidente da UPB [União dos Municípios da Bahia], de indicação para tribunal. Nossa posição do PT, já apresentamos ao governador Jerônimo e vamos levar para a reunião do conselho político na segunda-feira, é que a gente não deve tratar com açodamento, não deve acelerar essas coisas. Devemos tratar não cada uma das árvores, mas a floresta inteira. E, coletivamente, os partidos devem ouvir as lideranças, como Otto, Rui, Jaques Wagner, ir ponderando, para encontrar um equilíbrio na divisão do poder político na Bahia, que consagra – isso é o principal elemento histórico desses últimos 16 anos de governos do PT na Bahia – uma nova cultura política, um novo jeito de fazer. Não é nem o jeito anterior – de quando tinha uma família, que tem um chefe, e manda quem pode, obedece quem tem juízo, como o ex-prefeito [ACM Neto] tentou reeditar na Bahia e foi derrotado nas urnas – e nem pode ser quem grita mais, quem tem a unha mais forte sobe no muro. É sentando, conversando, dialogando e fazendo um jogo de ganha-ganha.

 

Você falou sobre o sucesso do projeto de renovação do PT na Bahia, citando Wagner, Rui e agora Jerônimo. Ontem, o governador já rechaçou qualquer possibilidade dele ser candidato a prefeito de Salvador em 2024 e eu sempre ouço nos bastidores uma preocupação sobre a falta de formação de novos nomes dentro do partido para disputar as eleições municipais na capital, onde o PT nunca venceu as eleições. Quais quadros você vê hoje em condições de se colocar para essa disputa?

Dirigente partidário, político, gosta muito de eleição. Mas tem um tipo na sociedade baiana e brasileira que gosta mais de eleição do que a gente, que é jornalista e articulista político. A gente mal acabou as eleições. Eu nem descansei ainda. Nossa primeira reunião de transição foi ontem e eu já estou sendo instado a responder sobre a próxima eleição. Eu acho que é muito cedo para a gente falar em eleição municipal. Faremos uma reunião da executiva do PT na próxima segunda-feira, para fazer um balanço da eleição que acabou de passar. ‘Startamos’ ontem o processo de transição, então eu acho muito prematuro a gente falar em campanha municipal. Deixa a gente montar essa transição, deixa a gente montar o nosso governo. Quando a gente instaurar o governo Jerônimo, o quinto governo do PT na Bahia, aí a gente começa a pensar em 2024.

 

Ouvimos do grupo governista algumas vezes que, no grupo de ACM Neto, os partidos acabam perdendo espaço, força e poder, enquanto que no grupo petista os partidos acabam crescendo, ganhando força, etc. Hoje, o MDB sai mais forte do processo eleitoral, com um vice-governador. Esse crescimento do MDB no imaginário político baiano coloca o partido em condições de ter um nome apoiado pelo PT nas eleições municipais de 2024? Há alguma chance do PT apoiar Geraldo Jr. para prefeito de Salvador?

O MDB sai mais fortalecido; como saiu o PT, que foi o partido mais votado para deputado federal e estadual; sai fortalecido o PSD, que cresceu bancada; o PV, que fez um federal e quatro estaduais; o PCdoB, que fez dois federais e quatro estaduais. Enfim, nós demos exemplos várias vezes de que, do nosso lado, é um jogo combinado, em que todo mundo sai mais fortalecido. Enquanto isso, do lado de lá, como diz o senador Jaques Wagner, o chefe não dá nem encosto nem sobra, é a política do mandacaru. Sobre Salvador, eu repito que é açodado, mas é natural que o companheiro Geraldo Jr., que acabou de se eleger vice-governador, que é três vezes presidente da Câmara de Salvador, que tem a presença que ele tem, que seja lembrado pelo seu partido, por seus aliados e por quem gosta dele como um dos possíveis nomes. O MDB não está proibido nem é obrigado a ter candidato a prefeito de Salvador, assim como o Partido dos Trabalhadores não é obrigado nem está proibido de ter. No momento certo, nós vamos sentar e conversar. Mas, primeiro, vamos fazer a transição, montar o governo Jerônimo e ajudar Lula a reconstruir o Brasil.

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