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Entrevista

Cláudio Tinoco: "Precisamos melhorar muito o conceito e o modelo Carnaval" - 26/01/2009

Por Alexandre Costa

Fotos: Max Haack/Bahia Notícias
"Precisamos melhorar muito o conceito e o modelo Carnaval. Não adianta nada que, por duas ou três horas, as pessoas não tenham interesse em estar em casa vendo ao mesmo ritmo"

Por Alexandre Costa

Bahia Notícias – Você assumiu recentemente a Saltur. Vai haver alguma mudança em relação à organização do Carnaval feita para este ano pelo seu antecessor, Misael Tavares?

Claudio Tinoco – Assumi a Saltur há 15 dias. Encontramos o Carnaval todo planejado, com toda a programação elaborada. Além disso, encontramos uma equipe técnica competente e qualificada, que domina a operação desta festa. Tenho total segurança de que vamos ter esse ano uma grande festa.

BN - Como foram divididas as cotas de patrocínio? A prefeitura conseguiu alcançar a meta de R$ 9,3 milhões?

CT - Temos três patrocinadores oficiais já contratados: Banco Itaú, Nova Schin e Nextel. Eles são os chamados patrocinadores master e juntos vão investir R$5,5 milhões. Ainda temos a expectativa de atingir a meta de R$ 9,3 milhões e, conseqüentemente, garantir o financiamento que a Saltur vai fazer na festa. Esse modelo de captação tem se repetido desde o ano passado, e tem dado certo, atingido a expectativa para ajudar no custeio da festa. Claro que não é o suficiente para cobrir todos as despesas da prefeitura, pois esse investimento corresponde a apenas um terço do que a prefeitura vai investir no Carnaval, mas nos dá mais segurança e conforto a participação do capital privado.

BN - Quais os critérios adotados para a seleção dessas três empresas que encheram a cidade de propaganda?

CT – Deixa eu retornar um pouco no tempo, falando desse processo. A prefeitura licitou em 2007 a captação de recursos para o Carnaval através de agências de publicidade. Ganhou o consórcio formado pela baiana OCP e pela paulista Tudo, uma das agências ligadas ao Nizan Guanaes. Essas agências cairam em campo para tentar atrair patrocinadores para o Carnaval. Em contrapartida, os espaços públicos municipais são disponibilizados pela prefeitura para a ativação das marcas dos patrocinadores, ou seja, para propaganda. É uma troca boa para os dois lados.

BN – De onde vem o restante da grana para bancar a festa?

CT - Recursos próprios, do Tesouro. A prefeitura vai investir cerca de R$ 20 milhões. Isso para manter os circuitos da festa e o Centro Histórico. E também toda a infra-estrutura para os carnavais nos bairro, transporte, saúde, limpeza e espaços alternativos, como o infantil, o palco do rock, em Piatã, o palco do samba, o espaço para orquestras. Então é um investimento muito grande. Só a limpeza é uma operação de guerra.

BN – O governo do estado ajuda com o que?

CT - O governo do estado entra com segurança, com cerca de 20 mil homens da Polícia Militar, além da Civil. Ajuda também na área da saúde, porque existe todo um plantão especial nos hospitais e postos do estado. E entra com o conteúdo do Carnaval, através da Secretaria Cultura, com o apoio para algumas atrações e segmentos. Até o ano passado, o governo, através de convênio, repassa recursos diretamente para antiga Emtursa para despesas com infra-estrutura. Este ano estamos aguardando ainda isso, que poderá vir por patrocínio, com cotas, ou convênio, como ano passado.

BN – Uma das formas para garantir mais recursos para o Carnaval não seria cobrar das emissoras de televisão pela cobertura da festa, como acontece nos acontecimentos esportivos ou até no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro?

CT - Essa é uma boa provocação. Porque os principais eventos de grande proporção, como o Carnaval, trabalham com exclusividade de transmissão. Basta recorrer às Olimpíadas, Copa do Mundo e Carnaval do Rio. Aqui em Salvador ainda não há essa experiência. Há abertura para que todas as TVs possam captar e transmitir imagens da festa. Lógico que é uma observação que a gente deve levar em consideração.

BN – Você é favorável?

CT – Sou a favor da discussão. Acredito que temos algumas vantagens. Precisamos melhorar muito o conceito e o modelo Carnaval. Não adianta nada que, por duas ou três horas, as pessoas não tenham interesse em estar em casa vendo ao mesmo ritmo, ao mesmo padrão. Então a gente precisa diversificar para que possamos criar atratividades para a televisão. Não adianta estabelecer exclusividade de transmissão se ninguém tiver interesse.

BN – Mas as TVs transmitem o Carnaval durante horas, como a Band faz nacionalmente?

CT - É verdade. Mas a band já está dividindo também e este ano aumentando ainda mais a cobertura do Carnaval de Recife e de Olinda. Queremos que a Band, a Rede Globo e as demais emissoras tenha interesse e transmitam a festa. Já se chegou a discutir a exclusividade de transmissão, mas isso não avançou. Eu vou abrir essa discussão. Não deu para fazer isso agora, mas vamos começar um novo planejamento a partir de quarta-feira de cinzas, quando vamos fazer uma avaliação da festa deste ano.

BN – Qual é a estimativa para o fluxo de turistas?

CT - Já no ano passado tivemos um fluxo de 150 mil turistas, segundo os dados da Emtursa na época. Para este ano há uma expectativa de ampliação, até mesmo pela movimentação na cidade por conta das festas de final de ano. Além disso, a crise em ajudado a aumentar o fluxo de turistas, por conta da alta do dólar. Com isso, a tendência é que os turistas que pretendiam ir para o exterior tendem a ficar no Brasil, e Salvador é o terceiro pólo turístico do país e porta de entrada para outras cidades do Nordeste. Temos a expectativa de alcançar uma taxa de 92% de ocupação nos hotéis, o que já está se concretizando, e até de 100% nos grandes estabelecimentos hoteleiros da cidade.


"Nunca fui ligado ao segmento do Carnaval. Sou administrador público e conheço o Carnaval como folião"

BN – Se fala muito em ampliar o Carnaval de Salvador com a criação de um novo circuito. Você é a favor?

CT - Eu particularmente acho que não é o momento de expandir dessa forma. Até porque quem defende isso o faz por entender que há uma concentração grande de foliões nos circuitos já existentes, e isso poderia ser uma solução para dispersar. Entretanto, ampliar vai demandar mais segurança, mais trânsito, mais saúde. O que defendo é que se aperfeiçoe ainda mais a capacidade da prefeitura e Saltur de operar bem o Carnaval. Isso significa que não ocupemos espaços públicos de forma desordenada, ou seja, garantir mais espaço para os foliões, além de acesso a informações que melhorem o fluxo de desfile dos blocos, garantindo um número maior de apresentações e acesso dos foliões aos artistas. No Campo Grande, por exemplo, onde o desfile dura cerca de duas horas a mais do que no circuito da Orla, há um problema sério que é o cruzamento de blocos na altura da Casa de Itália. Isso é uma complicação porque há um aperto muito grande, já que as pessoas se concentram ali para ver o cruzamento das atrações. Se anteciparmos um pouco o desarme dos blocos nos Aflitos, eliminamos o cruzamento dos blocos e melhoramos até o escoamento das pessoas para fora do circuito.

BN – E porque isso não foi feito ainda?

CT – Porque é uma idéia nossa. Vamos dialogar com todos. Ponho já idéia na rua, que poderá ser acolhida por todos os agentes do Carnaval.

BN – Você considera que a violência em Salvador é hoje o maior problema do Carnaval?

CT - Concordo. Mas estou seguro na capacidade da Polícia Militar de cuidar do Carnaval. Temos a monitoração do Carnaval com câmeras, o que ajuda muito. No Carnaval deste ano, contaremos com dois aviões não tripuláveis para cobrir com imagens todo o circuito. Em fração de segundos, a PM sabe onde há confusão e pode agir.

BN – Você concorda que o Carnaval de Salvador está cada dia mais “privatizado”, cheio de camarotes e feito para turista vê, com pouco espaço para o folião pipoca, aquele que geralmente é soteropolitano pobre e que não tem recursos para comprar um abada?

CT - O que concordo é com a naturalidade disso. Nunca fui ligado ao segmento do Carnaval. Sou administrador público e conheço o Carnaval como folião. Eu gosto do Carnaval e por isso tenho a maior motivação de cuidar do Carnaval. Então, o bom do Carnaval de salvador é exatamente a diversidade.  Na quinta-feira, quem quer ver o samba, que tem crescido, é só ir para a avenida. Está se vendendo espaço para se assistir o samba na quinta. No Centro Histórico, temos as entidades afro, com o crescimento do fluxo de turistas internacionais. Essa diversidade é o maior patrimônio de Salvador. Quando se tem Ivete Sangado em cima de um trio, quem está pagando não é a prefeitura nem o estado, são os patrocinadores. Então, é a iniciativa privada que está bancando essas grandes atrações que levam multidões para os circuitos. Existe uma discussão grande em relação a isso, eu sei. Mas estamos investindo em artistas independentes.

BN - Quanto?

CT - Na verdade, oferecemos infra-estrutura e contratação de trios. E governo do estado também está investindo. Fechamos essa semana um contrato para disponibilizar 135 apresentações, incluindo artistas nos bairros e trios independentes nos circuitos oficiais. Artistas que foram credenciados se inscreveram, e isso foi acompanhado pelo Sindicato dos Artistas. Também vamos discutir, e não agora, pois não há tempo, questões como a fila do Carnaval. Afinal, se fala muito que os trios independentes desfilam tarde demais. Estamos dispostos a discutir isso.  Além disso, Secretaria Turismo do estado tem ajudado os blocos afro, afoxés e de samba. A Petrobras tem tido vontade de apoiar os afros. Só ano passado, a estatal investiu R$ 1,2 milhão para os afros. Então há apoio público sim, que, somado aos esforços privados, garantem a realização da festa.

BN – A parceria com Nizan Guanaes vai continuar ano que vem?

CT – Só se ele ganhar a nova licitação. A princípio a parceria com as agências funcionou, como eu disse antes.

BN – Antes, quando se falava em Emtursa, logo vinha o Carnaval na mente. O que você pretende fazer para que a Saltur, como a Emtursa, não cuide apenas do Carnaval e esqueça de incentivar o turismo em Salvador em outros períodos do ano?

CT – Tenho planos para que possamos atrair mais turistas para Salvador ao longo do ano. Tudo começa com a sinalização pessoal do prefeito João Henrique Carneiro, que está determinou a reestruturação do órgão de turismo da prefeitura. Não é apenas mudança de nome. Concordo que era muito focado no Carnaval. Estamos fazendo essa reestruturação nos bastidores, fazendo um diagnóstico das ações da empresa, que é de economia mista. Devemos concluir esse processo de reestruturação entre março e abril, apresentando ao prefeito uma proposta. Isso passa pelo fortalecimento da atividade turística. Pela capacidade financeira que tem o estado tem, a promoção de Salvador sempre ficou a cargo da Bahiatursa, atrofiando essa atividade de promoção ao Carnaval. Entendemos o turismo como uma indústria de desenvolvimento econômico de Salvador, que não tem uma vocação industrial, mas sim turística, mas estamos perdendo espaço para cidades como Florianópolis. Se não tivermos uma atuação mais protagonista, podemos perder a posição que ocupamos hoje. Para manter o turista mais tempo em Salvador, primeiro temos de cuidar bem da cidade, e isso passa por ações como a reestruturação da Orla de Salvador. . Ainda ontem conversava com o prefeito e não é peça de retórica como reestruturação orla.

BN – Você concorda com a crítica do prefeito aos órgãos ambientais, que acabam atrapalhando a implantação de grandes empreendimentos hoteleiros na Orla?

CT - Concordo que deverá haver sempre uma preocupação com o impacto ambiental. Mas é verdade que empreendimentos deixaram de se instalar por conta da burocracia. Hoje o turista não tem muito o que fazer para ficar mais de três ou quatro dias na cidade. Para piorar, tem o Centro Histórico abandonado, o que não pode mais acontecer. Temos de tomar conta daquilo lá. Vamos fazer a nossa parte, que é limpeza, iluminação, cuidar população de rua. Vamos, inclusive, implantar uma administração regional no Centro Histórico. E temos de investir no turismo de sol e praia, acabando com essa novela das barracas de praia. Acredito que entrada do vice-prefeito Edivaldo Britto nesse processo vai antecipar uma decisão. E não quero antecipar, mas nos próximos dias o prefeito vai lançar uma iniciativa que vai mostrar claramente sua intenção de requalificar a nossa Orla.


"O fato de pertencer a um partido que tem experiência nessa área do turismo pesou na minha nomeação pelo prefeito João Henrique"

BN – Que iniciativa?

CT - Não, ai você vai me permitir que ela seja apresentada pelo próprio prefeito. Será um passp mito importante para a requalificação da Orça. Outra novela que precisa acabar é a do Aeroclube. Temos lá uma empresa, que é o Grupo Iguatemi, que tem todas as condições de requalificar aquela área. Temos de implantar hotéis para atrair vôos charters diretos para Salvador. Hoje temos 29, e Recife já tem 28, quase nos passando. O turista que sai da Europa diretamente para Salvador quer descer num resort, ter contato com a natureza. Tem um projeto que, até por questões privadas, está se arrastando há anos que é o do Iberostar em Stella Mares, que esperamos que possa ser concluído. Há dez anos nenhum grande empreendimento hoteleiro se instala em Salvador.

BN – Mas concretamente, que outras ações a prefeitura, independentemente do setor privado, pode fazer para atrair turistas em outras épocas do ano?

CT – Como eu disse, o primeiro passo é cuidar bem da cidade, do nosso patrimônio, da nossa natureza, da nossa cultura. Não estou aqui para inventar novamente a roda. Existem idéias e projetos que já foram apresentados e podem ser implantados. Há um projeto, por exemplo, que foi apresentado ao governo do estado pela gestão anterior da prefeitura de Itaparica de afundar um dos ferrys sucateados para estimular o turismo de mergulho na Baía de Todos os Santos. Esse projeto foi apresentado pela Eliana Dummet, que já foi presidente da Emtursa. No Caribe se faz isso.

BN – Você tem coragem de ir ao Pelourinho à noite com sua família?

CT – Tenho e costumo ir. Até porque, nesse período, gosto dos ensaios. Vou sem medo, e falo sinceramente. Mas reconheço que o Centro Histórico precisa de uma intervenção.

BN – Você acha que a prefeitura poderia assumir a gestão do Centro Histórico?

CT – Acho que sim.

BN – O prefeito também acha?

CT – Nunca conversei com ele a respeito. Conversei com ele sobre assumir as responsabilidades que hoje cabem à prefeitura, o que incluir a implantação de uma administração regional. A prefeitura vem desenvolvendo alguns projetos, como de requalificação da Rua Chile com Ladeira da Montanha, tanto que já está ampliando a especulação imobiliária naquela área. Mas se um dia se decidir que a prefeitura deve assumir a responsabilidade total pelo Centro Histórico, sou a favor e estou disposto a assumir essa responsabilidade.

BN – Você é filiado ao DEM, que hoje critica a política de turismo do governo do estado, incluindo aí o abandono do Pelourinho. Os democratas também costumam acusar a Bahiatursa de não promover mais a Bahia como no passado. Você concorda com essas críticas?

CT – A Bahiatursa tem de tomar conta da Bahia como um todo. Agora, eu espero mais para Salvador, e vou querer mais para Salvador, mas também vou fazer meu papel. Pois fazendo meu papel vou poder cobrar mais da Bahiatursa. O fato de pertencer a um partido que tem experiência nessa área do turismo pesou na minha nomeação pelo prefeito João Henrique. Sou filiado ao DEM desde 2001, quando acreditei na minha vocação política. Mas meu plano “a” de vida é a carreira como técnico e administrador público. De modo que vou buscar conviver de forma harmônica com o governo estadual, só que agora assumindo um papel mais protagonista.

BN – Seu antecessor, Misael Tavares, é hoje assessor especial do prefeito. Ele vai ter alguma ingerência sobre a Saltur?

CT – A Saltur precisa da colaboração de todos. Até porque o turismo não se desenvolve apenas planejando. Tem a execução também. Para isso vamos precisar dos secretários e assessores. A Saltur passou a ser vinculada diretamente ao gabinete do prefeito. Tenho na figura de Leonel Matos (chefe de gabinete do prefeito) um parceiro.

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