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Entrevista

Sidônio Palmeira: Eleição para governo 'seria cano curto': "Trabalhamos para o primeiro turno" - 18/06/2008

Por Daniel Pinto

Fotos: Daniel Pinto

“Na eleição para o governo do Estado nós sabíamos que seria uma disputa de cano curto. (...) Tínhamos clareza disso e trabalhamos para o primeiro turno”

Por Daniel Pinto

Bahia Notícias - A campanha de Lídice da Mata quando ela se tornou prefeita de Salvador foi a primeira que vocês fizeram?
Sidônio Palmeira - Não. Já tínhamos feito outras. Mas, essa foi um grande desafio. Lembro que nós criamos o slogan “Salvador, Cidade Mãe”, que combinou muito bem com a proposta da candidatura que era mostrar Salvador como uma cidade acolhedora, uma cidade que trata bem dos filhos e não descuida dos visitantes. Aliás, Salvador é a cidade mãe do Brasil. O negócio deu tão certo que Lídice foi eleita e depois a Cidade Mãe virou uma instituição.

B.N - Mas, a Leiaute ganhou a conta de publicidade da Prefeitura no governo Lídice?
Sidônio Palmeira -
Não, não! Depois da campanha vitoriosa de Lídice, além de não administrar a publicidade da Prefeitura, nós nos afastamos um pouco do Marketing Político.

B.N - Foi uma tendência natural ou uma alternativa de mercado?
Sidônio Palmeira - Foi uma decisão. Na verdade estávamos um pouco cansados de política. Então, entramos mais na área comercial. Logo de cara, fizemos a campanha da antiga Cobape, que era a maior concessionária da Bahia. Depois, fomos crescendo e, aos poucos, construímos uma relação de cumplicidade com nossos clientes. Também lembro do Petipreço, um refugozinho do Paes Mendonça, que saiu da condição de mercadinho de bairro para um rede de supermercados.

B.N - Como se dá a concepção de uma campanha? A estratégia é montada de acordo com o perfil do candidato, vocês têm preferência por partidos? 
Sidônio Palmeira -
Primeiro eu tenho que acreditar no candidato, caso contrário seria inviável. Nem todo mundo faz isso. Não sei se seria certo colocar desta maneira, mas a Leiaute se dá esse luxo. Na verdade, não se trata de um luxo. Não dá para vender um produto se você não acredita na utilidade dele. É assim também com política. Na minha avaliação, o primeiro aspecto para montar uma campanha é acreditar nas idéias do candidato. Segundo, não se ganha nenhuma campanha sem falar a verdade.


“O essencial é ser sincero e falar a verdade. Se você forçar a barra, mais cedo ou mais tarde, as pessoas vão descobrir que se trata de um engodo”

B.N - Então, você não é daqueles que gostam de maquiar candidatos e criar personagens como o “Lulinha Paz e Amor”, do Duda Mendonça?
Sidônio Palmeira - Olha Daniel, não gosto de maquiar candidato. Acredito que o mais importante é mostrar fundamentalmente quem é o candidato. Mas, claro, ressaltar os aspectos positivos e minimizar qualquer fato negativo. O essencial é ser sincero e falar a verdade. Se você forçar a barra, mais cedo ou mais tarde as pessoas vão descobrir que se trata de um engodo.

B.N - Mas, com tudo isso, dá para desprezar as “artimanhas” dos adversários?
Sidônio Palmeira -
De forma alguma! Também é preciso avaliar os pontos fortes e fracos de todos os adversários.

B.N - Aí se inclui a elaboração de um plano de gerenciamento de crise? Dentre as práticas de alguns candidatos era muito comum a construção de dossiês e de estratégias para denegrir as imagens dos adversários.
Sidônio Palmeira -
Acho que não chega a ser um plano de gerenciamento de crise. Até porque, como te disse, quando você trabalha com um candidato sério, responsável e honesto, qualquer crítica que surja pode ser rebatida com conteúdo sem precisar baixar o nível. Não gosto dessa coisa de montar dossiê e explorar questões de foro íntimo. Essas “artimanhas” dão uma carga pesada a campanha e ninguém gosta de ficar vendo isso na TV. 

B.N - Então, você concorda com a idéia de Duda de que quem bate, perde?
Sidônio Palmeira - Acho que é importante saber bater. Ressalto: bater de forma consistente, mas sem nenhum cunho degradante. É preciso bater com simpatia e trazer à tona os problemas dos adversários. Confesso que não entro numa disputa com esse receio. Até porque, para entrar numa campanha é preciso acreditar nas propostas do candidato e ter envolvimento integral com o projeto. O povo precisa de sinceridade. Esse é o sentimento do eleitor. Portanto, o primeiro caminho para a vitória é saber escolher o candidato. Eu não faço qualquer campanha.

“Não dá para vender um produto se você não acredita na utilidade dele. É assim também com política”

B.N - Lembra de algum candidato que te fez proposta e você não aceitou?
Sidônio Palmeira - É delicado citar nomes de pessoas. Mas, para trabalhar com verdade e sinceridade é preciso ter um bom candidato.

B.N - Como foi a construção da estratégia para a campanha de Jaques Wagner?
Sidônio Palmeira - Olha, fizemos as duas campanhas majoritárias de Wagner, em 2002 e 2006. A primeira, o meu sócio Carlos Eduardo que ficou à frente. Mas, as duas foram campanhas interessantes. Em 2006, havia aquele desgaste dos 16 anos de sucessivos governos carlistas. Mesmo assim, eu não podia dizer que durante todo esse tempo o grupo que detinha o poder não fez nada pela Bahia. Tanto que o slogan foi: “16 anos já deu. A Bahia cansou”. Isso significava que, apesar do que já foi feito, o Estado precisava de um novo modelo político-administrativo. Outro aspecto trabalhado foi à questão da “Panelinha”. Em algum momento da vida, todo mundo já viveu com essa situação.

B.N - Verdade. Existem “Panelinhas” na escola, no bairro, no trabalho...
Sidônio Palmeira - Seja no primário, na adolescência ou na esfera governamental, a “Panelinha” é um pequeno grupo que detinha alguns privilégios, enquanto a grande maioria ficava excluída. Então, achamos que esse apelo cairia bem, já que vínhamos de um governo que não promovia a inclusão social e não tinha uma abertura política.

B.N - A “Panelinha” virou um jingle clássico.
Sidônio Palmeira -
O interessante é que a idéia não foi concebida/transmitida de forma pesada. Foi uma peça alegre, divertida e bem-humorada que caiu nas graças do povo. Lembro que, isso é até inusitado, mas várias pessoas do grupo do Paulo Souto gostavam do jingle. São esses tipos de coisas que nós precisamos tirar nas campanhas. Isso tudo faz parte do processo democrático.


“Antigamente aqui na Rua Chile os comerciantes colocavam nas vitrines das lojas “Não damos esmolas, nem aceitamos reclames”. Reclame era publicidade. Para você vê, a publicidade era comparada ao ato de pedir esmolas”

B.N - Mas, Sidônio, apesar dessa postura de não baixar o nível das campanhas, é comum que assessores ou até mesmo os candidatos peçam para explorar aspectos não muito virtuosos dos adversários?
Sidônio Palmeira - Na concepção de uma estratégia de campanha tudo é discutido com os coordenadores, sobretudo com os responsáveis pelo acompanhamento político da campanha. Por exemplo, não centramos a campanha de Wagner para discutir corrupção. Queríamos mostrar que o antigo governo fazia menos do que era divulgado e que, além disso, a União investia muito aqui e o governo escondia isso. Também exploramos, como já foi dito, a questão da abertura de oportunidades. Antes, a Bahia tinha um modelo de desenvolvimento estanque: no recôncavo, indústria. No sul, celulose. No leste, turismo. No norte, frutas. No oeste, grãos. Nesses moldes, apenas 5% controlava 90% da riqueza do Estado. A partir daí, criamos uma estratégia baseada na idéia de Celso Furtado de que desenvolvimento está relacionado com inclusão social.

B.N - Por tudo, a campanha vitoriosa de Wagner foi a mais desafiadora?
Sidônio Palmeira - Foi sim. Foi uma grande campanha e um grande desafio. Agora, também tivemos situações emocionantes como em Vitória da Conquista, onde nosso adversário tinha 72% das intenções de voto e nós tínhamos 9%. Mesmo assim, viramos o jogo.

B.N - Hoje, na Bahia, quais são as principais fontes de receita das agências de publicidade?
Sidônio Palmeira - Bom, aqui o nosso mercado é formado fundamentalmente pelo varejo e serviços. Ainda produzimos pouco na Bahia. Temos um pólo petroquímico que não tem produtos manufaturados. Isso é um problema para o mercado publicitário baiano, porque a publicidade é um reflexo da economia. Mas, a situação demonstra sinais de melhora.

B.N - Você concorda que durante uma crise o investimento em publicidade se torna supérfluo?
Sidônio Palmeira - Quando a economia vai mal, nós somos os primeiros a sentir. Qualquer retração na empresa, os investimentos em publicidade são quase que automaticamente reduzidos. Na verdade, o ideal seria que o inverso acontecesse: maior dificuldade, mais publicidade. Mas, infelizmente, as pessoas ainda não têm essa compreensão. Não dá para tratar a publicidade como algo supérfluo. Antigamente aqui na Rua Chile os comerciantes colocavam nas vitrines das lojas “Não damos esmolas, nem aceitamos reclames”. Reclames era publicidade. Para você vê, a publicidade era comparada ao ato de pedir esmolas.

“Quanto à internet, acho que a legislação deveria ser mais aberta. (...) As pessoas precisam ser informadas. É preciso controlar limites, mas a internet não é uma concessão pública.”

B.N - Quase uma atividade marginal.
Sidônio Palmeira - Isso mesmo! Tivemos um avanço muito grande. Hoje as pessoas entendem que a propaganda é a alma do negócio. Olha Daniel, hoje vivemos um momento bom na Bahia porque a economia vem crescendo. Mas, a nossa publicidade vive basicamente do setor privado.

B.N - Sidônio, havia um grupo que controlava a publicidade institucional aqui no Estado?
Sidônio Palmeira - Não era bem assim. Apesar de apenas uma grande agência centralizar os maiores recursos, se não me engano, outras quatro também tinham uma parcela de participação. Mas, isso acaba sendo natural. Existia uma crítica em relação à Propeg, mas se você for ver, no governo Waldir Pires era uma agência que atendia. Não há nada de errado nisso. Hoje, quatro empresas atendem a conta do governo do Estado. A legislação não proíbe essa prática. É bom ressaltar que os preços das agências são iguais para todos os clientes.

B.N - Por falar nisso, você acredita que as mudanças na legislação eleitoral que proibiram a realização de “showmícios” e a manutenção de sites na internet impuseram restrições ao trabalho das agências de publicidade? 
Sidônio Palmeira - Quanto aos chamados “showmícios”, eu achei uma medida interessante. Nesse caso, muitas vezes o poder econômico valia mais do que qualquer outra coisa. Uma grande atração enchia de gente qualquer comício, o que acabava dando vantagens ao candidato. Então, acredito que essa proibição deu igualdade de condições a todos. Quanto à internet, acho que a legislação deveria ser mais aberta. Você vê nos Estados Unidos, por exemplo, o Barack Obama fez um bom trabalho de divulgação na rede e ganhou as prévias graças à internet. Acho que não se pode limitar isso. Até porque não há como controlar o fluxo de informações na internet. As pessoas precisam ser informadas. É preciso controlar limites, mas a internet não é uma concessão pública.

B.N - Então, o trabalho das agências foi prejudicado?
Sidônio Palmeira -Sim. Posso dizer que nossos recursos foram limitados. É preciso ter cuidado para não valorizar demasiadamente o poder econômico, mas é preciso fazer uma coisa de forma ponderada. Hoje os sites estão crescendo, vide o “Bahia Notícias”.

B.N - Como você vê o cenário da sucessão municipal na capital?
Sidônio Palmeira -
O cenário é muito interessante! Pela primeira vez, nós temos quatro candidatos com força para chegar no segundo turno. Só para você ter uma idéia, na eleição para o governo do Estado nós sabíamos que seria uma disputa de “cano curto”.


"Panelinha é um pequeno grupo que detinha alguns privilégios, enquanto a grande maioria ficava excluída. Então, achamos que esse apelo cairia bem, já que vínhamos de um governo que não promovia a inclusão social e não tinha uma abertura política. (...) Lembro que, isso é até inusitado, mas várias pessoas do grupo do Paulo Souto gostavam do jingle"

B.N - Quer dizer que você tinha certeza que a eleição seria decidida no primeiro turno?
Sidônio Palmeira -
Tinha! Sabíamos que a eleição seria polarizada entre Paulo Souto e Jaques Wagner. Os outros candidatos eram fracos e não tinham condições de pontuar bem. Tínhamos clareza disso e trabalhamos para o primeiro turno. Wagner sabia que a eleição seria resolvida no primeiro turno.

B.N - E por que os institutos de pesquisa mostravam o contrário?
Sidônio Palmeira -
Isso quem tem que explicar são eles.

B.N - Voltemos à sucessão em Salvador.
Sidônio Palmeira -
Então, temos quatro candidatos fortes. Um campeonato precisar ter grandes times para ser bom. Um jogo entre uma equipe forte e outra sem grandes jogadores não enche estádio. Parece até a Champions League, onde apenas os quatro melhores chegam às finais.

B.N - E qual dos candidatos pode ser comparado ao Manchester United, atual campeão da Champions League?
Sidônio Palmeira - Temos boas equipes e grandes craques em todos os times (risos).  

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