Rui Costa: Incompatível quem vem estar junto com oposição acirrada ao governo -11/06/2008
Foto: Rogério Rocha
"É incompatível alguém que vem para o governo e, em municípios importantes, está junto com aqueles que fazem oposição acirrada ao governo"
Por Cíntia Kelly
Bahia Notícias - Como ficaram as negociações com o PR, após o partido ter anunciado o apoio à candidatura de ACM Neto à Prefeitura de Salvador?
Rui Costa – Nós temos uma discussão com a direção do partido e a outra com as bancadas federal e estadual. Antes de o senador César Borges assumir a presidência do partido, as negociações estavam caminhando bem e rapidamente. Nós tínhamos feito 2/3 das conversas, quando houve a mudança da direção partidária. O clima interno do partido não ajudava, e as conversas ficaram hibernadas por conta disto. Passado o tempo, retomamos as conversas. Desde o primeiro momento, disse que nós havíamos iniciado diálogo com a direção anterior e a bancada federal e estadual cuja conversa gostaríamos de manter no ritmo que vinha, que qualquer combinação deveria ser legitimada pelos deputados estaduais e federais. Pedimos que tudo que fosse conversado fosse legitimado pelas bancadas. Havia, desde a época da mudança da direção, uma falta de sintonia da direção do partido e da bancada. Além disso, nós entendemos que num partido as pessoas são bem vindas quando entendem a justeza e correção do projeto e querem se incorporar a ele. Quem vem tem que vir de corpo e alma. Não significa não fazer sugestões, observações, significa construir junto este projeto. Ele, ao vir, tem que repercutir na sociedade o projeto. Então, é incompatível alguém que vem para o governo e, em municípios importantes, está junto com aqueles que fazem oposição acirrada ao governo. Não é compatível. Imagine ter no governo alguém que vai subir em um palanque e fazer campanha com alguém contra o governo, querendo derrotar o projeto. Uma coisa é você analisar um ou outro município, exceções que podem ser toleradas em função da dimensão do estado, da falta de definições e prazo legais, outra coisa é um município de expressão com espaço de TV e rádio. Essas duas posições ou condicionantes colocamos desde o início com o PR e com outros partidos também. As duas coisas nunca foram resolvidas, por isso a demora que muitos atribuem à falta de rapidez do governo. Na verdade foi a não resolução disso que resultou na demora. Os deputados sempre foram muito claros de que estão associados ao projeto e fizeram as suas observações com mudança de rumos. A direção do partido nunca deu demonstração clara e tácita que estaria no projeto de corpo e alma. Isso nunca foi definido claramente. Queríamos definir antes de tomar a decisão final. O partido está com o governo e a direção contra. Aí vem a pergunta: e por que não abandonou a negociação com César? Imagine compor com a bancada no primeiro escalão e no dia seguinte a direção do partido dizer que não apóia o governo. Não tem solução intermediária. Era preciso resolver problemas internos do PR para que pudesse ter sucesso a conversa conosco. E essa sempre foi a nossa insistência. Nós não queríamos nos meter nos problemas internos, mas queríamos que as conversas com a direção fossem legitimadas pela bancada. O problema que aconteceu não pode ser debitado na nossa conta, o governo não pode resolver o problema interno dos partidos.
BN - Antes de o PR apoiar ACM Neto, o partido indicou o nome de Pedro Alcântara para uma secretaria. Por que o governo vetou?
RC – Não houve vetos. Quando César Borges assumiu a presidência já tinha começado a negociação com o partido, com o nome do deputado Elmar Nascimento. Para haver a mudança de nomes, nós pedimos que a nova indicação fosse legitimada pela bancada. Antes de Pedro, o PR apresentou o nome de um técnico (Eduardo Santos). E procedemos da mesma forma. Queríamos que o partido, ouvindo os deputados, legitimasse a indicação. Queríamos que fosse uma legitimação pela maioria, não pedimos a unanimidade.
BN - E como ficou a relação com a bancada do partido na Assembléia Legislativa, por exemplo?
RC - A relação com a bancada continua boa. O deputado Elmar é um importante quadro político, com experiência na Assembléia Legislativa. Há a expectativa de que ele possa contribuir com o governo.
BN - Como e em que lugar?
RC - Temos que resolver esse imbróglio. Não é compatível ter um partido no governo e na capital ele apoiar o adversário do governo. Não imagino como seria esse palanque. O DEM fazendo oposição cerrada ao governo e do lado César Borges compondo uma secretaria de governo. É algo que não é compatível. Vamos tentar ver os desdobramentos disto. Acho que há um incômodo grande de vários deputados com a decisão da direção do partido. Há três soluções na minha avaliação. Ou eventualmente muda a direção para ficar compatível com os deputados; ou os deputados e a direção se entendem ou pode haver a saída dos deputados para outro partido. São três soluções possíveis.
BN - No caso de uma eventual mudança no comando do PR baiano, há alguma movimentação do governo para que a direção nacional do PR promova essa substituição?
RC – O governador tem postura de respeito às outras instituições. Não mete a mão nos partidos para fazer mudanças da correlação de força para beneficiar o governo. Nós não temos legendas controladas pelo governo. Nós não iremos fazer gestões para mudar os partidos. Os parlamentares não devem pedir permissão ao governo se acharem isto conveniente. Acho que a posição do PR prejudica o partido, a construção dele no estado, prejudica a bancada, mas não cabe a mim ou ao governo mudar essa realidade. Cabem aos deputados se movimentarem para mudar a realidade.
BN - Quando o senador César Borges passou a presidir o PR, a relação com o governador Wagner não era das melhores. Como estava a relação dos dois nos últimos tempos? O governador falou com o senador sobre a possibilidade de ele apoiar algum candidato da base?
RC – O governador recebeu o senador há um mês, aproximadamente, para falar sobre a vinda do PR ao governo. Fizemos o máximo para consolidar isso. São deputados valorosos, prefeitos importantes. Foi falado que queríamos que o PR tivesse o peso e a dimensão que merece e isso seria feito por meio de uma secretaria. Nós fomos muito claros, mas ele nunca deixou claro a sua incorporação ao nosso projeto. Disse isto a ele, na última conversa que foi na segunda-feira (2), num café da manhã.
BN – Então, um dia antes do anúncio do apoio do PR ao DEM vocês já sabiam.
RC - Não. Eu recebi no domingo (1) um telefonema falando desta possibilidade. Então, pensei: se é verdade, ele vai me ligar para dizer que o café da manhã está suspenso, ou, por educação, vai optar por dizer pessoalmente durante o café da manhã. Fui ao café da manhã e se isso fosse verdade aguardarei. Nada foi dito, ao contrário. A conversa inteira foi de acelerar a conversação. Disse que da nossa parte poderíamos encerrar naquele dia e poderíamos anunciar no mesmo dia ou no dia seguinte, ou na quarta para dar tempo de reunir prefeitos, deputados. Ele voltou a falar de nomes. Menos o de Elmar. Disse a ele que não teria vetos. Falei para ele apresentar três nomes e o governador escolheria um. Ou apresentasse o nome de um, que fosse legitimado pelas bancadas. Nós saímos da reunião e na minha compreensão era de que isto seria feito. Ainda disse: ‘me permita a intromissão, mas hoje, que é um segunda, vai ser fácil encontrar a bancada aqui em Salvador. Uma reunião com as duas (federal e estadual) resolveria o problema e anunciaremos logo’. Isto não foi feito e ele ligou dizendo que dois deputados não tinham veto ao nome de Pedro Alcântara. Disse a ele que não se tratava de veto, até porque veto em político é um péssimo hábito. Precisava legitimar pela bancada. Esse foi o último contato que tivemos. Fiz contato com os deputados avisando da conversa com o partido, do que foi combinado. Os deputados, então, aguardaram a consulta. E ela não aconteceu. O que aconteceu foi que no final da tarde de segunda foi distribuído pela direção do partido um release convocando para coletiva no dia seguinte, terça-feira (3). A partir daí suspendemos a conversa com a direção do partido. Ainda no café da manhã, ele perguntou o que o PR deveria fazer em Salvador (em relação a apoios).
BN – Além de senador, ele é um ator?
RC - Não sei.
BN - Houve traição?
RC - Não. Acho que ele como presidente do partido impediu que o PR construísse uma nova trajetória na Bahia, e fizesse parte desse novo projeto político, talvez por estar preso ao passado. Ele ficou prisioneiro do passado e se negou a construir o futuro. Vou continuar abraçando os deputados, prefeitos e lideranças que queiram um novo jeito de fazer política, vamos continuar prestigiando, mas a relação institucional com o partido está suspensa.
BN – Depois do episódio vocês voltaram a conversar?
RC – Depois tudo o que ficamos sabendo foi pela imprensa. Não cabe a mim julgar se houve traição, o que importa para nós é preservar a relação com os deputados. Discutir com deputados solução de parceria com ele, de participação mais efetiva no governo e vê os desdobramentos do futuro do PR.
BN – Tudo bem que o PR seja um partido dividido, ainda com pessoas muito ligadas ao carlismo. Mas com relação ao PP, o que houve?
RC - O PR é maior do que o PP na bancada federal e nos queríamos concluir os dois processos juntos. O governador já tinha dito que não faria alteração no secretariado com menos de um ano de governo. Uma saída não diz respeito à eficiência, mas à necessidade de compor. Portanto, a partir deste ano se tornou possível, como queríamos fazer os dois de vez, de certa forma conduzimos o ritmo da mesma forma. Do PP não houve nada que atrasasse, porque há unidade. Já conversamos mais uma vez com a direção do PP, mas está breve o anúncio.
BN –Breve quando?
RC - Nos próximos dias.
BN – Mas secretário, esses próximos dias já têm alguns meses.
RC - Mas seria deselegante falar alguma coisa com o governador viajando.
BN - Qual é a secretaria?
RC - Não vai demorar para saber. E uma questão de hierarquia e em breve ele (Wagner) vai fazer o anúncio. Já está concluída a conversa com o PP.
BN - Ele volta quando?
RC - Na sexta, mas deve falar na segunda-feira.
BN – O Sr. tem sido criticado sempre em off, é claro, pela demora nas negociações ou por falhas em processos entre deputados e o governo. Qual é a sua culpa em tudo isso?
RC - A minha função é um pouco essa. É de fazer interlocução política e quando há impedimento falar e dizer não. A mim serão atribuídas todas as críticas, recebo-as com naturalidade. Quando o governador me chamou, ele próprio disse "os melhores amigos são chamados para as tarefas mais difíceis e penosas", e relatou a experiência que teve em Brasília quando foi Ministro da Articulação. Disse que eu seria responsabilizado pelos conflitos políticos que acontecessem na base do governo. Fui vacinado quanto a isso.
BN - O PT vai perder sessenta filiados em Itabuna, que vão migrar para o PSL, com o aval do PMDB. A impressão que passa é que o PMDB é mais ágil do que vocês do PT. Outro exemplo é a Frente de Esquerda que o partido disse querer construir, mas já perdeu partidos a exemplo do PTB e PPS, que apóiam, respectivamente, João Henrique e Antonio Imbassahy. Vocês estão perdendo o bonde da história eleitoral de Salvador?
RC - Sobre articulação de candidatura não cabe a mim fazer julgamento, cabe aos presidentes dos partidos e candidatos.
BN - Mas como membro do PT, o que o Sr. pode falar sobre isto?
RC - Não tem virtudes e nem defeito. A riqueza da humanidade está nas suas diferenças. O que faz uma rosa vermelha ser bonita é ela nascer e brotar de um arbusto verde. O que faz a beleza é o contraste. Os partidos são diferentes, formados diferentes. O PT tem formação com laço forte na sociedade organizada, em segmentos de esquerda organizados, tem a cultura política de debater as coisas antes de consagrá-la. No estatuto do PT ficou clara a diferença entre o governo e o partido. O governo precisa andar em um ritmo mais rápido do que o partido. Se você perguntar se no passado qualquer ditador agia rápido, sim, ele não consultava ninguém. Na democracia você exerce o poder do diálogo. Cada partido tem um jeito de ser. Não tem certo ou errado, cada um tem a sua realidade. Essas características trazem vantagens e desvantagens. Não consideramos que perdemos o PTB, porque o PMDB também faz parte da base do governo. Acho que a demora atrapalhou muito e têm dois partidos que se soubessem logo que o candidato era Pinheiro teriam ficado conosco, que são o PP e PSC, até pela afinidade de Pinheiro com os dois partidos. O governador chegou a cobrar publicamente mais agilidade do PT para tomar decisão. O governador já disse que têm três candidaturas da base, a de João Henrique, de Imbasahy e Walter Pinheiro. Agora podem ser quatro, caso Olívia continue, embora acredite que vamos resolver e o PCdoB estará conosco.
BN - Já está virando piada essa história de frente ampla de esquerda. O PMDB já está chamando de frente fria. Esse tipo de coisa não o incomoda?
RC - Não. Eu acho que essas cutucadas são naturais, que cabem ou não ao partido responder. Isso faz parte da disputa política, os partidos vão disputar espaço. Nós só temos feito um apelo para que os partidos façam uma disputa em alto nível e evite ataques pessoais e o desgaste, porque vamos continuar convivendo após as eleições. As agressões devem ser evitadas. Uma ou outra brincadeira faz parte do jogo. Desde que não seja ofensiva, como esta não é. O desejo do governador e que só vimos se materializar em poucos municípios é que a base estivesse unida. Conversamos com o PT e o PMDB que deveriam respeitar os espaços originários da campanha. Na campanha (2006) o PMDB tinha 22 e o PT 20 prefeituras. Propusemos isto e não foi aceito pelos partidos. Onde era o espaço originalmente do PT, o PMDB devia apoiar o partido e vice-versa. Salvador, obviamente, não entra nisto. Mas não foi isso que foi registrado.
