Ildes Ferreira: "Intenção do governador é transformar Secti num instrumento a serviço da sociedade" - 18/02/2008

"A intenção do governador é transformar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação num instrumento a serviço da sociedade"
Por Daniel Pinto
Bahia Notícias - A escolha de um sociólogo foi uma tentativa do governador Jaques Wagner em dar um ar menos tecnocrata as políticas públicas do Estado na área de Ciência e Tecnologia?
Ildes Ferreira – Não, eu acho que não é bem assim. Podia ser uma pessoa da área de Ciência e Tecnologia e não ter uma postura tecnocrata. O secretário é, antes de tudo, um gestor. Não é preciso ser um físico pra entender a importância da Física pra sociedade. Portanto, acho que essa não foi a intenção do governador.
B.N - Neste primeiro ano do governo Wagner muito se falou em herança maldita, em alguns casos até sem justificativas. Mas, qual foi o quadro que o Sr. encontrou na secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI), principalmente no que diz respeito à estrutura administrativa e a qualidade/eficiência dos projetos em andamento?
Ildes Ferreira – A verdade é que existiam muitos projetos, mas poucas coisas concretas. Vou te dar um exemplo: existe um projeto do Ministério de C&T chamado Centro Vocacional Tecnológico (CVT). O Estado de Minas Gerais tem mais de 60 funcionando, o Ceará tem mais de 40 e a Bahia não tem nenhum. O dinheiro foi disponibilizado pelo governo federal desde 2005, mas nunca tinha sido aplicado. Nós inauguramos o primeiro CVT da Bahia no ano passado, em Feira de Santana. Então, existiam projetos, mas faltava vontade política. O Parque Tecnológico, por exemplo, já existiam folders espalhados pelo mundo inteiro, mas não havia nem sequer um terreno, área escriturada, nem ao menos licença ambiental.
Ildes Ferreira – Verdade. Havia muita publicidade, mas nada concreto. No passado, a secretaria existia para o governador, para a academia e para os grandes empresários. Era um espaço muito restrito. A intenção do governador foi transformar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação num instrumento a serviço da sociedade.
B.N - Como foi a concepção do Parque Tecnológico da Bahia e quando ele vai se tornar uma realidade?
Ildes Ferreira – Olha, nós reunimos os principais setores interessados na construção do Parque, que são o governo, os empresários e a academia. Com a ajuda de todos, o projeto ganhou uma nova cara. Podemos dizer que o Parque Tecnológico é uma grande locomotiva para promoção da Inovação do Estado da Bahia. Nós temos o projeto, já conseguimos o espaço físico, fizemos e escritura e, agora, vamos lançar as licitações para as obras de infra-estrutura. As obras devem começar em 30 dias e a nossa expectativa é que no final de 2009 o Parque já esteja funcionando em pleno vapor.
B.N - O Parque vai funcionar como centro acadêmico, como incubadora de projetos ou terá um perfil empresarial? Quais setores serão privilegiados?
Ildes Ferreira – Tudo isso ao mesmo tempo. O Parque foi concebido para ser um centro gerador de Inovações Tecnológicas. O objetivo é dar suporte para a produção acadêmica, pra depois disso, dar viabilidade aos projetos para que eles sejam incorporados à economia do Estado. Queremos contribuir para uma maior interação entre a pesquisa e o desenvolvimento, entre a academia e os empresários.
B.N - Mas, no Brasil, o conhecimento acadêmico não é muito fechado em si mesmo?
Ildes Ferreira – Infelizmente, isso é verdade. A academia continua com o monopólio do conhecimento e construiu um muro entre ela e a sociedade. O nosso esforço é pra que esses muros sejam derrubados e o dinheiro aplicado em pesquisas gere conhecimento e riqueza pra toda sociedade. Acredito que o Parque Tecnológico vai permitir essa caminhada, que os investimentos vão chegar aos empresários, aos estudantes, investidores, baianas de acarajé, enfim, a toda sociedade.
B.N - Qual a posição que a Bahia ocupa em relação ao desenvolvimento de pesquisas científica?
Ildes Ferreira – No Brasil, o nosso patamar não é bom. Não há como negar isso. Mas, nós defendemos uma política diferenciada de recursos do governo federal. Pra você ter idéia, 70% desse recurso vai pro eixo Sul-Sudeste. Agora, em relação ao Nordeste, nós estamos numa posição boa. Já superamos Pernambuco, por exemplo, na quantidade de doutores. Também tivemos avanços significativos. A Bahia está longe de ser considerada um centro de excelência, mas estamos progredindo.
B.N - Mas, para que haja liberação de verbas do governo federal, não é necessário que os Estados tenham projetos Executivos e que lutem pelos recursos?
Ildes Ferreira – Você está coberto de razão. Mas, nós temos 18 projetos no Ministério de C&T e, até o final do mês, vamos enviar mais 10. O governador Wagner sabe disso e, juntamente conosco, vai batalhar para a liberação dos recursos.
B.N - Então, o que falta mesmo é um política de distribuição mais igualitária?
Ildes Ferreira – Sem dúvida. É necessário um pacto federativo. A lógica do Ministério ainda é perversa.

B.N - E o que nosso Estado tem de melhor nesta área? Qual a vocação da Bahia no campo da Ciência e Tecnologia?
Ildes Ferreira – Olha Daniel, nós temos um potencial extraordinário. Nós ainda não conhecemos o potencial na caatinga e da mata atlântica no que diz respeito à biotecnologia. Temos potencial no campo das energias renováveis, do etanol, da energia solar, etc. Tudo isso precisa ser objeto de estudo. Vou te falar uma coisa: o pião manso gera biodisel com produtividade bem maior do que a mamona. Mas, nós ainda não temos conhecimento suficiente para iniciar a produção. Não se pode iniciar a plantação de pião manso sem ter segurança no controle de pragas e nem na qualidade do extrato final. Temos potencial para energia, ambiente, biotecnologia, farmacologia, genoma, tecnologias da informação, etc.
B.N - O Sr. falou em biotecnologia, mas qual é mesmo a representatividade da Bahia nesta área, que é considerada estratégica pelo governo federal?
Ildes Ferreira – Pra nós também é uma área estratégica, tanto que é uma das prioridades do Parque Tecnológico. Também temos boas perspectivas para um programa nessa área, para este ano, inclusive com convênios internacionais. Agora, o que nós queremos é mudar o conceito de utilização disso. Não queremos gerar conhecimento para fazer livros, mas, principalmente, como alternativa para geração de riqueza. Deixa eu te dar um exemplo: nós temos uma infinidade de plantas que a fitoterapia utiliza na cura de enfermidades, mas não temos pesquisas científicas que comprovem tais fatos e também que reproduzam o principio ativo dessas plantas em laboratório. Outra coisa: há 15 dias uma pessoa do sertão nos garantiu que o pai dela foi curado de diabetes utilizando mandacaru.
B.N - Volta e meia nós ouvimos casos como esses.
ldes Ferreira – Pois é! Precisamos levar esse conhecimento empírico para o laboratório para que haja uma comprovação científica.
B.N - Aí o Sr. entra em outro campo, que é a biopirataria. Sabe-se que cientistas de outros países já patentearam produtos típicos do Brasil. Se não me engano, o açaí – que é um símbolo Pará - foi patenteado pelos japoneses. Há uma preocupação do governo Wagner para controlar a biopirataria em nosso Estado?
Ildes Ferreira – Claro que sim! Inclusive, nós não sabemos o que já está patenteado, mas é preciso uma preocupação extra em relação a isso. Pra você ter idéia, os americanos patentearam a rapadura. Um absurdo! Olha, vou te falar em primeira mão: o governo pensa em criar um fundo para o registro e hospedagem de patentes. Mas, o único impedimento são os custos. Ainda é muito caro registrar uma patente e mantê-la.
B.N - Aproveitando o ensejo, vamos abordar outra questão polêmica: apesar dos avanços na democracia e no campo científico, ainda existe - principalmente nos países de tradição católica, como Itália e Espanha - o grande paradigma de como desassociar as pesquisas dos dogmas religiosos. A religião continua sendo um entrave, por exemplo, para avanços de pesquisas com células tronco?
Ildes Ferreira – Pode sim. A cultura religiosa tradicional pode trazer dificuldades para os avanços de pesquisas dessa natureza. Agora, já tivemos muitas conquistas. Mas, com bom senso, vamos superar essas dificuldades. Eu sou cristão e defendo as pesquisas com célula tronco. Acredito que a ciência está a serviço da vida.
B.N - A SECTI tem alguma responsabilidade sobre a gestão do Museu de Ciência de Ciência e Tecnologia da Bahia, no Imbuí? Ele pode ser considerado um centro de excelência na conservação do patrimônio histórico e científico do Estado?
Ildes Ferreira – Não. A gestão é responsabilidade da Uneb. Olha, o museu – que é o único do Estado - é importantíssimo para preservação do nosso patrimônio. Sabemos das dificuldades por que ele passa. O Museu de Ciência de Ciência e Tecnologia da Bahia deveria ter uma estrutura melhor, ter mais visibilidade, ampliar o número de visitas.
B.N - É preciso fazer um up-grade naquele museu.
Ildes Ferreira – Pois é! Estamos atentos a isso e estamos dispostos a ajudar.
B.N - Pra finalizar, o que o Sr. acha da transposição do São Francisco? Há viabilidade técnica no projeto? O nordeste setentrional vai ser realmente beneficiado?
Ildes Ferreira – Acredito que a transposição é uma alternativa possível dentre tantas outras. O governo poderia optar em fazer pequenas barragens e cisternas. Mas, o mais importante é que é preciso levar água pra quem precisa. Poucos sabem, mas Salvador é alimentada por água transposta da barragem de Pedra do Cavalo. Não sou técnico da área, mas considerando que temos que socorrer aquele povo, a transposição tem que ser feita.
