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Entrevistas

Entrevista

Cláudio Silva defende a geração de emprego como o principal desafio para a próxima gestão - 29/08/2016

Por Rebeca Menezes

Foto: Luiz Fernando Teixeira / Bahia Notícias

O sonho possível. É assim que se classifica Cláudio Silva, candidato à prefeitura de Salvador pelo PP. Nome menos evidente na política dentre os sete postulantes, o ex-superintendente da Superintendente da gestão de João Henrique defende a geração de emprego como o principal desafio para a próxima gestão. Silva explica, em entrevista ao Bahia Notícias, as suas propostas para áreas estratégicas da administração pública como saúde e educação, e não economiza em críticas ao atual prefeito. "Salvador é conhecida por alguns como a 'Roma Negra', em alusão ao fato de ser a cidade mais negra fora da África, que consegue juntar todo esse espectro de tradição da  cultura afro. E o prefeito atual esqueceu que era a 'Roma Negra', deixou os negros de lado - assim como aconteceu com sua vice-prefeita agora - e tornou apenas Roma: cobrar muito imposto e fazer muita festa para o povo sorrir. É a política do pão e circo. Pão bem pouquinho, porque não tem emprego, e muito circo", ironizou. Questionado sobre quais qualidades o próximo prefeito de Salvador tem que ter, ele crava: conhecimento de administração e de gente. E, para ele, sua chapa contempla as duas exigências: "Eu sou o sonho possível. Eu peguei ônibus cheio, brinquei de pé no chão. Então o prefeito de Salvador tem que ter sido testado nesse processo de mobilidade social para fazer com que outras pessoas encontrem em seu exemplo a esperança para chegar lá."

Quais são os principais desafios para o próximo prefeito de Salvador?
O principal desafio do prefeito de Salvador é a geração de emprego, resolver o problema da atividade econômica. E isso se relaciona com diversos seguimentos da gestão e da sociedade. Salvador vive hoje um verdadeiro caos no campo do emprego. Nós somos campeões, entre as capitais, do desemprego. Uma cidade que tem índice de desemprego de 18%. Isso é inadimissível. É bom lembrar que em 2012, ou seja, antes da entrada do atual prefeito, esse índice estava em torno de 6%. Triplicou. Pra se ter uma ideia do que significa isso na cidade, Salvador tem cerca de 3 milhões de habitantes. Com uma taxa de 18%, nós estamos falando de algo em torno de 540 mil pessoas desempregadas hoje. Zumbis perambulando pela cidade, tentando encontrar alguma esperança, pra ter uma renda, pra sobreviver. Em termo de comparação, são dez Fontes Novas cheias de gente desempregada. Então é preciso criar um mecanismo para que o emprego surja naturalmente na cidade. E existe sim essa possibilidade. A gente vê que a atual gestão se preocupou com fundamentalmente com obras. Achou que o turismo era o elemento capaz de resolver a questão da falta de emprego, ou ao menos a distribuição de renda na cidade. Isso não se resolve dessa maneira e não se resolveu. Não é colocando pessoas vendendo cerveja - definida pela prefeitura - em uma caixa de isopor durante cinco dias de festa que vai resolver. Não é também ampliando o período de festas e diminuindo o tempo produtivo de outros segmentos da sociedade. É preciso gerar mecanismos pra incentivar a geração de capacidade produtiva de forma intensiva. Além disso, existem outros problemas bem significativos. E educação é um grande problema. Se você não qualifica as pessoas, elas não conseguem chegar ao mercado de trabalho. Nessa facilidade de circulação que a gente tem no Brasil, e até mesmo a abertura que nós temos para receber outros povos, essas pessoas concorrem com a mão de obra não qualificada daqui de Salvador. Então percebemos que os caminhos devem seguir nessa direção, como qualificar a nossa população, com uma educação de qualidade, com propostas de qualificação serviços... Que não é pensar que essa população deve ser treinada para ser pedreiro,  eletricista, carpinteiro... Não é isso. Nós temos que pensar, dentro da visão de economia criativa. Nós temos um talento natural do nosso povo. O soteropolitano tem essa capacidade musical, cultural está no sangue da gente. Observe que quando você fala em berço de cultura, se remete rapidamente para Salvador. Então é buscar mecanismos para que a economia criativa venha resolver essa questão difícil e fundamental, que é a questão do emprego. Um grande exemplo foi o encerramento da Olimpíada, quando as ganhadeiras de Itapuã foram lá fazer uma apresentação de algo que muita gente sequer ouviu falar. Então imagina uma riqueza daquela, uma coisa maravilhosa, e precisou uma outra cidade pesquisar, identificar e levar para o mercado. Quantas apresentações podem surgir para esse grupo? Isso é pensar em economia criativa. E Salvador, nos últimos anos, não pensou nisso. Se ateve apenas em fazer obras. Talvez obras signifiquem um passaporte para um projeto específico de poder: Eu fiz tal obra, eu estou qualificado para ser governador, presidente da República. Não é esse o propósito que se tem que ter em mente quando se quer ser prefeito de uma cidade como Salvador. Você tem que procurar resolver os problemas do povo. E o maior desafio não é a mobilidade urbana, não é educação, o maior desafio é o emprego. Também não é saúde. Porque quando ela tem emprego ela se alimenta melhor, se cuida melhor e fica menos doente. Então o emprego é o maior desafio, claro que conjugado com diversos outros, que são mobilidade, educação, saúde, turismo, o reconhecimento cultural.

 
Em 2012, a pauta da eleição foi centrada na administração do ex-prefeito João Henrique, com candidatos negando qualquer relação com o ex-gestor e muitas críticas. Houve alteração no cenário em relação à atual administração?
Eu acho que um pouco. Não houve uma alteração muito grande. Até porque os problemas permanecem os mesmos. Se você for analisar, as promessas dos candidatos em 2012 eram ligadas fundamentalmente à mobilidade. E os engarrafamentos estão aí. Era em relação a estacionamento, e as cobranças de estacionamento estão aí. Eram problemas sobre saneamento básico e você não viu nenhuma grande obra de infraestrutura em relação a isso. Teve em relação a acidentes. Na administração anterior você não teve nenhum acidente envolvendo encostas, na atual gestão você teve um com vítimas fatais. E a cidade está toda coberta com plástico e lona de demolição de uma forma muito vergonhosa. Não houve uma ação direta, os problemas são os mesmos. E o modelo de operação é exatamente o mesmo. A atual administração não se diferencia muito do que foi a anterior. Primeiro por conta das pessoas que a integram. Se você for analisar, quantos são os gestores da administração anterior que permaneceram agora? São muitos os que são ligados ao primeiro escalão ou à equipe de apoio, ou da base na Câmara de Vereadores e que integraram a gestão do antigo prefeito. Não houve também um pensamento ligado à mudança da orientação da aplicação do recurso. O que houve foi um aumento estrondoso da arrecadação por causa de uma política arrecadatória que a atual administração resolver empreender. Salvador é conhecida por alguns como a "Roma Negra", em alusão ao fato de ser a cidade mais negra fora da África, que consegue juntar todo esse espectro de tradição da  cultura afro. E o prefeito atual esqueceu que era a "Roma Negra", deixou os negros de lado - assim como aconteceu com sua vice-prefeita agora - e tornou apenas Roma: cobrar muito imposto e fazer muita festa para o povo sorrir. É a política do pão e circo. Pão bem pouquinho, porque não tem emprego, e muito circo. Aumentando o carnaval em mais uma semana, uma festa no meio do ano, aparentemente pra atrair pessoas, mas que não resolveu o problema. Os hoteis estão fechando, porque não têm um volume turístico que justifique a permanência dos equipamentos, ou talvez não tenha apoio da gestão municipal para resolver algumas questões. Então a gente entende que os problemas são os mesmos. Claro que em uma ou outra questão houve solução de alguma situação, mas no campo da execução foi focada em obras similares às feitas na gestão passada. A Avenida Centenário foi uma grande obra. Você vai dizer que foi uma obra desastrosa? Ninguém criticou. Vai dizer que a obra no Imbuí não foi importante? Foi importante. Vai dizer que a obra que acabou com o alagamento no Itaigara não foi importante? Teve a praça Ana Lúcia Magalhães e diversas outras intervenções que também foram feitas. Agora existe na atual administração um benefício que é provido por um orçamento elástico. Quando você tem um orçamento de R$ 6 bilhões, você tem R$ 60 milhões pra fazer publicidade por ano. Só pra efeito de comparação, o governo do estado tem R$ 100 milhões, pra fazer pra 417 municípios. Então com 3 anos e meio, você colocando na mídia as obras, inaugurações... É claro que você vai dar sensação de que houve uma transformação.

O município é responsável por serviços básicos ao cidadão, especialmente na área de Saúde e Educação. Quais os entraves a serem vencidos nessas áreas prioritárias?
Na área de saúde, você fundamentalmente aumentar a cobertura do programa de saúde da família. Salvador tem apenas 35% de cobertura, é uma das piores da Bahia e talvez uma das piores do país. Segundo você tem que trabalhar com a possibilidade de criar hospitais ou clínicas especializados. Salvador é uma cidade que envelhece e você não tem um hospital do idoso. Você precisa seguimentar e ter, por exemplo, a UPA da criança. É preciso ter unidades básicas de saúde que tratem de questões seguimentadas. Você acaba tratando todo mundo misturado. Por outro lado, questões como entrega de medicamento em casa ou prontuário eletrônico precisam ser resolvidas. No caso da educação, ela precisa ser tratada de forma muito mais especial. Você não pode olhar pra educação simplesmente como um processo produtivo, porque você lida fundamentalmente com a esperança e a trajetória das pessoas. A educação tem que ser mudada radicalmente. Primeiro, você tem que colocar no centro o aluno, ao lado dele o professor. E não há reconhecimento do professor na atual administração. Você vê que eles quase não tiveram aumento, enquanto na administração anterior foram mais de 100% de aumento aos professores. Então você tem que pensar que o processor está no centro desse processo. Reformar escolas é importante, mas nós precisamos ter uma política mais voltada para o que é realmente o problema, que é a qualificação e a remuneração dos professor e uma assistência de retaguarda como  o que nós estamos propondo, que é o Núcleo de Assistência ao Docente, em que você vai ter fonoaldiólogos, terapeutas ocupacionais, ginástica laboral, orientação para uso da voz. Nada disso existe, muito pelo contrário. O Centro de Aperfeiçoamento de Professores, ali na Pituba, está fechado, abandonado. Eles deixaram ruir, o telhado caiu, está cheio de mato. 
 
As transferências diretas da União, via FPM e outras fontes, sofreram quedas nos últimos anos. Como administrar a máquina com escassez de recursos? O aumento da arrecadação do município não acompanha o aumento das despesas, como resolver esse problema?
A única forma é incrementar a atividade econômica, criar situações para isso. Porque quando você incrementa a atividade econômica, você também aumenta a arrecadação do município. Você não precisa aumentar a alíquota, tem que aumentar a quantidade de contribuintes. E isso acontece gerando oportunidades. E pelo contrário, o que você vê aqui, é uma política caótica de perseguição ao empresariado. A prefeitura posiciona o empresário como inimigo, ter lucro é errado. Não pode ser desse jeito. Você tem que juntar a prefeitura com o empresariado e aí você vai esquecer das muletas e da esmola que você tem do FPM ou dos fundos que reforcem o funcionamento da máquina pública. E diminuir a máquina pública. Salvador não precisa ter a quantidade de secretarias que tem. É um absurdo. Tem muitas atividades de informatização que podem ser feitas de forma conjunta. Você pode reduzir custos com locação de espaço. Muito pelo contrário, uma quantidade enorme de assessores com salários altos. É por isso. Uma máquina cara, que não consegue arrecadar e parte somente para o imposto pesado como forma de arrecadação, e sufoca aquele que traria de uma outra forma o recurso. Se você tenta tirar um alvará, é uma dificuldade enorme. Você tem que ajudar o empresário a tirar o alvará, porque isso encrementa a economia. Isso que a prefeitura tem que fazer. E não ficar sentadinha, aumentando imposto e colocando assessores caros, pra garantir que você tenha recursos para fazer obras que vão te catapultar em uma situação x ou y.

O relacionamento com outros entes federativos é essencial para a administração pública. Como trabalhar de maneira harmônica em prol dos interesses da cidade – ainda que grupos políticos distintos administrem tais entes?
É muito simples. É você entender que dinheiro público é público, não tem dono. Ele não é do estado e não é do município. Eu não entendo por que, até hoje, não houve uma adesão da prefeitura de Salvador à Entidade Metropolitana. Foi criada uma entidade pra integrar todos os municípios da Região Metropolitana e você começar a ver o que pode ser feito por um em benefício do outro, e a prefeitura de Salvador simplesmente não aderiu. Todos os demais municípios se juntaram e Salvador ficou de fora por causa de uma disputa política, não de gestão. Então enquanto houver disputa política, você não vai poder fazer o que a cidade realmente precisa. O cidadão não quer isso. Quando ele elege o prefeito, ele pensa em um síndico da cidade, em alguém que vai cuidar por quatro anos daquela administração. Ele não pensa em alguém que vai sair daqui a dois anos para tentar uma outra carreira. Ele quer alguém que fique pra cuidar da cidade. E isso é fundamental porque, se a pessoa está ali para cuidar da cidade e não tem outro projeto, vai se interligar com quem está acima e trazer os recursos. Existe um esforço muito grande do governo do estado. Observe as grandes obras de mobilidade em Salvador. Imagine tirar todas as obras que foram feitas pelo governo do estado. Vamos tirar: o metrô, a duplicação da Avenida Pinto de Aguiar, da Avenida Orlando Gomes, a Fonte Nova, a Concha Acústica, o sistema viário do Imbuí. Vamos tirar tudo isso e ver se Salvador volta a sorrir. Não volta. Então esses recursos aplicados pelo governo do estado na cidade fazem parte também da assistência ao cidadão. Então é por aí que a gente tem que construir. Sem um alinhamento com o governo estadual e federal, nós não vamos conseguir absolutamente nada.

Salvador apresenta índices de desemprego acima da média nacional. Como minimizar tal número? Quais áreas devem ser consideradas prioritárias para geração de emprego e renda?
A área prioritária é a economia criativa. Você entender que determinadas coisas podem ser produzidas por certas áreas e gerar recurso econômico. Nós queremos criar os Círculos Regionais de Desenvolvimento. A prefeitura licitouo recentemente a construção de um hospital em Cajazeiras. As pessoas que vão trabalhar nessa obra moram onde? Pode ser que tenha um em Pero Vaz, outro na Palestina, outro no Subúrbio, outro em Itapuã... Vão ter que se deslocar para Cajazeiras. Isso é normal. Nós precisamos criar, nessas licitações, a obrigatoriedade de que parte da mão de obra seja contratada no local. Cajazeiras é o conjunto de bairros mais populoso de Salvador. Por que não buscar essa mão de obra lá? Que tal depois que o hospital começar a funcionar, toda equipe de limpeza ser da região? Ou a equipe de manutenção? Da mesma forma em uma escola, em uma quadra. Você vai desenvolver dois sentimentos: primeiro, o incremento da atividade econômica; o segundo, o carinho de quem está ali naquela comunidade, pra cuidar daquele equipamento, certamente diminuindo até o custo de manutenção. Outra coisa. Salvador deve ter investido nos últimos quatro anos algo em torno de R$ 1 bilhão em manutenção. Imagine tomar um quarto disso, R$ 250 milhões. Divida isso por quatro anos, você teria cerca de R$ 60 milhões. Se você dividir por 12 meses, são R$ 5 milhões. Se contratar um profissional por R$ 1 mil, você tem 5 mil empregos na cidade. Agora imagine a criação de um programa de primeiro emprego em que a prefeitura entre com metade do salário e um empresário com a outra metade. Eu vou criar dez mil empregos. Então a gente tem que pensar diferente, pensando nas pessoas. E não em obras, em demarcar construções pra mostrar que foi capaz de fazer e ter o que mostrar em outros desafios eleitorais. Eu penso diferente.

O próximo prefeito de Salvador precisa de quais qualidades ao chegar ao cargo?
A primeira delas é conhecer a administração pública. Alguém que não conhece vai dar trabalho para aprender durante o curso. Salvador é a terceira maior cidade do Brasil, tem um orçamento vultuoso. Então a gente não pode colocar algum aventureiro na cadeira, alguém que tenha bravatas pra falar ou que tenha só experiência política. "Eu sei contratar os melhores". Isso não vai funcionar. Nós temos que colocar quem tem competência em gestão. Eu acho que a reforma política deveria impor que os prefeitos devam ser habilitados em um curso de gestão e, só depois, poder concorrer. Tem pessoas que se você perguntar o que são procedimentos simples, é capaz da pessoa não conhecer essa rotina. Então primeiro tem que conhecer a máquina pública. Segundo, conhecer de gente. Uma pessoa testada no mundo real e não cheia de teorias. E eu me credencio nessa questão por um motivo simples: eu nasci muito pobre, numa comunidade pobre de Salvador, filho de funcionários públicos. E eles entenderam que a educação é o caminho. Através da educação, eu consegui me graduar, pós-graduar, três mestrados, me tornar professor, empresário e chegar a essa condição de ter experiência de gestão e poder devolver à minha cidade um caminho para esses jovens que não tiveram tantas oportunidades. Eu sou o sonho possível. Eu peguei ônibus cheio, brinquei de pé no chão. Então o prefeito de Salvador tem que ter sido testado nesse processo de mobilidade social para fazer com que outras pessoas encontrem em seu exemplo a esperança para chegar lá.

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