A crise vivida pelo Brasil fez com que a economia se tornasse um dos principais assuntos discutidos pela população. Mas ainda há muitas informações desencontradas sobre a situação que o país de fato atravessa e muitas incertezas sobre o futuro. Em entrevista ao Bahia Notícias, o economista André Luzbel explica quais são as perspectivas do mercado financeiro para os próximos anos e o que uma eventual mudança de governo pode gerar. Sócio da Bahia Partners e planejador financeiro, Luzbel avalia que os escândalos com grandes empreiteiras do país, envolvidas na Lava Jato, acabaram afastando os investidores internacionais, mas que ainda há muito potencial a ser explorado, principalmente em um momento de crise. "O Brasil tem um potencial enorme. Se você for olhar principalmente o setor de infraestrutura, energia ou construção civil, há ainda inúmeras possibilidades de investimento. Mas falta confiança", defende. O economista conta ainda como as altas taxas de juros fazem os investidores brasileiros, e principalmente baianos, terem um perfil mais conservador, mas acredita que dicas simples podem mudar esse quadro.
Como planejador financeiro, há uma perspectiva de melhora no quadro econômico brasileiro? Quando é que você acha que isso deve acontecer?
A gente está passando por um momento meio complicado nos últimos anos, com medidas do governo que impactaram diretamente na nossa economia. A gente vem passando por dois anos de recessão, com 2016. Foi complicado, mas foi muito bom pra quem investiu. Nós tivemos a maior taxa de juros nos últimos dez anos, essa alta na inflação impactou na taxa Selic - a taxa básica de juros -, e que fez com que os poupadores de recursos, os investidores, tivessem uma melhor rentabilidade. O futuro é sempre imprevisível. Nós não sabemos o que irá acontecer nos próximos meses, nos próximos anos. A gente preza sempre pela visão de longo prazo. Baseado nas suas necessidades, você pode traçar algumas estratégias de investimento. Sim, o momento é difícil, mas tudo tende a melhorar. A economia é cíclica. Então se você for analisar as últimas décadas, essa não é a primeira crise que a gente viveu, nem vai ser a última que iremos viver. O momento é muito propício, porque você tem diversas oportunidades. A crise faz com que surjam diversas oportunidades, diferente do momento de euforia, como foi em 2007, 2008. Nós acreditamos que o momento é difícil, mas existem sim oportunidades para o futuro, tanto na economia real quanto no mercado financeiro.
Uma eventual mudança de governo, que é iminente nesse momento, tem impacto direto no mercado econômico?
Sim, totalmente. O mercado é um reflexo direto da política econômica e, logicamente, do momento político que o país está passando. O grande problema do governo foi que ele gerou uma expectativa muito ruim tanto para o consumidor quanto para o investidor. Houve retração em investimentos, em consumo. Então uma mudança política pode trazer novos ares ou uma motivação maior. Perceba que, só em se falar em uma alternância de poder, de partido político, a economia já começa a melhorar. A gente viu nas últimas semanas o dólar caindo de R$ 4,50 pra R$ 3,60, a bolsa sair do seu pânico de janeiro. Vimos a inflação caindo um pouco, muito por causa do desemprego. Então uma mudança política pode trazer, sim, uma melhora econômica. Não no curto prazo. Eu acredito que vai levar um tempo pra gente se recuperar, algo um pouco diferente da "década perdida", que foi a década de 1980, que a gente demorou alguns anos pra voltar a realmente crescer com estabilidade. Mas tudo depende muito da equipe econômica que assumir. Se fala muito que, se [Michel] Temer assumir, podemos ter o [Henrique] Meirelles, o Armínio Fraga, que foi o ministro da Fazenda de FHC [Fernando Henrique Cardoso]. São nomes que são pró-mercado. Quando eu falo pró-mercado, são nomes que estão com alguns empresários do lado. Naturalmente, um empresário mais confiante investe mais, gera mais emprego. Mas tudo depende da expectativa e do que esses futuros ministros irão fazer.

Você acompanha o mercado. Até que ponto a investigação de grandes empresas, como a Petrobras e a Odebrecht, reflete nessa crise econômica?
Principalmente na expectativa e na visão do investidor estrangeiro. Nós temos um mercado muito fechado. Não só o que a gente viu na Lava Jato, que é o setor da construção civil, mas possivelmente nós temos um "eletrolão', porque o setor elétrico é muito fechado. O setor bancário é muito fechado, se você for contar os grandes bancos privados nós temos poucos. Então quando o investidor estrangeiro olha pro Brasil, ele vê poucas referências de capital privado. A gente ainda tem uma mão muito pesada do governo. Quando você vê grandes empresas como Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez envolvidas em escândalos, isso acaba afastando o investidor internacional. É como se você olhasse pra Rússia, pro México, pros Estados Unidos, e visse grandes empresas passando por um processo de corrupção. O que hoje tem poder de levantar a economia? Principalmente o capital internacional. É muito difícil você ter um país muito fechado. Quanto mais aberto ele for, mais ele se desenvolve.
Em diversos momentos, os aliados do governo apontam que a crise internacional foi o que provocou a derrocada da economia brasileira. Existe lógica nesse raciocínio?
O Brasil demorou um pouco pra sentir a crise de 2008, mas ela bateu. E quando ela chegou aqui, foi com mais intensidade, porque se misturou também com todo esse processo de corrupção, do Mensalão e da Lava Jato. Acontece que hoje a gente tem um fenômeno, em que países tem a taxa de juros negativa. A Suíça, se você colocar 100 francos suíços na conta e não fizer nada na conta, no final do ano você vai ter 98. O mundo está cheio de dinheiro e ávido por juros. E o Brasil hoje tem a maior taxa de juros e não consegue atrair capital internacional. Eu diria que não tem muita ligação, mas acaba impactando. A grande questão é que hoje você tem a Europa crescendo um pouquinho, em torno de 1%, o que com o PIB que eles possuem já é um grande crescimento. Estados Unidos já voltaram a crescer. A crise "passou", entre aspas porque sempre vai existir crise. Quando nós estivermos em uma situação favorável, provavelmente vamos falar em uma crise internacional, e vice-versa. A gente teve impacto da crise internacional, mas a crise internacional já passou. Hoje eles já falam de outra crise, que não a dos EUA. Então nós estamos perdendo um grande momento, em que o mundo está com muito dinheiro na mão, procurando onde investir, e não investem no Brasil por causa dos riscos institucionais e governamentais.
Em um cenário de crise, surgem possibilidades de investimento. Como está a busca por essas opções?
O Brasil tem um potencial enorme. Se você for olhar principalmente o setor de infraestrutura, energia ou construção civil, há ainda inúmeras possibilidades de investimento. Mas falta confiança. Como investidor, você faria um investimento de dez, vinte anos no Brasil? Grandes empresas, como a Odebrecht, têm planejamentos de cem anos. Mas no Brasil eles conseguem concretizar? Dificilmente. Então falta ao investidor a certeza de que no Brasil ele vai investir aquele dinheiro e a regra não vai mudar no meio do jogo. Esse é o grande problema. O setor elétrico, por exemplo: em 2013/2014, um setor rentável até então, e o governo interviu, congelando as tarifas e até forçando as empresas a reduzirem as suas tarifas. Se imagine como esse empresário: a partir desse momento você não pode aumentar o preço do seu produto -mesmo havendo demanda para tal. E isso gerou desinvestimento e o empresário preferiu ir pra outro país ou apostar no mercado financeiro.

Quais são os perfis de investidores mais comuns entre os baianos? O mercado local é mais conservador ou prefere arriscar mais?
O mercado brasileiro ainda é muito cômodo, principalmente pela alta taxa de juros. Se um americano tiver hoje US$ 100 na conta e no final do ano vai ter US$ 101, ele procura sempre investimentos mais agressivos, pensa em montar um negócio, correr o risco pra ter um retorno maior. Aqui no Brasil não. Nós temos uma taxa de juros de 14,5%. Então o investidor ainda é muito conservador por isso. Hoje você consegue multiplicar o seu capital por dois em aproximadamente 08 anos, sem muito esforço, emprestando pro governo. Eu costumo falar que a nossa cultura até hoje é de credor: melhor emprestar do que ser empreendedor e correr o risco trabalhista e o risco do próprio negócio. Então não só os brasileiros como os baianos ainda são muito conservadores. Existe uma mudança de pensamento já no Sul e Sudeste, que é fugir dos bancos comerciais, porque a principal função deles é pegar dinheiro barato e emprestar dinheiro caro. Te entregar na poupança 6% ao ano e emprestar a 5% ao mês no cheque especial. Mas existem instituições no Sul e Sudeste falando: "você não precisa emprestar apenas para os grandes bancos. Você pode emprestar diretamente pro empresário, para bancos médios ou pequenos, que você tem um maior retorno". No Nordeste e no Norte você percebe que a busca por novos investimentos ainda é muito pequena. A pessoa ainda prefere deixar muito dinheiro na poupança, sendo que em um primeiro momento você teria o governo te pagando quase o dobro do que o banco te paga.
Aqui na Bahia, quais são as oportunidades de investimentos que as pessoas têm e acabam deixando passar?
Na economia real, hoje o brasileiro tem um perfil muito empreendedor. Os dados que nós temos são de que milhares de empresas morrem em menos de cinco anos. Então as pessoas querem empreender, mas sentem dificuldades seja por conta do governo ou da própria cultura. Você tem diversos setores com grandes oportunidades. A gente está passando por um momento de grande dificuldade no varejo, mas percebemos que as grandes empresas dessa área gostam da crise, porque elas têm dinheiro em caixa e é na crise que você acaba "limpando" o setor. Naturalmente vão surgir outras oportunidades: o setor de infraestrutura, pra investidores maiores, porque é um setor que ainda é muito carente no Brasil; o setor de serviços, que ainda precisam ser qualificados; setor de educação, que talvez seja um dos que mais cresceu nos últimos anos e que sofreu um grande baque com a mudança da regra do FIES. Na economia real, eu diria que quase todos os setores têm oportunidades. Claro que o governo acaba dificultando a entrada de novas empresas em algumas áreas por conta da forte regulação e impostos. No mercado financeiro, você tem hoje o governo te pagando 14% ao ano, o que faz com que um banco tenha que te pagar mais do que isso. Se você empresta pra um banco, vai ter 15%, 16%. Se você empresta para um empresário, ele tem que te pagar 18%, 19%. Então é uma oportunidade de você fazer o seu capital andar cada vez mais rápido, ter bons rendimentos. Nenhum país consegue viver com uma taxa de juros tão grande. Então se o Brasil realmente quiser crescer, naturalmente essa taxa vai cair e os investidores do mercado financeiro vão ter cada vez menos rendimentos. É na crise que se faz mais dinheiro.
Se você pudesse dar uma dica simples de investimento para os nossos leitores, qual seria?
Investimento é muito particular. Você tem pessoas que são mais agressivas por natureza ou pessoas que são mais conservadoras. A minha dica é: nunca sejam 100% renda fixa ou 100% renda variável. O melhor equilíbrio que você pode ter nas suas aplicações é alocando uma parte no variável - e aí vai depender do perfil do investidor. Ele pode ter 60% ou 80% de renda fixa, que é aquele valor que vai usar a curto ou médio prazo, pra trocar um carro ou comprar um apartamento, e o restante em renda variável, nem que seja 10% do seu capital. O Brasil tem essa anomalia de ganhar muito dinheiro emprestando (renda fixa). Mas quando a economia se desenvolve, quem mais ganha dinheiro são os empresários. Então você hoje pode ser acionista de um banco, comprando ações, pode ser acionista de lojas varejistas, sócio de empresas do setor de automóveis, como pode abrir seu próprio negócio. Essa estratégia é interessante pelo seguinte: se a gente passar por um momento difícil, como foram os últimos anos, aqueles 10% que você colocou em ações vai virar 8%, 5%, só que você tem um colchão em renda fixa que vai fazer com que você aumente sua aquisição em renda variavél. E você vai comprando na baixa do mercado, no pânico. Em algum momento, a economia vai voltar e aqueles 10% vão virar 15%, 20%, e aí você pode vender as suas ações e realocar novamente na renda fixa. Então você não precisa ficar olhando diariamente suas ações. Basta que você tenha esse controle semanal, mensal, trimestral.