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Entrevistas

Entrevista

Guilherme Bellintani enumera projetos que estarão ainda relevantes daqui a dez anos - 22/02/2016

Por Fernando Duarte / Rebeca Menezes / Alexandre Galvão

Fotos: Luiz Fernando Teixeira/ Bahia Notícias

Responsável por comandar a Educação no município de Salvador, Guilherme Bellintani enumera projetos que, segundo ele, estarão ainda relevantes daqui há dez anos. De acordo com o chefe da pasta, programas como Agente da Educação, Nossa Rede e Combinado aproximam a escola dos alunos e dos pais. Em pouco mais de um ano à frente da secretaria, Bellintani afirma ter conseguido abrir mais de 20 mil vagas no ensino na educação infantil e espera que, nas próximas duas gestões, a cidade termine com o “drama” das creches. Para isso, no entanto, Salvador tem que atingir a marca de 80 mil vagas. “Se os prefeitos tivessem feito este trabalho e os secretários também, nós não teríamos esse drama. Se as próximas duas ou três gestões continuarem o nosso trabalho, isso acaba”, estimou. Com um trabalho considera exitoso pela própria prefeitura, Bellintani reafirma que, ao final da atual gestão, voltará para sua vida privada. “Eu preciso voltar para minhas empresas. Eu gosto do que eu faço, mas preciso voltar para minha vida”, sintetiza.

Qual a avaliação eu o senhor faz do tempo que o senhor está na secretaria de Educação?

A gente chegou em janeiro de 2015, depois de dois anos à frente de um outra secretaria que era muito menor, em termos orçamentários, mas importante para a cidade – que era a Desenvolvimento, Turismo e Cultura. Foram dois anos que aprendi a lidar com a coisa pública, pude cometer erros e acertos. Cheguei na secretaria de Educação já mais ou menos preparado e mais íntimo com as coisas públicas. Eu acho que 2015 foi muito produtivo, pois conseguimos acelerar processos que precisavam ser acelerados e constituir novos processos. Fiz um balanço disso tudo, e colocamos 12 projetos importantes ao longo desse primeiro ano. Faço uma avaliação muito positiva deste primeiro ano.

Um destes projetos é o Nossa Rede. Quais os avanços que a administração municipal já conseguiu?
Acho importante falar antes do Combinado, que é um programa mais geral, que selecionou 112 ações junto às escolas e elas foram eleitas como prioritárias. Nestas 112, cerca de 80 dizemos respeito à iniciativa da secretaria. Destas, está entre elas a instituição de um novo projeto pedagógico. Aí nasceu a Nossa Rede, que tem participação de toda rede de ensino. A rede de Salvador estava acostumada com materiais comprados pronto de grandes editoras. Rompemos esse processo e constituímos uma comissão com quatro mil professores e os resultados dessas reuniões são os cadernos pedagógicos que entregamos essa semana. Por isso que eu digo que o Nossa Rede vem surpreendendo positivamente a todos que participaram do programa.

Todas as escolas da capital usam o material do Nossa Rede?
Sim, a gente permanece dando a autonomia à escola de escolher o seu programa, mas, até agora, não soube de nenhuma escola que não incorporou o material do Nossa Rede. Mas, se assim a escola quiser, a gente vai respeitar essa identidade e dando o auxílio necessário.

Você falou que o Nossa Rede nasceu de um amplo debate com a escola. Como foi esse processo?
Começou em março. Nós contratamos o Instituto Chapada de Educação e Pesquisa (Icep), que é um grupo da Chapada Diamantina que conseguiu em dez municípios da Chapada um grande avanço na educação dos municípios, inclusive na Prova Brasil e provas mais objetivas. Os professores aprovaram, em assembleia, a contratação da consultoria e aprovamos também um calendário de trabalho nas dez regionais, tivemos encontros de matemática e português, as plenárias e esse processo foi se fortalecendo por conta de uma plataforma na internet, aberta, que poderia ser acessado em tempo integral. Março do ano passado eu recebi um editora e eu disse que não compraríamos material para 2016 e o representante, com muita delicadeza, me disse que a gente não conseguiria e que seríamos irresponsáveis. E hoje, a gente distribui um material com excelente impressão gráfica, bom como os melhores livros nacionais e internacionais, e com a cara da cidade.

Isso resultou numa diminuição de custo?
Sim, eu não falo muito do custo, pois não acho que deva ser o foco. A redução de custo é algo que é consequência de quando você tem o direito autoral. Se você compra um livro por R$ 100 reais, a impressão e tinta custam menos de 20% do valor vendido. Então, a partir do ano que vem, a gente tem o direito autoral, roda quantos a gente quiser, como quiser, e só paga vamos pagar a impressão. Vamos ter uma redução de custo estimado em R$ 8 milhões, por ano.

Além do Combinado e do Nossa Rede, a secretaria fez também o projeto Agente da Educação. Já tem algum dado que mostre que, após o programa, a frequência dos alunos melhorou?
Ele foi um programa pioneiro em Salvador. Fomos a primeira cidade. Baseado no programa agente de saúde. O programa coloca, em cada escola, um agente de educação que é responsável por fortalecer o vínculo entre os alunos, as famílias, a comunidade e a escola. Esse profissional, quando o aluno falta muito, ele contata a família e pergunta qual o motivo. Um aluno faltar seguidamente a escola, ele é forte candidato ao abandono escolar. Então, quando o agente visita você, ele se sente mais importante. Tem um elemento prático e simbólico. Ainda não temos um resultado, pois só vamos ter agora, depois da matrícula. O agente da educação é um estudante universitário de Pedagogia que mora na comunidade.

No início da sua gestão, você disse que queria abrir até 40 escolas em 2016. Ao mesmo tempo, aparecem boatos de fechamentos de escola. Isso é real?
Nós só fechamos duas escolas desde que entrei na pasta. Uma no subúrbio e outra em Valéria. Elas foram fechadas pela grande impossibilidade delas continuarem sendo escolas. Então, como você mesmo falou, qualquer notícia nesse sentido não passa de boato. A grande necessidade de ampliação da rede é nas creches. Essa, sim, é uma lacuna nossa que precisamos ampliar muitas. Das 40 creches que pretendemos ter até o final de 2016, são 31 construções e 9 alugueis. Cinco alugueis já foram alugadas e 13 já estão sendo iniciadas. Isso vai fazer com que nós saiamos de 20 mil vagas para 40 mil vagas da educação infantil.

Recentemente, em Vitória da Conquista, o governador da Bahia criticou a cobertura da educação infantil em Salvador e elogiou o correligionário dele, o prefeito de Vitória da Conquista. Até que ponto essa afirmação está amparada na realidade?
Olha, é absolutamente irreal. Nós começamos a gestão com 20 mil vagas e vamos terminar com 40 mil. Essa cobrança tem que ser feita a todos os prefeitos que antecederam o prefeito ACM Neto. Se os prefeitos tivessem feito este trabalho e os secretários também, nós não teríamos esse drama. Se as próximas duas ou três gestões continuarem o nosso trabalho, isso acaba.

Qual o tamanho do déficit hoje?
Temos, hoje, em lista de espera, 12 mil crianças. Só temos 20 mil vagas e estão preenchidas, então, em tese, com 40 mil nós estaríamos completando a lista, mas isso não é verdade, pois, quando você abre vagas, as pessoas que estão próximas das creches acabam querendo. Tem gente que nem entra na lista de espera, pois não tem esperança. Então, nós calculamos que umas 70 mil vagas seriam ideais. Por isso que disse: se as próximas gestões continuarem com as ampliações, nós acabamos com esse drama.

Essas prováveis ampliações custarão quanto para o município?
Os custos naturalmente aumentam, e aumentam muito. Hoje temos um orçamento de R$1,2 bilhão e, apenas 1/3 vem do Fundeb. O restante, nós que pagamos. O que acontece com isso na prática e que quanto mais avançamos na rede, mais o custo aumenta. Temos outra situação preocupante que é o pagamento de pessoal: 87% do orçamento é investido em custeio de pessoal. Por isso, até, que o prefeito em 2015 investiu 27% do orçamento na educação.

Qual a opinião do senhor sobre a merenda escolar premiadas pelo MEC? O senhor já provou, é gostosa?
Já experimentei. Em Ilha de Maré, o que foi escolhido como símbolo da merenda de Salvador, eu comi. Eu sempre visito as ilhas, é importante falar das ilhas. São nove escolas dos municípios nas ilhas, mas elas sempre foram vistas como elemento à parte, mas nós invertemos isso e, para mim, foi muito bom ver a merenda de uma delas ser indicada como uma merenda símbolo. A merenda escolar tem alcançado resultados bons, mas eu sempre digo que precisa melhorar sempre. Tem alto impacto na presença do aluno, na frequência pedagógica. Um aluno que acaba indo para a escola por conta da merenda, tem tendência a ter um maior aproveitamento pedagógico quando a merenda é de melhor qualidade.

Tem algum projeto específico para melhorar a qualidade nutricional?
Nossa merenda já tem uma qualidade nutricional muito boa. Temos, na secretaria, 11 nutricionistas que acompanham o cardápio das escolas. Temos avaliações do MEC premiadas. Nos nossos índices, a merenda está sempre de forma muito destacada. Elegemos como prioridade. Acho que o melhor prato que temos é aquele que traz a refeição do dia-a-dia, da cidade. Temos referência como o abará, a moqueca e que servimos nas escolas e tem admiração.

Último ano da atual gestão do prefeito ACM Neto. Ficou alguma coisa que o senhor gostaria de fazer e não conseguiu?
Ah, várias. Se eu for olhar a lista do que eu queria fazer e não fiz, eu vou morrer. Entrei na secretaria emjaneiro de 2015 e a gente e teve, até agora, um ano e, no final dessa conta toda, teremos dois anos. Todo programa que fazemos na secretaria, nós olhamos para os dez anos. Nos perguntamos: será que daqui há 10 anos vão lembrar disso? Então, nossas ações são no sentido se ver como os projetos vão ser avaliados. Temos procurado projetos como dobrar as vagas de educação infantil, o agente da educação... então, dentro desse aspecto, me incomoda muito o compartilhamos excessivo da administração das escolas. Dentro da estrutura pública, parece que administrar uma escola foi feito para dar errado. Então, o que ainda me incomoda, é não conseguir instituir um sistema de gestão que não dependa muito do famoso “enxugar gelo”. Conseguimos reduzir um pouco isso com o Simplifica – que coloca um aporte na conta da escola e ela faz o uso que achar mais adequado.

Você espera continuar na secretaria?
Não. Pelo seguinte, quando o prefeito em chamou, eu tive uma reação muito positiva. Tenho um trabalho como professor, como empresário reconhecido. Eu não tinha contato com o prefeito, ele encontrou um amigo nosso em comum num avião e ele disse que precisava de um secretário. Então meu amigo, o Fredie Didier, passou meu número e o prefeito me ligou. Dois ou três dias depois nos encontramos, conversamos e me coloquei à disposição por quatro anos – se ele quisesse me tirar no primeiro mês, poderia. Eu fui o último secretário a ser convidado e assumi um compromisso com ele, com meus sócios, com minhas empresas. Eu tenho uma limitação prática, objetiva. Eu preciso voltar para minhas empresas. Eu gosto do que eu faço, mas preciso voltar para minha vida.

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