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Entrevistas

Entrevista

Ney Campello faz balanço da realização da Copa do Mundo na Bahia - 14/07/2014

Por Maria Garcia / Evilásio Júnior

Fotos: Luana Ribeiro/ Bahia Notícias
O Mundial de Futebol acabou e resta a dúvida quantos aos resultados do torneio para a Bahia. O secretário para Assuntos da Copa da Fifa 2014 (Secopa), Ney Campello, mostra em primeira mão o balanço do evento esportivo em entrevista ao Bahia Notícias e acredita no “legado” para o estado. O apanhado de informações inclui ocorrências policiais, transporte, cambistas, a utilização do aeroporto e do porto, mesmo sem a conclusão das reformas, o projeto Gol Verde e a avaliação da Fan Fest (após discordâncias entre prefeitura e governo antes da celebração do evento). Para ele, o principal legado foi o sucesso do torneio, principalmente da imagem do baiano, quando comparada às expectativas não muito animadoras nos preparativos. “O resultado acabou sendo, inclusive, potencializado do ponto de vista positivo por conta da falta de lastro de fundamento daquilo que foi a campanha difamatória do país”, comenta o titular da Secopa, que é filiado ao PCdoB, partido que comanda o Ministério do Esporte no plano nacional. Ao final, o evento para o secretário foi exitoso.
 

Bahia Notícias: Acabou a Copa. Qual é a avaliação que você faz do evento aqui em Salvador pelo olhar da Secopa?
 
Ney Campello: Eu considero que nós realizamos um evento que trouxe resultados importantes, inclusive alguns inesperados. O primeiro deles foi a própria reestruturação do país perante o mundo. Isso não era algo planejado. Ocorre no momento em que influencia uma soma de fatores, como as manifestações de junho de 2013 aliadas a uma campanha difamatória do país tocada por setores da grande imprensa e com apoio explícito de alguns deputados e senadores. Todos sabem dos depoimentos que foram dados e viam o insucesso da Copa como um trampolim político eleitoral para este ano. A Copa foi organizada em cenário muito difícil, muito tenso. E o resultado acabou sendo, inclusive, potencializado do ponto de vista positivo por conta da falta de lastro de fundamento daquilo que foi a campanha difamatória do país. Foi tão forte e despropositada que a realização da Copa ter dado certo potencializou a imagem do país perante o mundo. Não é por outra razão que as pesquisas realizadas no mundo inteiro apontam que foi a melhor das Copas. Por que essa empatia tão grande com o resultado? Primeiro por esse primeiro fator: criticou-se tanto o país, criou-se uma expectativa tão negativa, que a Copa ter sido demonstrada diferente potencializou. Segundo resultado é que nós tivemos na Copa uma afirmação do país. O povo brasileiro a ganhou. O deputado [federal] Romário (PSB) é um dos maiores críticos da Fifa e da CBF e foi da Copa. Em quatro anos de entrevistas que já vi dele se repetia a mesma coisa: já perdemos a Copa fora de campo, vamos ganhar agora dentro de campo. O que aconteceu foi o contrário. Ganhamos a Copa fora de campo e a perdemos dentro de campo, porque não teremos o hexacampeonato. E ganhamos a Copa fora de campo porque o povo ganhou. Isso não é demagógico. Não vale a pena eu elencar uma dezena de legados materiais que a Copa está deixando. Nenhum é mais importante que este traço distintivo da hospitalidade brasileira e união entre as nações que a população brasileira produziu. Se não tivesse tido isso, não valeria a pena todos os estádios estarem prontos, aeroporto funcionando, já que perderíamos a alma brasileira na Copa. Essa é uma prova inequívoca de que o futebol é uma paixão nacional e, por isso, a mais popular do país e que a população, independentemente das criticas e sanções relacionadas à saúde e a educação, mergulhou na Copa para receber bem. Além da afirmação da imagem, houve essa grande celebração. E acho que isso marcou. Acabei de ler uma matéria da Abih (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia) dizendo que Salvador e Porto Seguro foram consideradas as cidades mais alegres, festivas, de melhor culinária e hospitalidade no Brasil. E essa foi a marca que ficou. Nós vimos no Centro Histórico os Filhos de Gandhy vestidos de laranja. A torcida holandesa, os cinco mil, caminhando em direção à Fonte Nova junto com os baianos e soteropolitanos... Este é o traço distintivo da cultura baiana que ficou para o mundo.
 

 
BN: E as questões concretas? Como ficarão de legado para o nosso estado?
 
NC: Bem, este legado é o que esperamos que se constitua na principal estratégia de governo pós-Copa para levar o capital construído em bens e serviços no campo do esporte para fora dele. É o que se espera agora. Por que fizemos se achássemos que ia ser concluído quando acabasse o último jogo? Foi apenas um sonho de inverno? Não será, caso toda a tecnologia desenvolvida na Copa do Mundo e se todo o legado, inclusive da integração e articulação de instituições que fez com que o evento desse certo no campo da saúde e da segurança, fosse continuado e se tornasse algo efetivo para o cotidiano da cidade. E isso depende da competência do governo. O carnaval era uma coisa e agora é outra. Porque transformou uma manifestação espontânea em uma indústria organizada do carnaval. A Copa foi um grande evento e é preciso transformar a espontaneidade do povo brasileiro que fez desse evento um espetáculo grande e fazer disso uma resposta àquelas manifestações que não se podem deixar ao largo e ficar esquecidas. O fato de a gente não ter tido manifestação em 2014 não pode ser argumento para entender que a população brasileira não diz sim à Copa dizendo não às criticas que têm em outros serviços públicos. Aprendemos com a Copa (Neste momento, Ney Campello liga o seu tablet para acessar as informações do balanço). Em telecomunicação, deixa-se como legado a estrutura da (empresa de telefonia) Oi que existe no interior da Fonte Nova, uma área extremamente generosa ocupada por equipamentos da Oi. Eu tenho um dado que foi detectado pelo cônsul da Suíça, especialista nesta área. No momento de pico de velocidade, a Fonte Nova chegou a 46 MB de download e a 42,72 de upload. Ele disse: 'isso eu não vi em estádio da Suíça'. A energia garantiu a integridade da transmissão. A central de ingressos que funcionou plenamente no Shopping Iguatemi e o resultado desse trabalho foi a presença de 300.674 expectadores, o que representa uma ocupação de 95% do estádio. Os jogos variaram entre 51 mil e 48 mil torcedores. A capacidade líquida foi de 53 mil. Mobilizamos 13.231 policiais federais estaduais e da Guarda Municipal. A incidência foi de 346 ocorrências policiais por delito envolvendo turistas.
 
BN: Quais foram os tipos de ocorrências policiais?
 
NC: A principal, cerca de 70%, foram pequenos furtos. Quase 19% foi roubo, quando há emprego de violência. Isso soma 90% dos delitos. Os demais são muito insignificantes, que representam ameaças, tráfico de drogas, comércio informal, resistência à policia, este último muito por alcoolismo. Mostra que todo o processo da Copa foi de calibragem, aprimoramento. Tivemos 40 cambistas detidos no primeiro jogo. A policia mapeou os locais de presença de cambistas e, no último jogo, não teve nenhum cambista no perímetro exclusivo da Fifa. 
 

 
BN: E em relação ao transporte público para chegar ao estádio? Sabemos que o trânsito foi bastante caótico.
 
NC: Primeiro, eu quero registrar o sucesso do metrô. Tivemos uma operação que nos surpreendeu. Não exagero, pessoas que tiravam foto e aplaudiam o metrô, e eu estou falando da classe média. Porque quem vai para o estádio e paga R$ 150 é a classe média. Aplaudiram o metrô e a estação. 
 
BN: Pessoas daqui de Salvador, não? Que viram pela primeira vez o metrô andar...
 
NC: Não apenas. Houve pessoas de fora também que o elogiaram. Em uma das nossas clipagens, um passageiro disse que o metrô está mais limpo e mais estruturado do que o de Chicago, nos Estados Unidos. Ele foi bem feito e bem construído. Se estivesse sujo, eu estaria criticando. Foram 61.722 embarques durante este período de jogos, considerando idas e retornos. Foi um elemento de suporte à circulação, o que evoluiu no plano operacional para o estádio. Uma das medidas tomadas envolvendo o metrô e a prefeitura foi a burocratização para a entrada do metro. Tanto que eu dei um depoimento na rádio porque o chefe de gabinete da Sedur (Secretaria de Desenvolvimento Urbano), Eduardo Copello, disse que não exigiriam a credencial e, no mesmo dia que eu depus pela manhã, a policia reiterou que não aceitava por questões de segurança e, por isso, retornaram ao procedimento de pedir o pré-cadastro. Foi uma questão que não apenas provocou fila, sobretudo no Shopping Bela Vista e no metrô, como prejudicou o acesso ao estádio. Reteve todo mundo e eles chegaram na última hora, o que fez fila na catraca. Isso fez com que, nos jogos subsequentes, a gente dispensasse aquela questão do cadastro de grupo de pessoas. Está aí um item que nós ajustamos, assim como o da internet que, no primeiro dia, não funcionou bem, como também ajustamos o item de alimentos e bebidas. Em relação a comida e bebida, não acabou operando bem. Colocamos cinco pesquisadores para saber a avaliação do estádio e o item comida e bebida foi a nota mais baixa. Mas isso é operação Fifa. Tudo que tiver dentro do estádio é operação Fifa. Desde o dia 21 de maio, quem operou foi a entidade e quem entrava lá era de sua responsabilidade. Já tínhamos uma relatoria na Copa das Confederações dizendo que a seção de alimentos e bebidas não ia bem. Eles introduziram mecanismos de alimentação, nos quais era evidente que quem fez aquele procedimento não sabia nada de estádios, que seria aquela fila em que se é obrigado a pagar e pegar todos os alimentos no momento, não em sistema de fichas. Mas o que penou também foi a falta de alimentos. Já o transporte, do ponto de vista operacional, funcionou bem. Entre a evacuação da saída da Fonte Nova e a última pessoa que foi embora, foi um total de 50 minutos. Isso é um tempo bastante bom e a gente aqui até elogia essa integração do Estado e a prefeitura. Foram 45 mil passageiros em 10 linhas de Shuttle saindo dos shoppings. Também teve linha especial de aeroporto e tivemos três mil vagas de estacionamento. Outro item que foi novidade e funcionou bem, mas não temos os números, foi o Fan Walk, que foi a ligação do Terreiro de Jesus ao estádio. 
 
BN: As operações no aeroporto e o porto acabaram dando certo?
 
NC: Do aeroporto temos dados iniciais, mas projetam que cerca de 70 mil passageiros passaram por aqui. E também algo como 300 mil visitantes, porque teve turista brasileiro e pessoas do interior, além de estrangeiros, que já estavam no Brasil antes do período da Copa que não conseguimos contabilizar nestes 70 mil, porque fez a imigração em São Paulo e voou em embarques domésticos. Pressupomos isso por conta dos cerca de 40% de ocupantes do estádio terem sido estrangeiros, o que foi mais que 70 mil. Então, muito utilizaram voos domésticos. Ainda precisaremos de um pouco mais de tempo para consolidar os dados. Já o porto teve um uso limitado com a vinda dos 1,6 mil mexicanos, que deram um 'bolo' porque, no mesmo dia, viajaram. Ninguém sabia disso. No outro dia, estava a Embratur e a Setur (Secretaria de Turismo) com o minitrio, que é assim que nós recebemos, e lá estavam apenas os 200 mexicanos que não viajaram. O resto já tinha ido para o Ceará para ver o jogo do Brasil. Além deste caso, a participação do porto foi pequena, o que é uma coisa justificável. Estamos falando de um mês de junho e não vem navio para cá por conta da sazonalidade. 
 

 
BN – E em relação à ocupação hoteleira?
 
NC - Nós tivemos no jogo do dia 13 de junho (partida entre Espanha e Holanda) uma ocupação hoteleira de 91,48% em Salvador. No dia da Alemanha e Portugal (16 de junho), foi 95,62%. Na partida de Suíça e França (dia 20 de junho), teve 85,58%. Em Bósnia e Irã (dia 25 de junho), foi 68,27%. Já Costa Rica e Holanda (para as quartas de finais), a maior ocupação, foi de 96,63%. A média foi de 72,26% muito em função de Bósnia e Irã. É excelente por ser muito superior que a normal para a época.
 
BN: Nos postos de saúde, houve atendimento de algum caso grave durante a Copa?
 
NC: Dos dados da saúde, foram 623 atendimentos e nenhum caso levou a óbito. Em um evento que reuniu mais de 200 mil pessoas, não foi registrado sequer um homicídio. Os maiores casos foram náuseas, dores de cabeça da famosa ressaca e alcoolemia. 
 
BN: E como está sendo articulado o projeto Gol Verde da Secopa?
 
NC: Com 25 gols marcados, o projeto Gol Verde plantará 27.775 mudas plantadas até novembro em diferentes locais, o que depende dos parceiros que irão monitorar o plantio. Isso porque o projeto prevê o plantio e monitoramento por dois anos. As 35 mil mudas nós já temos, o que ainda daria para mais sete gols. Por isso, lançamos no site uma consulta pública para saber se devíamos considerar os 4 a 3 de Holanda e Costa Rica nos pênaltis. Porque na regra do jogo não é permitido. Queremos que a população vote a favor e a gente plante 35 mil e não 27 mil. E serão plantadas na Costa do Descobrimento. Já temos ajuda da secretaria ambiental, do Porto Seguro Resort Hotel e da comunidade indígena de Arueiras, que vai plantar nessa região. Plantar e monitorar. Em Salvador, o prefeito (ACM Neto) me disse que quer a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável colaborando no plantio. Tem uma fazenda que plantará na Chapada. E uma organização que já entrou em contato com a gente, chamada Canteiros Coletivos, e sugeriu que plantássemos em Salvador. Então, agora, o nosso trabalho é através das nossas consultoras para fechar esses entendimentos. O Ministério Público da Bahia vai plantar também. Faremos um plantio simbólico na sede do MP e eles mandarão para as promotorias para que elas plantem. São 80 espécies da biodiversidade da Mata Atlântica, frutíferas e não-frutíferas. Essas espécies são compradas dos viveiros. Além de refletir sobre a consciência da sustentabilidade, ainda tem a novidade que é ativar os viveiros que existem. Queremos acertar uma compra no viveiro do (grupo ambientalista) Gambá que produz também espécies do bioma. A ministra do Meio Ambiente (Izabella Teixeira) está fazendo uma coletiva sobre o plano de sustentabilidade da Copa e destacou o Gol Verde. 
 
BN: Houve algum problema logístico no processo?
 
NC: Não porque já tínhamos 30 mil mudas, então já fomos acompanhando. O número de jogos também era seis, então não ia passar muito. Sabíamos que os últimos iam ser mais competitivos e teriam menos gols. Então, foi uma feliz coincidência na Bahia ter grandes goleadas e um projeto lançado. Nos íamos plantar mesmo se todos os jogos na Bahia fossem 0 a 0. Mas não teve muito problema, muito pelo contrário. Agora, vai dar mais trabalho? Vai dar. Porque temos que ter mais parceiros plantando com compromissos firmados. 
 
 
BN: Teve todo um imbróglio entre governo e prefeitura em relação à produção da Fan Fest. Como você avalia o evento? 
 
NC: É fato, e eu não faço disso nenhum raciocínio politico, que foi a menor Fan Fest. Foi uma decisão do prefeito de não investir dinheiro publico. Foi em cima da hora, com dinheiro privado de participadores, e isso reduziu as atrações. Agora, o local escolhido e o clima hospitaleiro transformaram em uma iniciativa exitosa. Não acho que tenha sido um evento ruim. Concentrou menos que em Copacabana (onde aconteceu a Fan Fest do Rio de Janeiro) ou Marco Zero (Fan Fest de Recife), mas era um ônus superado. Em contrapartida, o governo do Estado também fez mais dois outros: nos bairros Plataforma e Imbuí. No Imbuí tivemos quando 20 mil pessoas quando entrou o É o Tchan (depois da derrota da Seleção Brasileira nas semifinais). Volto a repetir também o sucesso de não ter havido problema quanto ao jogo e a concentração. Muitos turistas e muitos elogios. E fizemos o que prometemos. Ou seja, ganhou o forró. Na última vez que estive aqui na redação eu disse 'vamos lutar para que a Copa seja o Forró Copa'. Não faz sentido carnaval na Copa. Felizmente, a prefeitura fez uma autocrítica e não tirou do papel o carnaval. Assim, tivemos o forró como grande beneficiário na capital e fora. 
 
BN: Mais informações a serem destacadas?
 
NC: Em relação à comunicação, tivemos dois mil jornalistas entre nacionais e estrangeiros e distribuímos 50 mil guias de espectador. Tivemos trabalho de proteção à marca, com 99 autos de apreensão. Foram 250 ingressos apreendidos de cambistas e 88 pessoas conduzidas à Delegacia de Defesa ao Consumidor. Também houve 1.316 camisas falsas apreendidas. Além disso, as baianas dentro do estádio geraram uma receita de R$ 25 mil inteiramente delas, sem participação da Fifa.

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