Dom Murilo Krieger aposta na simplicidade da palavra e capacidade de diálogo do novo papa Francisco - 01/04/2013
Integrante da corrente dehoniana do catolicismo (Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus) – que tem como premissa a participação social da Igreja –, o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, aposta na simplicidade da palavra e capacidade de diálogo do novo papa Francisco como forma de aproximar mais a sociedade da fé. Em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, o catarinense de Brusque, de 69 anos, acredita que a Jornada Mundial da Juventude, a ser realizada no Rio de Janeiro, em julho, será o grande teste do pontífice. "Ele vai mostrar que o evangelho é exigente – quando ele falou no Domingo de Ramos, falou da alegria e também da cruz –, mas é uma exigência que tem seu sentido. Ele não veio para passar a mão na cabeça e falar que 'tudo o que você faz é bom'", enfatizou. O religioso apresentou preocupação com o crescimento do ateísmo no país, que segundo ele corresponde a cerca de 10% da população. Para Krieger, o dado é mais grave para a Igreja Católica do que a perda de fiéis para o protestantismo. "Uma pessoa que perde toda a crença em Deus muda todo o parâmetro e toda a orientação da sua vida", analisou. Em meio a revelações sobre os desafios da sua estada na Bahia, onde foi convidado até para mediar greves, Dom Murilo também não deixou de se posicionar sobre temas polêmicos, como o sincretismo entre as seitas de matriz africana e o cristianismo. "Não concordo com a ideia que alguns têm da fé, de colocar tudo no liquidificador para ver o que é que sai", opinou. Sobre o deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), presidente contestado da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, ele sentenciou: "Ele está em uma situação muito difícil porque se posicionou muito claramente contra justamente aquilo que a sua pasta deve defender".
Fotos: Francis Juliano e José Marques / Bahia Notícias
Bahia Notícias – Quais as principais mudanças que devem ocorrer na Igreja Católica a partir da posse do novo papa?
Murilo Krieger – Eu começo lembrando uma frase do santo Agostinho. Santo Agostinho, que viveu no século V, dizia assim: 'Nas coisas essenciais deve haver humildade. Nas acidentais, liberdade. E em tudo, caridade'. Significa, portanto, que naquilo que é essencial da Igreja, aqueles que são os fundamentos da Igreja, aquilo que Cristo transmitiu, não deverá haver mudança nem com esse papa nem com nenhum outro. Pelo contrário, nós somos portadores de uma mensagem que não é nossa: é de Jesus Cristo, e nós temos que ser fiéis a esta mensagem. Mas há muita coisa que é secundária. A maneira de apresentar, a necessidade de adaptar uma linguagem a cada época, a cada situação, a cada idade. Tudo isso muda. O papa Francisco já mostrou que tem uma particularidade: ele tem um jeito muito direto de falar. Ele é muito pastor. Ele não é um diplomata, no sentido de que não foi criado assim, e demonstra uma maneira até muito simples de falar. Me chamou a atenção, por exemplo, que no Domingo de Ramos ele usou uma expressão que nós usamos na linguagem comum. Ele disse, 'olha, minha avó dizia que na roupa de quem é enterrado não há bolsos', para dizer que nós não levamos nada aqui dessa terra. Essa é uma maneira que agrada o povo. Não adianta eu falar uma linguagem elevada, profunda, se o interlocutor não entende. Agora, como determina santo Agostinho, em tudo deve haver realidade. E daquilo que é essencial na Igreja, que não muda, é essa maneira de nós nos relacionarmos pelo amor. Eu penso que ele tem um carisma muito forte. O papa Francisco tem demonstrado uma capacidade de criar uma empatia, uma comunhão com o outro, pela sua simplicidade. Isso é importante. Em um mundo como o nosso, tão carente de amor, de carinho, vem um papa e fala uma linguagem muito próxima, que todo mundo podia dizer 'poxa, mas isso é o meu pai, o meu avô'. Isso cria proximidade e é importante, por quê? Se há uma rejeição inicial ao mensageiro, a pessoa não acolhe a mensagem. Mas se há mais do que uma simpatia, uma empatia, ela vai se interessar pelo que ele vai dizer e ensinar.
BN – O senhor escreveu recentemente um artigo para a Folha de São Paulo em que fala sobre a necessidade de aproximar o jovem da Igreja. O senhor acha que essa empatia de Francisco ajudará a trazer jovens e outros segmentos que estão distantes do catolicismo atualmente?
MK – Sem dúvida. Como eu dizia, eu penso que o jovem vai se interessar por ouvi-lo. E essa vinda dele ao Rio de Janeiro, em julho, vai ser esse grande teste. Eu vejo que ele já demonstrou capacidade de entrar no coração do jovem. Então, eu acredito que, na Jornada [da Juventude], ele vai ter um momento especial. Tenha certeza que o papa que fosse eleito não iria querer perder a oportunidade de ter uma multidão diante de si e apresentar o programa de Jesus Cristo. Ele vai mostrar que o evangelho é exigente – quando ele falou no Domingo de Ramos, falou da alegria e também da cruz –, mas é uma exigência que tem seu sentido. Ele não veio para passar a mão na cabeça e falar que 'tudo o que você faz é bom'. Ele vai dizer que você não pode ser egoísta, tem que saber perdoar, tem que saber amar e tem que saber respeitar o outro. E quando a pessoa vê que o comportamento, que a exigência de Cristo, é para o bem dele mesmo, é diferente do que quando ele vê apenas uma proibição. O cristianismo tem proibições, mas eu diria que são consequências de uma adesão a Cristo. Se eu aceito Jesus Cristo, eu vou querer saber o que ele pensa, como ele quer que eu me relacione, como é que ele quer que eu ame. A partir daí, ele vai ver que a renúncia não é um peso. A mesma coisa um casal que se casa e, depois de um tempo, tem um filho. Aquele filho vai trazer exigências aos dois: já não vão dormir as noites com tanta tranquilidade, muitas vezes vão ter que levantar para dar de mamar no meio da madrugada, ou dar um remédio porque ele está com dor de barriga. Mas esse trabalho não é um peso para o casal. A alegria deles de ter um filho que lhes sorri, que faz carícia, que chama 'papai' e chama 'mamãe' é tão grande que supera a dificuldade do cuidado que a criança exige.
BN – O papa Bergoglio foi recebido com uma certa expectativa, não só dos setores conservadores como também pelos progressistas. O próprio teólogo Leonardo Boff, em entrevista, disse ter sentido isso na fala do pontífice. O senhor acha que o novo papa, embora já tenha dito ser contra o aborto, pode apontar para um caminho de mais diálogo da Igreja com a sociedade, no sentido de avançar em questões mais dogmáticas?
MK – Você usou uma palavra que eu acho fundamental: diálogo. Diálogo significa eu apresentar o meu ponto de vista para você, você apresenta o seu, nós vamos ver o que temos em comum e respeitar o que concordamos e o que temos de diferente. Eu penso que isso é importante. No primeiro dia de trabalho, um dia após a posse, ele já entrou em contato com muçulmanos, com judeus e jornalistas. Aquela multidão de 5,6 mil jornalistas estava lá esperando o conclave, participando e depois divulgando a aparição do papa. Ele teve um gesto que eu achei muito interessante ao final desse encontro. Ele disse 'olha, eu sei que aqui no meio de vocês há pessoas que não são católicas, há pessoas que não acreditam em Deus, então eu não vou abençoá-los externamente, mas vou abençoá-los no coração'. Ele mostrou um respeito por quem pensa diferente do outro. Então, o diálogo não significa eu assumir o ponto de vista do outro, mas ao menos conhecer. Eu acho que isso falta no mundo. Por que há tantas rixas, brigas, tanto problema? Porque cada um se entrincheira em um ponto e não escuta o outro. Nem se dá ao trabalho de ouvir o que o outro tem a falar. De repente pode ser coisa boa. Ele já tinha mostrado essa capacidade desde a época em que foi cardeal em Buenos Aires.
BN – Um outro papa recente, João Paulo II, era tido como um homem também de muito carisma. Quais as diferenças entre ele e Bergoglio para o senhor?
MK – Eu penso o seguinte, João Paulo II demonstrou que sabia usar muito bem os meios de comunicação. A presença dele era muito cativante, criava logo um entusiasmo. Era tocante. Depois dele veio o Bento 16. Para mim, os textos de Bento 16 são incomparáveis. Daqui a 100 anos, daqui a 300 anos, são textos que vão ser lidos. Agora, Francisco demonstra um pouco daquele carisma de João Paulo II, de logo criar uma comunicação e uma empatia. É natural. Ele não procura ser diferente do que ele é. Esta simplicidade é que tem que ativar as pessoas. A gente percebe que não é algo para agradar, para fazer média ou para criar um bom nome nos meios de comunicação. Ele é isso aí. São gestos simples que agradam. Eu penso que o mundo está demonstrando isso. As pessoas querem alguém mais objetivo, mais simples, que saiba apresentar aquilo em que acredita.
BN – A Igreja Católica tem perdido gradualmente fiéis e, aqui no Brasil, tem crescido muito o neopentecostalismo e o próprio pentecostalismo. O que precisaria ser feito no catolicismo para reverter ou pelo menos minimizar essa situação?
MK – Eu começo lembrando primeiro uma frase de um cardeal brasileiro, dom Aloísio Lorscheider, já falecido [em 23 de dezembro de 2007]. Ele era cardeal de Fortaleza e depois foi para Aparecida, onde depois terminou o seu trabalho. Ele dizia assim: 'os fiéis continuam fiéis'. Mas eu diria assim, uma coisa que se constatou há mais tempo na Igreja é o seguinte: há na Igreja um terço de católicos que participam com frequência da vida da Igreja, das iniciativas, de uma procissão de Domingo de Ramos, de uma Semana Santa, leem a palavra de Deus... um terço. Há um terço que é um participante ocasional: vai quando tem uma missa de sétimo dia, um casamento, uma festa, um Natal... Não é tão assiduamente assim, mas sente-se membro da Igreja. O terceiro um terço é aquele católico de nome. Foi batizado, nasceu em uma família católica, mas nunca leu a palavra de Deus, não se aprofundou no catecismo, não se sente integrado na vida da Igreja. Se alguém lhe perguntar 'o que é que você é?' – 'ah, eu sou católico'. Esse terceiro grupo é particularmente fácil de ser conquistado por qualquer filosofia, qualquer outra religião, qualquer outra proposta. Se alguém chegar com alguma proposta que lhe agrade, ele vai logo se entusiasmar porque não tem raízes, não tem fundamento. O grande desafio da Igreja é como atingir esse grupo que se sente católico, mas não está sendo atingido. E aí eu vejo a importância de nós usarmos uma linguagem adaptada ao mundo de hoje. Já que ele não vem ao meu encontro, eu tenho que ir ao encontro dele. Por que os outros eu consigo atingir, consigo tocar? Porque ele vem ao meu encontro, me ouve, lê aquilo que eu escrevo. Aquele terceiro grupo, não. De repente vem alguém com uma proposta que lhe parece agradável, aí vem para cá, vai para lá, ou até deixa qualquer prática religiosa que, aliás, é outro problema seriíssimo. Tem aumentado o número de ateus no Brasil. São na base de 7, 8%. Outros falam até quase 10. Ora, uma população de 180 milhões de habitantes, dá um número significativo. São pessoas que ninguém conseguiu atingir ou passaram por alguma experiência religiosa, aqui, ali, mas deixaram tudo. Esse é mais difícil de conseguir porque está decepcionado. O grande desafio que eu vejo é a Igreja falar e apresentar o seu conteúdo em uma linguagem que atinja o homem de hoje. Mal comparando, eu diria assim: a roupa de primeira comunhão serviu para aquele garotinho de 10 anos, mas eu não posso querer que ele use aquela roupa quando tiver 20 anos. Tem que usar o mesmo conteúdo em uma linguagem da sua exigência de 20 anos.
BN – Preocupa para a Igreja mais o crescimento de ateus do que o crescimento de evangélicos?
MK – Para mim é mais grave porque uma pessoa que perde toda a crença em Deus muda todo o parâmetro e toda a orientação da sua vida. É mais preocupante.
BN – Conversando com pessoas que se dizem ateias percebe-se muito mais um ceticismo do que uma crença na não existência do Divino...
MK – Você está falando daquele ateu que diz 'graças a Deus' [muitos risos]. Na verdade tem muita gente decepcionada com qualquer forma ou estrutura de vida religiosa. É o grande problema: pessoas que nós não estamos atingindo. Mas eu penso que o papa nos tem mostrado um caminho. O caminho para nós atingirmos a pessoa é o caminho do coração e da misericórdia. Acho que estamos em um mundo tão brutal, onde as pessoas às vezes trabalham e estão sempre devendo, o que cria problemas com a esposa e o marido, por causa de dívidas, de um cartão de crédito que nunca consegue pagar... Isso tudo vai deixando a pessoa muito embrutecida, muito inquieta, muito insatisfeita, e aí eu penso que nós temos que atingir essa pessoa pelo lado da misericórdia. Mostrar o rosto daquele Deus que foi apresentado por Cristo. Um Deus que é amor, que é misericórdia, não é o Deus indiferente. Aquele Deus que diz que tudo o que você faz é bom, tanto faz o que você faz, seria um Deus falso. Ele não veio para justificar o nosso egoísmo. Ele veio para dizer 'olha, você tem um potencial dentro de você, mas não está usando'. Jesus veio nos dizer o seguinte: não é no egoísmo que o ser humano se realiza. Nós nos realizamos no amor, na doação, no perdão, no valorizar o outro. Ninguém vai ser feliz sozinho, mas também eu não posso usar o outro como objeto. Por que o que é pecado? É usar o outro: endeusar ou usar como objeto. Se usar o outro, eu fico dependente dele como objeto, como na prostituição. Então, eu não posso fazer isso.
BN – O trabalho de alguns padres tem utilizado, inclusive, o canal da mídia – como o Marcelo Rossi e Fábio de Melo. O senhor acha o caminho interessante para aproximar mais a população?
MK – Sem dúvida. Eles atingem pessoas que às vezes nós, na nossa maneira 'normal', não atingiríamos. Não vou dizer que esse seria o único caminho, pois seria muito pobre. Eu acho que a Igreja tem muitas dimensões, porque há também o caminho da caridade. A madre Tereza de Calcutá não tinha um discurso teórico bonito, mas tinha uma prática que tocava. Então, eu penso assim: há muitas maneiras de nós apresentarmos o Senhor. A Igreja tem que ter muitos caminhos porque as pessoas são diferentes e a gente precisa de meios diferentes para atingir cada grupo.
BN – Quais as ações o senhor defende este ano na Campanha da Fraternidade?
MK – A Campanha da Fraternidade deste ano é sobre juventude em vista da Jornada Mundial. Nós quisemos ligar campanha e jornada, porque é um grande evento que não atinge só os jovens. Eu diria que, através do jovem, a gente quer atingir todo o Brasil. O jovem é uma presença viva na família, na escola, na sociedade. A gente sabe que se um jovem estiver convencido de uma ideia, ele vai transpirar isso, diferente de nós, adultos. Uma vez eu estava com João Paulo II em uma audiência – nós bispos temos que de cinco em cinco anos nos apresentar ao papa, falar da diocese e do nosso trabalho – e esgotados os assuntos eu perguntei meio sorrindo: 'Santo Padre, com a sua experiência agora depois desses anos todos como papa, encontrando-se com reis, príncipes, pessoas de outras igrejas, bispos do mundo todo, se hoje Vossa Santidade fosse assumir uma diocese, quais seriam as suas prioridades?' Ele ficou surpreso com a minha pergunta e disse assim: 'Juventude e família. Família porque é a base da sociedade e juventude porque os jovens são o presente e o futuro da Igreja e a gente tem que investir neles'. Então eu penso que tanto a campanha quanto a jornada vão mostrar para o mundo que há muito mais jovens do que nós imaginamos que seguem Jesus Cristo, que são fiéis. Jovens não só do Brasil, mas de uma França, de uma Inglaterra, de uma Alemanha, do Japão, da África... E esse vai ser o espetáculo que o jovem vai dar ao mundo. Digo isso porque eu participei de duas jornadas mundiais, em Toronto, no Canadá, e em Madri, na Espanha. Nas duas houve realmente um espetáculo. Não dá para ficar indiferente diante daqueles milhões de jovens ali reunidos, rezando, cantando ou, como foi no sábado à noite em Madri, em silêncio, diante da exposição do Santíssimo Sacramento. Foi um dos momentos mais bonitos que eu vivi na minha vida.
BN – Na última semana fez dois anos da sua vinda para Salvador como primaz. Ao longo desse tempo, qual foi o saber que o senhor acumulou na comunidade baiana e quais são os desafios?
MK – A primeira impressão minha foi a que ficou. Quando eu estava saindo do avião, uns três dias antes da minha posse, em 22 de março de 2011, de repente me deparei com uma multidão de gente que tinha ido lá para me receber. Um carinho, uma atenção, que logo me deixou à vontade. Me deixou muito sensibilizado. E isto eu tenho visto que é o comportamento do baiano: acolhedor, simples, deixa você logo muito à vontade. E não é só comigo que sou arcebispo. Segundo, é um povo que é muito coração, que você tem que conquistar pelo coração. A partir daí até talvez você atinja a razão. Não é o povo alemão, que você tem que atingir pelo raciocínio [risos]. Aqui é coração, é sentimento. Depois, é um povo em que a festa tem sentido. Eu nunca vi um povo que gosta tanto de bater palmas, de extravasar a sua alegria. No Domingo de Ramos, uma agitação... a gente vê que é um povo muito dado. Agora, há desafios. Se eu for entrar no campo social, eu vou falar 'olha, realmente há desafios imensos'. Eu vejo bairros onde não há uma vida digna. A vida exige um lar, uma família, e muitas pessoas vivem em condições infra-humanas. Do ponto de vista religioso, eu acho que o grande desafio é fundamentar a fé. Há um sentimento religioso muito forte, que se expressa de diversas maneiras, e não só na vida católica. Mas há também necessidade de aprofundar a fé, de dar mais conteúdo. Sedimentar mais para não ficar uma fé muito no campo afetivo, sentimental, porque fica muito frágil. A minha pergunta sempre tem sido 'como ajudar o nosso católico a ter uma identidade católica?'. Depois aproveitar especialmente esse potencial de acolhida para criar laços entre as pessoas. Eu vejo que é um povo que gosta muito de festejar e ir para a praça. Mas quase não há praça aqui em Salvador. Eu fico horrorizado em ver que, como as casas são pequenas, então as pessoas gostam de festejar, se reunir com outras, cantar, e é pena, mas acho que nós deveríamos valorizar mais os espaços comuns, porque é um povo que gosta de viver a alegria comunitariamente.
BN – O senhor sabe que Salvador é uma cidade que tem muita tradição de culto a religiões de matriz africana. Como tem sido para o senhor o diálogo com essas pessoas?
MK – Com grande respeito. Eu penso que os africanos trouxeram para cá muitos valores. Por isso que eu falei da afetividade, da espontaneidade, da vida como uma festa. É algo bonito. Agora, tem a sua forma de expressar a sua fé. Eu digo assim, nós temos que aprender a conviver, porque a nossa cidade deve ser uma grande casa de família, onde temos que aprender a aceitar o diferente. Nós respeitando os outros e os outros nos respeitando. O que eu não posso aceitar é que haja uma mistura, porque a fé é a expressão de um sentimento, de uma crença. Não concordo com a ideia que alguns têm da fé, de colocar tudo no liquidificador para ver o que é que sai. Eu penso que nem para o católico nem para alguém que é adepto do candomblé não seria boa uma mistura, porque descaracteriza a expressão religiosa de cada um. Agora, conhecermo-nos e respeitarmo-nos é algo que nos ajuda a crescer.
BN – O senhor nesses dois anos aqui em Salvador chegou a ser chamado também para ajudar a mediar algumas situações concernentes à vida pública e política, por exemplo no caso de algumas greves. Queria saber como foi essa experiência, como senhor senta com os grevistas e dialoga com eles.
MK – O curioso é que nas vezes em que isso ocorreu eu fui chamado. Isso mostrou que eles sentiram a necessidade de alguém que ajudasse a unir os contrários. Esse é o papel do mediador. Por isso é que, mesmo depois, eu não aceitei dar entrevista. Eu acho assim, na hora em que eu começo a dar entrevista facilmente seria interpretado que eu estaria de um lado ou do outro. O papel do mediador é ajudar as pessoas a aceitarem-se. Ajudar as pessoas a ver o que têm em comum, no que podem ceder, para buscar uma solução, que nunca vai ser aquela total de um lado ou de outro. Eu ouvi várias vezes a observação: 'olha, dom Murilo, foi a primeira vez que eu pude dizer para o outro que é meu adversário tudo aquilo que eu pensava com outros me escutando'. Quer dizer, o fato de eu estar ali possibilitava essa liberdade. Cada um tem as suas convicções, mas chega uma hora em que cada um tem que ceder um pouco para a gente caminhar em comum.
BN – Mas, de alguma forma, a sua intervenção ajudou a adiantar as negociações?
MK – Ajudou muito. Agora eu digo o seguinte: exige muito tempo. Porque você tem que primeiro escutar muito para que cada lado se esvazie, falando tudo o que quer falar. Aí é o seu papel de perceber o que há de comum e começar a mostrar que há muito mais coisa em comum do que anseios separados. Normalmente, em um momento tenso, cada um só vê no outro aquilo que ele tem de diferente. O nosso papel, então, é costurar as opiniões. Isso exige muita paciência, muito tempo e a capacidade de escutar. Essa eu aprendi quando eu trabalhava com jovens no início do meu sacerdócio. Me lembro de uma vez em que eu fui capaz de escutar um jovem por quatro horas para, no final, poder falar a ele dez minutos. E ele me escutou e nunca mais esqueceu disso, ficou a maior referência para ele. Com os jovens eu aprendi o seguinte: as pessoas, na maioria das vezes, têm respostas para os seus problemas, mas não percebem. Mas na hora em que você as escuta e depois chama a atenção ela descobre – 'poxa, mas é isso mesmo'. Agora, se eu chego já com solução pronta, ela nem se interessa pela minha solução e vai achar que eu estou querendo impor. Eu pude ajudar porque Deus me deu essa capacidade de escutar.
BN – A gente tem acompanhado ultimamente a polêmica em relação ao deputado Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, envolto em denúncias de racismo e homofobia. No seu modo de ver, o que falta para que se chegue a um consenso?
MK – Eu estou percebendo que não vai ser fácil pelo seguinte: até quando ele se posicionou [contra o homossexualismo, no Twitter] era a opinião dele. Ele pensa assim e outro vai dizer que pensa de outra forma. Agora, colocá-lo à frente de uma comissão cuja característica é a defesa dos direitos humanos, vai ser muito difícil fazer com que as pessoas entendam. Uma coisa é a convicção dele, outra coisa é o cargo que ele ocupa. Eu não sei se ele vai conseguir isso de mostrar que ele pensa assim, mas agora, nesse novo cargo, vai fazer o papel da defesa dos direitos humanos. Se ele conseguir, vai superar tudo isso aí. Se não, a reação continuará. Ele está em uma situação muito difícil porque se posicionou muito claramente contra justamente aquilo que a sua pasta deve defender.
BN – Para finalizar, queria que o senhor deixasse uma mensagem para católicos e não-católicos que vão ler essa entrevista.
MK – Eu penso que nós vivemos um tempo que é particularmente difícil porque o mundo está muito exigente. As pessoas estão muito conscientes dos seus direitos, mas nem sempre conscientes dos seus deveres. Eu acho que é muito válida aquela frase de [John Fitzgerald] Kennedy quando ele assumiu a presidência dos Estados Unidos: 'não pergunte o que o país pode fazer por você, mas pergunte o que você pode fazer pelo seu país'. Eu penso que está na hora de cada um de nós pensar 'o que eu posso fazer para tornar a minha cidade melhor, o meu estado melhor, o meu país melhor?'. Tudo bem, temos direitos? Vamos exigir que eles sejam respeitados. Mas perguntemo-nos mais 'o que eu posso fazer' e não esperemos dos governantes as soluções para todos os nossos problemas. O papel dos governantes é muito grande, mas eu acredito muito na força da sociedade civil que se organiza. As ONGs estão mostrando que são um caminho, que elas podem ajudar as pessoas a serem mais participantes da vida da sociedade. É isso o que eu espero de todos: dos católicos, dos não-católicos, das pessoas de boa vontade. Cada um de nós deve pensar: 'o que eu posso fazer para tornar a minha casa, este mundo em que eu moro, um pouco melhor, um pouco mais compreensível e um pouco mais fraterno'.
