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Entrevistas

Entrevista

Ademar Delgado compara eleição em Camaçari a escolha de Lula por Haddad - 26/11/2012

Por Evilásio Júnior / Rodrigo Aguiar

Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias

Bahia Notícias - Como foi a experiência de vencer a eleição depois de tanta disputa e manter o nome de Luiz Caetano, que é seu tutor na política, em ascensão em Camaçari?

Ademar Delgado - É uma experiência única disputar uma eleição pela primeira vez a prefeito e vencer em uma cidade da importância de Camaçari. Mas eu tinha convicção da vitória porque nós participamos de um projeto de governo que tem início, meio e fim. O projeto do governo Lula, Dilma, Wagner e Caetano. Nós fizemos a transformação em Camaçari, melhorando a vida das pessoas. Eu sempre apostei na inteligência do povo de Camaçari. E isso aconteceu, com a nossa vitória.

BN - O senhor nunca duvidou da vitória mesmo com algumas pesquisas que apontavam o seu adversário à frente?

AD - Nunca me causou nenhum espanto. E eu acredito em pesquisa. Mas eu acreditava que cada dia seria melhor, e assim a gente foi crescendo. Eu sou uma pessoa que saí da gestão exercendo funções mais antipáticas e vou para a rua. Eu trabalhei como secretário de Administração, quando tive que cuidar do dinheiro público, zelar por ele, cuidar da parte de pessoal. É sempre uma área de tensão; eu sabia disso. Mas sabia também que haveria um reconhecimento pela minha história de vida, sobretudo em Camaçari. As pessoas diziam que Ademar era uma pessoa séria, honesta e competente. Nenhuma crítica foi feita de forma contundente por um adversário à pessoa de Ademar. Falava-se na mudança. Era o discurso da mudança, que é leve e foi nosso desde quando lutamos para combater a ditadura militar. Esse discurso foi apropriado por quem fez exatamente tudo de errado neste país, na Bahia e em Camaçari. Foi uma coisa que a população compreendeu ao avesso. Quem tem a propriedade do direito da mudança foi quem fez realmente a mudança neste país, quem faz o maior programa de crescimento econômico, inclusão social e distribuição de renda. Este é o programa do PT e dos partidos coligados. Esta é a mudança verdadeira, que bate na vida das pessoas, que muda a vida das pessoas. Nós tivemos um projeto de crescimento e mobilidade social maior do que uma Argentina: pessoas que saíram das classes D e E para a C e que ascenderam da C para outras classes. Isso totaliza mais de 65 milhões de pessoas. 

BN - Aconteceu uma coisa curiosa na rádio. Eu perguntei, em tom de brincadeira, se o senhor convidaria Maurício Bacelar – ou Maurício de Tude – para integrar o seu secretariado. O senhor reagiu com uma certa surpresa e parece que ficou certa mágoa do candidato derrotado durante a campanha. O que aconteceu que fez o senhor se sentir mais ofendido?

AD - Absolutamente nada. O problema é que a política tem um jogo de disputa onde precisa haver algum respeito à história das pessoas. Eu sou amigo inclusive da família do João Carlos Bacelar. Uns dois anos antes da campanha, Maurício fez uma coisa que não me agradou. Mas não participa do governo porque no meu governo só participa quem tem identidade. Pessoas que mudaram de nome não estarão no nosso governo.

BN - Mas o senhor o convidaria pelo menos para um jantar de acerto de contas?

AD - Não. Eu só janto com quem tenho afinidade. Jantar é um ato de prazer; eu não posso estar jantando com quem não me traz prazer.
 

BN - O senhor não tomou posse ainda e é muito cedo falar de sucessão, mas muito se criticou o prefeito Luiz Caetano por ter demorado de indicar o sucessor e esse teria o motivo de a campanha ter sido mais acirrada, segundo a análise que é feita. O senhor pensa em fazer a sua gestão de quatro anos e já tentar preparar um possível aliado para sucedê-lo em uma futura administração?

AD - Nós temos na regra constitucional eleição e reeleição. Então, todo prefeito tem o direito de ser reeleito. É uma coisa que eu vou avaliar no momento certo. Se eu conseguir realizar o sonho do povo de Camaçari e sentir que eu cumpri minha tarefa, posso ter o interesse de continuar. É uma decisão para tomar em 2016.

BN - O senhor disse que ainda não tem os futuros secretários definidos, mas já tem algum nome que o senhor diz ‘essa pessoa vai fazer parte da minha equipe’?

AD - Quando eu saí da campanha, tive o problema de uma hérnia e fui cuidar da saúde. Estou inclusive fazendo minhas revisões e apenas daqui a oito dias estou liberado para cuidar deste problema. Então, estou ainda sem tratar desta questão.

BN - Houve algum erro estratégico do PT na hora de definir quem seria o candidato? Houve uma disputa com o deputado estadual Bira Corôa, que tentou ser candidato. Como o senhor avalia essa divisão interna do PT em correntes?

AD - O PT é o partido mais democrático que existe no Brasil. E existem tendências, que discutem. Mas nós temos uma coisa importante: depois da discussão e da disputa, você unifica. Ao fazer a análise depois, eu digo que o PT acertou, tanto é que eu estou eleito. 
 

BN - O que pesou mais para a unificação foi a palavra do prefeito Luiz Caetano, não é?

AD - O que pesou mais foi a história do PT. Tomando um caso mais emblemático, lá em São Paulo, por exemplo, Marta queria ser prefeita de qualquer jeito. Lula entendeu [que deveria ser Haddad] e entendeu acertadamente. Lula indicou, trabalhou e ganhou. Hoje, após a eleição, a gente pode dizer que acertou porque fomos vitoriosos. Se perdêssemos, estaria sendo discutida uma série de coisas. Mas ganhamos. Tivemos uma campanha militante, que a gente não via há muito tempo. A militância do PT e dos partidos da base veio para participar da luta. Foi uma campanha intensa. Era uma agenda interminável, porque todo mundo queria estar fazendo política, em cada canto do município. Isso deu uma dimensão muito grande à campanha. Eu começava cinco da manhã, às vezes, e terminava meia-noite todos os dias. Eu começava fazendo minha caminhada em Arembepe, que é onde eu moro. E já caminhava fazendo política. Quando fui convidado para ser candidato, tinha clareza da responsabilidade. A minha história de vida foi de assumir compromissos e cumpri-los. Quando eu assumi comigo, com minha família e com as pessoas que eu seria o candidato, não tinha mais porque brigar. Aí tínhamos que ganhar. Só tínhamos uma palavra. Eu nunca tive nenhuma dúvida da vitória. Tanto é que minha mulher me cobrou muito a emoção pós-vitória. Ms eu não tive emoção porque eu comemorei isso há tanto tempo, a cada dia. Eu comemorei minha vitória ao longo da campanha. E aí reduziu o impacto da emoção. Quando abriu a primeira rodada de divulgação, eu disse que nós íamos ganhar com seis mil votos de frente com uma variação de mil para cima ou para baixo. Eu perdi por 70 votos, porque deu 7.070. Quando deu cinco horas da tarde, eu fui para o colégio onde eu voto, em Arembepe. Quando vi o resultado, liguei para o pessoal. Em cada colégio da orla, eu estava disparado. Quando liguei para o colégio onde a gente sabia que perdia, perdi por 150 votos. Então, onde eu perderia feio, perdi com pouco. Onde eu achava que ganhava, ganhei. Aí foi comemorar.

BN - Recentemente, José Dirceu, que foi condenado pelo Supremo como líder de uma quadrilha no julgamento do mensalão, esteve aqui na Bahia. E a deputada Luiza Maia, mulher de Luiz Caetano, estava no "almoço do bode". Dentro do PT aqui da Bahia é unânime a fala de que ele não é criminoso e, sim, inocente. Qual é a sua avaliação sobre o episódio do mensalão?

AD - Eu disse na época da campanha que isto estava na esfera do Poder Judiciário. E que nós não poderíamos era fazer o que foi feito: demonizar um partido por erros ou não de líderes do partido. O que se fez? Por que se puxou o julgamento para as eleições?A mídia toda, nesse período, foi mensalão, mensalão. Por que não começaram com o mensalão do PSDB lá de Minas, já que, usando essa linguagem de mensalão, começou lá? Acho que houve uma politização e uma tentativa de demonizar o partido. Não foram as pessoas; foi o partido. Qualquer um de nós pode cometer erros. Cometendo, devemos ser punidos. Agora, se eu cometo um erro e tenho dez irmãos, eles têm que ser penalizados porque eu cometi um erro? O que fizeram foi isso. Um trabalho de queimação partidária, de um projeto político que tem incomodado a muita gente. Porque nunca se fez um projeto de crescimento econômico com distribuição de renda. Aliás, era proibido. Crescimento era incompatível com distribuição. Foi isso que nós aprendemos a vida inteira: vamos deixar o bolo crescer para depois dividir. E nós invertemos a lógica. Para crescer, tem que dividir. E dividir com quem mais precisa. Então, isso incomoda. Vamos ter que conviver muito tempo com isso, até as pessoas aprenderem que quem está ao seu lado tem o mesmo direito de viver. Isso é da nossa cultura, que vem da escravidão. Mas eu tenho certeza que o partido superará tudo isso. Eu vou dar a minha pequena contribuição no município de Camaçari. Quando veio aqui, Lula disse para mim: ‘Ademar, eu quero lhe dar um conselho. Você passou pela etapa mais difícil. Mas a mais importante começa no dia 1º de janeiro. Monta uma equipe focada na gestão’. Eu disse para ele que era do time de Dilma, de Haddad, de Pochmann. Quer dizer, apesar der ser político desde criança – meu pai foi político e eu fiz política desde menino – eu me dediquei á gestão. Tive a felicidade de acumular as duas coisas: o conhecimento técnico e a vivência política. E esse pouco de cada qual deu Ademar.

BN - Mas o senhor também defende a linha de que o Supremo politizou o julgamento do mensalão?

AD - Eu já não tenho dúvida de que politizou, tanto é que está sendo objeto de tese das escolas de Direito no Brasil inteiro. Essa coisa de presunção do fato, essas coisas. É bom. A democracia é isso. Ninguém pode estar acima da lei. Você tem que respeitar as decisões. Como se diz, decisão da Justiça se cumpre, mas vai virar – vai virar, não – já virou tema das universidades de Direito do Brasil. Está em discussão. Ótimo, porque aí se aprofunda. O que não quer dizer que nós compactuamos com qualquer impunidade. Porque o homem tem que estar abaixo da lei na democracia.

BN - Aqui na Bahia, o conselheiro Pedro Lino, do TCE, é quem mais pega no pé da gestão estadual. E aí o pessoal do governo tem uma fala de que ele age como um deputado de oposição. Fazendo a comparação, o senhor acha que o ministro Joaquim Barbosa age de forma semelhante a um senador do DEM?

AD - Não. É que foi politizado. Quem tiver dúvida de que houve politização do fato, precisa botar um pouco de raciocínio na cabeça. Que foi politização, foi: o momento, a espetacularização do fato...Porque tantos escândalos já existiram e quantos existirão. Agora, o que se estranha é porque não se começou por Minas, porque sentenças eram anunciadas antes do julgamento. Acho que é preciso fazer também uma reflexão sobre esse modus operandi. Tem que ser julgado mesmo, mas tem uma coisa curiosa que ninguém diz. Os ministros que estão lá foram ministros indicados pelo PT, por Lula e Dilma. No passado, eu queria ver isso acontecer. Porque nós somos da Bahia e conhecemos esta história. Ministros ou desembargadores que eram indicados por determinadas figuras até pouco tempo seguiam à risca. Hoje, você indica ministros e eles têm autonomia para decidir de acordo com sua consciência e conhecimento jurídico. A imprensa não mostrou isso com tanta força. Acho que este lado não foi valorizado. Isso é uma coisa nova no Brasil. Aqui na Bahia, a gente sabe que não se via isso. O pessoal recebia ou dava telefonemas para saber o que julgava. 
 

BN - A JAC Motors lança na segunda-feira a pedra fundamental da fábrica aqui na Bahia. São US$ 600 milhões de investimento; criação de seis mil empregos diretos e dez mil indiretos. Na época da gestão do grupo de Antonio Carlos Magalhães, a Ford recebeu isenções de impostos e uma série de incentivos para trocar o Rio Grande do Sul pela Bahia. Não houve nenhuma garantia de que os empregos seriam destinados para a população baiana, sobretudo de Camaçari e região. O que o senhor pretende fazer como prefeito da cidade para garantir que seja utilizada prioritariamente como mão de obra a população camaçariense?

AD - Todo grande investimento privado que vier para Camaçari, nós vamos estabelecer na primeira conversa que os empregos serão prioritariamente de Camaçari, assim como os serviços a serem contratados. Vamos pedir que digam qual é a expectativa de geração de empregos por função para que nós olhemos no nosso banco de empregos se temos aquelas pessoas qualificadas. Se não tiver, a gente, estaremos qualificando trabalhadores de Camaçari enquanto durar o processo de construção da indústria. Respeitado, obviamente, o direito de seleção da empresa. Vamos fazer esta sintonia fina. A mesma coisa para os empresários. Ao chegar um grande empresário, eu vou oferecer um rol de empresas da construção civil, do transporte, da alimentação, para que ele escolha entre estas. Teremos que dialogar permanentemente, senão os benefícios reais do capital sairão para outras regiões. Não queremos que Camaçari seja geradora de empregos para outros municípios. Nada contra o trabalhador de qualquer lugar, mas tenho que priorizar. Se eu não cuidar dos meus, quem vai cuidar? A função principal do gestor é cuidar da sua gente, da sua população. Uma das nossas metas principais é investir na educação, inclusive na qualificação e formação de mão de obra. Já temos discutido Senai, Senac, temos a Cidade Universitária, já temos o Ifba. Já fizemos audiência para implantação do campus da Ufba, que começara na área tecnológica. Já disponibilizamos o terreno; eu acompanhei isso na concepção e definição.

BN - A partir de janeiro, o senhor ocupará o cargo de prefeito, que exige algumas habilidades ou características diferentes das de secretário, que foi o seu último cargo. Com tem sido a transição e qual será a principal dificuldade?

AD - Nós estamos fazendo a transição formal, burocrática. A transição política, vamos começar a partir da próxima semana. Vamos começar a dialogar com os partidos, os vereadores eleitos, as forças vivas da sociedade que não disputaram a eleição, os segmentos religiosos. Vamos ouvir todo mundo que participou. A cara do governo é a cara da nossa campanha. A cara do secretariado tem que conciliar a questão técnica com a política. Não pode ser diferente. Tem que haver essa conciliação. Obviamente, vamos ter algumas dificuldades em encontrar alguém que tenha vivência, experiência e formação de gestor e, ao mesmo tempo, formação de político. Mas, ao longo do processo, vamos estudando juntos. A gente vai aprendendo.

BN - A JAC Motors anunciou uma possibilidade de entendimento com o Palmeiras para, a partir de 2013, patrocinar a equipe, que caiu agora para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. E também anunciou um apoio de patrocínio ao Corinthians de Rugby. Atualmente, o Camaçari caiu para a segunda divisão do Campeonato Baiano e tem um time de futebol americano que joga lá. Como prefeito, o senhor vai tentar reverter o quadro e fazer com que a empresa invista no esporte local?

AD - Claro que vamos fazer. Agora, veja bem: a JAC Motors é uma empresa chinesa e o braço brasileiro dela é paulista. Então, tem que ter esta transição. Vamos trazer ela primeiro. Não vamos espantar o passarinho. Vamos botar cá dentro; depois a gente diz: ‘Companheira, você é baiana’. Vamos ter que trabalhar isso. Eu tenho facilidade em estabelecer relacionamento com as pessoas, as instituições. Não tenho nenhuma dificuldade. É o que eu disse. Interessa o investimento que for bom para o empresário e para o povo de Camaçari. Tem que agradar os dois lados. É o jogo do ganha-ganha. Não sou contra que o capital ganhe, porque não é casa de caridade. Agora, vamos ter que fazer esta discussão.
 

BN - Há algum tempo, o prefeito Luiz Caetano era mencionado como um possível candidato a governador, para suceder Wagner. Ultimamente, têm sido mais citados os secretários Rui Costa e Gabrielli. O senhor acredita que Caetano foi prejudicado pela postura da deputada Luiza Maia, que, na época da greve dos professores, ficou mais do lado da categoria do que do governo?

AD - Até Jaques Wagner conhece bem Luiza Maia. Luiza Maia é uma figura que ninguém domina. Apesar de ser mulher de Caetano e ser do PT, ela tem voo próprio e personalidade própria. Não acredito que isso interferirá cá, no processo. É claro que o barco vai mais veloz se estamos todos remando na mesma direção. Mas eu tenho o sentimento de que a relação política que Wagner tem com contato e pelo fato de Caetano ser uma figura que se movimenta muito, creio que Wagner o colocará como um dos primeiros da fila. Mas isso é um jogo que está para Wagner, para ser tratado em 2014. Então, me deixe fora disso (risos). Eu tenho que cuidar é de Camaçari em 2013.

BN - O senhor gosta de música brasileira?

AD - Gosto.

BN - Qual é a sua cantora favorita?

AD - Acho a voz de Gal [Costa] uma coisa extraordinária.

BN - Então o senhor prefere Gal a Caetano?
 
AD - Eu prefiro os dois.

(Risos)

AD - Se você botasse [Gilberto] Gil, eu diria que preferia os três. 

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