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Entrevistas

Entrevista

José Medrado explica representação contra TVE por transmitir celebração católica - 13/08/2007

Por Daniel Pinto


No Brasil, infelizmente, as pessoas de má fé, pessoas mesquinhas associam a luta pelo cumprimento de seus direitos como uma tentativa de promoção pessoal

Por Daniel Pinto

Medrado, o que te levou a mover uma representação contra a TVE no Ministério Público?
José Medrado –
Olha, ainda não falei isso para ninguém. Mas, eu estava em casa, era um dia de domingo e eu tinha acordado cedo, como sempre faço. Liguei a televisão e comecei a “zapiar” pelos canais de TV e aí parei na TV Educativa, a TV pública da Bahia. Estavam transmitindo uma missa ao vivo. Pensei: vou querer essa atenção também para minha religião. Tomei a iniciativa depois de checar à grade de programação da TVE e constatar que, além da celebração católica, nenhuma outra era contemplada. 

Mas, a intenção era a retirada da missa católica ou a abertura para outras religiões?
JM –
É importante que eu diga uma coisa: antes de tomar qualquer atitude, eu fiz um ofício, que foi registrado em cartório, e encaminhei para o diretor do Irdeb (Póla Ribeiro) solicitando a transmissão das minhas doutrinárias. Ele respondeu dizendo que seria um prazer, mas não havia espaço na grade. Vivemos num país laico, não existe uma religião oficial do Brasil e nem poderia existir. Seria uma inconstitucionalidade. Então, porque uma emissora pública transmite missas católicas e não cede o mesmo espaço para o espiritismo, o budismo, o candomblé, a umbanda, etc? Todas as religiões deveriam ter o mesmo direito. O espaço deveria ser o mesmo.

Apesar de não revelar a data, o diretor do Irdeb, Póla Ribeiro, disse que vai tirar do ar a transmissão das missas dominicais, mas pretende exibir as missas da Igreja do Bomfim, realizadas nas primeiras sextas-feiras do mês. O senhor achou a decisão razoável?
JM –
Não! Definitivamente, não! Vai continuar a mesma coisa. A situação é a mesma. Se não há abertura para outras religiões, a TVE vai continuar ferindo a Constituição. Não dá para tolerar uma ilegalidade. Essa atitude é um eufemismo. No estado de direito democrático não dá para privilegiar uma religião em detrimento de outras.

Mas, o argumento de Póla é que as missas do Bomfim são exemplos de sincretismo.
JM –
Eufemismo. Os evangélicos, por exemplo, certamente não se vêem representados nas missas do Bomfim. Como já te disse, todos merecem o mesmo espaço. Aliás, todos têm direito ao mesmo espaço. 

Numa entrevista a um jornal local, Póla argumentou que as transmissões dos cultos católicos atingem bons níveis de audiência, chegando a alcançar a vice-liderança no horário, em Salvador. Como a doutrina espírita avalia a exploração da fé em busca de audiência?
JM –
Não. De forma alguma. Acredito que ele (Póla) se apóia nesse argumento para justificar a ação da TVE. A religiosidade não pode ser moeda pela busca desenfreada de audiência, muito menos numa emissora pública.

E quanto às emissoras comerciais, a recomendação do MP não deveria incluí-las, já que elas são concessões públicas?
JM –
Olha, não penso dessa forma. No meu entendimento é diferente. Ainda que eu saiba que algumas emissoras – apesar da concessão pública – usam seus canais para o proselitismo religioso, mesmo assim, são elas que arcam com os custos da produção. Elas pagam pessoal, impostos, manutenção, enfim, as TV’s são responsáveis pelos seus gastos. Ainda que seja uma atitude questionável, mas elas se bancam. Mas, e quanto à TV pública? É o nosso dinheiro que está envolvido. As pessoas ainda não sabem exigir seus direitos. No Brasil, infelizmente, as pessoas de má fé, pessoas mesquinhas associam a luta pelo cumprimento de seus direitos como uma tentativa de promoção pessoal, enquanto minha ação era em defesa de meus direitos. Não dá para viver assim, com esses desrespeitos, desmandos, corrupção. Temos que reagir e foi o que fiz.

Medrado, agora, uma questão mais abrangente: como você avalia a teocracia? É possível viver num país em que a “autoridade” emane de Deus? Religião e Política é uma boa combinação?
JM –
Nunca foi e nunca será. Eu sempre digo uma coisa que às vezes choca as pessoas: sou contra as religiões e a favor da religiosidade. Durante toda a história da humanidade, as religiões foram usadas com fins políticos, em busca do poder. Sou absolutamente contra a aproximação da política partidária com a religião. Só para você ter idéia, Irmã Dulce – por todas as suas ações em prol dos mais pobres, pela maneira que ela agia – causou desconforto entre alas da Igreja Católica. Certa feita queriam até retirar o hábito (insígnia religiosa) dela. Houve uma época em que também havia interesses políticos dentro do espiritismo. Mas, não há como estabelecer uma hierarquia político-partidária dentro do espiritismo. Não dá! Existem duas coisas que deveriam ser consideradas crimes: a primeira é a manipulação da fé. Os indivíduos que usam a fé das pessoas para depois transformá-las em massa de manobra deveriam ser considerados criminosos. O segundo diz respeito àqueles profissionais que se intitulam “levianamente” como terapeutas de processos mentais. Falsos especialistas que usurpam o povo e maculam a fé.

Mudando de assunto, esta é uma questão delicada, mas existe uma divisão entre os espíritas em nossa cidade? Existe empatia / “simbiose” entre a “Mansão do Caminho”, liderada pelo médium Divaldo Franco, e a “Cidade da Luz”, complexo religioso e assistencial fundado por você?
JM –
Na verdade você quer saber se eu e Divaldo nos damos bem, não é? Fique tranqüilo. Não vou encarar sua pergunta como uma ofensa. Olha, eu vou te falar uma coisa: meu estilo não agrada a alguns conservadores, que se acham cardeais do movimento. Até pela própria idade, eles não estão em sintonia com o nosso tempo. Eles impõem resistência ao meu jeito porque eu saio, vou a shopping, cinema, subo até em trio elétrico. Eles acham que esse é um comportamento indevido, que nesses locais existe a presença de espíritos malignos. Eles vivenciam o medo, enquanto eu prezo a libertação espiritual. Olha, eu nunca fiz uma palestra na “Mansão do Caminho”, mas Divaldo já falou em nossa casa, na “Cidade da Luz”. Tenho consciência de que eu não sou santo, mas tenho boa fé. Só para você ter uma idéia, na “Cidade da Luz” temos diversas frentes de trabalho que oferecem gratuitamente suporte jurídico, assistência social, atendimentos médico e odontológico, escola, tratamento para dependentes químicos, também temos um centro de referência no combate à violência contra a mulher, tudo isso, além do caráter religioso. Só no ano passado foram mais de 176 mil atendimentos. Por fim, acredito que a Federação Espírita da Bahia deveria agir menos pela censura e se transformar numa instituição que, verdadeiramente, defenda a doutrina espírita.

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