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Entrevistas

Entrevista

André Curvello falou sobre o papel da comunicação na prefeitura e sua relação com o PMDB - 26/03/2012

Por José Marques / Fernanda Aragão / Evilásio Júnior

Fotos: Evilásio Júnior / Bahia Notícias

Bahia Notícias: Por que o senhor decidiu aceitar o convite do prefeito João Henrique para voltar para a prefeitura quase dois anos depois de ter deixado a gestão municipal e oito meses antes do fim do segundo mandato de João Henrique?

André Curvello - Nós, profissionais de comunicação, vivemos de desafios. Esse aí é um desafio profissional que eu avaliei que pode ser interessante, a partir do momento que eu consiga desenvolver um bom trabalho de comunicação. É bom deixar claro que eu não pertenço a partido político nem grupo político nenhum, eu sou um profissional de comunicação e avaliei que posso contribuir de alguma maneira para uma cidade melhor. Eu acho que a ferramenta [comunicação] pode sim ser utilizada na construção de uma cidade melhor. Eu acho que é uma contribuição, independentemente da questão profissional, que a gente pode dar enquanto cidadão à cidade. Aqui na Bahia, a gente precisa aprender a ser profissional. Sou profissional e aceitei o convite do prefeito João Henrique. Em passado recente, faltou muito pouco para trabalhar com o governador Jaques Wagner, o que seria uma imensa honra. O Popó [Ipojucã Cabral] foi subsecretário e hoje está no governo baiano, como profissional. A vida é assim.

BN - E você acha que o fato de a deputada Maria Luiza ter rompido com o prefeito João Henrique contribuiu de alguma maneira para o seu retorno?

AC - Olha, essa polêmica em torno do nome da deputada eu prefiro não entrar em detalhes. Eu nunca pedi para ficar. Sempre me pediram para não sair. Eu tomei minha decisão porque eu achei que seria o momento mais oportuno e que eu teria melhores condições de desenvolver um trabalho.

BN: Quando você saiu da gestão, a Secom não estava unificada. Na coluna Tempo Presente, do Jornal A Tarde, foi publicado, recentemente, que você queria a unificação da Secretaria de Comunicação.

AC - Não é unificação. Deixa eu explicar como é a situação, até para ficar mais claro. Existe uma assessoria que é de Imagem e Gestão ligada ao Gabinete do Prefeito, ligada à Casa Civil. Essa assessoria administra a publicidade e a propaganda da prefeitura. Não é ligada à assessoria de comunicação. O que eu deixei claro e expliquei para o prefeito é que, em um momento destes – momento de reta final do governo –, a gente sabe que é politicamente delicado, é preciso haver uma integração entre a Secretaria de Comunicação e a Assessoria de Imagem e Gestão. A comunicação é feita de vertentes e essas vertentes precisam estar próximas. Quais são essas vertentes? É a assessoria de imprensa, é o relacionamento com a mídia, é a publicidade, é a propaganda, é o marketing. Então, essas ferramentas precisam estar em consonância para que o trabalho consiga fluir de uma maneira mais ampla, ágil e padronizada. É preciso se ter uma comunicação padronizada no poder público.

BN - Mas elas já estão padronizadas?

AC - Eu acho que, a partir do momento em que a gente consegue entrar com uma equipe que tenha uma sintonia maior, que tenha uma identificação maior entre os seus pares, em pouco tempo a gente pode conseguir  uma linguagem mais padronizada para o poder público.

BN - O que seria esse momento “politicamente delicado”?

AC - Eu explico. É o último ano de gestão do prefeito, é um ano eleitoral e o próprio ano eleitoral é um ano nervoso. Você vai ter uma eleição municipal em que todas as questões da cidade vão estar em debate e, fatalmente, as pessoas estarão apresentando propostas para a cidade, pelo menos eu espero que sejam propostas. Mas, no calor da campanha, com certeza, virão as críticas de adversários, virá todo aquele debate em torno da cidade. Então, é preciso que a prefeitura esteja preparada para passar as informações necessárias e prestar os esclarecimentos necessários. Para isso, a comunicação tem um papel muito importante, no sentido de posicionar e esclarecer a sociedade com relação a qualquer tipo de dúvida que seja levantada.

BN - Mas as críticas já estão acontecendo por parte da população e de alguns políticos também. Vocês têm agido de alguma maneira específica? Há algum plano para tentar reverter isso?

AC - Nós estamos há apenas uma semana e já pegamos esse abacaxi que foi a questão das contas na Comissão de Constituição e Justiça. Existe sim, estamos desenvolvendo, em caráter de emergência, em alta velocidade. Estamos fechando um planejamento que tem como alicerce a verdade e o bom relacionamento com a imprensa. A gente tem que estar apto a prestar nosso serviço à imprensa. Nosso papel é construir uma ponte entre o governo e a imprensa. Este é o objetivo maior. Mas eu acho que o mais importante é que, na comunicação, existem dois momentos: o momento de você ser proativo e o momento de você ser reativo. Então eu acho que o governo, por obrigação que tem com a sociedade e pelo dever que tem de informar, deve ser mais proativo na sua comunicação.

BN - E a gestão de João Henrique tem sido proativa? Porque, ultimamente, o que se tem percebido é que o prefeito evita aparecer, fazer coletivas de imprensa, falar com a própria imprensa.

AC - Eu não quero avaliar o passado, eu quero avaliar o que vai ser feito daqui para frente e eu acho que a gente vai sim buscar essa proatividade. Eu posso garantir muito trabalho, no sentido de fazer aquela comunicação que a gente acha que deva ser a melhor. O prefeito tem muita coisa para mostrar. O nosso trabalho é justamente esse. Desenvolver a estratégia correta no processo de prestação de contas à sociedade. João Henrique está leve, mais seguro. Está pronto para mostrar suas realizações. Ele tem muita identidade com as pessoas mais humildes, as que mais precisam de apoio.

BN: É característica do seu trabalho colocar os benefícios que a prefeitura faz para a cidade e colocar o cidadão como sujeito das informações prestadas pelo serviço público. Foi possível notar, desde a sua saída, notícias vindas da prefeitura, muito personalistas com frases como “o prefeito faz", “ o prefeito acontece”. Você vai fazer alguma modificação para que o contemplado volte a ser o cidadão e não a ideia de “o prefeito é quem faz”?

AC - A prefeitura é apenas uma prestadora de serviço ao cidadão. Neste sentido, a gente tem que falar, mas tem que ouvir também para saber se esse ou aquele benefício na área de saúde, na área de educação, por exemplo, está sendo suficiente e satisfatório. Eu acho que o dever do poder público é prestar serviço e, nesse sentido, a comunicação tem que estar alinhada. Eu não acredito em comunicação personalista.

BN - Você falou que não queria falar do passado, mas encontramos uns números divulgados pelo Instituto Datafolha, nos últimos anos, que apresentam que o prefeito João Henrique como o pior do país. Em uma entrevista mais antiga, você afirmou que duvidava dessa constatação pelo fato de a pesquisa não ter sido realizada com todos os prefeitos do país, mas apenas oito. Vocês já fizeram outro tipo de pesquisa a nível local?

AC - Quero deixar claro que não é questão de confiar ou não confiar. O que eu falei, na época, é que eu não considero correta a avaliação de ser o pior prefeito do Brasil. É uma questão até mesmo matemática. Nós somos 27 capitais, se a pesquisa foi feita apenas em oito capitais, como é que se pode falar em título de “pior prefeito do Brasil”? Se fosse feita a pesquisa em todas as capitais e o índice dele fosse o pior, aí seria outra história. Eu costumo respeitar muito pesquisa e, inclusive, um instituto como o Datafolha. O que nós colocamos, na época, é que a interpretação que foi dada não era a interpretação correta. Isto foi o primeiro ponto e o segundo ponto, eu me lembro bem, é que a diferença da avaliação do prefeito para o segundo colocado, por exemplo, era muito pequena. Então, eu não acho que seja correto falar em pior prefeito do Brasil. Mesmo porque – aí vai um comentário sobre a imprensa – não interessa a ninguém ter o pior prefeito do Brasil, mas é comum o jornalista – eu sei por que sou jornalista por formação – querer sempre o título mais picante por dar mais Ibope. Nós temos pesquisas, de consumo interno, de caráter qualitativo, que, antes mesmo de assumir, eu pedi para serem feitas e o que a gente vê é que o prefeito está dentro de uma média bastante aceitável. A administração tem seus pontos críticos, mas também tem os pontos positivos reconhecidos pela sociedade.

BN - Tem mais uma coisa sobre o passado que se tornou presente. Quando houve aquele problema com a deputada Maria Luiza, em que ela foi à Assembleia e o culpou por um problema da gestão de João Henrique – todos sabiam que ela, nos bastidores, tentava trabalhar para tirá-lo da gestão –, o comentário era que quem segurou André Curvello no posto foi Geddel Vieira Lima. Sexta-feira (23), na Rádio Metrópole, o radialista Mário Kértesz, que é pré-candidato a prefeito do PMDB, chegou a citá-lo como um possível traidor porque você tinha sido indicação do PMDB e teria, inclusive, ganhado dinheiro em campanha de Geddel Vieira Lima. O que há de verdade nesta história para o André Curvello que já declarou não ter partido político?

AC - Boa pergunta. Primeiro ponto, eu acho que Mário está em campanha e, nesse momento, às vezes, a pessoa se envolve emocionalmente. Então, eu até o perdoo, porque eu ainda o tenho como amigo, por todas as bobagens que ele falou no rádio a meu respeito. Ele tem um sistema de comunicação poderosíssimo. Ele fala o quer, todos os dias, esculhamba quem quer e fica por isso mesmo. Eu não tenho medo. Tenho a minha consciência tranquila. Aliás, minha consciência é a minha única dona. Mas, eu ainda tenho o Mário como amigo. É ano eleitoral, os ânimos ficam à flor da pele e aí as pessoas podem falar um monte de besteira na hora da raiva. Eu o desculpo. Não tenho mágoas. São muitos anos de amizade. Agora, é bom deixar claro que eu nunca fui assessor de Geddel Vieira Lima e nunca fui assessor do PMDB. Eu construí com o ministro uma amizade lastreada na ética e na lealdade. Não fiz a campanha de Geddel, mas ajudei no que eu pude, porque eu achei que ele tinha propostas bastante positivas para o Estado, mas nosso relacionamento sempre foi de amizade. Quando da minha passagem pela prefeitura, sempre recebi todo apoio do PMDB através do [ex] ministro e do hoje deputado Lúcio Vieira Lima, pelos quais nutro profundo carinho e admiração. Com relação a essa coisa de traição, eu acho que o próprio Geddel e o próprio Lúcio conhecem meu caráter e podem chegar e avaliar. Não está no meu dicionário de cidadão, de homem, essa palavra 'traição'. Geddel é um profissional da política e eu sou um profissional da comunicação. Como um profissional da política, ele está certo nos posicionamentos dele e, com certeza, ele compreende que eu sou um profissional de comunicação. Nesse momento não estamos juntos, amanhã ou depois, quem sabe? Quando a gente é convidado para trabalhar, avalia se é bom ou é ruim. A avaliação pode ser positiva ou não, mas cabe à gente mandar em nossa vida. Eu acho muito importante isso. A vida da gente não tem dono.

BN - Na época da segunda campanha, o prefeito João Henrique tinha Geddel e o fator comunicação foi decisivo para sua reeleição. O prefeito tem mais oito meses de governo, não tem o apoio do PMDB e está em um momento delicado por causa do problema com o Tribunal de Contas e com protestos contra ele. Como reverter a imagem dele neste tempo?

AC - Em 2008, eu fui convidado para ficar até o final da campanha, em dezembro, e depois ele e o próprio [ex] ministro [Geddel] me pediram para ficar. Eu tinha recebido, inclusive, convites de outros grupos políticos, mas eu decidi ficar. Quando terminou a campanha, o prefeito disse, publicamente, que a Secretaria de Comunicação tinha sido decisiva no processo de reeleição, até pela postura proativa que nós criamos na própria dinâmica da comunicação. Eu confesso que a secretaria fez seu papel, mas não sei avaliar que tipo de importância nós tivemos. A comunicação não faz milagre. Disseram “ele está entrando para salvar a imagem do prefeito”, não tem nada disso. Eu acho que isso tudo é fruto de imaginação. Primeiro ponto: fala-se muito em desgaste da imagem do prefeito, é preciso identificar onde está esse desgaste. Em que camada da sociedade? Segundo ponto: a gente não faz milagre. Com a dinâmica da comunicação, a gente pode, com uma estratégia bem feita, ajudar a melhorar. Mas se, efetivamente, as ações da prefeitura, a prestação do serviço público não estiver agradando a sociedade, o trabalho da comunicação fica muito difícil, porque a gente estará fazendo uma comunicação que não é verdadeira. A gente tem que informar o que é verdade. O que aconteceu de obra, o que a prefeitura está fazendo para melhorar a vida das pessoas. Isso aí que é comunicação, isso que a gente tem que mostrar e temos até obrigação de mostrar, de prestar conta. Se a gente conseguir levantar essas informações e mostrar, fatalmente a sociedade vai perceber que a prefeitura presta um serviço satisfatório, caso contrário, não se faz milagre.

BN - Em relação aos vereadores que vão ter que votar o parecer do Tribunal de Contas que pede a rejeição das contas do prefeito João Henrique, a comunicação vai atuar de alguma forma para tentar “convencer” a sociedade e a própria Câmara de que não houve nenhum tipo de erro nas contas do exercício de 2010?

AC - A comunicação tem o papel de levantar informações para o Poder Legislativo. É importante tirar as dúvidas do Legislativo e do cidadão. Eu acho que a Comissão de Constituição e Finanças seguiu o seu caminho dentro de um processo legítimo no que diz respeito à analise e há quem concorde e discorde, mas tem que respeitar o processo democrático e a independência dos poderes. No plenário, a gente espera que os vereadores analisem de forma criteriosa e de forma técnica e que tenham, no Legislativo, as informações necessárias para mostrar que – pelo menos é o que diz o parecer do Tribunal de Contas – não houve dolo, nem improbidade administrativa. O que a gente quer é [provar] que os critérios do Tribunal de Contas – que exerce um poder de fundamental importância na sociedade – não estão em consonância com os critérios que foram usados pelos técnicos da prefeitura. A gente espera que seja uma avaliação técnica e que os vereadores cumpram seu papel, como representantes do povo, de analisar de forma técnica, sem paixão política. Eu confio muito que essas contas sejam aprovadas porque todos os esclarecimentos necessários vão ser dados aos vereadores e eles mostram que não existe o motivo de força maior que faça com que essas contas sejam reprovadas.


BN - Para encerrar, se você estivesse como secretário durante o carnaval, como lidaria com a divulgação das fotos em que o prefeito João Henrique aparece curtindo a festa como folião? Ele inclusive posou para algumas...

AC - Bom, eu não era secretário e eu não gosto de estar avaliando. O prefeito quis valorizar o Carnaval de Salvador em um momento difícil, pós-greve da Polícia Militar. Além disso, ele tem o direito de sair na pipoca, de brincar no bloco que ele escolher. No mais, ele manifestou seu carinho, seu amor pela mulher. Ora, todo mundo gosta de beijar na boca. Por que não o prefeito? Ele também é homem, está apaixonado e tem coragem de assumir tudo isso de público. Eu, particularmente, avalio que ele podia ter se excedido menos. As pessoas têm as figuras públicas como mito. Para muitas, o governador, o prefeito e o presidente não podem declarar publicamente que estão apaixonados, beijar suas esposas publicamente. Que mulher não gosta de receber um beijo do seu marido, namorado, noivo? Estavam acostumados com um João Henrique diferente. É como ele falou, o amor e a paixão transformam. Eu acho que a gente deveria respeitar, nesse caso, a individualidade, a vida privada do prefeito. Às vezes, esses sentimentos levam a algum tipo de excesso. Eu achei que a participação dele foi positiva no carnaval e, se eu tivesse ao seu lado, diria: “Menos” (risos).

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