Edvaldo Brito nega interesse em desistir da disputa para lançar-se postulante a vereador - 06/02/2012
Bahia Notícias – O vice-prefeito de Salvador, Edvaldo Brito, este ano, foi mais prefeito do que vice, com as ausências do titular, que é o João Henrique Carneiro. Como é que o senhor avalia esse tempo em que o senhor comandou o Município?
Edvaldo Brito – Você acabou falando de uma coisa que nem mesmo eu tinha tido consciência. Dos 31 dias de janeiro, exerci mais tempo a prefeitura do que a vice-prefeitura. Eu avalio assim: em primeiro lugar, parece que eu dei solução a um problema que estava engasgado e que tinha uma importância enorme, não só para Salvador, mas para a economia do país, porque esse problema estava na base da utilização dos recursos do PAC e na base da busca de recursos para nós, na medida em que se dizia – e é verdade – que a viabilização do metrô da Paralela é uma grande oportunidade de desafogar o trânsito da cidade. Isso foi algo que me deixou muito animado. Ali, eu sentei para redigir o convênio, na parte em que ainda estava duvidosa, com os procuradores do Estado, com a procuradora-geral do Município [Angélica Guimarães] e solucionamos todo o problema de ordem jurídica que se apresentou. Eu acho que foi a grande conquista nos meus dias de exercício. Em segundo, a leitura da mensagem.
BN – E como foi a experiência de ser o primeiro interino a ler a mensagem do Executivo na abertura dos trabalhos na Câmara de Vereadores?
EB – O prefeito tinha uma necessidade de estar no Rio de Janeiro para atender ao chamado da Companhia Brasileira de Transportes Urbanos (CBTU) e eu me recusei a ir, apesar de tudo que, sociologicamente, é difícil de esconder. Havia um movimento de um segmento social que está insatisfeito, e é natural que haja insatisfações, e eu fui ler a mensagem. Na hora em que as pessoas estavam tentando fazer de tudo para impedir esse ato democrático, eu insisti na leitura, porque achava que era o meu dever. Continuei lendo, forte, com toda a voz ressonante que Deus possa ter me dando, e foi um momento indescritível para mim, mas se me pedir de novo, eu não farei. Eu me senti cheio de emoções. Parei de ler a mensagem antes do final e olhei para aquela gente, na expectativa de que se a hostilidade era para alguém, não era para a minha pessoa. Estava sendo gasta a energia de cada um ali com a pessoa errada. Espera o momento para despejar na pessoa certa, se for o caso. Naquele momento eu olhava e via que eram negros como eu, gente pobre como eu sou, ou fui pelo menos totalmente. Eu entendia que estava havendo um erro e me lembrei que eu subi à tribuna 33 anos depois de eu subir pela primeira vez, como prefeito. Subi a segunda, como prefeito, pois naquele momento eu era, e que prefeito: negro, filho de lavadeira, filho de pedreiro, morando em casas de taipa no Barbalho, que morou em loja no Tororó, que botou toda a sua força para estudar, para ser o homem que sou hoje, e olhar aquela gente servindo de massa de manobra de quem quer que seja, não importa. Eu não estava defendendo interesse próprio para fazer aquilo naquele momento. Aquela gente, naquela hora, devia fazer outra revolução. A revolução de pedir inclusão social verdadeira, não discurso bobo de quem tem interesse em manter essa massa sob sua manobra, em vez de preparar essa massa para servir como fermento de uma sociedade melhor. É isso que eu não consigo consentir. A minha pergunta sempre será essa: Por que nenhum negro passou da porteira para chegar aonde eu cheguei? Isso para mim é dilacerante. O que marcou na prefeitura esses dias foi isso. Um divórcio com a realidade para o discurso que está aí.
BN – Agora, em relação a essa ausência, o prefeito estava de férias nos Estados Unidos, depois foi para a Espanha e agora estava no Rio de Janeiro. Nesse meio tempo, foi o senhor quem liderou o entendimento para resolver a pendência do convênio do metrô entre prefeitura e governo do Estado. Como liderou esse movimento, não seria mais indicado que o senhor fosse ao Rio para firmar o acordo com a CBTU para que a linha 1 do metrô operasse no primeiro semestre, em vez de substituir o prefeito na leitura da mensagem do Executivo na Câmara?
EB – Eu diria a você até que tem uma lógica, mas, às vezes, a cabeça das pessoas funciona com uma lógica própria. Acredito que tenha sido uma lógica própria do prefeito e ele, como titular do cargo, preferiu ir para lá e me deixar aqui para fazer algo. Eu não acredito que ele tivesse feito isso porque tivesse tido a impressão de que uma missão era principal e a outra era secundária. Eu acredito que ele entendeu que era possível eu ter um desempenho correto, que pudesse fazer igual.
BN – Se o papel fosse inverso, o senhor teria tomado a mesma atitude ou iria para a Câmara e colocaria o vice para ir ao Rio para terminar de discutir a questão do metrô?
EB – Eu acho que a minha resposta está na minha própria atitude. Você sabe que, pelo que a história conta de mim, eu estaria onde fosse necessário, fosse qual fosse o problema.
BN – Nesse último mês, especificamente, duas missões lhe foram designadas pelo prefeito. A gente sabe também que houve um período de afastamento entre o senhor e ele. Eu queria saber se há algum tipo de mágoa em relação ao prefeito João Henrique por ele ter deixado o senhor como um observador à distância?
EB – Não. É óbvio que eu tive uma surpresa enorme e, diante da transparência que preside a minha vida, eu não podia deixar de ir à rua falar. Eu sempre lembro desse fato e ele é um fato histórico. Eu saí candidato, em 2008, com três ou quatro fortes posições contra o prefeito João Henrique. Até eu me alinhar à candidatura dele, em maio, eu estava na oposição forte. Eu dei uma entrevista em janeiro de 2008 contra uma declaração dele sobre aumento de impostos. Disse que era um absurdo, uma contradição, que uma pessoa que se dizia candidato à reeleição não tivesse criatividade para resolver os problemas financeiros. Em fevereiro ou março, eu candidato a prefeito, fiz um artigo no jornal A Tarde, em que dizia ‘com que recursos governarei Salvador’. Nesse artigo, eu dizia assim: ‘se ele me chamar, eu vou dar a ele os elementos necessários à solução dos problemas’. E o que era interessante nesse artigo era que eu não queria que o plano fosse implantado em janeiro de 2009. Eu queria que cada candidato dissesse com que armas iria governar Salvador. Eu faço a mesma consideração agora. Com que armas cada qual irá governar Salvador? Conversa fiada? Andar nas lavagens ou em todas as festas de Salvador? Com isso não se vai corrigir os defeitos dessa cidade. Está na hora de cada um botar suas armas na mesa e dizer: ‘eu vou resolver os problemas de Salvador assim’. Pronto. Então, fui cooptado por Geddel Vieira Lima que, com muita habilidade, me levava o recado do seu pai, Afrísio, de que eu tinha responsabilidade com a cidade e que ele me sensibilizaria. Eu reagi muito, mas, em um determinado momento, aceitei. E ainda fiz uma pergunta, brincando: ‘a noiva acha o quê?’. Então, no dia em que eu fui formalizar que estaria com ele na chapa, levei um plano de ação que chamei de PAI – Plano de Ação Integrada. Nesse plano de ação, eu colocava algumas coisas que eram fundamentais. Dentre elas, a questão da educação. Eu entendia que, com os recursos que o governo federal, através do presidente Lula, tinha ensejado com a Emenda Constitucional 29, que trazia para o próprio texto da Lei maior os valores em bilhões de reais para implementar a educação, sobretudo para crianças de zero a cinco anos, que é a educação infantil, misturada com creche, com pré-escola, eu me animei e entrei na briga. Fui incumbido por ele a fazer o plano de governo e fiz. Em 2009, tínhamos reduzido a máquina administrativa de 18 para 11 secretarias. Logo no início, me virei para que algumas providências fossem adotadas, como redução das contas de telefone, aluguel de carro, diminuição de terceirizados, uma coisa assim bem rápida que eu já tinha examinado em termos precisos. Trinta e três milhões de reais, só em 2009, com essas pequenas providências, nós iríamos obter. Reunimos todos os secretários, mostramos metas. Em 2010 começaram os interesses eleitorais. O prefeito tomou uma posição e, quando chegou o mês de maio ou junho, a dissensão estava feita. Eu, que não era candidato a coisa nenhuma, terminei candidato a senador da República porque a chapa do Geddel precisava ser completada. Com essa campanha eleitoral mais as próprias posições do prefeito, fica aqui, fica acolá, nós nos separamos. Mas eu tinha propostas, do ponto de vista administrativo e foi aí que eu me aborreci. Porque essas propostas passaram a não ser absorvidas e a minha dissensão com ele não é de mágoa, não é do ponto de vista ideológico, não é do ponto de vista político-partidário, não é do ponto de vista eleitoral. É do ponto de vista administrativo. No momento em que ele vai, levanta uma bandeira branca e me convoca... Porque na Constituição diz que o titular convoca o auxiliar. Não é convite nem nada não. Então, eu só tenho dois caminhos: ou eu aceito ou eu renuncio. Então, veja, se minhas dissensões com ele são meramente administrativas e ele me dá chance de administrar, por que é que eu não vou? Aí está o convênio da Paralela e se tem dúvidas, algum dia os bastidores vão contar que eu consegui aquilo lá. Então, toda vez que ele me chamar eu vou. E toda vez que ele não chamar e eu estiver contra, eu vou abrir meu bico, porque eu fui para lá para isso. Quando ele estava com 67% de rejeição e apenas 7% de aprovação, eu fui para a rua, bater boca com todo mundo para ganhar votos e alavancá-lo. Então, agora é a minha vez de querer que ele acerte. Se não acerta, cacete nele também.
BN – E desse plano PAI do senhor, quantos por cento foram executados?
EB – Rapaz, sinceramente, não sei.
BN – Há uma avaliação geral de que falta qualidade à Câmara Municipal de Salvador. O senhor aceitaria o desafio de ser um integrante da Casa para qualificá-la mais?
EB – Eu sou soldado do meu partido. Entrei no PTB há 27 anos e foi o único que tive desde o processo de redemocratização do país. Portanto, o partido me escolheu pré-candidato a prefeito em 13 de janeiro de 2011. Mantenho essa posição até aqui. Mantendo essa posição, não tenho porque divergir dela. Não sou candidato a vereador. Entendo que essa Câmara que está aí reflete o momento político da cidade. Conheço cada um dos 41 vereadores que estão aí e eles representam os seus segmentos eleitorais. Respeito a Câmara e entendo que ela está legitimada. Mudança, eu não tenho dúvida de que vai acontecer. O eleitor está hoje na pré-adolescência, cultiva e cultua valores que, quem está na mocidade ou que já é adulto, já não cultua mais e isso vai influenciar na eleição profundamente. Eu só espero é que, na próxima Câmara, mantidos ou não os que estão lá, nós não fiquemos presos a estereótipos. Essa é hora de saber se quem está votando está consciente do que está fazendo.
BN – O senhor disse que é um homem de partido. Qual é a sua percepção, caso o PTB desista da candidatura própria a prefeito, quem tem maiores chances de receber o apoio? O seu ex-aluno e amigo Nelson Pelegrino, do PT, o seu colega de administração municipal João Leão, do PP, ou a deputada Alice Portugal, do PCdoB?
EB – Eu acho que a opinião pública é quem conduz isso. O partido tem que ser reflexo dessa opinião. Se você tem um programa sobre tudo, não tem como fugir disso. O que acontece? Nós estamos filiados em um grupo partidário, o terceiro da Câmara dos Deputados, que é formado pelo PTB, pelo PSB e pelo PCdoB. Esse grupo tem que refletir aqui na cidade de Salvador e no Estado da Bahia a mesma coisa, senão não haverá coerência. O governo federal é do PT, o governo estadual é do PT. Nessa linha, se o Partido Trabalhista Brasileiro entender que é necessário mudar-se para o candidato do PT, eu, pessoalmente não tenho nada contra, até porque tenho que seguir a disciplina partidária. Ainda há esse subjetivismo ao qual você se referiu. O candidato do PT é um menino para mim, no sentido afetivo, porque foi um aluno meu na Faculdade de Direito, um bom aluno, colega contemporâneo do meu filho mais velho, e merece muito o meu respeito. Temos um afeto pessoal, nos cumprimentamos beijando no rosto. Então, não tenho nada contra. Quanto ao outro candidato, do PP, você veja que há uma ligação nossa por força apenas de estarmos na administração municipal, além de estarmos ligados nos dois governos: tanto federal quanto estadual. Se o meu partido for para lá, não tenho dúvida em respeitar a decisão partidária. Mas, por enquanto, continuo candidato por vontade própria e por determinação do meu partido e, evidentemente, não fui instado a qualquer situação que se faça.
BN – Recentemente, a insatisfação de parte da população soteropolitana contra o prefeito João Henrique ganhou uma proporção maior com o Movimento Desocupa. É justo, no seu entendimento, que se sugira isso?
EB – Veja, eu acho que a democracia tem ilimitada forma de postulação, contanto que ela não atinja o equilíbrio da sociedade, do ponto de vista da violência física. De resto, eu sou favorável a tudo que venha pacificamente a partir da divergência e do confronto de ideias. É o que eu vejo nesse momento. Há um grupo da sociedade qualificado na reivindicação. Não é a primeira vez que esse tipo de procedimento ocorre no país. Recordamos que, na época de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o que mais se fazia, no final do governo dele, era ‘fora FHC, fora FHC’. Não gosto desse tipo de postulação porque a democracia nos dá canais muito mais eficazes. Esse grupo, em vez de estar gastando a sua energia para algo que ele sabe que só a força pode conseguir, porque o prefeito está legitimado dentro do sistema brasileiro por um mandato, vamos discutir as ideias com quem está pretendendo entrar. Saber, com quem está pretendo entrar, até que ponto tem comprometimento com esse programa do prefeito João Henrique. Porque o que se diz é que todo mundo está na moita esperando o apoio do prefeito, porque ele continua forte. E continua sim. Ele tem uma força muito grande no eleitorado, sim. E se isso é verdadeiro, agora é a hora de confrontar o plano dele com os demais e perguntar: ‘você vai fazer o quê’? Sem entrar no mérito do que eles estão fazendo, eu só acho que a forma não está correta.
BN – Então, o senhor seria, com honra, o candidato à sucessão do prefeito João Henrique, com o apoio dele?
EB – Eu não afasto nada. Não afasto ninguém. Se eu quero ser prefeito, não excluo nenhuma parcela da sociedade. Eu botei a minha cara na rua para dizer do que eu sou contra no projeto dele. Colocarei quantas vezes forem possíveis. Mas é preciso que todos os que querem apresentar um programa diferente também debatam as suas ideias. Há um programa do senhor prefeito João Henrique que está desafiando as pessoas que estão contrárias a discutir e ter a coragem que eu tive de, embora dentro da mesma chapa, mostrar o meu inconformismo.
BN – O prefeito João Henrique atrapalha mais quando está fora ou quando está em Salvador?
EB – Eu não acho problema de atrapalhar aqui ou estando fora daqui. Porque, mesmo fisicamente fora da cidade, ele está na liderança do processo governamental que ele implantou aí. Você não vai conseguir que nenhum dos auxiliares dele faça nada contra a vontade dele. E quem ficou no lugar dele, como é o meu caso nesses 15 dias, não vai fazer uma coisa ineficaz, demitindo qualquer dos auxiliares dele, por esta ou por aquela razão, como já se sabe que aconteceu no nosso Estado. Não adianta nada. Então, eu colaborarei muito mais com ele se eu fizer o que acabo de dizer. Hoje eu não preciso mais criticá-lo, no sentido público, porque ele não está mais dando chance para isso. Ele já está me chamando para a mesa para eu dizer olho-no-olho o que eu concordo e o que eu discordo. Quando ele não estava fazendo isso, eu tinha responsabilidade pública e fui para a rua falar desses assuntos. Portanto, eu não afirmaria que ele atrapalharia mais fora ou dentro da cidade, não. Ele é ele.
