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Entrevistas

Entrevista

Jadelson Andrade fala sobre necessidade da prevenção às doenças cardiovasculares - 02/01/2012

Por Evilásio Júnior

Fotos: Tiago Melo/Bahia Notícias

Fotos: Tiago Melo/ Bahia Notícias
 

Bahia Notícias – Qual a importância que o senhor vê no papel de presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC)?

Jadelson Andrade – A Sociedade Brasileira de Cardiologia hoje é uma das mais expressivas sociedades de especialidades no país e no contexto internacional. A SBC ocupa, pelo número de associados, pelo número de trabalhos científicos que ela produz, pelo número de eventos, pelas suas inserções internacionais, o terceiro lugar dentre as sociedades de especialidade em cardiologia no mundo. Evidentemente, para um cardiologista, é extremamente honroso poder estar à frente de uma instituição que tem esse perfil científico bastante expressivo, de grande reconhecimento nacional e internacional. Eu me sinto bastante honrado em ter merecido a confiança dos cardiologistas brasileiros em terem me eleito como presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Esse é um processo de eleição, com vários candidatos do Brasil e que os cardiologistas votam e elegem o presidente da sociedade. Se a honra é para mim, eu considero também bastante importante para a cardiologia da Bahia, que um cardiologista baiano que atua, que milita aqui na Bahia, possa ter alcançado essa posição de dirigir a SBC. É assim que eu vejo.

BN – Quantos profissionais são representados na sociedade?

JA – A Sociedade Brasileira de Cardiologia hoje tem 13,75 mil associados e um crescimento anual em torno de 10 a 15% do número de cardiologistas. Estamos com a previsão de que ao iniciar o ano, em março, nós estejamos próximos de 15 mil cardiologistas associados à SBC, o que a torna uma das mais expressivas sociedades de cardiologia no país, em relação ao número de associados.

BN – Quais são os principais desafios que a cardiologia tem no Brasil, e, mais especificamente, aqui na Bahia?

JA – A realidade da Bahia é um espelho da realidade brasileira. Algumas diferenças pontuais em relação aos estados do Sul [do país], basicamente na área da saúde pública, mas o importante, o grande desafio que nós temos aqui hoje no país em relação à cardiologia se refere à prevenção às doenças cardiovasculares. Hoje, um terço dos pacientes morre no país, em relação a todas as causas, 30% de todas as causas de morte no país são devido às doenças do coração. Essa é uma realidade epidemiológica, são estatísticas muito perversas com a população brasileira. Se você junta hoje o câncer, doenças respiratórias e a Aids, os três juntos, ainda assim, as doenças do coração matam mais do que as três. Isso é uma situação que nós não podemos mais permitir que continue ocorrendo e, se você extrapola isso para o futuro, faz uma previsão, nós temos informação epidemiológica consistente de que, nos próximos anos, se nós não fizermos ações muito consistentes para conter esse panorama, daqui a 20 anos, nós seremos o país com maior expressão epidemiológica em termo de mortalidade cardiovascular. Esse é o primeiro desafio. O segundo grande desafio é o tratamento das doenças do coração no Brasil. Nós precisamos o povo brasileiro, como um todo, tenha acesso às conquistas da cardiologia moderna hoje, fato que não acontece. A assistência médica privada consegue, através dos planos de saúde, dar acesso a uma forma de tratamento totalmente diferente da forma que ocorre no setor público e isso precisa ser também modificado e eu considero esse o segundo grande desafio.

BN – Tem outro desafio também que se fala muito hoje em dia em relação à legislação, em que há uma permissividade maior para conseguir um avanço em campanhas contra o tabagismo, por exemplo, em termos de publicidade, mas não há uma regulamentação ainda, no Congresso Nacional, no que tange ao consumo de alimentos mais nocivos à saúde. O senhor defende também que propagandas de grandes redes de fast food, por exemplo, tenham algum tipo de limitação, uma legislação que preveja a limitação desse tipo de publicidade?

JA – Evidentemente que sim, mas o primeiro passo já está sendo dado. Um dos grandes malefícios em relação à nutrição é o conteúdo de sal dos alimentos. A necessidade moderna de se utilizar alimentos conservados, e o sal é o grande conservante desses alimentos, e o teor de sal cada vez aumenta mais, progressivamente, para melhorar o sabor desses alimentos, faz com que a população brasileira hoje tenha uma ingestão de sal em torno 12g de sal por dia, que é muito acima daquilo que é preconizado, em torno de 5 a 6 g por dia. A ingestão de alimentos conservados em sal passa a ser o grande desafio. A Sociedade Brasileira de Cardiologia desenvolveu uma campanha muito intensa junto à indústria dos alimentos que sensibilizou o Ministério da Saúde para que houvesse a possibilidade de que os alimentos reconhecidamente com excesso de sal começassem a ser penalizados pelas agências reguladoras do país, no caso, a Anvisa. Recentemente, baseado nessas campanhas, o ministério já assinou o primeiro protocolo com a indústria de alimentos visando já uma progressiva redução de sal nos alimentos. Isso resolve em relação ao sal? Não, esse protocolo é válido, é um início de uma modificação de um paradigma de excesso de sal no Brasil, não havia nenhuma regulamentação para isso, então, nós estamos dando o primeiro passo com esse protocolo assinado entre o Ministério da Saúde e a indústria de alimentos. Outras ações precisam ser desenvolvidas. A SBC, em relação aos alimentos, está desenvolvendo um projeto em que certifica aqueles alimentos com menor teor de sal e de gordura. São passos que eu considero ainda tímidos. São importantes, adequados, mas ainda muito tímidos. É preciso que mais ações sejam feitas. Existe um projeto nosso também, que está sendo caminhado para a Câmara Federal, para a retirada da disponibilidade do sal nos alimentos na mesa dos restaurantes. É onde o sal estaria [disponível] sobre demanda, mas ele não estaria ali como estímulo. Outro projeto será o de levar às escolas, às crianças, materiais de divulgação e de informação sobre os malefícios dos alimentos ricos em gordura, fritura e sal para a saúde futura dos adolescentes e de seus pais. Todo esse aspecto que envolve alimentação, que se reflete em dois vilões do coração: os alimentos ricos em gordura e os alimentos ricos em sal. Então, nessas duas situações, nós vamos desempenhar um aspecto muito importante e faz parte desse programa nacional de prevenção cardiovascular que nós estamos desenvolvemos e que pretendemos chamar para junto dele, não só o Ministério da Saúde, o ministro Padilha tem estado muito sensível em relação a isso, mas também chamar para junto organizações sociais não-governamentais que devem participar disso. Porque colesterol e excesso de sal são dois vilões do sistema circulatório. O colesterol elevado leva ao infarto do miocárdio. O excesso de sal nos alimentos leva à hipertensão e leva ao derrame cerebral. Então, esse trabalho, esse desafio, vai ser uma das bandeiras da nossa gestão nos próximos anos, de buscar conscientizar a população em todos os níveis da necessidade de controlar isso. Quanto à indústria dos alimentos, existe uma resistência muito grande. Esse primeiro passo foi dado e nós estaremos progressivamente agindo para conscientizar a população, para quando chegar ao supermercado, olhe o teor de sal dos alimentos e, ao chegar ao avião, quando servirem aquelas bolachinhas riquíssimas em sal, comece a rejeitar isso.  Só assim, a indústria vai, de fato, começar a entender a mensagem uma forma mais consistente, além daquela do entendimento que está se buscando a fazer.

BN – Os profissionais de saúde têm o consenso de que essa reeducação alimentar começa em casa. Como é que os pais podem competir com a cantina das escolas? A gente vai às cantinas das escolas, inclusive de universidades, e a oferta que tem lá é de refrigerantes, de guloseimas, de salgadinhos, em que todos têm o teor elevado tanto de colesterol quanto de sódio. Como é que a família pode fazer para concorrer com essa atração das crianças? 

JA – Essa é uma questão muito relevante e nós temos, dentro desse programa nacional de prevenção, um dos braços do programa se chama “A SBC vai à escola”. É um programa itinerante, onde nós vamos montar materiais de informação, de aulas, material audiovisual, cartilhas, informação no celular dos adolescentes e das crianças, nos iPads, nos tablets, tudo aquilo que o adolescente tem no seu dia-a-dia. Vamos ter um entendimento com as direções das escolas para deixar filmes, que nós estamos produzindo, sobre os malefícios da alimentação inadequada e também eu acrescentaria, porque vai fazer parte também, o exercício físico. O sedentarismo, a obesidade, o excesso de sal e caloria nos alimentos, através dos refrigerantes calóricos. Nós vamos passar essa informação com uma linguagem extremamente palatável para os jovens e os adolescentes, para que eles também sejam invadidos, da mesma forma que o marketing dos refrigerantes, dos fast foods, das batatas fritas, levando a outra informação do quanto isso faz mal e mostrando a eles o que é e os benefícios de uma alimentação sadia. Sensibilizando os diretores de escolas para que nas suas cantinas seja disponibilizada, no momento, uma opção de alimento a essas crianças, porque se você visitar cantinas, e esse trabalho a SBC já fez, utilizando as cantinas de São Paulo e Rio de Janeiro como exemplo, não há nenhuma outra opção de alimentos que não tenha excesso de sal e excesso de gordura. A ideia é que, uma vez criando-se a culturas nas crianças e nos adolescentes da importância dos alimentos, da importância do sal, da gordura, do exercício, que eles possam levar isso para a casa. Existem trabalhos científicos muito bem conduzidos que mostram que a maior influência que é exercida para os pais mudarem hábitos de vida é feito pelos filhos.  Quando os filhos estão conscientes disso e tem essa informação, o maior agente transformador da cultura dos pais são eles. Dentro desse projeto da SBC vai ter um filminho onde a menina de 14 anos que recebeu toda essa informação na escola, de forma muito consistente e por vários meios, chega em casa e encontra  o pai obeso, na frente de um prato de feijoada, bebendo, fumando e botando sal na comida. Ela pergunta à mãe se o pai já tomou os remédios e vai verificar que não tomou os remédios da pressão arterial regularmente. Ela vai mostrando para ele o que significará isso e, inclusive, a importância da responsabilidade dele, porque tem uma família e tem o risco de ter um infarto, um derrame, de ter uma doença vascular grave que vai tirar ele do convívio e do suporte familiar. São filmes com esse impacto que estamos desenvolvendo para levar. Nós temos a expectativa de que vai ser um contraponto para essas campanhas fortes, economicamente falando, estimulando os jovens a comer cada vez mais alimentos inadequados.

BN – Há também uma lenda em relação aos alimentos. Há hoje pouco avanço. Só o cigarro dito light perdeu essa nomenclatura, mas, por exemplo, a salada de redes de fast food, uma bomba calórica também, já foi provado em pesquisa que contém excesso de sódio, assim como os refrigerantes light. Alguma ação da sociedade vai fazer um enfrentamento a esse tipo de produto?

JA – Nós temos na SBC um grupo técnico, formado por nutricionistas, professoras que têm teses de doutorado e mestrado nessa área, e temos médicos dedicados e que têm também uma ação de pesquisa e publicações nessa área. Eles estão elaborando para o programa nacional, para mostrar exatamente na divulgação desses projetos, o que é de fato um refrigerante com valor calórico zero e o que é um refrigerante com valor calórico total e com o parcial. Você tem refrigerante zero, light e normal. Nós vamos passar a informação sobre qual é a nocividade ou o benefício que cada um deles tem para a população à luz de conhecimento de especialistas tanto na área de nutrição quanto na área de hipertensão, diabetes e colesterol elevado, que é o pretendemos reduzir.

BN – Dá para tomar o refrigerante zero sem susto?

JA – O ideal do líquido é o suco. O suco tem os nutrientes, o suco sem açúcar, o natural. Os refrigerantes regulares, os que não têm redução, são os terríveis. A quantidade de caloria que tem um refrigerante desse para a população, sobretudo um adolescente, é muito grande, predispondo o desenvolvimento de elevação de peso e, consequentemente, de pressão e taxa de açúcar. Então, dentre os refrigerantes, o zero é aquele que, de fato, por ter um menor teor calórico, beneficia mais. O problema é que ele tem um maior teor de sódio, que é o sal, para equilibrar. Então, nós estamos estudando para fazer uma divulgação bastante adequada para a população sobre a importância de tudo isso.

BN – O doutor Dráuzio Varela encampou, no Fantástico, uma campanha de combate ao tabagismo. O senhor não acha essa iniciativa muito pontual, somente para aqueles que assistem à TV Globo? O que seria, de fato, uma campanha eficaz para combater o cigarro no Brasil?

JA – Esse programa nacional de prevenção cardiovascular pretende atingir toda a população brasileira. Um programa bastante ousado. Ações como essa que a Rede Globo desenvolveu, utilizando Dráuzio Varela, são importantes, atingem um percentual da população. Entre não fazer nada e fazer uma ação como essa, é importante que existam. Como a Sociedade Brasileira de Cardiologia, nós temos campanhas temáticas antitabagismo, campanhas anticolesterol, campanhas de redução de sal. O universo que nós atingimos, considerando a extensão territorial do Brasil e o tamanho da população brasileira, não consegue mobilizar de fato ou inferir sobre isso. Essas campanhas precisam ser continuadas. Achei válida a campanha, o tempo todo temos que agradecer o fato de a Globo, com a influência que tem, fazer isso, mas não pode ser uma campanha momentânea, pontual. Tem que ser uma coisa continuada e com aferição de resultados. É muito importante, por exemplo, nesse programa de prevenção cardiovascular que nós estamos desenvolvendo, que nós possamos aferir os resultados. O quanto o programa de fato, que percentual da população brasileira parou de fumar depois de campanhas, que percentual da população reduziu mais o consumo de sal, que percentual da população brasileira diminuiu o consumo de gorduras e qual foi o impacto disso na mortalidade cardiovascular? Na redução do AVC, do derrame cerebral, do infarto do miocárdio, na redução da morte súbita? Isso são avaliações que nós vamos ter que fazer a médio e longo prazo. Então, nós estimulamos todas as campanhas que são feitas, no sentido de que pessoas possam ser informadas de forma adequada de que determinado fator de risco, que nós elencamos sete, faz mal à saúde e pode aumentar o risco de doenças do coração. Nós estimulamos isso, achamos muito positivo, como aconteceu com essa campanha da Globo que você citou. O que é necessário é que nós possamos atingir um universo muito maior da população brasileira e que essas campanhas sejam sustentadas. Complementando, para você ter uma ideia, as campanhas que hoje o Brasil desenvolve para prevenir a Aids, o investimento que é feito é cinco vezes maior do que o investimento que é feito para prevenção de doenças cardiovasculares. No entanto, não há como comparar a mortalidade da Aids em relação às doenças do coração, que matam de cinco a dez vezes mais no Brasil. Do universo de doenças, só as do corações correspondem a 30% [das mortes]. E o índice é crescente, isso que nos preocupa, não está reduzindo. Esse programa nacional visa exatamente isso. Então, finalizando, acho válida sim a campanha que a Rede Globo fez e tantas outras que sejam feitas, quer pela Globo, que por qualquer canal de televisão. Acho muito válido o que nós estamos fazendo aqui, que o Bahia Notícias está fazendo, porque à medida em que essa informação chega ao universo da população que o Bahia Notícias atinge, e que é bastante expressivo, é mais um momento que as pessoas estão sendo alertadas para estes fatores de risco.

BN – Não se poderia pensar que hoje o homem morre mais do coração porque vive mais do que viviam os antecessores dele?

JA – Gostaria muito que essa resposta fosse positiva, mas nós estamos observando cada vez mais o contrário. Cada vez mais o homem está morrendo mais jovem de infarto agudo do miocárdio. Trinta anos atrás, quando eu comecei minha atividade, se chegasse um indivíduo de 30 anos com uma dor no peito, nós muito raramente iríamos considerar a possibilidade de que ele teria um infarto. Hoje a prevalência de infartos em homens e mulheres a partir de 30 anos é crescente e preocupante porque, nós sabemos, através de estudos publicados na literatura nacional e internacional, que as placas de gordura se formam nas artérias do coração e que levam ao infarto na adolescência. A gente pensava antigamente que a gordura só se depositava na artéria do idoso. Hoje com 12, 13, 14 anos, porque a criança de hoje está em frente a um computador, presa dentro de uma sala, tomando refrigerante regular, comendo batata frita, hambúrguer, cheseburguer. Ela não empina arraia, ela não brinca, porque os pais têm medo por causa da insegurança, e mantêm-nas na frente de videogames, de jogos, e ficam tranquilos, achando que aquilo resolveu o problema, porque a criança não está passiva de ser assaltada, agredida, violentada etc. Então, com isso, cria-se o mecanismo de que as placas de gordura começam a se depositar precocemente e essa criança vai infartar aos 30 anos. Outro fator é o uso de drogas, que favorecem a agregação de gorduras no coração. Não só o cigarro, que é o vilão maior, por conta do volume de pessoas jovens que fumam. Mas também a maconha, a cocaína, o crack, que são estimulantes, como o uísque, os energéticos e outros que estimulam a agregação das placas de gordura. Por isso, agora estou com dois jovens, um de 32 anos outro de 35 anos, internados no hospital. Chegaram com dor no peito e estavam infartados. Concluindo, o aumento das doenças do coração não se deve ao envelhecimento da população. Os fatores de risco que nós convivemos hoje são tão crescentes que fazem com que as doenças do coração aumentem mais e cada vez mais em pessoas mais jovens e isso vale para as mulheres também. Antigamente, era raro uma mulher ter infarto e hoje é quase tão frequente quanto os homens.

BN – Há alguma profissão em que o número de infartos seja maior? Por exemplo, jornalistas e médicos têm uma vida muito agitada...

JA – Existem as profissões de risco. As profissões que geram estresse, que levam ao sedentarismo excessivo, às expectativas de resultados e as que levam a uma má nutrição são as que mais levam as pessoas a terem um infarto. O jornalista é um exemplo, pela produção intelectual e por viver sempre em uma expectativa muito grande. Ou da notícia ou de que a notícia que ele veiculou seja repercutida. Isso gera uma descarga frenética no organismo e a adrenalina circulando frequentemente em dose alta no organismo leva à agressão do interior das artérias, favorecendo a placa de gordura. Por outro lado, ele é um indivíduo sedentário, porque passa a boa parte do dia dele ouvindo, pensando ou escrevendo. E o terceiro, ele se nutre mal, porque ele não tem disciplina de horário. Isso vale para os jornalistas, profissionais da área bancária, caixas e gerente de banco, Call Center, médicos – sempre envolvidos com expectativas de vida, sobrevida e passam boa parte do dia sentados, no consultório. Existem profissões que se predispõem a isso. Em relação às profissões, existem aquelas bem identificadas, que são as que geram expectativa, estresse, sedentarismo e uma alimentação inadequada, que são os fatores que levam a terem doenças do coração, sobretudo o infarto do miocárdio.

BN – O sexo interfere na atividade cardíaca positivamente ou negativamente? Porque dizem que se queima caloria fazendo sexo, só que há casos de que pessoas, ao fazer sexo, acabam infartando. Qual a verdade sobre isso?

JA – Sem nenhuma dúvida, todos os trabalhos científicos publicados no mundo demonstram que sexo é um importantíssimo aliado do coração. O [ex] ministro da Saúde [José Gomes] Temporão foi massacrado porque disse que, quando o pessoal divulgou a campanha 13 por 8, fazer sexo três, quatro vezes por semana baixa a pressão. O sexo prazeroso, sem culpa, sem estresse, é extremamente positivo para o sistema circulatório, não apenas para o coração, mas para o sexo também. Pessoas que fazem sexo prazeroso com mais frequência são pessoas que têm menos doença de Alzheimer, menos ocorrência de Acidente Vascular Cerebral (AVC), menos demência, menos infarto, menos hipertensão. Então, a prática sexual, a frequência dela, inclusive, é extremamente benéfica ao coração. Em relação ao que você falou é que, muitas vezes, o indivíduo que fuma, que é obeso, que é diabético, que não se cuida e que está fazendo sexo de risco, ou seja, ele arruma uma jovem e ele está tenso, preocupado e ele vai fazer sexo quando está mal fisicamente, ele aí quer fazer um esforço físico acima da capacidade dele. Ele ia enfartar no sexo como ele ia enfartar se ele atravessasse uma rua para pegar um táxi. Então, não é o ato sexual, foi o esforço que ele fez para fazer e, estatisticamente, na maioria das vezes que acontece isso, é um indivíduo que está tenso porque está em uma relação extraconjugal, onde ele está sob tensão. Isso leva a ele um esforço físico excessivo que o levaria a um infarto ou uma arritmia cardíaca, como levaria em qualquer outra situação de esforço físico. Por exemplo, eu tinha um paciente que não se cuidava, fumante, diabético e hipertenso. O elevador da casa dele quebrou e ele estava atrasado para um compromisso. Quando chegou embaixo, ele lembrou e faltou luz no prédio. Resolveu subir quatro lances de escada e, no meio, teve um infarto. O outro [paciente], estava chovendo, atravessou a rua correndo, não infartou, mas sentiu a dor, me procurou, e estava infartado. O outro estava na reunião muito estressante, ele era um jornalista muito conhecido na Bahia, e teve um desconforto no peito porque se aborreceu muito com a equipe dele e me ligou. Eu o mandei para o hospital, e ele teve que fazer procedimentos cardiológicos. Então, não é o ato sexual em si, é o esforço. Inclusive, existem trabalhos de japoneses mostrando que indivíduos que fazem sexo prazeroso, sem culpa, com maior frequência, são indivíduos que vivem muito mais e com melhor qualidade de vida.

BN – E os estimulantes, o Pramil e o Viagra, por exemplo, não são recomendados?

JA – Veja, não há nenhum problema não. Sobre o Sildenafil, que é o produto que está na base do Viagra, eu até estimulo as esposas a, ao invés de brigarem com seus maridos para não usar, que dêem a eles. Porque a mulher, depois de certa fase do casamento, a intimidade, a relação sexual começa a ficar sem pimenta, sem sal. Então, fica aquela coisa “papai e mamãe”. O sujeito ali muito mais pela obrigação ou quando está no momento de farra, e a mulher tem suas exigências e ele também. Então como ele tem mais facilidade, às vezes é ela quem tem a iniciativa e, então, o casal se ajusta. A droga é um vasodilatador apenas da artéria peniana, favorecendo a ereção, mantendo e sustentando e fazendo com que o casal tenha um jogo sexual prolongado. Um indivíduo de 50 anos e a mulher de 48, 50 anos, os estímulos sexuais dos dois, um para o outro, com a intimidade afetiva, familiar, os problemas que têm no dia-a-dia, o convívio de anos no relacionamento, diminuem muito essa libido. Então é aquela coisa papai com mamãe e acabou. Às vezes, os dois querem mais e aí vão buscar fora. De repente, ela recebe um estímulo de um colega de trabalho, de alguém que encontrou em uma festa, um amigo de uma colega no restaurante, e ela percebe que aquele estímulo é o que ela queria ter em casa. Aquilo bate e mexe com os hormônios dela e ela vai atrás, às vezes, sem nem querer,  ou sem nem ser uma pessoa que gostaria de fazer isso, mas ela vai atrás de um instinto. Como quando você está com muita fome. Quando você está com pouca fome você escolhe a comida, quando está com muita fome, você acha muito bom o que aparece. Da mesma forma para o homem, quando você não tem e os estímulos que a televisão produz, com filmes eróticos, as novelas, mulheres e homens maravilhosos despidos, aquilo vai batendo. Você vai assistindo televisão a noite inteira e o marido vira para o lado e vai dormir ou então a mulher diz que está com dor de cabeça. Então, você tem um estímulo poderoso que é o Viagra, que vai tirar dela o que ela já não estava dando e vice-versa. Não vejo nenhum problema. Em relação aos cardiopatas, que é o foco da sua pergunta, não há nenhum problema. O Viagra e seus derivados. Tem até um que foi produzido na Índia e se chama Levantah. Não há nenhum problema que os cardiopatas usem, apenas eles não podem usar associado a um vasodilatador do coração chamado Isordil ou Sustrate: são nitratos, na verdade, que são potentes vasodilatadores.  Eles potencializam a ação do Viagra. O indivíduo pode ter uma queda de pressão muito grande ao tomar os dois conjuntamente. Mas não são todos os cardiopatas. Hoje há um percentual muito pequeno de cardiopatas que usam Isordil. Antigamente, se tinha uma dor no peito tomava-se Isordil. O indivíduo andava até com um chaveirinho com Isordil. A gente baniu isso. Hoje a gente recomenda que se mastigue uma aspirina se houver uma dor no peito suspeita de infarto. Essas drogas não têm nenhum problema. Recomendamos, apenas, para os indivíduos que usarem, ligar para o seu cardiologista para orientar sua medicação. Mas eu, normalmente, libero todos, a não ser aquele pequeno percentual que está usando derivados de Isordil. Eu sempre recomendo aos meus plantonistas lá do Hospital da Bahia que quando o indivíduo chegar no pronto-socorro com dor no peito, nesse caso a gente dá um derivado de Isordil por via venosa, que pergunte a ele se usou Viagra nas últimas duas horas e se a esposa ou outra pessoa da família estiver perto, que tire essa pessoa. Outro dia eu fui chamado para o pronto-socorro, a família estava me ligando desesperada, o plantonista estava ansioso porque o paciente chegou com suspeita de infarto, com muita dor, ele fez o nitrato e o paciente começou a ter hipotensão grave, chocou e ele achou que era o infarto que estava progredindo. Disse à família que o infarto estava avançando e que era uma coisa muito grave. Eu perguntei a ele: “Você perguntou se ele usou Viagra ou algum derivado nessas últimas horas?”. “Eu perguntei, mas ele negou”. Eu disse: “Tá bom”. Aí fui lá, tirei a esposa e a família dele. Eu falei: “Olha, sua vida está dependendo dessa informação agora. Você usou?”. “Ah, doutor, mas foi ontem à noite”. Aí interrompi imediatamente o nitrato, fiz o antídoto e a pressão voltou a subir. Então essa é uma informação importante. Tem até um filme com um desses artistas famosos em que ele chega no pronto-socorro, está ao lado da esposa e o cara repete essa pergunta. Está correndo o nitrato, ele mete a mão no soro e arranca imediatamente. Então só há esse cuidado. Fora isso, não há nenhuma preocupação.

BN – O senhor já teve que fazer um socorro em um transatlântico. Como foi isso?

JA – É muito frequente eu estar em casamentos e, de repente, me gritarem lá. Quando eu corro, é alguém que perdeu os sentidos ou alguém que teve um infarto. Outro dia eu ia para a Ribeira pegar meu barco e, no caminho, tinha um sujeito que entrou em epilepsia na frente do carro. Ele caiu no passeio e começou a se bater. Nesse caso, foi interessante. Nós estávamos em um cruzeiro, saindo de Veneza em direção ao Mediterrâneo, estava eu, [Ricardo] Luzbel, Samuel Celestino, José Henriques Ramos e Tati Moreno, com um grupo aqui da Bahia. Nós estávamos sentados na piscina, em uma mesa, quando ouvi uma queda atrás de mim, um barulho de alguém caindo. Nós viramos e era um indivíduo americano, altão, texano, que caiu com o rosto no chão. Eu pensei que tinha escorregado e caído. As pessoas chegaram junto, a esposa dele começou a gritar, e eu olhei e vi que ele começou a roxear. Vi que alguma coisa grave estava acontecendo. Quando eu desvirei, ele estava com parada cardíaca. Fui ao pulso, não consegui achar. Ele começou a ficar todo roxo, não respirar e eu comecei a fazer uma massagem cardíaca e respiratória, com boca-a-boca. Mandei chamar a emergência do navio, mas, das pessoas que estavam em volta, ninguém tinha experiência para me ajudar. Depois de eu massagear e fazer o boca-a-boca, ele acabou voltando e aí chegou a emergência do navio, em uns 10 minutos. Quando voltou, ele já estava recuperado, conversando, massageado, ovacionado pela tripulação e saldado por isso. Agora, o fato pitoresco é que logo depois que ele foi levado com segurança do navio, foi retirado de helicóptero. Realmente, ele tinha tido um infarto. Teve um jornalista muito importante na Bahia que se jogou no chão e disse: “Agora é minha vez”. Eu lhe juro que não lhe digo o nome desse jornalista.

BN – Eu soube que esse rapaz sequer agradeceu ao senhor... 

JA – Aí foi uma coisa tão traumática para a família... Imagina você estar lá, largado em um cruzeiro que vai levar 20 dias e, de repente... Tinha meia hora que a gente tinha embarcado, tanto é que ele voltou de helicóptero para Veneza. Eu compreendo isso, não tive nem chance de dar meu cartão a ele, nem nada. O pessoal do navio, sim. Mandaram um cartão com um buquê de flores na cabine. Me propuseram mudar cabine, mas eu não aceitei, claro, porque eu estava cumprindo uma missão. Se tivesse um furo no navio, eu aceitava qualquer benesse. Em avião, é comum isso. Uma vez, nós vínhamos de Londres, de um congresso, e uma senhora teve uma embolia pulmonar. Eu tive, junto com um colega, que fazer o avião descer. Então, eu tenho uma atração fatal por essas situações.

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