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Entrevista

Élson Jefferson chega ao topo da pirâmide e assume a diretoria geral do DPT - 01/08/2011

Por David Mendes

Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias

"Esse foi o grande presente de grego que recebi."

Por David Mendes

Bahia Notícias - O senhor assume o Departamento de Polícia Técnica da Bahia no momento em que o órgão está no meio de uma turbulência por conta da divulgação de imagens do corpo de Kelly Cyclone, antes e depois de ser necropsiado, obtidas dentro do Instituto Médico Legal. Já se sabe quem filmou e quem publicou na internet. O que está sendo feito sobre o caso?

Élson Jefferson - O que eu fiz quando eu recebi esse prêmio? Eu queria estar conversando com você sobre novas tecnologias, novas perícias, sobre os grandes peritos que já passaram e o que estão se formando aqui, mas é óbvio que vira pauta, porque aconteceu aqui. Isso nos deixa envergonhado. O que nós fizemos? Abrimos imediatamente uma sindicância investigativa. Eu queria dar um prêmio, autorizar uma pesquisa, mas qual foi o meu primeiro ato? Abrir uma sindicância investigativa. Esse material já saiu do YouTube e encaminharemos para a cordenação de audiovisual. Eu acho que em 30 dias isto está pronto. Agora, a investigação será feita pela Polícia Judiciária, a parte subjetiva. É um crime como outro qualquer e assim vai ser tratado. Só que foi na nossa casa e, por isso, vai ser punido com rigor. Ninguém nunca viu nenhum escândalo na Polícia Técnica. Podem criticar o atraso, por quê? Porque somos poucos. Mas, escândalo como este, com a certeza absoluta que não há nenhum colega envolvido. Tudo será investigado. Esse foi o grande presente de grego que recebi.

BN - Há 15 dias, o DPT baiano foi notícia em todo o Brasil quando ajudou a identificar os corpos das vítimas do acidente com o avião da empresa Noar, em Recife. Já esta semana, voltou ao noticiário. O senhor acredita que isso manchará a imagem do órgão?

EJ - Eu não acredito. Foi um acidente. O que poderemos fazer é investigar, punir e apresentar à imprensa uma resposta.

BN - Há a possibilidade de o vídeo ter sido feito por terceiros, pessoas que não fazem parte dos quadros do DPT?

EJ - Aqui nós temos os terceirizados, mas a investigação vai ser feita. Perito não diz “acho”. Essa palavra não existe no vocabulário da gente. Eu não faço prova subjetiva, eu não fui treinado para fazer prova subjetiva. Eu faço prova objetiva. Nós vamos analisar as fotos, a calça azul, aquele pé e, principalmente, as vozes e compará-las com outras, aí sim, eu te dou uma reposta. Porque, se eu disser “acho”, minha carreira está comprometida. Se você escrever que o diretor-geral do DPT, que foi um militante de bancada, disse que “acha”, a carreira está perdida. Depois que eu terminar a gestão, se eu terminar, após dizer uma coisa dessa, eu não tenho lugar para voltar.

BN - Você já está há 12 anos aqui. É a primeira vez que o departamento registra este tipo de ocorrência, de divulgação de imagens de um corpo antes de ser necropsiado?

EJ - É a primeira vez, nunca vi acontecer. Aqui no laboratório você fica em uma área restrita e, por onde entram os cadáveres, tem que se identificar. Eu ainda não sei se chegou a adentrar, ainda não foi feita pelo perito de audiovisual, mas tem que se identificar, também, se as imagens foram feitas na parte interna do DPT ou no trajeto da entrada. Mas, de qualquer jeito, sofrerão punições, porque, a partir do portão onde você entra é Departamento de Polícia Técnica.

BN - Quais são as punições previstas caso fique comprovado a participação de funcionários do DPT. 

EJ - Se for um funcionário nosso é demissão, através de um processo administrativo. Agora, não é só isso não, isso é penal e será julgado pela Polícia Judiciária, a Polícia Civil da Bahia e aí só o delegado para te dizer.
 


"Que eu conheça não. A não ser que você tenha uma história lá do começo do século passado."

BN - A necrofilia (excitação sexual com um cadáver) é outro exemplo de violação e desrespeito, como a divulgação de imagens de um corpo pronto para ser necropsiado. Há algum registro dessa prática aqui no Departamento de Polícia Técnica da Bahia?

EJ - Que eu conheça não. A não ser que você tenha uma história lá do começo do século passado. Mas, dos meus 12 anos e dos meus companheiros que começaram a partir de 1965, porque só a partir daí tem perito concursado, desses eu nunca ouvi falar.

BN - No discurso, durante a sua posse, o secretário de Segurança Pública, Maurício Barbosa, falou em fim de um ciclo, início de outro e renovação. Como você interpreta esta mensagem? 

EJ - Eu encaro isso como a continuidade de um projeto que vem se desenvolvendo. Não mudou o governo; é o mesmo governo. É o fim de um ciclo porque outros precisam ter oportunidade. Eu trabalhei no setor de planejamento e projeto, o meu perfil é esse. Eu perdi um pouco do perfil de técnico de bancada, porque, nos últimos sete anos da minha vida, cuidei de projetos e planejei a Segurança Pública. O secretário achou que este perfil, neste momento de interiorizar a Polícia Técnica, era necessário. A Bahia é muito grande e o governo não tem dinheiro para equipar todas, então, a gente não pode sair loucamente equipando, vai ter que fazer um estudo e eu sou especialista nisso. Então, eu fui convocado para, justamente, construir esse plano de ação para interiorizar a Polícia Técnica, não descuidando da qualidade da capital, e ainda ter que reduzir. Eu estava no Pronasci e trabalhava no programa Pacto pela Vida, então, eu venho para reduzir o tempo de laudo. A gente vai ter que descobrir os gargalos, porque não é chegar para as coordenadorias e pedir para reduzir. Porque está assim? Falta equipamento? Então, vamos comprar novos equipamentos, vamos melhorar as condições de trabalho e vamos tirar esse peso do interior para que o tempo do laudo seja reduzido.

BN - A indicação, então, não foi política?

EJ - Não, é técnica.

BN - Você é filiado a algum partido político?

EJ - Não.


"A gente pretende avançar no interior, construir, pelo menos, seis grandes laboratórios, nas seis grandes regionais."

BN - Quais as principais funções do DPT baiano e o quais são seus planos no comando do órgão?

EJ - A Polícia Técnica, hoje, atende a todo o estado da Bahia e é formada na capital por um Departamento de Polícia Técnica, dividido pelo Instituto Criminalista Afrânio Peixoto, o Laboratório Central de Polícia Técnica, o Instituto Médico Legal e o Instituto de Identificação. Na capital, nós estamos muito bem organizados, temos os melhores equipamentos, laboratórios de ponta, como o de DNA que, há pouco, apareceu na imprensa. Ainda temos a microscopia da Clínica de Varredura, que é química, e temos um laboratório só de análises instrumentais, cromatólogo e absorção atômica, todos de ponta. O Instituto Criminalista também é o mesmo processo, com tecnologia de ponta na coordenação de balística e a da fonética forense. No Instituto de Identificação temos o AFIS (sistema automático de impressões digitais), ligado à Polícia Federal, que nós dá um salto qualitativo muito bom. Agora, a Diretoria do Interior, essa sim, é o foco do meu projeto. Porque nós temos seis coordenações e algumas análises são feitas aqui em Salvador. (Análise de) Droga, por exemplo, na maioria das coordenações, não é feita por falta de equipamento. DNA só tem aqui e, provavelmente, nesta gestão, não será instalado em outras regionais. Mas, a gente pretende avançar no interior, construir, pelo menos, seis grandes laboratórios, nas seis grandes regionais e, com isso, atender e oferecer um serviço de melhor qualidade para toda a Bahia, aumentando a eficiência e eficácia da perícia. Qualidade nós temos, o que falta, ainda, é quantidade, porque precisamos ser mais rápidos nos laudos. 

BN - E o que é necessário fazer?

EJ - A Polícia Técnica tem uma das maiores concentrações de mestres e doutores no funcionalismo público. A capacitação é importante e precisamos capacitar mais ainda e lembrar que o nome "perito" vem de "especialista", especialista em algo. Eu, por exemplo, sou formado em Ciências Sociais, com mestrado em Análise Regional, mas entrei como perito e químico. Minha especialidade, como os que trabalham na coordenação de toxicologia, por exemplo, é em drogas e venenos. Nós temos uma demanda muito grande aqui. Todas as mortes violentas têm exames toxicológicos. Agora, imagine o número de análises que esses profissionais fazem em todo estado da Bahia e ainda recebendo exames periciais de outros estados. Então, o meu projeto é interiorizar a Polícia Técnica, agora, não esquecer de manter a qualidade de Salvador porque, inclusive, nós temos pactuado com o governo federal para manter essa qualidade, porque o laboratório de DNA, por exemplo, é regional e, agora mesmo, atendemos ao caso de Pernambuco (queda de um avião da Noar). Mas, a quantidade de peritos especialistas em genética, no Brasil inteiro, é muito pequena. Precisamos capacitar um número maior.


"A Polícia Técnica da Bahia é uma das melhores do Brasil, quem sabe até da América do Sul." 

BN - E por que não há capacitação?

EJ - Porque eu não posso tirar um perito que é especialista em drogas e veneno para se especializar em genética. Primeiro que ele já tem anos rodados nesta área e, segundo, haveria um desfalque. O que precisamos é um novo concurso para suprir as deficiências, mas ainda não fiz um diagnóstico, mas serão feitos vários concursos, ao longo do tempo. Cem agora poderia ser um número que aumentaria a eficiência da Polícia Técnica no interior, mas eu queria fazer outros ao longo dos anos, já que os peritos estão envelhecendo. Sabe quantos concursos na Bahia nós tivemos de peritos desde o seu nascimento? Três.

BN - Se a equipe do serviço de inteligência precisar desvendar um crime na Bahia, com os recursos que o DPT hoje dispõe, eles conseguem?

EJ - Eles nem virão, eles ligarão e pedirão para a gente fazer. A Polícia Técnica da Bahia é uma das melhores do Brasil, quem sabe até da América do Sul. Sem dúvida, abaixo do México, eu não conheço nenhuma. Você pode falar de São Paulo, que é considerada uma ótima Polícia Técnica, mas a gente não perde nada para São Paulo. Escolha uma perícia da América Latina e compare com a da Bahia, agora não compare com quantidade e sim com qualidade. São Paulo tem mais investimento, por exemplo. A maioria dos que estão aqui fez um esforço hercúleo para estudar. A maioria se formou sem um único curso de capacitação dado pela instituição porque todos os peritos já chegam formados. Essa é a nossa vantagem e eles vão se especializando porque aqui tem um material que ninguém tem.

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