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Entrevistas

Entrevista

Gilberto Gil diz que trio elétrico 2222 volta em 2012 com Preta Gil - 06/03/2011

Por Evilásio Júnior

Fotos: Raul Golinelli/BN

“O camarote é uma mensagem, é um aceno simbólico para essa tomada de consciência que é geral... é um alerta para essa necessidade de racionalização.”

Por Evilásio Júnior

Bahia Notícias – O Camarote Expresso 2222 mudou de lugar, está em uma área mais ampla. O que você tem achado da nova morada?

Gilberto Gil – Bonita. Mais elástica. Antes era um espaço já construído, menos maleável, com menos possibilidade de intervenção e etc., e esse aqui foi todo construído do chão, desenhado, é mais amplo que o outro. Embora tivéssemos a pressa de fazer, pois só tivemos acesso ao local em janeiro, tivemos que fazer demolições em 70% da construção que existia aqui, para fazer uma outra coisa em cima. Ao mesmo tempo foi uma coisa do reciclável, dos materiais de várias fontes recicláveis, em geral mais leves, menos clássicos da engenharia e da construção. Isso também permitiu que fizéssemos o camarote no prazo urgente, em condições de finalização adequadas, com design contemporâneo. Eu acho que tudo isso, o local e a espécie de material, facilitou a construção em prazo urgente.

BN – E essa questão da sustentabilidade, já presente em seu camarote há algum tempo, você acha que esse é o caminho mesmo da economia mundial?

GG – É um deles. É um dos caminhos que a própria economia mundial vem apontando como possibilidade de diminuição dos impactos, das dificuldades e dos problemas criados pela grande indústria, pelos grandes sistemas de produção dos bens de consumo e etc. Então, é uma coisa que reflete o desejo da própria sociedade mundial. É o nível de consciência que está começando a aflorar, da racionalização dos usos, a possibilidade de reutilizar os materiais para diminuir o abuso da natureza. O camarote é uma mensagem, é um aceno simbólico para essa tomada de consciência que é geral. É uma indicação dos próprios analistas que avaliam o desempenho da economia hoje no mundo do consumo. Então, é um alerta para essa necessidade de racionalização. O camarote é isso. Caixas, embalagens que são recicladas e viram placas; revestimentos viram telhas; excedentes de cereais que viram plástico... (risos)

BN – Curioso isso. Agora, Gil, o camarote vai continuar neste local para os próximos anos? Já tem algum contrato?

GG – Isso aqui é nosso. Foi adquirido pela Flora, que agora tem autonomia para fazer daqui aquilo que a gente queira fazer. Eu tenho a impressão de que o conjunto de parceiros que vem fazendo o carnaval com a gente há alguns anos, primeiro com o trio, depois com o camarote, ou conjuntamente o trio e o camarote, durante os anos em que as duas iniciativas estiveram juntas, vai querer. A própria alma contemporânea do carnaval da Bahia vai tender a pedir a permanência do camarote e a ampliação dele, de alguma maneira. Mas isso vai depender muito da Flora e da família, pois é um camarote de origem familiar. Foi a família que o criou para atender aos filhos, aos netos, aos amigos, aos colegas de escola, enfim, e foi ganhando escala ao longo do tempo. Então, eu tenho a impressão que isso vai pedir que a Flora faça de novo e que a gente faça de novo, mas, de todo modo, ela tem tido cada vez mais trabalho para fazer isso, mais consumição, uma palavra que não se fala muito hoje em dia, mas é uma consumição fazer um camarote desses. Independentemente do prazer muito grande, da recompensa muito grande, de ter uma festa admirada e apreciada por todos estes para quem a festa é feita: os amigos, os familiares, os convidados, os amigos dos familiares e etc., etc., os aproximadores. É uma festa muito boa, mas vai depender dela. É ela quem vai decidir.


“A Preta está pensando em, possivelmente, reeditar o trio e eu acho que ela já está em condições disso.”

BN – O trio poderá voltar? Você pensa em retomá-lo?

GG – Eu não. A Preta está pensando em, possivelmente, reeditar o trio e eu acho que ela já está em condições disso. Já tem presença, já tem cancha, já tem experiência, já tem imagem, já tem retorno, porte, popularidade e tudo o mais. É capaz de ela fazer ano que vem. Ela vem de dois anos de intervenções interessantes no carnaval do Rio. Esse ano ela arrastou 400 mil pessoas.

BN – E tem voltado o carnaval de rua no Rio de Janeiro...

GG – É, e ela tem sido uma das agenciadoras dessa volta. Muitos blocos já existem há muitos anos, mas essa dimensão um pouco mais contemporânea, com música puxando, blocos com caminhões e tal, essa coisa é dada do carnaval da Bahia, que ela e outros artistas estão levando para o Rio de Janeiro. Então, ela já está pronta para fazer isso: fazer um trio elétrico na Bahia.

BN – Um ex-professor meu, que orientou a minha primeira monografia acadêmica e trabalhou com você no Ministério da Cultura, o Paulo Miguez...

GG – Miguez! Recebi um e-mail dele sexta. Ele está em New Orleans. Foi convidado por uma universidade para acompanhar os carnavais velhos, clássicos da Louisiania, do Mississipi. Me mandou o e-mail fazendo as primeiras avaliações comparativas entre o carnaval de lá e o carnaval daqui, dizendo da tonalidade acentuadamente clássica que o carnaval lá tem, em analogia a essa coisa mais aberta, mais mutante que o carnaval daqui tem.

BN – Então, ele já falava há 12 anos que o carnaval de Salvador tinha entrado em um período preocupante de privatização do espaço público, sobretudo com o avanço dos camarotes sobre as calçadas. Você tem um dos camarotes mais tradicionais e, depois do seu, muitos vieram na toada. O que você acha dessa questão da explosão dos camarotes aqui em Salvador?

GG – Eu acho que há uma tendência e uma demanda...

BN – Não há a privatização do espaço público?

GG – Não sei. Isso aqui não é um espaço público (risos). O meu camarote não é espaço público. Não sei. Não conheço tão bem os outros. O único camarote público que eu conheço é o da prefeitura...

BN – E o do governo...

GG – É. E o do governo no Campo Grande. Esses dois são, mas, mesmo assim, não funcionam como espaços públicos. Funcionam como espaços em que o governo vem participar da festa, em regime de partilha com o individual, com o coletivo e com o privado. Não vejo como espaço público, no sentido mais institucionalizado que a noção de espaço público tem.

BN – É um debate mais acadêmico, mais restrito à academia. Na prática...

GG – É (risos).


“Estou sabendo disso (namoro de João Henrique com o PV) hoje. Não sabia.”

BN – O que você achou da indicação de Ana de Hollanda para dar continuidade no trabalho do Ministério da Cultura?

GG – Ana é uma menina (risos), ou melhor, uma senhora, com uma boa experiência no campo da gestão cultural pública. Ela teve um cargo na secretaria do Estado de São Paulo, foi da Funarte na minha gestão, e acho que foi uma indicação natural. Ela vinha produzindo um conjunto de ações nesse campo e agora está lá. Está na fase de adaptação, tanto ela quanto todo o governo da Dilma, é início de governo. Enfim, está na fase de enfrentar as questões, de considerar as dificuldades naturais de trocar a guarda, de dois ministros do governo Lula (ele e Juca Ferreira) que eram, praticamente, do mesmo campo de concepção de cultura e etc., etc., e agora é ela. Assim como todo o governo, todos esperam que seja uma nova contribuição. Ela está se mexendo em relação a isso, junto com todo o governo, junto com todos aqueles que tornam o campo político de apoio mais imediato ao governo e a ela. Nós temos que prestigiar, aguardar e torcer.

BN – E a sua relação com o Partido Verde, como está hoje em dia?

GG – Como sempre. Morna, morna, morna. Quase que inexistente (risos). Não tenho vida partidária no Partido Verde.

BN – Você não chegou a ver nem a movimentação do prefeito João Henrique de namorar com o PV e tentar entrar no partido via Brasília?

GG – Como é que é?

BN – Ele queria entrar no PV e tentou por meio do Zequinha Sarney (deputado federal-MA)  e aqui na Bahia vetaram isso...

GG – Estou sabendo disso hoje (risos). Não sabia.

BN – Você acharia, no mínimo, antagônica essa adesão...

GG – Acharia nada. O PV já incorporou tantos quadros mais ortodoxos, mais clássicos da política, o próprio Zequinha, vários deputados em Minas, Paraná e outros lugares do Brasil. O flerte com a chamada política clássica é uma coisa que o PV já vem fazendo há muito tempo.

BN – A verdade é que muitos políticos querem se reciclar no PV...

GG – E o PV aceita que eles venham fazer essa reciclagem. Tem aceitado muitos. Não vejo por que não João Henrique ou qualquer outro pleitear.

BN – Mas não aconteceu. Você fica feliz pelo fato de não ter dado certo?

GG – Não, não fico feliz não. Talvez tivesse sido muito bom para o João Henrique melhorar o apetite dele pela política, pela gestão, pela administração, e talvez tivesse sido bom para o PV, como nos casos de absorção de territórios clássicos da política que têm sido bons para o PV. Se não tivesse sido, também, eu já teria defenestrado (risos).


“Depois de Marina, considerar uma candidatura verde, partidária, como uma alternativa de poder é uma coisa natural.”

BN – O Juca Ferreira, seu sucessor no Ministério da Cultura, inclusive, se afastou ano passado, com a candidatura de Luiz Bassuma ao governo. Como você vê isso?

GG – Para apoiar Jaques (Wagner). Um gesto muito educado, muito nobre, de se afastar do partido para apoiar a candidatura da presidenta Dilma.

BN – Mas houve um desgaste entre lideranças do PV na Bahia.

GG – Sinceramente, eu não acompanhei o conjunto de episódios ligados a esse momento.

BN – Mas você continuou na campanha de Marina Silva.

GG – Continuei na campanha de Marina porque Marina é uma escolha minha. Pessoal.

BN – E essa reformulação que a Marina propôs agora com o Penna (José Luiz – presidente nacional do PV), em que houve uma reunião na última semana, para refundar o PV? Você vai participar desse processo?

GG – Não. Aguardarei. Não tenho nenhum ímpeto de participar ativamente de um processo desse tipo. Até porque, não me sinto qualificado para isso. Não sou bom nessas coisas.


 “A Dilma acenou à possibilidade de compartilhamento de governo com o partido A, partido B, partido C e, inclusive, o PV era o partido V (risos), e Marina, dentro do partido, foi a voz que se levantou no sentido de desestimular a participação.”

BN – Mas qual é o seu entendimento, você que é uma pessoa que praticamente fundou a questão da política da sustentabilidade do Brasil, foi vereador, militante e tudo, você acha que o caminho é o que a Marina propõe, de ser uma alternativa real de poder no país, ou você defende que o PV, nesse momento, volte a compor com o governo Dilma e, aqui na Bahia, com o governo Wagner?

GG – Depois de Marina, considerar uma candidatura verde, partidária, como uma alternativa de poder é uma coisa natural, porque Marina se manifestou com tal. Primeiro na sua própria disposição de assumir isso e depois na resposta que a sociedade deu.

BN – Vinte milhões de votos!

GG – Então, ela é uma alternativa real, e o partido levar isso a sério também acho que é natural. É um partido que, não só aqui como no mundo inteiro, tem tido muita dificuldade de crescer, por causa da resistência natural que o mundo produtivo faz ao seu ideal. Essas dificuldades têm sido imensas, na Europa, nos Estados Unidos, na América, Na Ásia, em todo o lugar. Até porque, como era naturalmente muito de se esperar, as siglas partidárias de vários matizes tiveram também que assumir parte considerável deste ideário verde. É a demanda, como a gente falou antes, a demanda da própria sociedade, da economia. Então, eu acho que o Partido Verde também assumir Marina como real alternativa de poder é o jogo que tem que ser feito seriamente.

BN – Você acha que seria um retrocesso, então, voltar a apoiar Wagner aqui e Dilma no plano nacional?

GG – Olha, depois de eleita, a Dilma acenou à possibilidade de compartilhamento de governo com o partido A, partido B, partido C e, inclusive, o PV era o partido V (risos), e Marina, dentro do partido, foi a voz que se levantou no sentido de desestimular a participação no governo e a posição dela prevaleceu. O partido não foi para uma aliança, para o compartilhamento de posições do governo, já marcando posição para assumir uma alternativa própria. Eu não vejo a possibilidade, a não ser que houvesse uma desistência da própria Marina, que não é o que parece. Pelo contrário, ela saiu das eleições estimulada a fazer o trabalho dela, no sentido dessa construção.


“É um povo (Levanóiz) que não tem como se ater à norma culta”

BN – Eu não poderia deixar de te perguntar sobre os acontecimentos no norte da África, em que várias ditaduras têm sido consumidas por manifestações populares, sobretudo na internet, em locais como Líbia e Egito. Ditadores sendo derrubados pelo povo. Como você avalia isso?

GG – Eu acho que são vários fatores, entre eles o cansaço com a vida imaterial. São ditaduras, ou semiditaduras, realezas constitucionais, democracias parciais, instituídas há muito tempo. Figuras autocráticas à frente desses regimes e, portanto, com um desgaste muito grande dessa sociedade, dessa população em relação a eles. Depois, uma segunda coisa, é um movimento natural, com a globalização, de uma forte mentalização dessa sociedade, que almeja, cada vez mais, um estilo de vida ligado aos modelos ocidentais, ao modelo europeu, ao modelo norte-americano, e, portanto, tem que avançar nessas demandas. E uma das formas de avançar nessas demandas é combater regimes que tentam mantê-los inertes, imóveis e imobilizados. E há também os estímulos simbólicos dessas novas tecnologias de expansão de coletivos, de expansão de redes, a interatividade, essas novas formas de militância, novas formas de manifestações contra a política tradicional e muitos outros tantos fatores até inapreensíveis, inalcançáveis por nós. Essa maior liberdade, uma forma de contestar essa dimensão teocrática de governos submetidos a essa coisa religiosa, a esse crivo religioso. Então, tem vários e vários e vários fatores. Alguns propriamente internos, de ter que lidar com os seus grandes ditadores e tal, e essa nova ordem mundial.

BN – Para finalizar, eu vou narrar para você um trecho de uma coisa e eu quero que o grande Gilberto Gil, o grande poeta, um dos maiores compositores da música brasileira, comente a atual música baiana: “Superman ficou fraco, lá-lá-lá-lá, Lex Luthor e Coringa roubou o laço da Mulher Maravilha”. Comenta Gil...

GG – Enfim, é um povo que não tem como se ater à norma culta (risos). Não foi preparado para isso, não lhe foi dada a oportunidade. É isso (risos).

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