Ronaldo Caiado critica Kassab por estratégia com PSD e fala em reformulação do DEM - 03/01/2011
Foto: Gilberto Nascimento/Ag. Câmara

“Estou trabalhando no sentido de sensibilizá-lo (ACM Neto) para que ele autorize o seu nome para disputar a liderança do partido em 2011.”
Por Evilásio Júnior
Bahia Notícias – O senhor é candidato agora a disputar a presidência nacional do DEM com a senadora Kátia Abreu. Quais são os seus planos para presidir o partido?
Ronaldo Caiado – Não vamos suprimir etapas. Nós trabalhamos no sentido de buscar um entendimento, de buscar concórdia, para que o partido continue na sua posição de oposição, conforme foi escalado pela população brasileira. A nossa reação é a essa postura comandada pelo Kassab (Guilherme, prefeito de São Paulo), e entre eles também o pessoal que segue o ex-presidente Jorge Bornhausen, em tentar vincular o partido a uma sigla até da base do governo. Daí a nossa reação. Daí a nossa posição contrária, adversa a essa tese de poder agora fazer parte do governo, quando o resultado das eleições nos deu outra postura, ou seja, uma postura de oposição. Com isso, coloquei meu nome, caso haja realmente uma chapa montada do outro lado para tentar levar o partido à base do governo, para o PMDB. Então, nós temos que aguardar. A minha posição já está consolidada, está firmada. Agora, vamos ver o que de fato vai acontecer até o dia 15 de março. Já estou caminhando o Brasil e visitando os colegas. Mas a posição, como você formula a pergunta, é de um partido de oposição. Nós não podemos ter uma posição travestida, maquiada. Não dá para ter dois pesos e duas medidas. Nós somos oposição e, como tal, devemos cumprir a nossa obrigação e trabalhar no Congresso Nacional, como em qualquer outro Legislativo do país, como oposição à política nacional.
BN – Inclusive, aqui na Bahia já houve um movimento de tentativa de aproximação com outros partidos, logo que surgiu essa especulação sobre uma possível fusão, e se fala muito que o deputado ACM Neto, uma das principais lideranças da sigla na Bahia e no Brasil, estaria de saída do DEM. O senhor tem conhecimento disso? Qual é a sua posição sobre o assunto? Vai tentar mantê-lo nos quadros da legenda?
RC – Você falou bem. O Neto é uma grande liderança do Democratas. Uma liderança jovem e respeitada no Congresso Nacional. Sem dúvida alguma, um expoente do partido. Estou trabalhando no sentido de sensibilizá-lo para que ele autorize o seu nome para disputar a liderança do partido em 2011. Ele está ouvindo todos os colegas, ainda não deu o sinal verde, mas eu acredito que ele aceitará esse pedido da maioria dos seus colegas na Câmara dos Deputados e que, sem dúvida alguma, deverá ser o nosso próximo líder na Casa. Como tal, ele estará engajado em reforçar, cada vez mais, o Democratas naquela Casa e também na política nacional.
Foto: Leonardo Prado/Ag. Câmara

“Para que as pessoas entendam que esse movimento foi criado pelo Kassab e seus simpatizantes. Ou seja, querer fundir o partido com o PMDB, ou poder levar o partido à base do governo.”
BN – Então, o senhor não acredita que haverá divisão do partido?
RC – Eu não posso te garantir que não haverá divisão do partido. Nós estamos trabalhando para unificar o partido, para que mantenha a sua posição de oposição. Para que as pessoas entendam que esse movimento foi criado pelo Kassab e seus simpatizantes. Ou seja, querer fundir o partido com o PMDB, ou poder levar o partido à base do governo. Nós reagimos a isso. Nos colocamos do lado oposto. Ora, se eles refluírem, não tem motivo, então, para o embate. Se eles permanecerem com essa tese, nós iremos para o embate, pois não aceitamos essa capitulação, essa entrada pelas portas dos fundos no Palácio do Planalto, essa posição de genuflexo ao governo federal. Isso é desmoralizante. É uma postura acanhada e, realmente, não foi para isso que a população nos elegeu. Nos elegeu para que possamos dar à democracia a função de poder fazer oposição com toda a clareza e com toda a competência.
BN – Este ano o DEM fez dois governadores (RN e SC), mas perdeu parte da bancada que tem no Congresso. Como fazer para que o partido não se enfraqueça e, pelo contrário, se fortaleça para as próximas eleições?
RC – Nós sabemos muito bem, até pela experiência que temos, que a política é um movimento cíclico. São altos e baixos. Nunca houve ninguém que se perpetuasse no poder. O que nós já vimos claramente é que o período Lula, ou o período PT, Já entrou em um processo de fadiga. Tanto é que 45 milhões de brasileiros, quase a metade da população, se colocaram contrários ao atual projeto que elegeu a Dilma Rousseff. Então, é questão de tempo. É só ter paciência para mais dois anos, quatro anos, que nós teremos uma vitória significativa nos municípios e daqui a quatro anos na Presidência da República. O que nós precisamos é fazer política com pessoas que tenham ideais, convicções, princípios, que não sejam políticos fisiológicos, que sempre queiram espaços, aderindo aos governos. Nós temos que fazer política com convicção. É isso que a sociedade brasileira espera de nós. Então, o crescimento do partido virá, sem dúvida alguma. Lógico que você diz, ‘olha, diminuiu o número de deputados federais e senadores’, mas isso é normal. Se você buscar o número de deputados que tinha, à época, o MDB, quando era oposição, também diminuiu. Depois fizeram 26 governadores, a maioria dos senadores e deputados federais.
Foto: Janine Morais/Ag. Câmara

“Esse governo calou e anestesiou a sociedade, muito mais por uma campanha publicitária que fez, muito mais pelo marketing, e usando um momento que foi propício a todos os países em desenvolvimento. Não foi uma característica do Brasil.”
BN – Mas o Lula conseguiu se eleger, reeleger e fazer a sua sucessora...
RC – Então, é um processo cíclico. Não tem aquele que se estabelece definitivamente no poder. O povo vai analisando, avaliando. Em um momento como esse, o cidadão que leva um parente, ou ele mesmo, para ser atendido nos hospitais – seja em qualquer estado da Federação – vai ver que não tem qualquer atendimento na área de saúde. É um caos total. Um colapso total. O avanço hoje do narcotráfico no Brasil, nunca se viu nada parecido. A quantidade de jovens dependentes do crack hoje é de mais de 1,2 milhão. Os jovens estão condenados à morte sem nenhum apoio do governo ou política nessa área. Há falta de segurança no país. Outro exemplo são os escândalos do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que mostram a falta de apoio à educação. Então, são setores que mostram que esse governo calou e anestesiou a sociedade, muito mais por uma campanha publicitária que fez, muito mais pelo marketing, e usando um momento que foi propício a todos os países em desenvolvimento. Não foi uma característica do Brasil. Houve méritos, mas foram aqueles plantados no governo anterior (de Fernando Henrique Cardoso, PSDB) e que foram colhidos pelo Lula agora. Essa é a grande realidade. Ou seja, as mudanças foram anteriores. Eles lutaram e se posicionaram contra o Real. Se posicionaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Se posicionaram contra o Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional , criado no governo FHC para evitar a quebra de instituições financeiras). Eles foram contra tudo e, no entanto, hoje o Brasil está aí graças a essas mudanças que foram feitas anteriormente. Para que desse certo, eles tiveram que trazer exatamente um dos nossos, que era o Henrique Meirelles (ex-presidente do Banco Central, ex-filiado ao PSDB, hoje no PMDB), que foi o grande comandante, o grande tutor, da política econômica e também cambial do país.
BN – Nas últimas eleições ficou a imagem de que o DEM seria um partido satélite do PSDB. O que senhor pretende fazer para mudar essa situação? Há a intenção de conversar com outras legendas? Quais seriam elas?
RC – É lógico que os partidos de oposição precisam conversar. Isso é normal. O que não pode é o Democratas tendo que pagar uma fatura, que foi a eleição do Kassab a prefeito de São Paulo, eternamente. Naquele momento, realmente, não houve uma discussão. Houve uma imposição, mais pela cúpula que segue o Kassab no partido. Lógico que, em 2014, tanto nós discutiremos o processo com nomes do nosso partido, quanto também iremos ouvir e avaliar os nomes dos outros partidos que compõem as oposições, como o PSDB e o PPS. Aí avaliaremos qual é a candidatura que tem mais densidade, mais capacidade de crescimento e menor rejeição. Critérios que poderão ser analisados à época, mas, logicamente, o partido procurará buscar os nomes das suas lideranças em todos os estados, Brasil afora.
BN – Então, o senhor não concorda que o DEM seja satélite do PSDB...
RC – Olha, a minha história atesta isso. Eu jamais convivi com política e com políticos encabrestados. Eu sou um político independente. Independência, graças a Deus, intelectual e moral para poder fazer política. E é dessa maneira que eu faço. Sempre fui totalmente consciente das minhas posições e independente para colocá-las. Agora, é lógico que nós teremos que avaliar também a aceitação do nome, a receptividade, a densidade do partido em poder garantir o nome... Não é um processo de, simplesmente, sentar e escolher um nome. É um processo que tem que ser feito auscultando a sociedade brasileira, caminhando com esses pré-candidatos pelo Brasil afora, e não sentando em uma sala em São Paulo para decidir quem deve ser o presidente da República. Um processo que exclui totalmente o sentimento e o apoio popular. Tanto é que sou defensor de prévias. Eu acho que isso motiva e estimula o partido. Isso faz com que a sua militância venha para as ruas. Faz com que haja um maior engajamento entre o processo político e o processo eleitoral. É dessa maneira que eu entendo a eleição e a política.
Foto: Saulo Cruz/Ag. Câmara
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“Não é o momento de se auto lançar candidato a presidente da República. É o momento de se reestruturar o partido depois das eleições.”
BN – O senhor, enquanto um político independente, sempre teve destaque no Congresso Nacional. Foi agora reeleito deputado federal com 167.591 votos – o terceiro mais bem votado no estado de Goiás –, e já foi candidato a presidente da República pelo extinto PSD, em 1989, com mais de 488 mil votos. Ronaldo Caiado seria um bom nome do DEM para disputar a Presidência em 2014?
RC – Olha, não é o momento de se auto lançar candidato a presidente da República. É o momento de se reestruturar o partido depois das eleições. Avaliar quais foram as causas das derrotas em muitos estados, ter humildade, mais do que nunca, de estender as mãos aos que foram derrotados e acolher os feridos. Essa é a postura de qualquer líder e assim deve ser o processo de qualquer campanha eleitoral. Temos que fazer o mea culpa naquilo que realmente foi falha nossa e levar nomes para debater em cada um dos estados. É uma seleção natural. Aquele que for crescendo mais, que for ganhando mais simpatia da população, aquele que realmente tiver maior condição de alavancar uma candidatura majoritária deverá ser o indicado por nós. Não é previamente dizer: ‘vai ser o A, vai ser o B’. Ninguém está aqui fulanizando quem deve ser o candidato. Isso é um vestibular. Como um vestibular, você tem que passar pela prova. Aquele que for mais competente, que tiver mais carisma e tiver mais condições de sensibilizar a política nacional deverá ser o candidato. Você pode ter aquela tese de querer ser o dono do partido e impor o candidato, mas eu acho que isso está ultrapassado. A sociedade não admite mais esse tipo de comportamento.
BN – Com o início do ano, eu queria que o senhor deixasse uma mensagem aos baianos para 2011.
RC – Eu tenho um carinho especial pelo povo baiano, até porque sou casado com uma baiana e tenho minhas filhas que são metade baianas. Então, eu tenho um carinho enorme por essa terra. Nós temos uma propriedade rural na Bahia, no distrito de Bonfim de Feira, onde eu tenho um carinho enorme com aquele povo. Eu aprecio a maneira do baiano fazer política. Eu atendo muito aqui nesse estado. Eu tenho a humildade de colher aquilo que é a sensibilidade desse povo trabalhador, sofrido, mas um povo alegre, um povo determinado, um povo aguerrido. Isso tudo me comove muito, porque tem muito a ver com a minha origem, com a maneira como fui criado e a maneira que tenho ao exercer a medicina – médico que sou, até os dias de hoje – e também de fazer política. Eu tenho uma identidade enorme com esse estado. Primeiro porque tenho familiares. Segundo por ter, no meu estado de Goiás, milhares e milhares de baianos, onde nós vivemos harmonicamente. A essa Bahia, o nosso muito obrigado, de coração, por tudo que vocês já fizeram ao Brasil. Ao povo brasileiro, um grande abraço. Desejo a todos um 2011 abençoado.
