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Entrevistas

Entrevista

Senador Walter Pinheiro confirma que não será candidato a prefeito de Salvador em 2012 - 25/10/2010

Por Evilásio Júnior / João Gabriel Galdea / Evandro Matos / Eric Luis Carvalho

Fotos: Eric Luís Carvalho/BN
 
"Isso foi resultado do trabalho desenvolvido. Ninguém colhe batata plantando abacaxi"

Por Evilásio Júnior, João Gabriel Galdea, Evandro Matos e Eric Luís Carvalho

Bahia Notícias – Foi surpresa a eleição do senhor para senador?

Walter Pinheiro – Eu diria que a eleição foi um processo encaixado em um projeto. É óbvio que trabalhamos muito, pois acreditávamos muito. As pesquisas é que não acreditavam, mas nós acreditávamos muito no sucesso do projeto. Foi uma boa surpresa, mas ela veio recheada de uma resposta do eleitorado baiano, a partir daquilo que conseguimos fazer de forma muito integrada, com um projeto nacional, estadual, e todo um caminho traçado para eleger deputados. Tanto é que são 22 deputados eleitos, mais os dois senadores. Isso foi resultado do trabalho desenvolvido. Ninguém colhe batata plantando abacaxi.

BN – O senhor falou que a votação não foi surpresa, mas até as últimas duas ou três semanas você ainda era apontado como terceiro colocado. O senhor teve medo de perder a eleição?

WP – Não. Na realidade, as pesquisas foram até a última hora dizendo que eu era o terceiro colocado. Até a minha entrada como candidato foi na última hora. O governo (estadual) tinha discutido com o governo Lula a possibilidade de absorver uma chapa com o candidato do PR, senador César Borges, que desistiu na mesma semana que fui conversar com ele, a pedido do governador, reforçando o convite, e dizendo que nós estávamos dispostos a uma única coligação federal, que era uma reclamação dele. Eu cheguei até a brincar com o senador César Borges, dizendo assim: ‘Olha, está vindo conversar com você quem tem pretensões na vaga. Contudo estou vindo cumprir uma tarefa de governo. O governador acatou o pedido nacional, da campanha de Dilma, de lhe colocar na chapa’. Então, eu nunca tive medo da disputa. Tanto é que quando eu entrei na briga para o Senado, entrei sabendo que eu teria grandes chances de me reeleger deputado federal, até pelo trabalho que tinha feito. Portanto, não tinha nenhum receio da disputa, e durante toda a campanha eu fui tendo certezas e incertezas, a partir da resposta das bases, das ruas, dos locais onde nós íamos, e principalmente da afinidade na campanha. A campanha não foi só uma casadinha entre eu e Lídice (da Mata, também eleita senadora), a campanha foi casada com um projeto, com o programa, com toda a chapa majoritária e a proporcional. Isso me deu muito mais confiança. Tanto é que se você perguntar a Otto (Alencar, eleito vice-governador na chapa petista), que caminhou muito conosco nesta jornada, ele sempre dizia: ‘Uma coisa que eu acho positiva em você é que não o vejo reclamar, nem ficar de mau humor’. Não tive nenhum momento de agonia com o resultado das pesquisas, sinceramente. Cada vez que saia uma pesquisa, eu dizia ao pessoal: ‘Isso é bom, porque nossa militância vai trabalhar triplicado’. No dia em que o Datafolha me jogou em 25 (por cento), tirando inclusive dois pontos do que tinha dado em uma pesquisa anterior, a militância do interior disse: ‘Pinheiro, agora que nós vamos multiplicar. A gente não pode ficar de fora’. Eu disse à assessoria: ‘Isso foi bom, se tiver alguém da militância dormindo, acordou agora. Se alguém tinha dúvida, se prepare que nós vamos ganhar essa eleição’.

BN – De qualquer forma temos de considerar os números e, na largada, o senador César Borges – todo mundo, governistas e oposicionistas –, diziam que ele tinha uma vaga garantida. O que você acha que aconteceu que ele acabou perdendo essa vaga?

WP – O senador errou na escolha. Foi ele quem fez a escolha de ir para onde foi. O senador César Borges tinha recall. Governador do Estado, oito anos no Senado, e vinha fazendo campanha muito antes. Era o único nome que fazia campanha quatro anos antes. Todo mundo sabia que era natural ele ser candidato (ao Senado). E ele virou até a noiva dentro desse processo todo. Todo mundo queria casar com César Borges. Há quem diga até que ele tomou café da manhã com um, almoçou com outro e dormiu com outro. Eu tenho impressão de que ele dormiu com o inimigo, porque sobrou. O que modificou esse quadro foi a modelagem estabelecida pelo governador Jaques Wagner, de congregar diversos partidos. A forma de tocar a campanha envolvendo os estaduais e os federais. Capilaridade, compromisso na ponta do voto. Tem vários lugares em que fui sozinho, e quando o sujeito me encontrava, perguntava: ‘Cadê Lídice?’. Tem lugares que Lídice ia sozinha e o povo perguntava: ‘Cadê Pinheiro?’. As pessoas passaram a identificar não o voto no casal, mas o voto de projeto, o voto casado no programa. Isso foi, ao longo da campanha, ganhando corpo. E a necessidade de entregar ao governador os dois senadores, com um projeto bem afinado, e dando maior cacique perante o governo federal, ou seja, aumentado a força da Bahia perante Brasília. Isso fez com que eleitores que têm a capacidade de reunir outros eleitores, e o eleitor difuso, tivessem a mesma compreensão: é importante para o governo eleger os dois senadores, para que ganhe mais força perante o governo federal. Isso que foi tirando voto de César, e foi jogando voto para nossa candidatura.


"O Senado é como se fosse híbrido, meio Executivo e meio Legislativo. Eu quero aproveitar isso"

BN – O senhor não acha que a chegada de Lula, as declarações no horário eleitoral, da própria candidata Dilma, resultaram na queda de Borges, deixando você e Lídice assumir a dianteira?

WP – É isso que estou chamando de projeto. As pessoas identificaram isso. No interior diziam assim: ‘Nós vamos votar no time de Lula’. O fato de Lula ter ido para a TV foi decisivo, não resta à menor dúvida. O fato de Lula ter dado a declaração, foi bombástico. Ma você tem, por exemplo, a Bahia com um universo muito grande de eleitores que não assistem ao programa eleitoral gerado aqui. Assistem parabólica. Mas essa turma, de qualquer maneira, não ouvindo essa declaração de Lula no local onde vive, acompanha o governo Lula. O cara foi lá e fez: ‘Quem é o time de Lula? São esses? Vamos nessa’. Então, volto a insistir. É um projeto que tem Lula e Wagner, mas que tem deputados estaduais, federais, e que tem Pinheiro e Lídice. Nós formamos um bloco em torno de ideias. Lógico que as pessoas votam em um nome, mas nós trabalhamos muito para que votassem no projeto e no programa. Isso foi decisivo para ganháramos o voto casado no projeto. Até porque César Borges é mais conhecido que eu e Lídice, muito mais. Claro que essa força de Lula, a reclamação de Lula com o Senado e o governo serviram bastante para tirarmos quem estava na dianteira, assumir o local, e colocar o candidato que estava na frente para ser terceiro.

BN – Dentro deste projeto existem as oposições, e o PT se compôs com antigos adversários. Muita gente criticou o fato de seu suplente ser Roberto Muniz, adversário histórico. Como foi lidar com a situação?

WP – Isso é uma coisa muito associada à forma como trabalhamos. Roberto Muniz veio para minha chapa a partir da discussão de partidos, e não a partir da escolha de nomes. Portanto, não foi uma escolha do tipo ‘tem de ser esse ou aquele’. Inclusive, não fui eu quem escolheu meu suplente, ele foi escolhido dentro de uma frente, assim como o suplente da chapa de Lídice. Todos os suplentes da minha chapa foram escolhidos através de uma relação com partidos. Coube ao PP e ao PRB indicar suplentes.  O PP já estava conosco desde antes, e veio para o nosso programa. Se essa crise com Lauro de Freitas se estabelecesse, Roberto Muniz não teria sido nem secretário. Muito antes de ele entrar na minha chapa, passou pela prova de fogo de ser secretário da Agricultura do Estado da Bahia, e ter que enfrentar o segmento da agricultura familiar, onde tem o forte MST (Movimento dos Sem-Terra). Outro aspecto fundamental é que o César foi convidado para nossa chapa não como personalidade, mas sim a partir de uma decisão do PR nacional de entrar na coligação de Dilma. O preço que a coligação nacional iria pagar seria deixado para a Bahia arcar. Inclusive foi pedido pelo PR nacional que César entrasse na nossa chapa. Ele que rasgou o pedido do próprio partido, mas nós acatamos o da coligação nacional para ter o PR na nossa chapa e, para isso, o nome do candidato ao Senado era o dele. Então, essa questão está respondida com o que nós fizemos durante o governo e durante a campanha. Essa discussão de programa pauta nossa atuação no Senado, onde entramos para implementar este projeto e ajudar o governo do Estado, o federal e o povo da Bahia. Principalmente para fazer do Senado um elo de ligação com a Câmara. Olha que facilidade eu ganho. Sempre trabalhei com os deputados federais, mesmo sendo um deles, e concorrente. Se você perguntar a qualquer um, ele vai dizer que ao longo dos anos, até pela minha tarefa de cuidar do orçamento do governo federal, me relacionava com os deputados. Agora posso me relacionar muito mais, pois não sou uma ameaça de voto a eles. Pelo contrário, posso ajudá-los. Assim como no Senado ganhamos uma ferramenta muito maior, do ponto de vista da relação com os ministérios, com o governo federal, vamos ter a oportunidade de construir o plano plurianual em 2011, de ajudar no eixo do PAC2 para a Bahia, para obras importantes como a Ferrovia Oeste-Leste, a ponte Salvador-Itaparica, que é um vetor de desenvolvimento, ampliar os recursos para o desenvolvimento regional, a questão da agricultura familiar, atração de recursos para desigualdades sociais. Na prática, vamos para uma outra esfera, que tem uma características interessantes. O Senado é como se fosse híbrido, meio Executivo e meio Legislativo. Eu quero aproveitar isso. Vou para o Senado visando cumprir o mandato. Não estou dizendo ao povo de Salvador que não quero ser prefeito, que não quero disputar eleição. Entretanto, o importante, neste momento, é que eu cumpra a tarefa para a qual fui designado pelo povo da Bahia. E podemos encontrar na coligação, no partido, nomes que podem fazer essa disputa.

BN – Você foi candidato a prefeito em 2008, secretário de planejamento em 2010. Quantos por cento você daria de possibilidade para Roberto Muniz assumir o Senado?

WP – Eu diria hoje que 0%. Até fiz uma brincadeira que é a seguinte. A única exigência que eu fiz quando os partidos se reuniram e escolheram a suplência foi que o meu suplente só não poderia ter mais intimidade com Deus do que eu. O restante tudo bem, para ele não tramar contra minha vida. Mas, como tenho muito intimidade com Deus, ele me dá uma ajudazinha. Então, eu diria que a possibilidade dele é zero. Não que não seja uma tarefa importante, mas eu não posso voltar a ser secretário porque estou indo para uma função que nunca exerci, a de senador. Fiz isso quando fui deputado federal, pois era uma experiência importante. Naquele momento, também atendi a um apelo do governo, no sentido de ajudar em um momento difícil, e que por características com o trabalho, e com canais que poderiam resolver graves problemas, como resolvemos, eu topei o desafio. Tanto é verdade, que não topei o desafio de ser secretário em 2007. Disse a Wagner: ‘No primeiro ano eu prefiro ficar em Brasília, para ajudar o governo de lá. Se eu sair agora, acho que ajudo menos’. Em 2009 não. Eu já tinha uma experiência, estava no quarto mandato como deputado federal. Mas como senador, estou começando agora, então virar secretário de jeito nenhum. Eu posso ajudar de lá, usando as características do próprio Senado. E a Prefeitura de Salvador também acho muito pouco provável, pois temos condições de construir outros nomes, outros quadros e acho que o debate está muito associado à forma de como conduzimos o governo e a chamada coligação para disputar 2010. Portanto, se chamamos parceiros para um processo eleitoral, é importante conversar com os parceiros quais os próximos passos. Você não chama um parceiro para a eleição já dizendo a ele: ‘Olha, eu estou aqui, mas sou candidato ali’. É importante tratar todos na política entendendo que existem espaços que podem ser ocupados por todos, e não somente por um. Acredito que o projeto de Salvador deve ser discutido por esta frente, e vamos ter outros nomes apresentados para esta jornada.


"Se eu tivesse 4 milhões de votos, poderia dizer que, pelo menos, cheguei junto do governador e posso disputar"

BN – Nelson Pelegrino seria um bom nome?

WP – É um bom nome. Ele é um deputado com experiência, que já trabalhou muito durante sua vida para disputar a Prefeitura de Salvador. Acho que é um quadro qualificado, assim como temos outros dentro do PT e em outros partidos. Quero manter a mesma proeza construída por Jaques Wagner, pois acho que ele deve ser ainda o comandante deste processo, e é importante que tenhamos a capacidade de entender que o debate por Salvador e as outras 416 cidades da Bahia, é um debate que temos de fazer com todos os partidos, pois não só Salvador estará na disputa.Tem lugar para todo mundo. É importante termos tranquilidade, sabedoria, e principalmente compromisso político para atuar nesta eleição de 2012.

BN – Pensando mais na frente. Em 2014, Wagner já não pode mais disputar as eleições. Com 3,6 milhões de votos, você seria o novo candidato ao governo estadual?

WP – Se eu tivesse 4 milhões de votos, poderia dizer que, pelo menos, cheguei junto do governador e posso disputar. Dois mil e quatorze é outro processo também, que vai depender muito de 2012, de como vamos trabalhar a gestão desse bloco que foi muito bem costurado por Wagner. Então, dizer alguma coisa acerca do desejo, da vontade de alguém disputar 2014, é colocar problemas para a gestão de Wagner, que vai se iniciar no dia 1º de janeiro. Prefiro chegar com solução, e não criar mais dificuldades para o nosso governador. Vamos deixar chegar 2012, caminhar nestes quatro anos de governo. Vamos amadurecendo, vendo como se comporta, e projetando qual a melhor alternativa para 2014. Meu objetivo central agora é fazer um bom governo até 2014, jogar duro para fazer um grande governo para a Bahia e, o foco principal neste momento, é eleger Dilma presidente, para continuarmos fazendo aquilo que Lula fez. O resultado disso nós colhemos. Portanto, é muito melhor produzir isso, do que já colocar nome nas estrelas, antes de consolidar o nosso projeto. Se ficar olhando muito o céu, de repente vai faltar chão para pisar. Vamos consolidar a base e, em 2014, naturalmente, caso seja a mesma condução de 2010, teremos a oportunidade de escolher qual nome que poderá suceder Jaques Wagner.

BN – Você descarta Salvador em 2012, mas admite 2014. Daqui até lá você tem um mandato como senador. Mas se Dilma for eleita, e você convidado para um Ministério, você aceitaria?

WP – Eu diria que não. Pois não é uma questão de descartar 2012 e deixar uma brecha para 2014. Não topo voltar para ser secretário. Já imaginou se Dilma o convidasse para ser ministro das Comunicações? A tentação era grande, ser ministro da minha área, por exemplo, do ponto de vista profissional, mas acho que entre essa satisfação profissional e o compromisso com o projeto político, eu tenho de continuar no Senado, experiência que eu não tive. Pretendo cumprir meu mandato de senador até 2018, que é para onde a população me elegeu. Agora, esses processos de 2012 ou 2014, serão decididos exatamente a partir da nossa capacidade de dialogar entre os parceiros. Meu objetivo é fazer um baita governo da Bahia, ajudar nisso, para que possamos continuar desconcentrando a economia, reintegrando esse estado. E eleger Dilma para fazer um grande governo, pois as pessoas vão fazer uma comparação com Lula, e eu não tenho a menor dúvida que dá para fazer mais e melhor do que Lula fez, porque ele consolidou uma base que vai nos permitir crescer. Posso contribuir com Dilma no Senado, sem nenhum problema. Não tem nenhuma incompatibilidade, e até deixar esta vaga para ministro para outro companheiro nosso, que possa contribuir melhor do que eu, pois há vários companheiros que não foram para o Senado e que não têm a primeira experiência. Eu quero experimentar meu primeiro contato com o Senado. Passei a vida inteira naquela guerra entre Câmara e Senado, onde dizíamos que a Câmara aprova e o Senado abafa. Agora quero ir para o tapete azul, pois dizem que o Senado é até melhor que o céu, pois para ir para o céu o cara tem de morrer, e para o Senado não precisa. Quero ir para experimentar e destampar aquela panela que abafa, aproximar o Senado da vida das pessoas. É um desafio. Vivi estes quatro mandatos, gosto do que faço. Não tenho nenhum indisposto com o Congresso Nacional. Pelo contrário, foi um grande aprendizado na minha vida. Acho que as críticas que as pessoas fazem ao Congresso Nacional são críticas corretas, mas quero lembrar que o que existe lá dentro é resultado do que está aqui fora. O que vai para lá, sai daqui. Inclusive mandados pelos que estão aqui. É importante contribuir para aprimorar o funcionamento da Casa e por isso que quero experimentar. Agora, 2012 e 2014, vamos ver o que acontece. Acho difícil eu largar o Senado com um ano e quatro meses para ser candidato a prefeito de Salvador, quando existem nomes em partidos que podem tranquilamente cumprir essa tarefa importante de governar a cidade. E no Senado quero ajudar mais ainda Salvador, pois sou filho desta terra e vou frisar isso, pois muita gente fica nessa dúvida. Minha família é do interior da Bahia, mas como eu sou um dos últimos de oito irmãos, já nasci aqui em Salvador. Sou soteropolitano do Subúrbio Ferroviário, mais precisamente de Escada, perto da linha do trem, filho de um ferroviário.


"Diziam que se Lula ganhasse a eleição, era o diabo que ia fechar igrejas. Lula não fechou igrejas, e sancionou a lei de liberdade de cultos no Brasil"

BN – A religião tem dominado a campanha presidencial. Como você vê a situação do tema em foco no país?

WP – É a mesma coisa que fizeram em 2002. Coincidentemente, é o mesmo adversário de 2002. Diziam que se Lula ganhasse a eleição, era o diabo que ia fechar igrejas. Lula não fechou igrejas, e sancionou a lei de liberdade de cultos no Brasil. A Lei 1.825, que é de minha autoria inclusive. Portanto, essa campanha é tratada de forma muito leviana, estúpida. É a má-fé tentando mexer com a fé das pessoas. Eu sempre digo que não se pode colocar fé como elemento de discussão de governo ou partidos. A fé é minha, quem decide sou eu, e o meu partido não tem o menor direito de interferir sobre a minha opção de fé. O meu governo, tanto estadual quanto federal, não pode e não deve. É uma questão de caráter íntimo, de cada um. Além dessas questões, é importante tocar nos temas que levantaram essa discussão: a defesa da vida. Não conheço ninguém, em sã consciência, que possa defender aborto como prática de extermínio de vida. Eu, por exemplo, não defendo aborto em hipótese alguma. Agora, é fundamental entendermos onde esse tema deve ser tratado. No Congresso Nacional: na Câmara dos Deputados e no Senado. Aborto e opção sexual são temas que obrigatoriamente devem ser tratados pelo parlamento, e não pelo presidente da República. Portanto, as pessoas poderiam ter feito essa cobrança na hora de votar em um senador, na hora de votar em um deputado. Como eles vão se portar na hora de discutir esses temas?  Eu sou cristão, e quando cheguei ao PT já era. Portanto, o PT não pode me impor uma opção de fé, até porque quando cheguei lá já se sabia minha opção de fé. Das relações de Jesus com as pessoas, podemos extrair o seguinte: Ele acolheu, conversou e dialogou com todo mundo. Fossem problemas de caráter econômico, social, ou de saúde. Mas uma coisa é acolher e outra é promover. O acolher que estou me referindo é o respeito. Não tenho obrigação de promover a opção de todos. As pessoas colocaram o tema no local errado, na hora errada, e em um debate presidencial completamente desfocado.

BN – A partir do momento em que a própria religião entra nesse debate, como é que o senhor trata isso? Para ficar bem claro, esse debate foi trazido pelos candidatos, especificamente pelo adversário da Dilma, ou foi pela própria religião?

WP – Eu diria que foi levado para o núcleo da campanha por interessados, inclusive as candidaturas. Lógico que você reverbera isso. Na medida em que você provoca, você chega nas igrejas, nos cultos, nas missas, e o tema sai. Sempre fiz campanha, e fiz questão de dizer isso. A mercantilização da fé é extremamente perigosa. Fé é uma decisão pessoal, ela não pode ser utilizada como um instrumento para atrair votos. O que assistimos neste último período foi uma mercantilização da fé. Tentar negociar e usar a fé para incidir contra ou extrair vantagens a seu favor. Eu sempre fiz campanha e disse que as pessoas têm de ver meu comportamento a partir da minha conduta, e não pelo que anuncio que sou, mas sim pelo que vivo. A forma como voto, como me porto, como me conduzo. Como ser humano, pai, amigo, alguém do trabalho. Meu testemunho é que deve falar muito mais alto do que aquilo que anuncio que sou. Tem muita gente que quer colocar na testa: ‘Eu ou cristão’. Prefiro que as pessoas me vejam a partir do meu comportamento, que tipo de testemunho dou. Lamentavelmente, algumas pessoas estão utilizando isso como forma de atrair vantagem. Outra questão é que não acho que instituições religiosas devam participar do processo político. Mas também não posso admitir que todas as pessoas que tenham uma opção de fé, devam se afastar da política, principalmente o cristão que fala que defende a verdade. Ele não pode assistir as coisas da política de fora, ele também pode participar, pois é cristão e cidadão. Portanto, o cidadão tem obrigação de participar. Segunda questão: O segmento evangélico deve se relacionar com a política da mesma forma que qualquer outro se relaciona, fazendo a pressão nos partidos e nos políticos, para discutir assuntos que tenham a ver com a sociedade, e não com o que interessa a cada segmento. O segmento religioso deve interferir na política para lutar por melhores condições de salário, por dignidade. Defender as pessoas, como todo e qualquer segmento. A diferença é usar as instituições, pois elas deixam de ser individuais e passam a ser objeto coletivo. Nem todos em uma igreja, necessariamente, defendem um único candidato. Na igreja que eu frequento, o meu pastor jamais disse: ‘A igreja toda vota em Pinheiro’. Eu sempre digo a ele: ‘Eu quero continuar vindo para a igreja como um membro qualquer. Sentar ali e assistir ao culto sem nenhum tratamento privilegiado, nem anúncio da minha presença. Caso contrário eu deixo de ir para a igreja’. Essa é a forma, e vale para qualquer outra instituição. Qualquer segmento que entra na política, as pessoas é que me imitam, e não as entidades. Então, a mesma coisa em relação às igrejas. É importante observarmos o próprio ensinamento bíblico: ‘Ao governo o que é do governo, e a Deus o que é Deus’. Essa foi à grande vitória que tivemos na humanidade. A separação do Estado da Igreja. Essa mistura não deu certo.

BN – Você está sentado com os evangélicos sempre. Então, quanto a essa mistura, você tem....

WP – Tenho dialogado com cada irmão desses, para fazermos exatamente este debate. Continuo insistindo, os cristãos têm obrigação de participarem da política. Agora, uma coisa é envolver a igreja na política, e outra coisa é dizer que quem é cristão não vota, não pode ser votado. Na minha juventude, nos anos 70, diziam: ‘Política é coisa do diabo, não pode participar’. Chegava na época da eleição, o diabo aparecia na igreja e levava todos os votos. Nós não podíamos participar, mas podíamos votar. Uma coisa é o Pinheiro membro de uma igreja participar, ter direito a voto. Outra coisa é a igreja assumir posições. Ela tem várias pessoas, é plural, apesar de ter a mesma fé. A pluralidade, do ponto de vista das opções partidárias, temos que respeitar. Então, nenhum dirigente religioso pode impor ao seu rebanho uma opção que é sua. Isso trama contra a democracia e os princípios cristãos.


"O PT teve uma pureza, avaliando que as pessoas não iriam jogar tão sujo como jogaram"

BN – Mas o senhor admite que a religião vai decidir estas eleições?

WP – Não. Eu diria que decidir não, mas a religião terminou tendo um peso razoável. Existe uma coisa positiva neste episódio, apesar das críticas. Os governantes começaram a tratar da seguinte forma: ‘Nós precisamos ter uma relação com o segmento religioso, de um modo geral, de forma mais respeitosa’. As pessoas não podem olhar segmento somente como curral eleitoral. É importante que todos os políticos se abram para ouvir o que cada segmento, inclusive o religioso, deseja da classe, mantendo a chamada distância regulamentar.

BN – Então o PT, neste sentido, comeu mosca?

WP – Acho que não. Digo que o PT teve uma pureza, avaliando que as pessoas não iriam jogar tão sujo como jogaram. Diversas igrejas ainda têm muito temor do PT. Eu sofri isso. Essa briga terminou se arrastando por muito tempo. Não foi um problema de demorar em perceber, foi ao contrário. O PT avaliou que isto tinha sido enterrado. Que essa campanha insidiosa, leviana de 2002, não existia mais. Ninguém jamais imaginaria que isso pudesse voltar como voltou. Volto a insistir. Coincidência ou não, o candidato de 2002 é o mesmo de 2010.

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