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Entrevistas

Entrevista

Eduardo Salles detalha a expansão da agroindústria no estado - 04/10/2010

Fotos: Tiago Melo/BN

"Já estava escrito que eu iria ser secretário e eu fico feliz por ajudar a mudar a realidade das pessoas"
Por Evilásio Júnior
 
Bahia Notícias – Quem é Eduardo Salles?
 
Eduardo Salles – Eduardo Salles é um cidadão que nasceu em Salvador e, aos 17 anos, foi fazer Agronomia em Viçosa, Minas Gerais. Fez o mestrado em Engenharia Agrícola, chegou a iniciar o doutorado, e voltou à Bahia com o sonho de que o estado seria o celeiro do mundo na produção de alimentos. Trabalhei esses anos todos na iniciativa privada, como diretor de multinacionais, e estou muito feliz com essa experiência pública que tive nos últimos dois anos, porque é totalmente diferente do papel de executivo de grandes empresas. Fui presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia, da Associação de Agricultores da Bahia, presidente da Câmara Portuguesa de Comércio, sou diretor da Associação Comercial da Bahia há muitos anos, então, toda uma história ligada ao associativismo.
 
BN – E como foi a sua iniciação política?
 
ES – Eu sou filiado ao PP e presidente da Executiva de Salvador. Fui candidato a deputado estadual na última eleição, mas nunca fui filiado a um partido político. Nossa bandeira não tinha o apoio de um prefeito ou sequer um vereador, mas nós queríamos ter um deputado que defendesse o setor agropecuário no estado da Bahia. Tive 16 mil votos e não fui eleito, mas acho que as coisas quando têm que acontecer, acontecem. Já estava escrito que eu iria ser secretário e eu fico feliz por ajudar a mudar a realidade das pessoas. Talvez até eu não fosse um bom deputado. Acho que sou melhor no Executivo do que legislador.
 

"A agricultura familiar nunca foi considerada prioridade nos governos passados, o que não acontece em nossa gestão. Para nós, ela é prioridade, sem desmerecer a agricultura empresarial"
 
BN – O senhor, enquanto pepista, a Secretaria da Agricultura é tocada por um direcionamento partidário? Qual é a diferença da sua gestão para a de Roberto Muniz, que o antecedeu e deixou o cargo para disputar a eleição?
 
ES – É uma continuação. O Roberto vem de outro setor, é engenheiro civil, e eu consegui, sendo subsecretário dele, realizar todos os meus sonhos. Então, eu aprendi sobre gestão pública com o Roberto, que é um expert na área, e pude colaborar com ele com o segmento, no qual tenho expertise. Juntou o útil ao agradável. Eu conheço cada região, cada liderança da Bahia: da fruticultura, do cacau, do café, da pecuária.
 
BN – E o senhor, enquanto técnico da área, tem expectativa de ser reconduzido ao cargo na próxima gestão?
 
ES – Olha, quem define quem serão os secretários é o governador, e os partidos indicam as pessoas. Na verdade, isso tudo é uma composição política que acontece. Seria irresponsável dizer qualquer coisa ou fazer qualquer previsão de futuro. O importante é saber que a gente tem feito nosso trabalho e a secretaria tem crescido. O resto é consequência. 
 
BN – Nessas eleições, muito se ouviu falar em agricultura familiar. Como está o setor no estado?
 
ES – Nós temos feito ações importantíssimas. A Bahia tem o maior número de agricultores familiares do país. São 665 mil famílias. A agricultura familiar nunca foi considerada prioridade nos governos passados, o que não acontece em nossa gestão. Para nós, ela é prioridade, sem desmerecer a agricultura empresarial. Nós, quando assumimos o Estado, vimos que havia 150 mil agricultores familiares inadimplentes, de acordo com os bancos do Brasil e do Nordeste. Duzentos e quarenta e dois municípios da Bahia com crédito travado. Isso era muito grave e a culpa não era dos agricultores. Como é que o produtor poderia pegar dinheiro sem ter assistência técnica para ter como pagar depois? A assistência técnica dada pela EBDA era para 80 mil agricultores familiares. Então, o primeiro passo nosso foi a questão da assistência técnica, que ampliamos de 80 mil para 320 mil agricultores, e queremos chegar ao final de 2010 com o atendimento a 400 mil, tudo direitinho, com CPF e DAP (Declaração de Aptidão ao Pronafi), que dá acesso a todas as políticas públicas dos governos federal e estadual. Ou seja, nós incluímos quatro vezes mais agricultores familiares. O seguro Garantia Safra, que é acessado pela DAP e dá direito a uma bolsa de R$ 600 aos agricultores que perderem mais de 50% da sua safra, nós passamos de 6 mil, em 2006, para 64 mil, em 2009, e vamos fazer algo próximo de 150 mil nessa safra 2010/2011. Esse ano, devido à seca, 40 mil agricultores perderam a sua produção e vão receber o seguro. O Mais Alimento, que é um programa federal que incentiva a aquisição de máquinas, aqui na Bahia nós colocamos a juros zero para acelerar o processo de tecnologia na agricultura familiar. Nós damos três anos de carência e sete anos para pagar. Somos o único estado do Brasil com juro zero. Estamos fazendo um trabalho de estruturação na agricultura familiar da Bahia.
 

"Para a nossa surpresa, 95% dos devedores eram micro e pequenos produtores. Não existe mais aquela figura do grande produtor do cacau, dos livros de Jorge Amado"
 
BN – Havia também um problema referente à Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola que interferia na atividade?
 
ES – A EBDA era uma empresa que estava sucateada, mas que tem capilaridade nos 417 municípios da Bahia. Contratamos 420 técnicos para a EBDA, que, segundo funcionários, tinha uma dívida da EBDA era de R$ 660 milhões, entre dissídios e coisas que não foram pagas. Funcionários desestimulados, salários que, eu como agrônomo, tenho vergonha de dizer a remuneração inicial, não tinham computadores, GPS, nem equipamento nenhum. Nós compramos 500 carros novos, e vamos comprar mais 200 agora, contratamos 420 funcionários via Reda, e estamos contratando agora mais 327 funcionários. Não fizemos concurso público ainda porque o salário inicial é muito baixo. Eu, como secretário e agrônomo, teria vergonha de fazer um concurso público com o salário que tem hoje a EBDA. Compramos 1,5 mil computadores, GPS, demos um aumento real de 30% nos salários, e esse ano demos mais 5,5%, fora a inflação. Estamos, pela primeira vez, na mesa de negociação para ver se a gente acerta um passivo que eles cobram. O governador teve a oportunidade de reerguer a empresa, e é o que estamos fazendo.
 
BN – Muito cacauicultor reclama de falta de assistência do Estado e nós sabemos que o cacau foi um dos principais produtos da Bahia anos atrás. Houve a aprovação do PAC do Cacau, após algumas reclamações, e como está o setor agora?
 
ES – Na verdade o cacau, há dois anos era um caos. Nós chamamos todos os representantes dos agricultores e chegamos à conclusão de que era preciso, primeiramente, fazer um levantamento do perfil da dívida. Para a nossa surpresa, 95% dos devedores eram micro e pequenos produtores. Não existe mais aquela figura do grande produtor do cacau, dos livros de Jorge Amado. A gente verificou que havia 13 mil cacauicultores endividados, sendo que 1,3 mil deles têm um problema mais complicado, pois são vinculados a programas do governo federal chamados Pesa e securitização, que abrangem o Brasil inteiro, e não são destinados só ao cacau. A partir daí nós conseguimos inserir todos os pequenos produtores no PAC do Cacau, pedimos uma nota técnica à Ceplac, mostrando que mesmo assim ele s não teriam condições de pagar e que precisávamos de um financiamento mais a longo prazo para eles. O governador se empenhou pessoalmente nesse caso. Nós encaminhamos uma nota técnica que mostrava que os produtores não tinham condição de pagar e conseguimos a aprovação do FNE Verde, que é um sistema agroflorestal que refinancia dívidas com oito anos de carência e 12 anos para pagar, com juros bem razoáveis. Foi uma grande vitória, talvez a maior vitória do cacau. O próximo passo é a regulamentação do artigo 42, que vai fazer com que essa dívida, que hoje é estimada em R$ 300 milhões, passe para R$ 180 milhões. Nós queremos que o Banco do Nordeste assuma esta dívida para que haja uma repactuação no mesmo modelo do FNE Verde. Outros 2 mil microprodutores, dos 13 mil que nós temos, tinham dívidas com o Desenbahia e tiveram a remissão. Esses já estão com o problema resolvido.
 
BN – E como está a questão da vassoura de bruxa? Está controlada no estado?
 
ES – Hoje as produtividades começam a crescer muito. Nós já vemos regiões que já têm clones resistentes e adaptados e hoje temos médio produtores com produtividade de 80 arrobas por hectare, o que é uma coisa muito boa. Creio que agora a tecnologia começa a ser dominada, tanto pelos agricultores quanto pela Ceplac e pela Embrapa, e nós temos muito a crescer. Conseguimos agora uma verba de R$ 6 milhões para pesquisa, em um consórcio de vários pesquisadores que vão aprofundar ainda a questão da vassoura de bruxa. Na verdade, nós já estamos pensando o cacau para evitar que outra doença que está no Peru, que se chama monilíase, atinja o estado. A Adab já fez um plano de contingenciamento de emergência, para que nunca mais aconteça o que ocorreu com a vassoura de bruxa.
 

"É muito triste saber que nós somos grandes fornecedores de matéria-prima. Parece que a Bahia ficou adormecida durante 20 anos no setor da agroindustrialização"
 
BN – Outra doença que preocupa os produtores é a febre aftosa, em que vimos até a criação de uma área considerada de risco pela proximidade com o Piauí. Como está o controle?
 
ES – Esse ano nós batemos recorde de vacinação, com imunização de 98% de todo o nosso rebanho, estimado em 10,5 milhões de cabeças de gado. Na zona tampão, que contempla oito municípios na divisa com o Piauí, tivemos 99% de vacinação. Chegamos a ter 100% em Remanso. Nós estamos olhando de frente esse problema da aftosa e vamos solicitar ao Ministério da Agricultura que possamos fazer uma vacinação cheia e outra vazia, como a gente chama, que é a vacinação para animais de até 24 meses em uma das duas vacinações anuais para minimizar, inclusive, os gastos para o pecuarista, porque nós não temos mais a possibilidade de ter algum novo foco de aftosa. Pelo contrário, nós vamos pedir ainda em novembro a extinção da zona tampão, que, na nossa visão, nunca deveria ter acontecido na Bahia porque é injusta. Na verdade, você tem duas Bahia: uma que pode e outra que não pode. Lá em cima você tem terra que foram desvalorizadas porque os animais não podem transitar desses oito municípios para os demais. Formosa do Rio Preto, Santa Rita de Cássia, Mansidão e vai até Casa Nova. É um absurdo ter deixado isso acontecer, mas já há um compromisso verbal do Ministério de que até novembro haverá extinção definitivamente da zona tampão no estado da Bahia. Todas as propriedades foram geo-referenciadas. Para você ter uma ideia, é um rebanho de 250 mil animais de 10 mil pecuaristas. Fizemos o nosso dever de casa e agora queremos que o Ministério nos dê a nossa autonomia.
 
BN – A agroindustrialização também era um problema na Bahia. O que tem sido feito para aproveitar o potencial do estado?
 
ES – Há dois meses, o secretário James Correia (Indústria, Comércio e Mineração) foi sensível e devolveu à Secretaria de Agricultura, o que era dela por direito que é a coordenação de agroindústria. A partir daí nós entramos firmemente no processo de agroindustrializar a Bahia. Conseguimos trazer a empresa Brasfrut, em Rio Real, que vai processar laranja na região. Nós fomos para Sento Sé, que é o maior produtor de cebola, e lançamos a pedra fundamental para implantação de uma indústria de cebola. Nós fomos para Taperoá, vimos o problema do guaraná – que é produzido aqui, mas não é processado –, e fomos a Manaus para tentar sensibilizar as empresas, Ambev e Schincariol, a fazer pelo menos o xarope de guaraná aqui. Lançamos esse ano, a primeira fábrica de pólen do Brasil, em Canavieiras. Inauguramos uma fábrica da Curinga, em Luís Eduardo Magalhães, que vai consumir 20% do nosso milho, e lançamos a Pedra Fundamental da Vitamilho, em Barreiras, que vai consumir mais 15% da produção de milho. As indústrias de avicultura estão sensibilizadas a se instalar aqui na Bahia. Um grupo chinês investiu R$ 300 milhões, no Oeste, para explorar a soja, outro português vai trabalhar com o dendê no baixo-sul. Venceslau Guimarães, que é o maior produtor de banana-da-terra do país, receberá um grupo venezuelano. Nós temos que fazer um pólo têxtil aqui na Bahia. Somos o segundo maior produtor de algodão e temos uma fibra semelhante à egípcia. O habitat natural do algodão foi identificado por pesquisadores na Bahia. Nós temos produção de uva em Juazeiro e não temos uma fábrica de suco. A mesma coisa com a água de coco. Já descobrimos em Morro do Chapéu condições climáticas semelhantes para a produção da uva da região de Champagne, na França, e temos que começar a explorar. São vários e vários casos. Enfim, é muito triste saber que nós somos grandes fornecedores de matéria-prima. Parece que a Bahia ficou adormecida durante 20 anos no setor da agroindustrialização. Nós temos que mudar essa realidade e ser exportadores de produtos manufaturados.
 

"Muitas crianças hoje têm a ideia que o leite vem da caixinha e não da vaca. Que o chocolate não vem do cacau"
 
BN – Houve uma polêmica em relação ao Parque de Exposições, em que o ex-secretário de Turismo, Domingos Leonelli, queria transformá-lo na “Cidade da Música”. A Seagri concorda com isso?
 
ES – Nós não vamos permitir isso. O Parque de Exposições é um patrimônio da Seagri, mas na verdade é um patrimônio dos pecuaristas. Ele é o único elo hoje entre o homem da cidade e o homem do campo. Muitas crianças hoje têm a ideia que o leite vem da caixinha e não da vaca. Que o chocolate não vem do cacau. As exposições agropecuárias fazem com que as crianças da cidade interajam com o campo e tenham conhecimento da cadeia produtiva. Se a gente tirar isso estará podando as crianças de saberem a importância que é o campo para o alimento que elas consomem e colaborando para que o campo continue a abastecer as cidades com favelas, prostituição, com a droga. Nós temos é que fixar o homem no campo. Nós temos um anteprojeto, que foi apresentado ao governador, para fazer do parque um espaço multiuso profissionalizado. Continua com a agropecuária acontecendo, e cria uma concha para 100 mil pessoas para shows grandes, outra para 20 mil pessoas e mais uma para 5 mil. Além de uma vila esportiva com piscina olímpica. A agropecuária não quer aquilo ali só para ela. Então, eventos de grande porte, médio porte e pequeno porte vão conviver com a agropecuária. Nada melhor do que isto. Quem fala alguma coisa contra isso é radicalismo. Criar “Cidade da Música” ali? Isso não existe. É um patrimônio da agropecuária, que não vai permitir que isso aconteça. Eles (produtores) vão permitir o contrário, que a música – que também é um patrimônio da Bahia – conviva junto. Por que expulsar a agropecuária para Feira de Santana? Você acha que alguém de Salvador vai levar seu filho para Feira de Santana para montar no “cavalinho”, para ver uma vaca ou as cadeias produtivas? Não vai. Inclusive, nós temos a intenção de fazer um centro administrativo da Secretaria de Agricultura lá. Então, para que brigar? Dá para conviver com toda harmonia.

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