Sandro Santa Bárbara fala sobre candidatura do PCB ao governo da Bahia - 26/09/2010
Fotos: Tiago Melo/BN
“Sei que cometemos um erro estratégico em não montar uma chapa única com as três organizações (PCB,PSOL,PSTU). Isso serve para aprendermos”
Por Maiana Marques, Evilásio Júnior, James Martins e Gusmão Neto
Bahia Notícias: Para que os leitores e eleitores conheçam um pouco da sua história, quem é Sandro Santa Bárbara?
Sandro Santa Bárbara: Eu não costumo comentar sobre a minha história, até para que não pareça oportunismo. Mas eu sou neto de gari, filho de operário, e hoje eu sou professor de ciência política, com muito orgulho. Tenho 39 anos, sou militante comunista desde os 16 e, como parte da minha história, o movimento estudantil na UFBA, no curso de Ciências Sociais. Terminei a faculdade em 1998, o mestrado em 2001 e hoje faço doutorado em Ciências Políticas na PUC de São Paulo. Tenho uma estrada muito diversa... Fui militante do Partido dos Trabalhadores (PT), de 1996 a 1999. Depois de 1999 a 2002 pertenci à tendência Fórum Socialista e, em 2006, me desliguei do PT e então me associei ao PCB. Sempre tive a postura de assinar documentos internos como militante comunista filiado ao PT, pois eu sabia que tinha data para entrar e sair. Sempre tive o partido como uma experiência que eu deveria aprender e tentar não perder. Mas eu sempre tive a intenção de pertencer ao PCB, e a partir do início do século 21 eu repensei e então ingressei no partido, para então junto com outros camaradas reorganizá-lo, como estamos fazendo agora.
BN: Durante as campanhas políticas a gente vê que as propostas dos candidatos de extrema esquerda são acusadas pelos demais candidatos de inviáveis, o que pode não dar credibilidade ao que o candidato fala. Ainda mais com a recente declaração do Fidel, de que o sistema cubano já não funciona mais. Das propostas que você tem, já que você foi do PT e o partido teve que se reformular e hoje está muito mais brando, o que realmente acha que é viável para a nossa sociedade, e quais são as coisas que você tem na sua plataforma que acha mais difícil de realizar?
SSB: Nós somos hegemonizados por uma postura política burguesa, e quando eu falo isso não é só um chavão, eu estou adjetivando a cultura política que formatou a nossa sociedade. Ainda que o Brasil tenha chegado tardiamente a esse processo, mas nós temos uma consolidação hoje dessa cultura política burguesa. E essa cultura acabou criando alguns factóides. Um deles de que o socialismo é engessado, como se no socialismo não houvesse a possibilidade de existir a pluralidade. Mas existe, caso contrário não haveria trotskistas, leninistas, stalinistas... Então são várias visões de entender o socialismo. Quanto à declaração polêmica de Fidel Castro, está associada à forma descontextualizada que colocaram a afirmação. Ele realmente disse que o sistema não dá mais, e não dá. Só que aí vem a questão política, de preservar o socialismo para manter as conquistas alcançadas. Só que quando ele se acidentou há dois anos, o poder era para ter sido entregue a uma junta, que estaria preparada para assumir o poder, e foi entregue ao irmão (Raul Castro) que no primeiro evento como novo comandante da Ilha, declarou que a transição iria ocorrer. E a declaração de Fidel, é como uma estratégia de distinção. A transformação não paira nesse sistema, mas foi um erro cometido pela pessoa que interpretou a fala dele, como sendo o fim do sistema, e não a transformação do mesmo. É como Guevara falava “A revolução por dentro da revolução”, e não o fim. Quanto às nossas propostas, antes de dizer, eu quero relembrar que em 2002, a um mês da eleição, o PT fez uma carta ao povo brasileiro, em que dizia que cumpriria com todos os acordos feitos pelo governo anterior. E esse acordo foi cumprido. O partido não enganou ninguém, disse que faria o que está fazendo até hoje. O povo que se traiu, pensando que aquela carta era só fachada. Não tinha como mudar o rumo do país. Não tinha como, por exemplo, colocar em evidência maneiras de convocar uma auditoria nas contas das dividas externas. Não tinha como. O Brasil já estava inserido no capital internacional de um jeito que retirar seria promover uma queda em efeito dominó. Quando eu digo isso não é para defender a postura do governo, mas sim para ressaltar que alguns têm coragem de tomar algumas atitudes e outros não tem. Então, entrando na seara das “propostas inviáveis”, eu digo que elas são viáveis sim. Uma vez que eu seja eleito o governador da Bahia, terei que mexer no orçamento, que já vai ser criminosamente aprovado em outubro próximo, porque quem quer que seja eleito, vai ter que começar o mandato com um orçamento aprovado antes mesmo da eleição. Uma vez que tenhamos um instrumento chamado decreto lei, eu farei uso. Então as nossas prioridades são educação, saúde, segurança, transporte, emprego e renda. Enviarei democraticamente à Assembleia Legislativa todas as propostas, caso não sejam aprovadas, que eu acredito que não sejam porque as nossas propostas são diametralmente opostas ao que a Assembleia está formatada. Eu creio que teremos que fazer uso do antipático decreto-lei, mas se tiver que ser feito, será assim.
"Esse é o momento que as esquerdas poderiam utilizar para criar um plano estratégico de um dia se tornarem hegemônicas"
BN: Falta uma semana para o dia da eleição e, de acordo com as pesquisas realizadas e com o seu trabalho de campanha, você acredita em segundo turno?
SSB: Acreditamos com toda força e confiança. Não só porque em 2006 Paulo Souto estava vencendo no primeiro turno e houve aquela reviravolta. Na eleição passada tinham alguns elementos que não foram colocados à mesa, como a aliança do PT com o PMDB de Geddel e que possibilitou a esses dois partidos angariar votos, migrar prefeitos que estavam na seara do antigo carlismo, e que naquele momento estavam com (Jaques) Wagner e Lula e hoje não estão mais. Hoje nós temos outros elementos. Há uma divisão clara no próprio seio no que um dia foi chamado de carlismo, com forças tradicionais, você tem Geddel (Vieira Lima) que junto com Paulo Souto foi oriundo disso, tem-se agora César Borges que está com Geddel, (Otto) Alencar que está com Wagner, e dentro do próprio Partido Democratas várias fusões internas. Aleluia é o coligado pragmático de Souto. Então, esse é o momento que as esquerdas poderiam utilizar para criar um plano estratégico de um dia se tornarem hegemônicas. Não fazem, e quando eu digo isso é porque hoje poderia estar o PCB, o PSOL e o PSTU nessa eleição como a Frente de Esquerda Socialista. Não estamos por problemas nacionais oriundos das três organizações. Tivemos imensas dificuldades para compor a frente no âmbito nacional, que acabaram refletindo no regional, especificamente aqui na Bahia. Então, é por isso que nós temos três candidaturas, quando deveríamos ter uma só e aproveitar essa lacuna que ainda não foi preenchida por essas coisas tradicionais.
BN: Por que acaba por acontecer esse equívoco estratégico? Qual é o tipo de intransigência que há entre militantes do PSOL, PCB e PSTU para que saia cada um com uma candidatura independente? Quais são as características pormenorizadas de cada um?
SSB: Eu não sou homem de ficar em cima do muro, mas existem alguns problemas nessas agremiações que eticamente eu não vou comentar para evitar burburinhos. Até o último instante nós tentamos retratar a Frente de Esquerda Socialista. A nossa campanha não é só eleitoral. Ela é uma campanha política, para fazer denúncias do que significa um país capitalista. Do que significa uma campanha em que candidatos como eu não são convidados aos debates. A TV Bahia, por exemplo, nem a minha agenda coloca. E quando há uma entrevista, acontece com menos da metade do tempo que é disposto para os outros candidatos. Fora que eu tenho que participar de todos porque nosso objetivo hoje é representar a sociedade e o partido. Aí gera outra situação, uma campanha política resulta que você acabe destoando um pouco dos outros candidatos, e a população acha que o objetivo é aparecer. Não é o nosso caso. Nós montamos uma estratégia de médio e longo prazo. O partido hoje, ao menos na capital, está dobrando o número de militantes, só com os dois meses e meio de campanha. Então, tem sido importante para nós avaliarmos isso. O nosso crescimento não é só para alavancar essa campanha, é para compor opinião, mas não só nas eleições. A meta do partido em todo o Brasil é crescer, retratar a Frente de Esquerda, de forma mais fundamental, e preparar o partido para o cotidiano. Montar a Frente de Esquerda para realizar um movimento constante na sociedade. Se aliar ao PCO, ao PSTU e a populares que pensem em uma nova alternativa. Na nossa opinião modesta, a alternativa ainda é o socialismo, mas não o socialismo que foi criado na União Soviética e no Leste Europeu, mas o socialismo com a cara do nosso país, construído de trabalhador para trabalhador, de uma maneira justa, democrática e plural. Mas não queremos dizer que o PCB tem a solução para os problemas brasileiros. Mas eu quero dizer que o PCB está imbuído em contribuir para esse processo de transformação radical e contundente. As outras agremiações têm seus problemas internos, e nós fraternalmente temos que dar exemplos com a condução de algumas questões, em especial com algumas declarações que têm sido feitas nos níveis nacional e regional. Mas temos passado isso no campo da fraternidade socialista. O PCB não se entende como um partido que tem o caminho, a luz e a verdade, mas é um partido que quer contribuir para que essas mudanças necessárias ocorram.
"Nós pretendemos, antes de enviar à Assembleia, fazer uma campanha de conscientização para legalizar o aborto. Por que vamos fazer isso? Nós pretendemos descriminalizar, porque as mulheres ainda são tuteladas pelo machismo social"
BN: Pela ótica do eleitor que quer mais resultados, fale um pouco mais das propostas. Alguma que você ache realmente difícil de aprovar.
SSB: A primeira coisa, educação. Uma das propostas que iremos implantar é taxar progressivamente os lucros para as redes privadas de ensino, para financiar e expandir a rede pública. Nós sabemos que com isso vamos mexer em uma colmeia, mas será preciso. Essa proposta nós sabemos que é viável e que é possível de ser aplicada. Temos que manter a estratégia de que no primeiro instante vamos taxar isso positivamente. Isso não será visto de maneira autoritária e pragmática. Será feita com diálogo entre governo e as instituições de ensino. No âmbito da saúde, nós temos duas propostas que consideramos polêmicas. A primeira delas é expandir esse sistema público, torná-lo público realmente, mas de uma maneira que a população seja assistida. Como é que eu vou fazer isso? Realocar do orçamento recursos já existentes para isso, que já existem e são criminosamente escondidos. Esse é um dos. O segundo, nós pretendemos, antes de enviar à Assembleia, fazer uma campanha de conscientização para legalizar o aborto. Por que vamos fazer isso? Nós pretendemos descriminalizar, porque as mulheres ainda são tuteladas pelo machismo social. A mulher não tem nem o direito de ter um filho? Em situações de estupro, por exemplo, é uma burocracia incrível que ela tem que passar para provar que a sua vida pode estar em risco, caso venha dar a luz a uma criança. Então, o nosso objetivo é assistir às mulheres mais pobres, negras ou brancas, mas assistir de um modo que elas não se sintam tuteladas, sem ser influenciadas pelos seus companheiros ou famílias, a tomar essa decisão. Então quando falamos de legalização do aborto ou promoção de políticas públicas de direito para as mulheres, entendemos que isso é descriminalizar. E com isso vamos precisar de um tempo maior para preparar a população para esse tipo de propostas realmente polêmicas. Na segurança pública nós temos outro problema. No Brasil foi adotado um sistema muito equivocado de ter duas polícias. A primeira tarefa que nós vamos adotar, em prática, é a de unificar a polícia, mas não significa uqe vamos mudar uma estrutura tão antiga de uma hora para outra. Vamos colocar em prática um processo de integração entre a Civil e a Militar. Evidentemente que no início respeitando os melindres hierárquicos que existem. Ainda existe muita resistência nas duas corporações. Mas o que tiver que ser feito, será feito. E na condição de comandante chefe, nas forças aqui do Estado, nós teremos que adotar posturas, um tanto quanto duras, com relação à chefia das duas corporações. Eu digo de antemão que essa não é uma proposta esquerdista, mas de um militante comunista que se preparou por tanto tempo de sua vida para hoje assumir a tarefa que estou assumindo. Sou candidato ao Governo do Estado e, caso seja eleito, estou preparado, inclusive, para cometer equívocos e saber que errar é aprender. A outra, nós tivemos aqui, em um passado remoto, a instituição dos módulos policiais nos bairros pobres. Entendemos que a estrutura dos módulos seja utilizada, mas com outra visão ideológica, de instalar a polícia comunitária. Aproximar a população da polícia de que forma? Explicar à população, em um trabalho a médio e longo prazo, fazendo um paralelo com a educação. Tem que explicar às pessoas o que significa o trabalho do policial, as suas condições internas e externas. Nós entendemos que o trabalho ostensivo é necessário, mas o crime não vai acabar de uma hora para outra. Nós vamos tentar reduzir a pena, mas sem precisar usar a repressão. Essa é uma parte. A outra é aproximar a população, de modo que ela não tenha medo do policial. Ele é um cidadão como você.
BN: Você disse que é preciso que os partidos de esquerda se unam para que possam enfim representar uma única Frente de Esquerda mais forte e melhor para o povo. Por não participar de debates, e até de algumas entrevistas, você acha que Marcos Mendes (PSOL) tem representado você (PCB) e Carlos Nascimento (PSTU) para a sociedade nesta campanha?
SSB: Eu creio que o trabalho dos três candidatos agora renderá frutos futuros. Mas eu sei que Marcos Mendes está representando o PSOL, Carlos Nascimento está representando o PSTU e Sandro Santa Bárbara está representado o PCB. Todavia, sem criticas, mas dizendo o que eu penso, até o presente instante só o PCB tem falado em retratar a Frente de Esquerda. É uma crítica construtiva que eu faço. A campanha vai acabar em 3 de outubro, e se tiver segundo turno um pouco depois. Mas, como eu já disse, a nossa campanha não é só para essa eleição. Se o candidato do PCB estiver no segundo turno, e ganhar, ele com certeza como governador eleito retomará o discurso do resgate da Frente de Esquerda, com caráter anticapitalista e anti-imperialista. Mas eu absorvo a critica das pessoas que são simpáticas à esquerda socialista e sei que cometemos um erro estratégico em não montar uma chapa única com as três organizações. Isso serve para aprendermos com esse erro que cometemos nessa campanha. Mas entendo que podemos, em uma próxima oportunidade, montar um calendário de atividades conjuntas. Não só nessa eleição, mas em uma elaboração de um programa político para a sociedade baiana e para o Brasil, para que juntos, em 2012, estejamos mais fortes. Se pensarmos que a campanha está acabando e que vamos nos aplicar para tentar compreender os erros e acertos de agora, aí nós teremos dado um passo enorme para que a Frente de Esquerda tenha resgatado o mais rápido possível.
“Eu jamais convidaria Paulo Souto, Geddel, Wagner e (Luiz) Bassuma para comporem o meu secretariado”
BN: Há dois aspectos em relação ao governo de esquerda. Primeiro, é muito difícil que, caso haja uma eleição da Frente de Esquerda, tanto no plano nacional quanto no estadual, e esse ainda mais grave, haja uma maioria na Assembleia que seja uma base de apoio para poder dar seguimento aos projetos. E o segundo, que prejudica ainda mais o Estado, é justamente a configuração da Constituição. Você não vai conseguir como governador do Estado mudar a Constituição, que limita muito a atuação dos chefes de Estado e o coloca como subordinado. A mesma que permite que os partidos que não têm representação no Congresso não apareçam em debates. Então, como governar com uma conjuntura legal e política tão adversa?
SSB: Essa é uma das maiores tarefas para as quais nós temos que formular estratégias. A primeira delas é aproximar de todas as formas a população. Nós teremos que fazer um debate cotidiano. Nós temos que fazer o uso midiático de todas essas informações que você acabou de citar na pergunta. Para explicar à população que estaremos às vezes isolados politicamente. Nós também estamos pensando que esse risco é grande, mas como eu disse antes, vamos utilizar todos os instrumentos legais possíveis. Em paralelo, vamos ter que fazer um debate na sociedade. Utilizar os meios disponíveis. É preciso utilizar a experiência política no sentido de aplicá-la na educação. O nosso projeto é para médio e longo prazo. Isso que nós estamos fazendo aqui é para que consigamos construir uma possibilidade contra-hegemônica de poder. Se tivermos a felicidade de, ao fim desse processo eleitoral, a nossa candidatura ter sido escolhida para governar o Estado, nós vamos colocar isso em prática. Com debates cotidianos com a população, mas sabendo que nos primeiros momentos vamos sofrer algumas derrotas políticas. Mas na medida em que vamos sofrer, vamos aprender também, para cavar vitórias seguintes.
BN: Sandro Santa Bárbara, eleito governador da Bahia, quais dos atuais candidatos convidaria para compor as secretarias do Estado?
SSB: Eu jamais convidaria Paulo Souto, Geddel, Wagner e (Luiz) Bassuma para comporem o meu secretariado. Não que eu tenha problemas, eu não sou um sujeito sectário, o PCB não é uma organização política sectária, mas nós temos valores e objetivos diametralmente opostos a essas organizações. Então, seria um contrasenso convidá-los ao meu secretariado, uma vez que o pensar a gestão pública é muito diferente do nosso. Mas eu convidaria sim figuras do PSOL e do PSTU para, quem sabe, compor o nosso futuro secretariado estadual.
