Jaques Wagner chama PMDB baiano de uma "anomalia da política" e prefere não falar em vitória garantida - 20/09/2010
Fotos: Max Haack/ BN

"o movimento que o PMDB baiano fez é uma anomalia porque vai contra todo um bom senso"
Por Evilásio Júnior e Gusmão Neto
Bahia Notícias: Governador, as pesquisas de intenção de votos colocam o senhor como eleito em primeiro turno. Com esses resultados, o senhor considera que já tem uma vitória consolidada?
Jaques Wagner: Repare, há uma tendencia consolidada, mas eu não brinco em serviço. Eu tenho andado pelo interior e tenho dito à militância, aos candidatos, aos partidos e movimentos sociais que nos acompanham que não baixem, em hipótese alguma, a bandeira. Eu falo isso até porque fui o contraponto das pesquisas em 2006. Nós temos que trabalhar para que as pesquisas se confirmem na urna. É claro que desde novembro (do ano passado) para cá, as pesquisas mostram que a gente pode ganhar no primeiro turno, mas eu tenho pedido ao pessoal que tenha sapato baixo, humildade, sebo nas canelas e muita andança para que a gente possa se confirmar. É óbvio que a notícia é boa, há uma tendencia consolidada, mas para resultado eu vou trabalhar até o final.
BN: Teoricamente falando, quando montou-se o quadro de candidatos para o Governo do Estado, o senhor enfrentaria adversários muito fortes, que são Geddel Vieira Lima (PMDB) e Paulo Souto (DEM). No entanto, os dois juntos não atingem sequer 30% da preferência do eleitorado, segundo as pesquisas. Na sua avaliação, a que se deve esse fato?
JW: Aqui na Bahia, eu acho que aconteceu uma anomalia. Existem dois grandes projetos nacionais em disputa. Existe o projeto do presidente Lula e o projeto do PSDB. Esses são dois caminhos para o Brasil. Com isso, o povo polariza em governo e oposição. O projeto do presidente está amplamente aprovado, então daí decorre que todo mundo que está nesse projeto dele, tende a acompanhar essa aprovação. Então essa é a primeira questão, há dois projetos, não há três: um do PT e outro do PSDB. Um de Lula e outro de Serra. Bom então baixando isso para a Bahia, quem representa o projeto do Serra é o candidato do DEM (Paulo Souto), que não tem novidade para apresentar porque o grupo político dele teve 16 ou 30 anos no poder e é o cabra que mais tempo teve no poder e pode fazer o que quis. Como o projeto nacional dele na Bahia é muito mal avaliado e ele não consegue trazer uma novidade, até porque quem esteve 20 anos no poder e não conseguiu fazer e agora diz que consegue, como fará? Até porque o grupo todo se sustentava no sucesso, na imagem e na popularidade do comandante do projeto que era o senador Antônio Carlos Magalhães e com a ausência física do senador eles não conseguiram construir ninguém. Paulo Souto não é um líder como ACM era. Já a anomalia que eu me referi, é porque eu sou o cara que mais trabalhei para promover a aglutinação PT-PMDB em nível nacional. Essa era a minha crença, era a do presidente Lula e trabalhamos para isso. Quem aproximou o candidato ao governo da Bahia (Geddel) e o candidato a vice-presidente (Michel Temer) ao presidente Lula fui eu e isso reconhecido pela direção do PMDB. Por isso que o movimento que o PMDB baiano fez é uma anomalia, porque vai contra todo um bom senso. O projeto foi construído em 2006. O PMDB baiano tinha os bons tratos do governo estadual e do federal. O PMDB baiano militou durante anos na óticas de Fernando Henrique Cardoso e nunca conseguiu emplacar ninguém a algum Ministério. Na primeira vez que vem para o lado de cá consegue emplacar alguém no Ministério. Não estou dizendo que fui eu quem fiz, digo só como história. Então contra tudo e todos, o PMDB baiano quis disputar o governo. Se não houvesse essa anomalia do PMDB baiano, esses 53% que eu tenho nas pesquisas, seria entre 63% e 64%.
BN: Agora na chapa do PMDB tem o senador César Borges que o senhor tentou levar para o seu grupo. Hoje o senador vive a falar mal do governo. Essa conduta de Borges magoa o senhor de alguma forma?
JW: Não, de forma alguma. As coisas que eu faço, eu não me arrependo. Quando eu fui chamar o César Borges é porque o PR faz parte da base de Lula e Dilma. Chamei mesmo sabendo que tinha dificuldade no meu partido, porque ele nunca foi um cara de aproximação com o PT, mas entendendo que é importante aglutinar ao máximo aqui, eu fui buscar. Defendi essa tese, conseguir ganhar essa tese dentro do PT, mesmo com os desgastes, já que alguns petistas não queriam e quando tudo estava resolvido, ele resolveu se aliar ao PMDB. Eu não tenho nada a reclamar. Ele fez a escolha dele e pronto.

"Eu chamei um cara para uma empreitada, ele aceitou e quando a gente estava vencendo essa empreitada, o cara faz tudo ao contrário"
BN: César até chegou a representar o senhor em um evento em Brasília...
JW: A vida é assim, eu sempre o tratei muito bem. Ele me representou, quando eu disse ao presidente Lula que ele me representaria na negociação do cacau. Então eu não tenho essa ilusão. Quando você é amigo do cara, até as dificuldades você releva, mas quando você é adversário até a dificuldade você desconhece. A vida é assim e não adianta pensar que vão fazer diferente.
BN: Mas terminada essa batalha, o senhor ainda traria PR e PMDB para a sua base?
JW: Olha, se for o PR e os deputados eleitos, a gente tem toda naturalidade e eu também não terei maiores dificuldades. Já com o PMDB tem um grau de dificuldade maior, porque o grau de desgaste na relação foi muito grande. Eu não vou dizer que dessa água não beberei porque isso não é próprio de quem está na política. Eu não fico administrando as coisas na base do ódio e do rancor. Mas se você me perguntar se eu tenho naturalidade para sentar e conversar eu digo logo que não tenho. Eu chamei um cara para uma empreitada, ele aceitou e quando a gente estava vencendo essa empreitada, o cara faz tudo ao contrário. Para a gente voltar a conversar.... Ele vendeu uma imagem minha em Brasília completamente equivocada e os fatos agora estão provando o contrário. Isso é igual a casamento. Quando você está casado ninguém vem falar mal nem para o marido nem para a mulher. Depois que separa aparece uma porção de amigos.
BN: É visível um afastamento entre o prefeito João Henrique e Geddel Vieira Lima. Dizem que logo após as eleições JH escolherá o seu novo partido e alguns petistas dizem que é pouco provável que ele ingresse no PT, mesmo que ele queira. As portas estão fechadas para ele?
JW: Não. Eu não posso responder pelo PT porque eu não sou o dono do PT. Mas é fato que o prefeito João Henrique sempre teve uma relação com o PT municipal um pouco tumultuada. Eu acho que o prefeito sempre foi um quadro da política baiana e admito que o erro ocorreu lá atrás. Em função de outras questões ele não conseguiu vir para o PT. Eu fui uma das pessoas que defenderam que ele entrasse no partido naquela época, mas alguns não concordaram e ele foi para o PMDB. Agora deixo aqui bem claro. Eu costumo trabalhar mais com sedução do que com coerção. Então eu não fico em cima dele dizendo se vai para lá ou vem para cá. Olha, vai passar o 3 de outubro e o nosso quadro vai ser outro e aí ele vai decidir. Todo mundo diz que a relação dele está praticamente acabada com Geddel, mas eu preciso que ele anuncie isso, porque eu não vou lá dizer acabe com tudo e venha para cá. Esse não é meu modo de trabalhar. Eu mesmo já conversei com JH e disse: ‘olhe se você acha que tem débito com Geddel pela ajuda que o PMDB te deu na sua eleição de 2008, pague tudo aquilo que o senhor acha que deve para depois se sentir à vontade e tomar outro rumo. Esse sim é o meu jeito de trabalhar. No meu ponto de vista as portas não devem ficar fechadas para ele de jeito nenhum.

"É gozado a oposição me criticar quando dizem que o que estamos fazendo é coisa que tinham começado"
BN: Agora voltando ao seu governo, há dados do Água para Todos e do Topa divulgados pelo senhor que são divergentes aos resultados de avaliações técnicas do IBGE via PNAD. A oposição diz que o senhor fez propaganda enganosa. Como o senhor explica isso?
JW: Eu estou muito à vontade para afirmar isso agora. Primeiro que os nossos gastos com propaganda, e isso é dado do Tribunal de Contas do Estado, é menor do que os do governo de Paulo Souto e de César Borges. Então não é verdadeiro que a gente vive de propaganda. Depois, eu respondo a eles que eles não leram a pesquisa direito. A PNAD é uma pesquisa por amostragem. O Censo está sendo feito agora. Então ele (Souto em denúncia) fala que foram 700 mil beneficiários pelo Água para Todos, quando na verdade a PNAD fala em 672 mil domicílios e aí você multiplica por 3.8 ou 4 de domiciliários e é o número que eu disse. Na verdade, a soma da própria PNAD, ele veria se olhasse com mais atenção, é 2,6 milhões. No caso do Topa, são duas colunas apontadas pela PNAD que eu insisto que é por amostragem. Por exemplo, o número de analfabetos está mais concentrado na zona rural do que nas grandes cidades. Então, a amostra nunca vai ser linear. Mas independentemente disso, eu formei em 2008 a primeira turma com 172 mil alunos. E depois a outra turma, que completa os 462 mil que a gente fala, foi formada em dezembro de 2009. A pesquisa trabalha com dados até setembro de 2009. De lá para cá eu ainda formei outros 20 mil, que completam os 500 mil redondos que falo. Independentemente disso tudo, eu tenho nome e endereço dos meus formados e posso tornar disponível para quem quiser. Além disso, agora estamos enviando 300 mil livros com porte pago para os alunos do programa Leitura para Todos. Será uma forma de eles lerem o livro e se motivarem a comentar o que aprenderam com a obra. Eu não seria maluco de enviar livros a um endereço inexistente. Repito, tenho nome e endereço de todas as pessoas alfabetizadas pelo governo.
BN: O senhor prometeu na campanha de 2006 criar o Bolsa Família estadual e não fez. Se o senhor for reeleito, o programa sai no segundo mandato?
JW: É, nós na época tínhamos falado em ampliar e a gente realmente ampliou cadastrando as pessoas. Colocamos 300 mil pessoas no Bolsa Família. O Estado tem um orçamento fiscal muito ruim. Nós só temos R$ 1 bilhão por ano para investimento. Então eu acho precipitado falar em ampliação. Eu prefiro trabalhar em outros programas sociais.
"A Bahia passou 16 anos sob o domínio de um grupo político e eu quando assumi o comando da máquina tratei logo de mudar esse modelo de gestão"
BN: Havia projetos criados no governo anterior em que a oposição denuncia que não tiveram continuidade e alguns foram extintos. Por que não houve essa continuidade?
JW: Eu não sei quais eram todos os projetos que tinham no governo Paulo Souto. Mas o SAC, por exemplo, que foi criado por ele, nós estamos ampliando. Outros estão sendo ampliados. É gozado a oposição me criticar quando dizem que o que estamos fazendo é coisa que tinham começado, como se fosse um defeito concluir, e agora criticam dizendo que não conseguirão concluir. Eu não paro obra nenhuma. Agora tenho que dizer: eu fui eleito com um projeto muito diferente. Digo sem erro para concluir. Eu posso lhe garantir que nenhum projeto bom foi interrompido
BN: Qual a principal falha da sua gestão que deve ser corrigida de imediato, no próximo mandato?
JW: Não diria que é falha, digo que é um processo de aprendizado. A Bahia passou 16 anos sob o domínio de um grupo político. Quando assumi o comando da máquina tratei logo de mudar esse modelo de gestão. Ao ponto de uns ex-aliados reclamarem dizendo que eu era democrático demais. Eu digo que quero fazer mais estradas. Também vou trabalhar ao máximo para despolitizar a máquina pública.
BN: Mas na Segurança Pública há diversos problemas. Como o senhor pretende melhorar os números da violência?
JW: Eu acho que em alguns casos se exagera sem conhecer o problema. Houve sim aumento de homicídios em 2008 e em 2009. Isso se deve, talvez, ao atraso que a gente teve no primeiro ano de governo. Há um problema brasileiro e mundial que são as drogas: o crack e a cocaína estão matando muito. Eu vou insistir porque esse levantamento eu faço toda semana. O planejamento que fizemos foi o mesmo que foi feito em Minas, Pernambuco e no Ceará. O trabalho passa pelo aumento do contingente repressivo, instalação de uma tecnologia moderna, que é o projeto Ronda nos Bairros. Quando eu digo que há exagero é porque caboclo nenhum deixou de sentar em um bar para tomar cerveja. Agora, nos ambientes onde rola tráfico de drogas há mais casos de homicídios. Isso é claro e eu mostro a você a lista. É difícil, mas não tem segredo.

BN: Para finalizar, entre os três candidatos Geddel, Paulo Souto e Bassuma, qual deles o senhor convidaria para ocupar um cargo de secretário no seu governo?
JW: Eu acho que todos três estão em um nível maior do que ser meu secretário e pareceria chacota eu convidá-los para ser meus secretários. Mas não convidaria nenhum dos três.
