Marcos Mendes desmistifica a tese de que a prioridade do PSOL é a vitória de Hilton Coelho para deputado estadual - 23/08/2010
Fotos: Maiana Marques/ BN
Por Evilásio Júnior, Gusmão Neto e Rafael Rodrigues
Bahia notícias: A campanha começou a aquecer. Quais são os próximos passos do seu trabalho como candidato ao Governo do Estado?
Marcos Mendes: A gente está nesse enfrentamento e já está dando pra perceber que está incomodando porque um dos papéis principais do PSOL é falar a verdade, abrindo justamente o leque de esquemas não só na Prefeitura (de Salvador) que tem ligação com Geddel (Vieira Lima) e João (Henrique, ambos do PMDB), mas também no Governo do Estado do jeito que está. Estamos em uma luta de Davi contra Golias. Mas estamos com uma perspectiva muito boa, mesmo com todas as nossas dificuldades. A gente pede doações de militantes, de pessoas que fazem parte da base popular maior que são as principais afetadas com as políticas públicas de Educação, Saúde, Segurança. É importante se essas pessoas pudessem apoiar, fazer doações porque a gente só tem o fundo partidário e doações entre militantes mesmo. A dificuldade maior é essa, mas estamos com um gás cada vez maior. Depois do debate mesmo temos recebido um carinho de todo lugar que a gente vai.
BN: Sobre a questão do caso Transcon, teve aquela carta apócrifa, que seria de empresários da Ademi, em que cita sete denunciados e no meio desses algumas pessoas teriam ligação com o Instituto Búzios, que seia presidido pelo senhor. O que o senhor esclarece sobre esse fato?
Mendes: Na verdade o instituto Búzios nem tem presidência. Existe um coordenador-geral e eu sou um dos coordenadores. O instituto foi fundado em 2002 e tem como eixos principais a questão negra, a questão feminina e a questão ambiental. Então o instituto vem fazendo várias denúncias de assédio moral, crimes ambientais, prostituição infantil. E isso que vem acontecendo na Paralela, na Orla Marítima de Salvador, no Centro Histórico, todos esses desmandos e crimes que vem sendo cometidos, a gente vai denunciando. É isso que é feito. Agora se as nossas denuncias estão constrangendo quem está cometendo crime, a gente não tem nada com isso. O nosso papel é esse e não vamos calar a boca.
BN: Então o Instituto Búzio não participou de extorsão?
Mendes: Claro que não. Em hipótese alguma.
BN: Por que alguns empresários se sentiam constrangidos? Será que além do pessoal que supostamente extorquia, os que também se diziam extorquidos também cometiam crime e está todo mundo com erro na história?
Mendes: Com certeza. Os crimes são muito claros. São áreas de preservação ambiental permanentes que eles estão invadindo, como rios, a Mata Atlântica. O próprio Estado cometeu crime quando fez a tecnovia. A tecnovia foi uma proposta do governo de Paulo Souto e foi implementada pelo governo de Jaques Wagner, justamente em uma área de proteção ambiental. Esse tipo de caso vem acontecendo de uma forma desenfreada. É um desmando total nessa cidade. A Superintendência do Meio Ambiente mesmo, desde a época de Juliano Matos até esse Nery, é isso aí. Às vezes técnicos fabulosos do IMA vão lá e embargam a obra e a superintendência vai lá e libera. As coisas acontecem e é como se não houvesse nada. Então é um esquema pesado. É um balcão de negócios que está sendo externado pelos próprios dirigentes da prefeitura. É o pessoal da Sucom, Cláudio Silva e essa Kátia Carmelo. Kátia foi quem fez aquela aprovação toda do PDDU. É bom que se diga isso. Na época foi denunciado por Varela que ela fez uma operação de compra de vereadores por R$ 300 mil cada um. Foram 27 vereadores comprados e depois ninguém processou Varela, diga-se de passagem. Depois que ela se sentiu acuada, começou a denunciar. Ela denunciou que no tempo de Claudio Silva foi um desvio de mais de R$ 500 milhões e o Cláudio Silva disse que na época dela foram de mais de R$ 750 milhões.
BN: Você, enquanto integrante do Instituto Búzios, que acompanha esse processo, acha que diante dessas pessoas que foram apontadas, o cerco já está fechado ou vão aparecer mais pessoas?
Mendes: Olha, eu acho que quando se faz uma carta anônima, ela não tem valor nenhum. Na verdade é uma pressão que estão fazendo para gente de valor. Denunciaram até duas pessoas fabulosas. É um absurdo.
BN: Agora vamos mudar de assunto e falar sobre o processo eleitoral. Qual é o seu diferencial entre os candidatos Jaques Wagner (PT), Geddel Vieira Lima (PMDB), Paulo Souto (DEM) e Luiz Bassuma (PV)?
Mendes: Eu sempre tenho dito que nós não somos financiados por nenhum empresário, nem grande nem pequeno. E não é porque estamos acima do bem ou do mal. É porque esse esquema promíscuo é que faz o processo de corrupção que está entranhado aí. O que acontece é que essas pessoas (políticos) recebem esse dinheiro e depois quem é que manda? São eles (empresários). Vou dar um exemplo. Quem está na Secretaria da Indústria, Comércio e Mineração? James Correia, que financiou a campanha de Wagner em 2006. Quem é que está agora na Conder é Milton Vilas Boas, que é indicação da OAS. Quem está na prefeitura é Paulo Damasceno (na Sedham), que é indicação de Carlos Suarez. É essa promiscuidade que eu falo. Empresário não vai patrocinar nada sem interesse. Depois ele vai querer o retorno. Então, essa é uma diferença básica nossa. A gente quer autonomia e independência para governar o Estado. Isso ao que falei se encaixa em Wagner, Geddel e Paulo Souto. Agora o que eu tenho dito de Bassuma é que ele tem tentado se sair por ali, aqui e acolá. O PV sempre esteve envolvido com o Governo do Estado durante toda essa devastação ambiental. Quando você vai em São Paulo e Rio de Janeiro, o PV está do lado do DEM. Então onde tem ‘boquinha’, é igual ao PCdoB, eles estão. E eles querem dizer que são mudança. Isso não é mudança.
BN: Qual é a estratégia que vocês vão utilizar para mostrar para a população, diante do pouco tempo de TV, que a candidatura do PSOL vem para governar e não como um contraponto?
Mendes: Os poucos minutos que a gente tem será utilizado com inteligência. O segundo ponto é utilizar esses espaços de entrevistas como esse aqui. O terceiro é o debate, que já teve um efeito muito bom. A gente fez a diferença no debate. Tem gente por aí que quando me ver, vem e me abraça, diz que vai votar conosco, esse tipo de coisa. Ainda terão outros debates e a gente vai começar a pontuar muita coisa. Vamos aproveitar para divulgar o nosso site que é www.marcosmendespsol.com.br, tem o Orkut Marcos Mendes PSOL e o Twitter Marcospsol. Eu acho que pode acontecer o que ocorreu em 2006, quando as pesquisas davam Paulo Souto como vencedor em disparado e Wagner ganhou.
BN: O PSOL também se diferencia de outros partidos de extrema esquerda como PSTU e PCB, que têm um plano que a eleição não passa de um momento para divulgar o nome deles. Então o PSOL quer mesmo ganhar a eleição?
Mendes: Essa é a nossa diferença também. Nós temos o maior respeito com esses companheiros e aproveito para me solidarizar com o professor Carlos (PSTU) e Sandro Santa Bárbara (PCB) que não podem estar em todos os lugares como os debates. E nesses espaços eu digo que eles se sintam representados quando não estão ali.
BN: Com o indeferimento da candidatura de Carlos Nascimento, você acha que os votos dele migrem para a sua?
Mendes: Eu acho que essa é questão natural. Agora eu fico muito triste por isso ter acontecido. Mas apesar da existência dessa burocracia burguesa, as pessoas devem entender que ela deve ser respeitada.
BN: Muitos integrantes do PSOL, inclusive você, Hilton Coelho, Hamilton, já foram do PT. Então, como passar para a população de que a proposta do PSOL não é uma antítese do PT, em que muita gente qualifica como o ranço do PT?
Mendes: Tem uma amiga minha de trabalho que me disse o seguinte: “Marcos eu não consigo entender você. Você estava no osso o tempo todo quando estava no PT desde o início, na luta revolucionária etc. Hoje o PT está no poder, no filé. E quando chega o filé, você larga e volta para o osso?”. Eu respondo que a nossa proposta não está no poder por estar. A gente tem uma proposta de transformar a sociedade, de incluir as pessoas de maneira coletiva. Na eleição municipal, por exemplo, o PT e PMDB ligaram para Hilton para oferecer três secretarias e a gente não aceitou.
BN: Se o PSOL conseguir eleger pelo menos um candidato a deputado, como Hilton, vocês já consideram a campanha vitoriosa?
Mendes: Não, a campanha vitoriosa é eleger o governador. As pessoas confundem. Tem gente que diz que a nossa campanha é só para eleger um deputado e isso não é verdade. Estamos disputando o governo verdadeiramente.
BN: Quais são os três setores prioritários para o governo do PSOL?
Mendes: Deixa eu citar quatro. Educação é prioridade porque ela envolve tudo. Então é Educação, Saúde, Segurança e Meio Ambiente.
BN: Se eleito, o senhor irá governar uma máquina pública e será necessário negociar com governo federal, prefeituras e Assembleia Legislativa. Vocês pretendem negociar apoio de outros partidos?
Mendes: A gente não concorda com essa forma de governabilidade, que é justamente quando começa a corrupção. Mas vamos conversar com o governo federal porque tem muita coisa que deve ser feita. Vamos fazer um sistema consorciado com as prefeituras. Agora, o papel fundamental do governo do Estado é fazer a fiscalização dessas prefeituras. Uma proposta para a Educação é fortalecer os Conselhos Municipais.
