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Entrevistas

Entrevista

César Nunes critica "abutres" que aproveitam eleitoralmente assassinato de delegado - 31/05/2010

Por Rafael Rodrigues

Fotos: Alberto Vinícius Maraux

"É muito fácil e eu acho até uma falta de ética da Associação criticar o trabalho dos seus próprios associados, que são os delegados da Policia Civil"

Por Rafael Rodrigues

Bahia Notícias: Uma carta pública divulgada logo após a morte do delegado Cleyton Leão, da Associação de Delegados da Bahia, diz que “a segurança pública sangra na própria carne” e afirma que “a população tem se tornado refém não só do crime organizado, mas, sobretudo, da desídia governamental e incompetência generalizada que norteia a área de segurança pública”. O texto diz que “faltam diretrizes concretas, falta estrutura, falta respeito”. Quais são as diretrizes para o planejamento da segurança pública na Bahia hoje?

CN: Eu acho um total desconhecimento da Associação dos Delegados. Ela e toda a Bahia sabem que foi apresentado, pela Segurança Pública, na Assembleia Legislativa em abril de 2008, quando eu entrei, um plano de segurança do Governo do Estado, onde analisamos a Segurança Pública em várias vertentes. Por exemplo, a modernização, a relação da capacitação, recomposição dos efetivos policias, a questão das compras de equipamentos para as policias. Então, eu acho um desconhecimento da Associação. Assim como foi um desconhecimento da Associação quando afirmou que, na elucidação do crime do delegado Cleyton, teria se agido de forma simplista e apressada. Só que eles afirmaram sem ter conhecimento nenhum sobre as investigações. Acho que simplista foi a forma como eles fizeram, que não tinham conhecimento das investigações. Eu quando afirmei por volta de 18h30 da noite, que estava tudo indicando que foi tentativa de roubo seguido por tentativa de morte, foi porque eu estava onde as provas estavam sendo produzidas. Eu ouvi testemunhas, eu sabia dos resultados dos exames periciais, sabia de todos os dados trazidos para a investigação. É muito fácil e eu acho até uma falta de ética da Associação criticar o trabalho dos seus próprios associados, que são os delegados da Poíicia Civil, porque nós tínhamos conduzindo diretamente as investigações dois delegados, e comandado as operações mais cinco delegados.

BN: Então a crítica da falta de planejamento da segurança é infundada? Existe sim planejamento da segurança?

CN: A segurança pública tem um planejamento macro, em que se busca ver várias vertentes. Um: reposição dos efetivos policiais. Nisso o governo Wagner já contratou mais do que todos os outros governos. Até o final do governo Wagner, serão mais de seis mil policiais militares contratados. Policiais civis, também estamos contratando mais de 200 policiais civis. Então é uma vertente, porque sabemos que os efetivos policiais estavam defasados.

BN: Os policiais civis concursados que protestam pela nomeação serão efetivados ainda este ano?

CN: Dentro do possível serão contratados, tanto que hoje ou amanhã deverá sair a nomeação de mais 15. O governo tem responsabilidade no contratar, porque tem todo planejamento, tem toda a Lei de Responsabilidade Fiscal que deve ser observada. Estamos contratando, contratamos mais de duzentos policiais civis e amanhã esta saindo a nomeação de mais 15, pois é o nos é permitido nos contratar. Ai temos a recomposição das frota: nós já recuperamos mais de 1,8 mil viaturas. Nós tínhamos em exercício viaturas com dez anos, totalmente obsoletas. E isso o Governo está fazendo, dentro deste planejamento.  Nós fizemos a aquisição de mais um helicóptero, aumentando para três a frota de helicópteros que permitirá uma operacionalidade muito maior do Governo e das polícias. Isso dentro da modernização das frotas. Adquirimos e estamos entregando 326 novas motocicletas. Porque dentro do planejamento nós pensamos em um policiamento, não só na capital com motocicleta, mas também nas cidades do interior usando duplas ou até ternos de motocicletas, para se fazer aquele patrulhamento na zona rural. Agora vamos para modernização dos sistemas. Nós implantamos o novo sistema tetra de comunicação. É o sistema mais moderno do mundo. As polícias hoje falam entre si. Hoje qualquer policial de qualquer lugar de Salvador e Região Metropolitana conseguem se comunicar com rádio de mão para a Central, e para comunicar as polícias entre si.

BN: O racha da polícia militar acabou, existe uma sintonia entre as polícias?

CN: Ainda não está na sintonia que todos nós queremos que seja, que eu quero, que o comandante da PM quer, o doutor Joselito Bispo, o doutor Raul, da Polícia Técnica. Porque não adianta você querer dividir as atribuições. Você tem que ver que uma complementa a outra, e o ideal seria nós termos uma única polícia, mas não seria possível isso. Eu acho que não é possível, aí o que temos que fazer é uma integração entre as forças policiais. E essa integração, esse modelo pregado pelo Governo tem que ter comando único, é comando da Secretaria de Segurança Pública. Esse é o modelo que o governador quer, que está sendo empregado. É comando da Secretaria de Segurança Pública, respeitadas as características de cada instituição, mas que venham trabalhar em conjunto. Nisso nós estamos avançando muito por intermédio de padronização da frota: toda frota policial hoje é igual, Polícia Civil, Polícia Militar e Polícia Técnica. Isso é no mundo todo. Operações em conjunto. Já realizamos dezenas de operações em conjunto entre a Polícia Militar e Polícia Civil, participando de buscas, cumprindo mandado de prisão juntos. Isso é integração. Instituímos aqui as AISPs (Áreas Integradas de Segurança Pública). É uma coisa que se vinha buscando há muitos anos, e a gente conseguiu agora marcar geograficamente em todo estado da Bahia. Nós dividimos por área, e a área que trabalha a unidade da Polícia Civil é a mesma área que trabalha a Polícia Militar. Então isso facilita o trabalho, você organiza a repressão. É por isso que eu digo que eles não têm conhecimento, ou se têm fazem de conta que não têm.

BN: A política da Segurança Pública do estado está restrita só ao aparelhamento e da repressão? Há ações organizadas para combater o tráfico? Por exemplo, no Rio de Janeiro criaram-se as Unidades de Polícia Pacificadora que têm dado certo na desarticulação do crime. Quais as políticas para acabar com o tráfico de drogas aqui na Bahia?

CN: Veja bem, o plano de Segurança Pública, que é o nosso norte, é o que nós pensamos, tem várias vertentes. Não é só isso. Nós temos a capacitação policial, que é muito importante. Nós fomos agora, quinze dias atrás em Porto Seguro, fazermos o lançamento de um curso de Direitos Humanos para Policiais Civis e Militares para capacitar o homem do interior também. Já fizemos dezenas de cursos de capacitação. Essa é outra vertente do plano. Capacitando para o policial ter conhecimento, para que saiba bem exercer a sua missão. Valorização do policial através do conhecimento, da Lei Orgânica, que quem fez fomos nós. O Estado permitiu que quem elaborasse a Lei Orgânica fossem os policiais civis. Foram os representantes de cada uma das categorias. Eu queria saber se isso no passado seria possível. Aqui nós fizemos, tinham representantes dos delegados, dos agentes, dos escrivães, dos peritos técnicos, dos peritos criminalísticos, e eles discutiram por um bom período, depois trouxeram o ante-projeto, nós discutimos aqui amplamente, eu com eles, fomos a Secretaria de Administração, discutimos também, e depois a lei veio a ser aprovada. Isso é você garantir em lei, em um instrumento legal, a existência de uma instituição, coisa que não existia, coisa que era um regulamento que a bel prazer do delegado geral era mudado. Hoje não. Os policiais civis têm seus direitos e garantias, uma lei orgânica.

BN: Essa ação do Rio, que é um exemplo, de pacificação do morro, funcionaria aqui? Esse tipo de iniciativa, de ação planejada como o trafico de drogas, há aqui?

CN: A unidade pacificadora é  uma ação policial. Eles estão colocando hoje unidades policiais onde nunca existiram. No Pavão Pavãozinho nunca houve uma delegacia, nunca teve uma unidade da polícia militar, uma companhia nunca teve. Nas outras comunidades de morro não têm. Isso foi uma política errada do passado. Aqui na Bahia isso não acontece. Aqui em Salvador não acontece, não tem nenhum bairro que não tenha nenhuma delegacia, nenhuma unidade da polícia militar que atenda. Você pega como exemplo a comunidade do Pavão Pavãozinho: tem 10 mil moradores e não tinha nenhuma unidade ali dentro. Toda vez a polícia vinha de baixo para cima para fazer as ocupações. Nós não precisamos disso porque temos unidades em todas as áreas.

BN: Salvador passou o Rio de Janeiro e passou São Paulo no índice de homicídios...

CN: Eu não sei disso não. O Instituto Sangari fez um estudo que não diz isso.

BN: Segundo o próprio Instituto Sangari, o numero de homicídios em Salvador é de 49,3 por 100 mil habitantes: no RJ é 35,7.

CN: Eu não discordo deste dado. Como é o Instituto Sangari, eu concordo.

BN: Este mesmo estudo afirma que o índice de violência em Salvador cresceu 64% de 2003 a 2009, e no Rio desceu 22,3%, e em São Paulo, 38,8%.

CN: A violência vem crescendo desde 1999. De 2002 a 2008 a violência vinha crescendo na Bahia na ordem de 30 a 40%. A violência, se levarmos em consideração determinados índices: homicídios, roubos, roubos de veículos, roubos em coletivos, que é um crime que nos preocupa muito por atingir uma faixa mais pobre da população, atinge aquele trabalhador que vai trabalhar às 5h da manha e é assaltado no ônibus, ou quando ele retorna. A gente tem que analisar os vários índices de criminalidade. De 2002 a 2008 ela vinha crescendo em uma ordem de 30%, a cada ano. Sem dúvida nenhuma. Os dados estão aí, são transparentes. Em 2009, na Região Metropolitana de Salvador o número de homicídios diminuiu 2% e alguma coisa. É motivo de comemorar? Não, de forma alguma, mas pelo ao menos não tivemos o crescimento. Tivemos em Salvador o mesmo número de homicídios, tivemos 2.192 homicídios em 2009 e em 2008 tivemos 2.210 em 2008. Então tivemos uma diminuição pequena, mas não tivemos aquele crescimento que estávamos tendo.


"Bolívia que está exportando maciçamente a basta base da coca para o Brasil. Esta pasta base é matéria prima para o crack. Por quê? Cenário internacional"

BN: A questão do interior, em Arraial D’Ajuda e em Itabuna são exemplos de cidades que a violência está se espalhando para o interior. Assaltos a banco é uma constante. Como é que a polícia tem agido para diminuir o crescimento dos índices?

CN: No interior do estado, em sua grande maioria, houve uma diminuição. Mas houve um aumento no interior do estado de um ano para o outro. Nós tivemos, em 2008, 2.278 homicídios e, em 2009, 2.604. No interior do estado efetivamente estamos tendo um aumento. A criminalidade está migrando para o interior do estado. E, em determinadas regiões, isso é uma realidade.

BN: Como é que a Secretaria faz para combater este tipo de crime?

CN: É justamente isso aí. Nós estamos primeiro analisando as causas destes homicídios. Foi isso que fizemos. Buscamos encontrar onde estão os maiores aumentos de criminalidade, porque nós temos determinadas áreas que são responsáveis por 57% dos homicídios da Bahia. Então nós vamos priorizar onde? Estas áreas. Não é que tenha aumentado não, é que temos áreas. Por exemplo: Região Metropolitana de Salvador, Feira de Santana, Extremo Sul, entre Eunápolis e Itabuna, que são as áreas pelo maior volume de homicídios, são estas áreas. Nestas áreas estamos aumentando os efetivos das polícias, aumentando o número de veículos, nós estamos buscando capacitar estes policiais. Estamos dando meios para a gente combater esta criminalidade, para fazer a repressão qualificada em cima desta criminalidade. Aí, dentro desta análise nossa, o que motivou o aumento dos índices de violência, que não é somente homicídio, mas também roubo, roubo em coletivos que são importantes. Então nós temos aí, com certeza, podem dizer que não, podem dizer que sim, mas o crack é responsável por 80% da violência do estado da Bahia. E não só no estado da Bahia, mas em todo Brasil. Isto dito por todos os Secretários de Segurança Pública. Nós não estamos aqui tentando buscar o culpado, mas buscando identificar as causas. As causas que eu digo em imediato da violência. Qual droga? O crack. Por que a droga maconha trás uma violenciazinha? Trás. A cocaína trás violência? Muito pouco, porque uma faixa pequena da população consome cocaína, por conta do seu custo. Mas uma faixa muito maior, e com o barateamento da droga em razão excesso da oferta da droga, está consumindo o crack e causando esta violência.

BN: O Instituto Sangari fez um levantamento dos últimos 10 anos em todo o país e descobriu que a violência tinha decrescido 2%. Rio e São Paulo apontaram o seguinte índice: entre 2006 e 2009, os dois caíram em violência: 38% em São Paulo e 28% no Rio. A gente sabe que a questão do crack é uma questão nacional. Por que na Bahia esta questão aflige tanto, se outros estados estão conseguindo reduzir o índice de violência? O que está se fazendo para combater o consumo e o tráfico de crack? Todos sabem que o crack não é fabricado na Bahia. O que cabe ao Estado da Bahia e o que está se fazendo para evitar que esta droga não entre na Bahia?

CN: Os índices de lá estão caindo, e como eu lhe disse, aqui em 2009 diminuiu, está começando a diminuir. Isso é histórico. A exclusão social que havia de antes, as causas que geram a violência, que também estão sendo combatidas pelo Governo. Essas são as causas que trazem a violência. Aí vem a repressão. Nós estamos melhorando, nós estamos capacitando, estamos dando equipamentos e com isso já tivemos uma diminuição de 24% no roubo de coletivos. Nós tivemos redução de 30% de roubo de carga na Bahia. Então nós tivemos estas melhorias em 2009. Isso eu atribuo às melhorias que nós estamos implementando na segurança pública. Acredito que o ano de 2010 deve ser melhor do que o de 2009 e assim nós vamos caminhando gradativamente para termos diminuição nos índices de violência. Mas estes índices de violência combatidos apenas com a repressão, apenas com a polícia, estamos combatendo os efeitos. As causas, não precisa ser sociólogo para dizer que é a falta de educação, a falta de emprego, a falta de formação dos jovens, a falta de escola, a falta de família, a falta de tudo isso. Você pode fazer uma pesquisa, como já foi feita, para ver quem são os jovens que estão envolvidos hoje com o tráfico é uma faixa etária de 15 a 24 anos de idade. Isso é decorrente de quê? Da falta de oportunidade que estes jovens tiveram. Eu não estou aqui querendo fazer um discurso político. Porque se nós fóssemos fazer um discurso político, então seríamos responsáveis apenas pelos traficantes, pelos ladrões, pelos assaltantes de banco, que hoje tivessem três anos e meio de idade. As causas que levaram a garotada a entrar no crime, quais foram? É isso que se responde. Como você mesmo afirmou, o Brasil não cultiva a coca, todos nós sabemos disso. A coca está sendo cultivada na Bolívia, na Colômbia e no Peru. A Bolívia que está exportando maciçamente a basta base da coca para o Brasil. Esta pasta-base é matéria-prima para o crack. Por quê? Cenário internacional. A Bolívia, eu estive lá dentro, participei de operações lá dentro, prendemos uma quadrilha, fomos trocar carros por drogas e prendemos uma quadrilha. Naquela época, em 2000, eles tinham uma força policial que era bancada por um programa do governo americano. Este programa pagava 70% dos salários dos policiais e davam a eles equipamentos, treinamentos, helicóptero, tudo isso. Permitia então um combate ao narcotráfico. A área plantada de coca permitida por lei era de 5 mil hectares. O governo atual mudou, expandiu para 12 mil hectares e na realidade não se tem controle algum. Estima-se em 40 mil hectares plantados de coca. Junto a isso, foi desfeito o convênio, tiraram os americanos de lá e eles perderam aquela repressão qualificada, e aumentaram a área plantada em muito. Resultado: uma área enorme plantada por folha de coca que não é só para mascar como eles usam culturalmente. Essa produção grande de folha de coca é que permite uma grande produção de pasta-base de coca, que é o primeiro passo para se chegar ao processo químico do cloridrato, que é a cocaína. Esta pasta-base, como eles não têm os produtos químicos mais finos, como o éter e a acetona que permite chegar ao cloridrato, que é a cocaína, eles produzem a base. Essa base que é a matéria-prima do crack, que chega a todo o Brasil a um preço irrisório, que permite que uma pedra de crack custe na Bahia R$ 1 e no Rio de Janeiro até R$ 0,50, segundo informações do próprio secretário de segurança pública de lá. Com esta socialização da droga, que gerou uma epidemia social, o que estamos vendo ai é uma faixa da população mais pobre, miserável, que hoje tem acesso a esta droga.

BN: Como é que esta droga chega à Bahia?

CN: Aí é como é o tráfico hoje na Bahia. Antigamente, o tráfico era de cocaína, que eram quantidades maiores, com preços elevados. Os traficantes eram em menor número. Hoje não: qualquer traficante vai na Bolívia e compra 12 quilos de pasta-base e trás. Entra na fronteira do Brasil, que é aberta, fronteira seca, e vem para a Bahia via Minas Gerais. Entra pela própria Bahia por Goiás, por todos os cantos e caminhos inimagináveis. Fechar fronteira é competência nossa? Não. Seria possível? Também não. Se fosse possível fechar fronteira, os EUA já teriam fechado a fronteira deles com o México. Por outro lado, compete originariamente, constitucionalmente, à Polícia Federal, o combate ao narcotráfico. Subsidiariamente aos estados. Mediante convênios com o Ministério da Justiça. Só que hoje, quem está efetivamente dando, na Bahia, combate a esse narcotráfico é a polícia da Bahia, a Civil e a Militar. O volume de drogas apreendido do ano retrasado para o ano passado foi de 250% superior. Nós estamos melhorando a nossa polícia? Acredito que estamos sim, mas acho mesmo que estamos tendo uma super oferta. A pessoa entrar com 5 quilos de pasta base é muito fácil, e não tem como fechar estas fronteiras. Tanto que agora o presidente entendeu e está lançando um projeto contra o crack.


"Eu acho que uma parte da Guarda Municipal deve sim andar armada. Por as guardas municipais são reconhecidas por lei como organismo de defesa e segurança social"

BN: Tem muitos jovens hoje que estão envolvidos com o crack. E não vão largar o vício se não houver uma política de reabilitação, de clínicas especializadas. Aqui na Bahia essa assistência quase não funciona...

CN: Nós temos muito timidamente isto por aqui, e a desintoxicação do crack não é assim. Precisa investir e não coloque isso na conta da Segurança Pública porque se não eu não aguento. Precisa se investir muito na prevenção, porque droga é prevenção primária. Você faz uma pesquisa hoje entre seus amigos e pergunte quais são os que fumam cigarro de tabaco comum. Você vê aqui nesta secretaria. Eu não conheço nenhum que fume, por conta da prevenção, pelas campanhas que foram feitas. Nós não vemos campanhas de prevenção ao uso crack. Este ano o Governo do Estado da Bahia lançou uma campanha de combate ao uso de crack. O governo federal está sentindo o problema e está lançando uma campanha. Está se pensando agora em um plano de prevenção. Pode escrever, eu tenho 35 anos de polícia, 28 de repressão às drogas, e entendo que o melhor caminho é a prevenção e depois a repressão. E por fim a recuperação daqueles usuários.

BN: A maconha, ao contrário do crack, não é uma droga que está ligada aos altos índices de violência devido ao consumo, mas é uma droga perigosa ao Estado, porque ela financia o tráfico. Qual a opinião do senhor a respeito à descriminalização da maconha?

CN: Frontalmente contra. No nosso país, na cultura que temos aqui, nesta pobreza que temos aqui, eu sou totalmente contra. A maconha é sim uma substância entorpecente. Ela causa malefícios à pessoa sim. Ela causa tanto os malefícios psicológicos, quanto os malefícios que o cigarro comum causa. Manda um viciado desses pegar um carteira de maconha e fumar um a dois maços por dia. Ele vai ter os mesmos malefícios que o cigarro comum possui.

BN: Então esta questão é mais de saúde pública do que segurança pública?

CN: Com certeza. Tanto que o bem tutelado pela lei antidrogas é de saúde pública, e nisso temos que entrar com ações preventivas. Ação repressiva seria como uma medida reguladora, para evitar a grande oferta. Mas não: hoje o que temos contra o tráfico de drogas é a repressão, é a policia, e a polícia é que está fazendo. Quando digo que sou secretário de Polícia e não de Segurança Pública...

BN: Houve um aumento de 5% de roubo a carro nos quatro primeiros meses deste ano, e há dois episódios que são marcantes nessa modalidade de crime. Um foi o roubo do carro da Casa Militar do governador, e o infeliz caso do delegado Cleyton Leão, que segundo as investigações, se tratou de uma tentativa de furto de veiculo. Como é que a polícia tem reagido para combater este tipo de crime?

CN: Isso ai é o que estamos buscando: reaparelhar as policias, redirecionar o policiamento, o geo-referenciando destas áreas, modificando as formas de atuação da nossa equipe de furtos de veículos. Nós temos um grupo chamado visão noturna que coíbe este tipo de delito.

BN: A maioria dos assaltantes utiliza motos para realizarem os furtos. Na Colômbia há iniciativas para coibir essa ação, como a obrigação, por parte dos motociclistas, de utilizar um casaco com a placa do carro. Há medidas sendo pensadas para o nosso caso?

CN: Teve este ano aí um acréscimo e estamos a redirecionar, geo-referenciar as ocorrências. O que é o geo-referenciamento? você tem um sistema que aponta onde está ocorrendo o maior número de furto, de roubos de veículos. Então você vai redirecionar o seu policial para aquela região. Temos também um bom nível recuperação dos veículos furtados: cerca de 53%  são recuperados. Isso porque a maior parte deles também é furtada para combater crimes. Então, isso é o que estamos tentando fazer. Buscando dar capacitação a estes policiais para que a gente faça esta repressão qualificada. A questão das motocicletas, teve até uma proposta que foi feita pelo secretário de Alagoas, para implementar medidas neste sentido, como foi feito na Colômbia, em razão ao alto número de crimes como um todo: saidinhas bancárias, furtos, homicídios, o motoqueiro que passa e toma a bolsa. Há um alto índice de crimes por pessoas que se utilizam motos. Esta proposta foi feita pelo secretario de Alagoas e o colégio de secretários enviou uma mensagem neste sentido para regulamentasse. Porque quem tem que fazer isso é o Governo Federal, via Denatran. Eu acho uma medida muito acertada esta.

BN: A utilização de armas pela Guarda Municipal. Edvaldo Brito, vice-prefeito, disse que na compreensão dele da lei, a Segurança Pública é uma obrigação do Estado, e a Prefeitura como parte deste Estado também tem o poder do policiamento. Qual a opinião do senhor a respeito da Guarda Municipal como forma de policiamento, com porte de arma?

CN: Eu sou favorável. Óbvio que eu conheço da estrutura da Prefeitura e eles vão fornecer armamento para aqueles que tiverem capacidade de portar e usá-las. A pessoa tem que passar por um treinamento adequado, saber usar, estar preparado psicologicamente para o uso de armas, assim como usam os policiais da Polícia Militar. Eu acho que uma parte da Guarda Municipal deve sim andar armada. Pois as guardas municipais são reconhecidas por lei como organismo de defesa e segurança social.

BN: Sobre a morte do delegado Cleyton Leão, a investigação a foi concluída ou não? A hipótese da tentativa de assalto seguida de morte está fechada. A Secretaria acredita que realmente esta é a hipótese verdadeira?

CN: Esta é a verdadeira hipótese.

BN: Não poderia ser outra hipótese como uma simulação de assalto para um homicídio intencional?

CN: Até poderia ter sido esta a intenção, mas hoje quando afirmamos, quando eu afirmei que por volta das 7 da noite, tudo indicava que foi uma tentativa de roubo seguida de morte. E ao final, depois da prisão de todos os três, depois de analisar quem são os autores, o modus operandi deles, ouvi as testemunhas todas, inclusive a esposa do delegado Cleyton. Eu não tenho dúvida. Pode algum desavisado querer fazer polêmica, querer dizer que foi apressado, até como disse a Associação, mas sem ter conhecimento você não pode fazer afirmação nenhuma. E a afirmação que foi feita, foi feita em cima de laudos, depoimentos, análise dos policiais da área, que conhecem os bandidos que foram presos. Os caras mataram o delegado, levaram o carro próximo a uma residência de um deles e incendiaram o carro. A partir daí as investigações se desenvolveram, com a prisão deles, com a apreensão da arma do crime, tudo isso. Não tenho dúvida alguma.

BN: Então, foi uma fatalidade que poderia ter acontecido com qualquer um?

CN: Foi um lamentável incidente em que ele parou em um local indevido, e os caras estavam mesmo, como chamam na gíria policial, “mariscando”. Então viram um carro bonito parado em uma estrada perigosa, foram lá e assaltaram. O delegado pegou a arma, e foi tudo isso.

BN: Como você avalia a Justiça aqui na Bahia? A Bahia é um dos estados em que os processos mais demoram em ser julgados. A Justiça da Bahia ajuda ou atrapalha a ação da policia?

CN: Na Justiça da Bahia, nós temos uma lentidão nas decisões. Isso é uma realidade. Nós tivemos, por exemplo, cadeias no interior que foram quebradas, que houve motins por conta de lentidão, de não julgamentos, de não decisão de processos. Isso aconteceu em abril em Porto Seguro, porque os presos queriam alguma decisão e não tinham. E outros casos ocorreram assim também. Por exemplo, a questão de medidas alternativas de pena. Para que se aplique isto é necessário que os processos sejam julgados com celeridade, porque quando chega ao final não tem nem mais o que aplicar. Então, nós temos uma certa lentidão com os julgamentos. Atrapalha com certeza.

BN: São muitos os casos de presos em prisão preventiva que estão na delegacia há anos e o caso ainda nem foi julgado?

CN: Tem sim. Tem caso que está há mais tempo nas delegacias do que deveriam estar.


"Eu acho que essas pessoas que buscaram fazer isso (faturar eleitoralmente na morte do delegado) têm os mesmos valores no coração daqueles que praticaram o crime"

BN: Quanto à punição dos policiais que cometeram algum tipo de ilicitude. Temos dois casos que são exemplares: os de Conquista e do Pero Vaz, em que, principalmente o do Pero Vaz, foi denunciado primeiramente por causa da imprensa...

CN: Por causa da imprensa só não. A própria Polícia Civil foi lá. A denúncia da imprensa é importante, chama a atenção, mais as investigações já tinham sido feitas, e todo fato desta natureza eu me envolvo pessoalmente. Chamei aqui o degelado Miguel Cicerelli, estivemos em Conquista. O Governo que aqui está não admite isto não. Policial que cometer os seus crimes vai responder. Nós não vamos pactuar com bandido nenhum aqui não. Seja ele policial ou não. Seja de qual corporação for. O que estamos tentando fazer é correr atrás, mas é uma investigação difícil. Nós precisamos ter corregedoria especializada neste tipo de ação. Em todo o mundo. Estou falando isso por que conheço algumas polícias por aí afora. A repressão da corregedoria é uma atividade remunerada, extra. São policiais capacitadíssimos para isto, em todas as instituições, porque é muito difícil você fazer investigação em cima de policial. Não só pelo corporativismo, mas porque o policial conhece os métodos da polícia, conhece os policiais. Ele saca quando está sendo vigiado, ele sabe como a policia trabalha, então ele pode colocar anteparos a todas essas ações. Por outro lado, no âmbito das Polícias Civil e Militar da Bahia, para você punir, para você investigar, você tem que estar com provas muito fortes. Porque senão as instituições vêm de encontro. A minha geração mudou a Policia Federal. A Polícia Federal que está aí hoje, quem fez fomos nós, da minha geração. Nós viemos mudando a Polícia Federal, 20 anos mudando, até que conseguimos extirpar o mal corporativismo. Em vez de espírito de corpo, era espírito de porco. Aquele que pensa ‘eu não roubo, mas ele que rouba o problema é dele’ está participando do mesmo jeito. E hoje na Polícia Federal não tem mais isso não. Se tiver, vai ser feita uma toda investigação. Isso vem de 15, 20 anos que veio mudando. Eu lembro de casos de colegas. Teve um aqui no Aeroporto de Salvador, em que um colega nosso invadiu, tirou uma mala enorme de contrabando, deu um murro no fiscal e quando fomos apurar, prender este bandido, alguns colegas impediram alegando ser nosso colega. “Meu colega não. Ele é colega seu”. É preciso mudar a cultura e para isto precisamos de uma corregedoria forte. Estamos buscando fazer isso. Recentemente uma delegada da Civil, que trabalhava em Valença, teve prisão decretada por envolvimento de drogas e fugiu para o Rio de Janeiro. A polícia daqui investigou, localizou e prendeu. Um Delegado de Irecê, que estava envolvido com homicídio e dois latrocínios, teve sua prisão decretada, fugiu e se escondeu em São Paulo. A gente investigou, achamos e ele deve estar chegando segunda-feira.

BN: A utilização de Redas na Central de Telecomunicações das Polícias Civil e Militar (Centel) não é um problema? A oposição reclama que esta modalidade de contratação torna mais fácil a existência de informantes da criminalidade na própria Centel.

CN: Como poderia ter dentro da polícia ou fora da policia. Não facilita nada. Em todo o mundo é assim. Eu, o ano passado, estive em San Diego, na Califórnia, e fui conhecer o centro deles lá: não tem um policial. Você tem que colocar policiais para coordenar, mas deixar policiais atendendo telefones? Pelo amor de Deus. Não. Isso é uma distorção que a gente acabou. Tiramos dali 87 policiais militares, 30 e tanto policiais civis. É desnecessário. Qualquer pessoa pode atender. É feita uma pesquisa. Quem está atendendo são jovens de 19 a 23 anos. Pode ter infiltração? Pode, como pode ter na polícia, como pode ter dentro de qualquer organismo.

BN: A oposição não para de bater no senhor, e já elegeram a questão da Segurança como o ponto a ser criticado nas eleições deste ano. Nas últimas ocorrências, como já acontecera em outras oportunidades, chegaram a pedir a exoneração do senhor. Se sentiu ameaçado em perder o cargo por pressões políticas?

CN: Nesse caso do delegado Cleyton, eu digo o seguinte: é impressionante que os abutres da política queiram transformar aquele lamentável homicídio, que enlutou não só a família do delegado, como toda a polícia da Bahia, em um meio de obter os seus mesquinhos interesses eleitorais. Então, o cara não pensa que estão envolvidos familiares, toda uma instituição imensa, a polícia, e querem transformar aquilo em palanque eleitoral. Eu acho que essas pessoas que buscaram fazer isso têm os mesmos valores no coração daqueles que praticaram o crime. Tão preocupados somente em seus interesses. Viu o que o tio do Cleyton falou ao colocar o caixão? Algum desavisado ligado a alguma entidade começou: ‘não, porque o governo’. O tio disse ‘não quero que politizem a morte do meu sobrinho’. Eu já soube hoje que eles vão ingressar com uma ação para que não politizem. Porque é realmente uma vergonha, é uma falta de sentimento.

BN: E a Operação Expresso, ainda haverá novidades nas investigações?

CB: A Operação Expresso está sendo concluída. Eu tenho um grande número de informações. Se nós já tivéssemos o nosso laboratório de combate, a lavagem de ativos plenamente funcionando, que nós estamos aguardando os equipamentos chegarem, por que ali é uma operação basicamente financeira de crimes financeiros. E isso, o volume de dados incrível, e neste laboratório, o que temos são softwares que pegam as planilhas que os bancos fornecem, jogam naqueles softwares e eles analisam tudo, traçam tudo, e lhe dá em uma folha de papel com 500 milhões de dados. Com este laboratório, em dois meses você conclui uma investigação financeira.

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