Fátima Carteado relata experiência de sobreviver ao terremoto no Haiti - 25/01/2010
Fotos: Tiago Melo/ Bahia Notícias
"Qualquer pesadelo que nós tenhamos, a realidade foi ainda pior."
Por Evilásio Júnior
Bahia Notícias – A senhora foi ao Haiti desenvolver algum trabalho específico? Estava lá há quanto tempo?
Fátima Carteado – Dessa vez estava lá há duas semanas. Eu tenho contrato financiado pelo Banco Interamericano (BID) com a Diretoria Nacional de Água Potável e Esgoto do Haiti (Dinepa), que é ligada ao Ministério de Obras Públicas, Telecomunicações e Estrutura. Eu já fiz várias missões. Trabalho em projetos de poços de perfuração e, desde 2007, tenho ido constantemente. A cada três meses passo uma, duas ou três semanas.
BN – Onde a senhora estava na hora do terremoto?
FC – Eu estava no escritório da Dinepa, que fica em uma casa, quando começou a tremer. Eu já presenciei vários outros terremotos porque trabalho muito na Colômbia, onde tem vários pequenos terremotos, Filipinas, que também sofre com diversos tremores. Ano passado eu estava no Haiti, quando houve quatro tufões em um mês, e eu vi um deles. Durou mais e foi muito mais forte. O terremoto foi de 35 segundos. Eu tinha enfrentado terremotos de dois, três segundos. Tremia um pouquinho a cadeira, a mesa e tal. Dessa vez o abalo foi bem mais forte. Felizmente, a casa onde estávamos não caiu. Ela é relativamente perto do hotel, que fica próximo de onde tudo aconteceu. E aí as pessoas em baixo do hotel estavam em polvorosa. Elas tinham visto poeira e uma nuvem de pó. Quase tudo tinha caído e aí foi realmente...não tem descrição, não tem sensacionalismo que a imprensa possa fazer porque é pior.
BN – A sua reação foi sair para ver o que tinha acontecido ou ficar resguardada?
FC – Fui para fora. Todo mundo saiu correndo. No início pensamos até que fosse um caminhão muito pesado passando, mas aí rapidamente vimos que era um terremoto porque tremia muito. Tremeu mesmo. Aí saímos. Fomos para fora.
BN – E aí a senhora se deparou com o quê do lado de fora?
FC – Me deparei com as pessoas perguntando o que tinha acontecido. O que foi isso? As pessoas diziam que não tinha terremoto no Haiti. E naquele momento não tínhamos a noção exata do que tinha ocorrido. O que aconteceu logo que deixou todo mundo muito apavorado foi que imediatamente os telefones pararam de funcionar. Todo mundo queria falar com suas famílias e ninguém conseguia. Aí começou a se criar o pânico.
BN – E quando soube que tinha sido uma tragédia devastadora que matou milhares de pessoas no país?
FC – Chegando no hotel, porque as pessoas do hotel tinham visto e já estavam preocupadas, e outros hóspedes começaram a chegar. Os que chegavam contavam o que tinham presenciado. Já tinham visto os montes de cadáveres nas ruas, os prédios caindo. Aí cada um contava a sua história, que o prédio onde estava tinha caído, as pessoas que estavam com eles tinham morrido. Uma tristeza pior do que possamos imaginar. Qualquer pesadelo que nós tenhamos, a realidade foi ainda pior.
"Eu vi os cadáveres sendo recolhidos por retroescavadeira e sendo colocados em caminhões. Eu vi puxarem mortos para serem enterrados ali, ao lado da rua mesmo, para deixar lugar para as pessoas."
BN – Quanto tempo depois a senhora mesma encontrou os corpos na rua e a destruição?
FC – Nessa mesma noite eu não saí, foi em uma terça-feira, mas na quarta e na quinta eu saí durante o dia, vi e foi devastador. Devastador.
BN – Qual foi o seu sentimento quando percebeu de fato a proporção desse terremoto?
FC – (silêncio) Não sei, viu? É difícil. É uma mistura de sentimentos muito fortes, no sentido de dar graças a Deus pela minha sorte, de orar por não ter acontecido nada comigo e ao mesmo tempo o questionamento. Por que? Esse povo já é tão sofrido. Eles não são piores do que eu. Com certeza eles não são piores do que eu. Todo mundo. Absolutamente 100% dos haitianos com quem eu falei tinham sofrido algum problema sério. Os mais “sortudos” estavam com a casa inabitável. Ou seja, a casa não caiu, mas estava completamente cercada pelas ruínas. Porque os outros...Morreram famílias inteiras. Foi o irmão que tinha morrido com toda a família, a casa que havia desmoronado. Tinha gente desaparecida. 100% das pessoas. Absolutamente 100%. É pior do que qualquer pesadelo.
BN – E a sua reação foi de desespero, tipo ‘vou voltar para casa agora’?
FC – Não, não.
BN – A senhora chegou a ajudar algumas pessoas?
FC – Eu aju...(pausa) Ajudar? Que ajudar? O que se pode fazer, sabe? Uma água que eu dei a alguém? Não é nada. Nada. As pessoas estavam dormindo nas ruas, nas praças, tomando banho ao lado dos corpos. Eu vi os cadáveres sendo recolhidos por retroescavadeira e sendo colocados em caminhões. Eu vi puxarem mortos para serem enterrados ali, ao lado da rua mesmo, para deixar lugar para as pessoas, porque começou a cheirar. Estava quente. Felizmente não estava superquente, mas estava quente. Foi na terça de noite, então na quarta de tarde já tem cheiro. Eram moços, acidentados, feridos, crianças, famílias tentando achar um pano, um colchão, o que fosse para colocar na rua para dormir. Sabe, eu não posso ter ajudado.
"A embaixatriz do Brasil me disse: a nossa prioridade é para os mortos, depois dos mortos o pessoal da embaixada e depois disso os militares, porque eles estão trabalhando . A senhora é adulta, tem dinheiro, vá ver o que a senhora pode fazer por si mesma.'"
BN – Quando a senhora decidiu retornar a Salvador? Foi dentro da programação inicial?
FC – Foi dentro da programação. Eu tinha que pegar um voo no domingo, Porto Príncipe-Miami e depois Miami-Salvador. E eu, não sei se por choque ou ingenuidade, achei que no domingo iria pegar meu avião e evidentemente que não ia. Depois, tem até uma história com a embaixada brasileira. Então, eu paguei a uma pessoa para me levar até a fronteira com a República Dominicana. Na fronteira eu arranjei uma carona, fui até o aeroporto em Santo Domingo e peguei um voo Santo Domingo-Miami. Peguei, coincidentemente, o mesmo voo que pegaria em Miami para Salvador.
BN – E como foi desembarcar no aeroporto da capital baiana?
FC – Um sentimento de chegar em casa. De alívio. Mas ainda estou muito confusa. Encontrei com minha mãe, meu irmão, foi um abraço muito apertado e forte. Mas depois daquela confusão meu coração continua lá. Pensando de um dia estar lá, que podia ter feito mais. Estava lá trabalhando por eles. É Confuso. Tudo muito confuso. Há tantos ensinamentos em cima disto. Tantos. De amizade, de companheirismo, solidariedade e generosidade. Do que é o egoísmo, a diferença entre os países. Tanta coisa, sabe, que ainda preciso arrumar direitinho na minha cabeça. Foram 40h sem conseguir falar coma minha família. Ficamos sem telefone, sem internet, não tinha nada. Quando o telefone começou a dar sinal de vida, primeiro eu só conseguia SMS, depois tinha tanta ligação perdida. Até de amigos que há muito tempo eu não vejo, de tudo quanto é lugar do mundo. Um amigo meu que mora hoje na Argentina, também engenheiro, foi que conseguiu me dizer onde estava funcionando a embaixada brasileira. O prédio da embaixada, o Hexágono, não caiu, mas ficou muito danificado devido às rachaduras. A notícia de que eu estava no Haiti se espalhou e as pessoas queriam saber como poderiam ajudar e o que poderiam fazer. As famílias se mobilizaram. Quando a gente conseguiu uma hora de internet também já tinham tantos e-mails. Então isso é muito bom, muito caloroso.
BN – E qual foi a história da embaixada?
FC – É uma história que eu faço questão de dizer que não é o principal. Não é tão importante, mas achei quase cômico. A embaixada está funcionando no Centro Cultural Brasil-Haiti e tinham lá uns três brasileiros jogando baralho embaixo de uma árvore em um jardim. Eu perguntei se eles podiam fazer alguma coisa por mim, se havia um plano de repatriamento e se eu poderia ficar lá. No hotel já começavam a fazer racionamento de comida, de água – eu fiquei três dias sem conseguir tomar banho – e não tinha luz. Aí eles me disseram que o papel deles era anotar o nome das pessoas que eram recebidas para avisar às famílias que telefonassem para o Itamaraty. Depois chegou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, muito simpático, fui apresentada a ele, e logo depois veio a embaixatriz, Roseana Kipman. Ela chegou, muito ativa,tinha até um jornalista da Folha de São Paulo lá, contou o caso de dona Zilda Arns, que morreu nos braços dela, e me disse assim: ‘olhe, a nossa prioridade é para os mortos, depois dos mortos o pessoal da embaixada e depois disso os militares, porque eles estão trabalhando . A senhora é adulta, tem dinheiro, vá ver o que a senhora pode fazer por si mesma. No Brasil nós não temos nenhum plano de repatriamento’. Ela não foi nem zangada, mas foi interessante porque depois eu achei algo semelhante que aconteceu com uns estudantes da Unicamp. Eles colocaram até em um blog.
BN – Mas a senhora acredita que esse comportamento aconteceu apenas porque era no Haiti ou este seria o padrão do Brasil?
FC – Não acredito que aconteceu porque foi no Haiti e não quero aumentar a discussão. Não é o fundamental, não é importante. Os problemas de lá são muito maiores. Mas sem querer fazer comparação, entre as pessoas que estavam no meu hotel, a embaixada francesa mandava os franceses para Guadalupe, que é um território francês perto, os americanos foram mandados na mesma noite para a sua embaixada e nem quiseram muita conversa com ninguém. O próprio governo argentino tinha uma solução para conseguir repatriar as pessoas ou pelo menos para tirá-las de lá. Eu tenho uns amigos argentinos residentes lá que decidiram por conta própria ficar. Inclusive, o meu cliente maior, o diretor, agora é o coordenador da gestão de crise implantada para a questão da água. Por exemplo, havia uns jamaicanos que nada tinham a ver comigo e a Jamaica ia enviar um avião com mantimentos e disse que poderia nos repatriar, estávamos eu e meu colega. E o Brasil me disse isso, com essas palavras.
“A população não tem água. E quando eu digo não tem água, não tem água mesmo. É chafariz e nós, por exemplo, consideramos hoje que se o chafariz estiver a um quilômetro da residência você tem água.”
BN – A senhora acredita que se as construções tivessem estruturas de alumínio ou obedecessem a critérios anti-sísmicos a tragédia seria menor?
FC – Poderia. Mas, por exemplo, o pessoal falou que agora só ficaram três hotéis. Um dos hotéis que caíram é o mais importante e tradicional do Haiti, que é o Montana. Eu já fiquei lá várias vezes. Ele caiu inteiro. Todo, todo, todo. Se as construções de lá fossem sísmicas, tivessem algum padrão, porque não há normatização, teriam caído muito menos do que caiu, mas ainda assim teriam caído muitas construções porque o abalo foi muito forte.
BN – Muitas nações, antes mesmo do acidente, como Brasil e Estados Unidos, já ajudavam o Haiti. É um país que não sobrevive sem ajuda internacional?
FC – O Haiti é um país que vive muito de ajudas internacionais. Só no setor de água, que é o que eu trabalho, tinham 78 organizações que financiavam os serviços de saneamento. A população não tem água. E quando eu digo não tem água, não tem água mesmo. É chafariz e nós, por exemplo, consideramos hoje que se o chafariz estiver a um quilômetro da residência você tem água.
BN – Não tem nem cisterna, poço artesanal?
FC – Tem cisterna quem tem dinheiro. Tem o vendedor de água. Uma das coisas que falaram logo após o terremoto foi o que os sistemas públicos de água, esgoto e eletricidade colapsaram. A gente não entendia, porque já não existem. O sistema de água lá é caminhão-pipa e as empresas de água potável. Em cada esquina tem uma venda de água potável. Eles fazem uns pequenos tratamentos por osmose e tal. No hotel onde eu estava quando começou a faltar água foi porque não tinha caminhão-tanque. Não tinha água porque os caminhões-tanque que abastecem o hotel não podiam ir até lá. Até havia caminhões, porém não tinha motoristas, pois muitos morreram ou estavam cuidando das suas famílias e dos próprios mortos das suas casas. Também eles teriam que passar por todos esses trechos destruídos, já que as fontes ficam na parte baixa, onde moram os pobres, e os hotéis na parte alta. Ainda tinha que ter comboios de seguranças para isso.
BN – É verdade que houve saques?
FC – Eu não vi, não vivenciei saques, mas para mim é muito claro isso porque não tem como não ter. Como é que você vive sem água, sem comida, sem dinheiro e moradia? Eu vi um monte de gente tomando banho na rua, nu, pegando ali um pouquinho de água que tinha nas redes, que muitas pessoas quebraram. Ainda tinha gente que dizia ‘oh, que absurdo’. Queria que fizesse o quê? Qual é a solução que eles têm?
“O avião chegava no aeroporto, mas não tinha rua. As poucas ruas que tem estavam interrompidas. Os caminhões não iam para lugar nenhum e as pessoas continuavam lá embaixo dos escombros, sem comer, sem beber.”
BN – O povo do Haiti não tem muito dinheiro, a maioria vive na miséria, mas até quem tinha sofre, pois imagino que os bancos também tenham sido afetados...
FC – Até o sábado quando eu saí de lá estavam todos fechados. Ninguém abria. Nem banco, nem loja nenhuma. Lá não tem caixa eletrônico, só tem um em um hotel que não caiu. É hábito lá as pessoas guardarem dinheiro, porque a maioria dos lugares não aceita débito ou crédito. Então, como é que faz? Até o maior supermercado caiu. Era grande, tinha três pisos de garagem. Eu fazia muita compra lá. O terremoto atingiu uma rua importante e o que estava na linha do terremoto foi. É a linha onde fica o Hotel Montana, a ONU, que teve dois prédios caídos, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, que eu não tenho ouvido falar mas caiu uma parte inteira do prédio. Começa na baixada e vai até lá em cima. É a linha certinha.
BN – E você acha que o país leva quanto tempo para se reerguer?
FC – Eu não sei. Eu fiquei impressionada com a quantidade de dinheiro que tem naquele país. É absurdo. É dinheiro de todos os lugares: da União Europeia, dos Estados Unidos, do Banco Mundial, do BID. Tem dinheiro de todas as divisões, dinheiro bilateral, ou seja, ajuda canadense, francesa, americana, brasileira. Tem dinheiro da diáspora, porque tem mais haitiano fora do Haiti do que dentro do Haiti. E tem uma quantidade de organizações não-governamentais impressionante.
BN – E não há distribuição de renda por quê? Há muita corrupção no país?
FC – Muita. O dinheiro circula, mas não chega lá. Então, os hotéis têm, os resorts, trades.
BN – A senhora tem acompanhado os noticiários na televisão?
FC – Menos do que quando estava lá. Lá eu via a CNN e tinha um radinho de pilha em que eu ouvia muito a rádio Francesa Internacional. A CNN quando tinha luz, porque quando começou a faltar diesel nós deixamos de ligar o gerador. Aqui tenho acompanhado pouco.
BN – Como é que é ver a situação hoje, aquelas imagens? A senhora estava lá, agora está salva em outro país...
FC – É extremamente angustiante. E quando eu estava lá também tinha muita angústia, porque na CNN eu via a quantidade de ajuda chegando, todos os países do mundo mandaram não sei quantos aviões, mas não chegava lá embaixo para as pessoas que estavam sem nada. O avião chegava no aeroporto, mas não tinha rua. As poucas ruas que tem estavam interrompidas. Os caminhões não iam para lugar nenhum e as pessoas continuavam lá embaixo dos escombros, sem comer, sem beber. Mas quando eu saí, no sábado, já estava bem melhor, tanto que eu consegui sair da cidade
BN – Como a senhora avalia essas ajudas? A senhora crê que haja algum tipo de oportunismo por parte de alguém?
FC – Total. O diesel era US$ 1, no dia seguinte estava US$ 2, depois eu li que estava a US$ 8. Isso de jogar comida e água. É a Lei dos mais fortes, né? Criança vai pegar, mulher vai pegar? Os mais fortes vão pegar e vão vender. Não estou dizendo que não seja a solução neste momento, pois qual seria a alternativa a isso se não tiver caminho para ir? Todos esse países mandando tanta ajuda, eu creio que haja efetivamente a solidariedade, mas temos que olhar o que vai acontecer depois. Reconstrução precisa de empresas. E lá já é assim. Tem favorecimentos. E não necessariamente é uma coisa péssima. É ruim, mas não é péssima. Se no final eles (povo) tiverem alguma coisa...
BN – E as ajudas individuais?
FC – Não se deve dar dinheiro diretamente ao governo. Dê a uma boa instituição, Cruz Vermelha, Médicos Sem Fronteiras.
“Eu gostava muito de trabalhar lá e agora vou trabalhar com ainda mais animação para ajudar o país a sair disso. Eles merecem. Tem muita gente boa.“
BN - Qual é o aprendizado pessoal que a senhora traz dessa experiência toda?
FC – São tantos. São tantas coisas. Solidariedade, compartilhamento, generosidade. (pausa) A gente tem que compartilhar mais as coisas e se colocar no lugar de outros. (pausa) Quando a gente vê a dona Zilda Arns lá fazendo uma coisa tão bonita e aí deu um passo para trás e caiu. No hotel, tinham muitas pessoas da ONU lá e tinham uns consultores que estavam organizando as eleições parlamentares e um deles estava no prédio que caiu e ele estava no segundo andar. Ele foi para debaixo de uma mesa e quando viu já estava no térreo e as pessoas ao lado dele mortas.
BN – Muita gente conhecida da senhora morreu?
FC – Muita.
BN – Que trabalhava com a senhora no dia-dia?
FC – Amigos com quem almoçava, o motorista, os funcionários do hotel, pessoas que me ensinaram o crioulo, que é a língua deles. Morreram muitos parentes das pessoas que ficaram. Muitos, mas muitos. Muitos amigos perderam a família inteira. Perderam mulher, filhos, pais, irmãos. Teve gente que eu conhecia que morava em um condomínio, para lá de alto luxo, e que as 15 casas caíram completamente. Todas as casas tinham funeral. Não tem mais caixão lá. As pessoas começaram a ser enterradas em valas comuns. Na rua. Ao lado de onde se dormia. É exasperador.
BN – A senhora pretende voltar ao Haiti?
FC – Claro. Com certeza. Agora ainda mais, com mais vigor.
BN – E como será chegar lá com esse vazio?
FC – Eu vou pensar que vou ajudar os meus amigos que estão lá. Que são sérios, que querem reconstruir o país. Eu gostava muito de trabalhar lá e agora vou trabalhar com ainda mais animação para ajudar o país a sair disso. Eles merecem. Tem muita gente boa. Lá não tem governo. Não tem Estado. Sabe o que a primeira-dama falou pela primeira vez após o terremoto? Que ela estava bem, o marido estava bem, mas o palácio tinha caído. O povo não espera nada e nem reclama muito do governo. Eles esperam que o americano dê, tem a ONG que vai dar, tem um projeto tal, então ninguém nem reclama do país.
“Eu não sou melhor do que essas pessoas. Eu estou tentando compreender porque eu tive esse privilégio. Por que eu? Vai ver que ainda tenho que fazer alguma coisa muito boa no mundo, algo diferente.”
BN – A senhora já parou para refletir que é uma sobrevivente de uma das maiores tragédias dos últimos anos?
FC – Que eu sou uma sobrevivente eu sei. Eu tenho plena consciência. Uma privilegiada. Ainda não consegui entender por quê. Insisto em dizer que eu não sou melhor do que aquelas pessoas que perderam tudo. Que saíram do seu trabalho, chegaram em casa e não tinha mais nada, como uma colega minha. Ela chegou e a casa estava embaixo. Não sobrou nada. Que bom que as duas filhas dela não estavam. Que bom. Mas a casa acabou. Eu não sou melhor do que essas pessoas. Eu estou tentando compreender porque eu tive esse privilégio. Por que eu? Vai ver que ainda tenho que fazer alguma coisa muito boa no mundo, algo diferente.
BN – A senhora acredita que foi escolhida por Deus, por exemplo, ou que houve algo mágico?
FC – Não. Eu sou técnica, né? Só não estava na linha das camadas geológicas. Duas ruas à direita estavam e caiu tudo. Passei por um hospital de crianças que estava todo destruído. A escola lá termina às 18h e o terremoto foi às 17h. Há uma teoria, ao meu ver, completamente absurda, que diz que os haitianos sempre sofrem tanto porque eles fizeram um acordo com o diabo para conseguir a independência.
BN – A história dos vodus na revolução...
FC – É, o Haiti tem muito de vodu. Mais do que isso, o Haiti, e eles têm muito orgulho disso, é a primeira república negra do mundo. Há 200 anos eles venceram Napoleão. Tem gente até hoje que acredita que para ganhar a guerra contra Napoleão eles fizeram acordo com o diabo e, por isso, cada vez que eles conseguem melhorar, que parecem estar em um caminho melhor, acontece alguma coisa. Eles tiveram tantos problemas. Papa Doc, Baby Doc, depois veio o Padre (Jean Bertrand Aristide, ex-presidente). Foram quatro tufões no ano passado. E agora isso?
BN – A senhora acredita que tem alguma relevância nesse argumento?
FC – Não. Claro que não.
BN – Faz parte do folclore...
FC – (risos) Faz parte da cultura local.
BN – Ainda é forte o vodu lá?
FC – É meio escondido. Mas as pessoas ficam amigas e contam que tem uma árvore, um rio, tem um amuleto. Eu nunca fui em nenhum centro, mas as pessoas me dizem sempre que todo mundo, pode ser de qualquer religião, e lá tem muitas religiões além do catolicismo, tem muita religião evangélica, tem influências. As pessoas ficam mais próximas e dizem que todo mundo tem seu santo...
“Se o mundo fosse um pouco mais igual a gente não teria tanto sofrimento. Se a gente fosse mais justo, de um modo geral, o mundo como um todo, as coisas não seriam tão ruins para lá.”
BN – A senhora fecha os olhos, pensa no Haiti e vê o país dessa cultura centenária, histórica, o país da tragédia ou um país em processo de reconstrução?
FC – O que eu vejo hoje é o sofrimento das pessoas e como elas são fortes. Não sei se são fortes ou acostumadas com o sofrimento, sabe? No segundo dia não, mas no terceiro dia o povo já estava lá. O terremoto foi na terça-feira, na quarta a maioria dos empregados do hotel não foi, na quinta a metade foi e na sexta já estava todo mundo lá. Cada um contava a sua história, a sua dor, mas estava lá. Acho que depois que passar tudo vai haver muito problema mental. É muita loucura. Imagine. Ninguém pode imaginar. Não tem coisa que a gente imagine. É pior.
BN – A senhora tem filhos?
FC – Nunca quis ter e agora menos ainda.
BN – Qual é o apelo que a senhora faz hoje à sociedade mundial em relação ao Haiti?
FC – (pausa) Que ajude. Nós precisamos ajudar. Ajudem como vocês puderem. Uma pessoa vai ajudar com o seu trabalho, outra pode ajudar com dinheiro, mas aí eu repito que deve ser diretamente a uma organização séria, porque o dinheiro deve ir para os haitianos e para ajudar alguém. Tem instituições que são muito grandes e por causa da burocracia a parte que vai ajudar realmente a um haitiano é pequena. Dê mantimentos, roupas e orações também, seja qual for a sua religião, boas ondas, boas energias para ver se melhora. Faça o que puder para que o mundo seja mais igualitário. Se o mundo fosse um pouco mais igual a gente não teria tanto sofrimento. Se a gente fosse mais justo, de um modo geral, o mundo como um todo, as coisas não seriam tão ruins para lá. É claro que agora houve um problema geológico, mas também se diz que os cientistas sabiam que o Haiti tinha essa falha geológica e que poderia ter um terremoto de grandes proporções. E isso já era esperado há dez anos. Ou seja, ele estava atrasado e veio mais forte. Também ele foi mais forte porque não foi tão profundo. Foi raso e avassalador.
