Domingo Leonelli fala sobre o processo de descentralização de investimentos do turismo - 23/11/2009
Fotos: Tiago Melo/Bahia Notícias
"Eu se fosse o presidente Lula examinaria a candidatura de Ciro como uma opção para a esquerda e colocaria Dilma Rousseff como vice"
Por Daniel Pinto, Lucas Esteves, Marcos Russo e Evilásio Jr.
Bahia Notícias - Algo interessante de sua gestão, que aliás é uma política do Governo Wagner, foi não privilegiar apenas Salvador, mas, sim, investir e divulgar também o que estava escondido no interior do estado. Esse é um enfoque bem diferente do que havia na época de ACM. Essa foi a sua principal missão?
Domingos Leonelli - Eu sou o menos indicado para falar sobre o legado da secretaria estadual de Turismo. Mas, com certeza essa é uma das singularidades de nossa gestão. É um cumprimento de compromisso de governo. Nós simplesmente ajudamos a cumprir a interiorização do turismo. Em alguns casos, nós tínhamos apenas a nomenclatura turística, como por exemplo, os caminhos do oeste e do São Francisco. Nós tornamos isso tudo uma coisa real. Já temos passeios de barcos no São Francisco regado a espumantes da região.
BN - Como está sendo aplicar essa nova gestão no turismo? Como se deu o processo de mudança que existia nos órgão de promoção?
DL - Na verdade, não era tudo voltado para a capital. Já tínhamos algo descentralizado. Posso citar Porto Seguro, que tem mais leitos do que Salvador. São mais de 40 mil.
BN - A Chapada Diamantina.
DL - Esse é um dos poucos sucessos de tentativas anteriores, no sentido de implantar hotéis como desbravadores para o turismo. Lembro da pousada de Lençóis, que era estatal, totalmente administrada pelo Governo e que foi privatizada por Waldir Pires, por incrível que pareça (risos). Mas, também houve tentativas fracassadas. Não foi uma política que deu certo no conjunto.
BN - Muitas coisas aconteceram sem o apoio governamental.
DL - Verdade. Morro de São Paulo e Porto Seguro, por exemplo. A coisa foi mais espontânea. Nossa administração enfrentou um desafio muito especial. Tive uma herança que não foi maldita, mas herdei uma meia secretaria em relação ao que tinha antes. Existia a secretaria de Cultura e Turismo. Além disso, eu também sucedi um ícone, que foi Paulo Gaudenzi. É inegável que os governos carlistas realizaram muitas coisas nessa área. Então, com a separação, tivemos que inovar e preencher espaços que não existiam antes. Tivemos alguns saltos na aérea do turismo, com a literatura de Jorge Amado e a música de Dorival Caymmi, com os trabalhos de Pierre Verger e Milton Santos. Mas, não posso falar de artes e ciências sociais, sem destacar um fenômeno em especial: a alegria do povo baiano. Um povo, às vezes, tão sofrido e miserável, mas muito alegre e receptivo. Isso compôs essa imagem que se tem da Bahia. Depois, vieram as iniciativas municipais e os planos regionais. Aí cito em especial Rômulo Almeida.
"Acho que eu teria mais razões até para levar isso para o campo político porque participei de um governo que foi cercado, violentado, sacrificado e trucidado pelas forças carlistas, que foi a administração Lídice da Mata em Salvador"
BN - Secretário, mas a nossa cultura não ficou muito pasteurizada?
DL - Costumo dizer que ficamos meio Carmem Miranda, sim. Mas, também não podemos negar o valor disso. É algo como o Axé Music, um produto de exportação, um ícone. Isso aconteceu até 2006. Depois disso, nós definimos nosso compromisso histórico.
BN - Quais são as diretrizes desse novo momento?
DL - Inovação, qualidade e integração econômica.
BN - Queria que o Sr. comentasse como é possível implementar essa nova política com uma deficiência na infraestrutura aeroportuária? Até mesmo o aeroporto da capital já está defasado em relação ao fluxo de passageiros de voos domésticos e internacionais. Tem a indefinição do aeroporto de Ilhéus. Perdemos a sede da Infraero para Pernambuco. Quais ações definidas para esse setor?
DL - Permita que eu situe algo nessa questão. Estamos iniciando um trabalho. É o que chamo de terceiro salto. Quatro anos não são suficientes para completar um ciclo. Nosso compromisso é iniciar e implantar as bases para esse desenvolvimento. O governador Jaques Wagner encara o turismo como uma política de estado e, não, como uma política de governos. Daí a incorporação daquilo que foi feito e a busca do novo. A estrutura aeroportuária baiana é muito boa. É uma das melhores do Brasil. Temos até mais aeroportos do que voos. No caso do de Salvador, ele já deveria ter nascido com duas pistas e com mais fingers. Já se previa um crescimento do turismo. Entretanto, vamos bater 2009 com o número de sete milhões de passageiros na capital. Parte disso, foi a campanha de antecipação do verão. Começamos a trabalhar a divulgação da alta estação na primavera. O apelo deu certo (risos).
"Tive uma herança que não foi maldita, mas herdei uma meia secretaria em relação ao que tinha antes"
BN - E quanto à duplicação do Luis Eduardo?
DL - Falta apenas a licença ambiental. O dinheiro já está disponível. Estamos conversando com o IMA para ver se isso é acelerado. Há também um esforço de adaptação da própria estrutura interna para esse maior número de passageiros. Pelo menos isso é uma coisa boa. Estamos com mais freguesia do que com oferta (risos). Já o caso de Ilhéus, ele vai precisar realmente ser substituto. Há limitações físicas. Teremos que implantar um novo aeroporto entre Ilhéus e Itacaré. Mas, em compensação, ficaremos com três aeroportos internacionais. Acho que nenhum outro estado possui tantos.
BN - E quando realmente serão liberados os voos noturnos em Ilhéus? Todo dia se marca uma nova data.
DL - Dia 17 de dezembro. Agora vai! Essa foi uma determinação do estado maior da Aeronáutica e da direção da Infraero. O governador da Bahia foi até o presidente da República. Desta vez, vai!
BN - Existe prazo para a entrega do novo aeroporto de Ilhúes?
DL - Ainda não. Um aeroporto dessa dimensão não fica pronto em menos de três ou quatros anos.
BN - Quanto ao comportamento dos órgãos ambientais. Há entraves para a liberação da duplicação da pista de Salvador, temos o problema do Hotel Hilton no Comércio, o Sr. acha que essa prazo pode ficar ainda maior?
DL - Há realmente esse risco. Creio que precisamos de uma correção estratégica nisso tudo. O turismo não pode ver na questão ambiental um estorvo. A preservação de nossas belezas naturais é um ativo. Ninguém viaja para ver devastação natural e falsificação cultural.
"É inegável que os governos carlistas realizaram muitas coisas nessa área (Turismo). Então, com a separação (Cultura e Turismo), tivemos que inovar e preencher espaços que não existiam antes"
BN - O Sr. falou em eixo da inovação. O que tem sido feito nessa área?
DL - Nós desenvolvemos, sobretudo, novos serviços e novos segmentos. Demos um plus no turismo náutico, que era muito incipiente. Como segmento, demos uma grande força ao turismo esportivo. Posso destacar a Stock Car, que é um novo produto e, não, um evento. Afinal de contas, temos contrato para cinco anos. O Espicha Verão e o São João, uma velha paixão baiana. O grande problema é o eixo da integração econômica. O modelo anterior implantou enclaves hoteleiros completamente desvinculados da economia regional. Por Seguro, 40 mil leitos. A cidade não produz nada para o que esses empreendimentos consomem. Talvez um pouquinho de artesanato indígena e alguma outra coisinha. O mesmo acontece no Litoral Norte e em Morro de São Paulo. O erro foi não pensar o turismo como indutor do desenvolvimento regional. Sabe de onde vem 80% do marisco consumido na Praia do Forte?
BN - Baia de Todos os Santos, Valença?
DL - Pernambuco. Pô, bicho, o que é isso?! Aí vira um cenário, um espaço de ocupação. Isso gera uma série de desigualdades porque ao redor desses empreendimentos são montados verdadeiros cinturões de pobreza.
BN - Nos diga uma coisa, a ponte Salvador-Itaparica sai ou não sai?
DL - Acho que sai, sim! Quando, não sei! Mas, o governador meteu na cabeça que vai fazer. E olha que tudo o que ele coloca na cabeça acaba saindo, viu.
BN - Essa é uma questão de integração e de segurança. A ilha continua isolada e desprestigiada por políticas públicas em diversas áreas, como saúde, segurança, educação.
DL - Isso é fruto da demagogia e da irresponsabilidade. É um problema dividido entre dois municípios. Essa questão pede um raciocínio mais profundo. Existem dezenas de ilhas no mundo que dependem de transporte marítimo. Não é o isolamento físico que determina a qualidade das políticas públicas. O problema de Itaparica é renda. Tenho me esforçado a desencorajar a ocupação da nossa orla, da nossa franja marítima, pela segunda residência. Esse território é o nosso filé e deve receber um tratamento especial, investimentos que gerem renda, emprego e riqueza. A segunda residência transforma a área num balneário. A especulação imobiliária assassinou a ilha de Itaparica. Nunca pensei que aprovaria uma frase do delegado Magalhães (risos). Ele disse uma coisa certíssima. “Esse pessoal de veraneio não pode achar que teremos uma estrutura policial para defender as casas deles”. Seria uma visão patrimonialista.
"Costumo dizer que ficamos meio Carmem Miranda, sim. Mas, também não podemos negar o valor disso. É algo como o Axé Music, um produto de exportação, um ícone"
BN - Mas, secretário, se o turismo é um bom negócio por que o estado não investe mais. Soubemos até que o Sr. estava chateado com o governador Jaques Wagner por conta da redução do orçamento da pasta para 2010.
DL - Não se investe mais porque não há mais recursos. Olha, todo mundo (e com toda razão) quer um maior orçamento para trabalhar. Mas, continuo tendo uma ótima relação com o governador. Ele é meu amigo, irmão.
BN - A Bahiatursa ainda deve alguma coisa do carnaval 2009? Invariavelmente esse assunto volta à tona.
DL - Não devemos um tostão. Todos os compromissos foram cumpridos. Além disso, já pagamos quase tudo do São João. Olha, deixa eu dizer uma coisa, qualquer governo atrasa pagamento. Isso é inevitável. Todos os artistas, produtores e empresários sabem disso.
BN - O presidente da Saltur, Cláudio Tinoco, chegou a dizer que o atraso aconteceu em função de um erro de R$ 87 ou R$ 100 na prestação de contas e que o problema passava pela Bahiatursa.
DL - Quando um reclame desta natureza vem de um artista, dá até para entender. Mas, isso é inadmissível por parte de um gestor público. Eu lamento profundamente a utilização da má-fé. Ele sabe que para a Fazenda não importa se é R$ 0,86 ou R$ 8 milhões. Pior ainda, me desculpe, foram os editores do A Tarde colocarem em manchete de capa uma reivindicação injusta como essa. Isso tudo foi realmente lamentável!
BN - Tinoco é do Democratas, o Sr. acha que isso pensou?
DL - Ele é do DEM e eu sou do PSB. Acho que eu teria mais razões até para levar isso para o campo político porque participei de um governo que foi cercado, violentado, sacrificado e trucidado pelas forças carlistas, que foi a administração Lídice da Mata em Salvador. Lembro que asfaltamos 13 quilômetros em Pernambués e no outro dia estava a Embase e a Coelba, que eram estatais, destruindo tudo e a Rede Bahia lá filmando as pessoas e perguntando o que elas achavam dos buracos. Como gestor público, eu compreendi que não podia colocar nenhum desses ressentimentos e mágoas na relação com outras autoridades. Isso não cabe nas relações institucionais. Na gestão de recursos públicos não posso colocar questões pessoais e políticas, mesmo que elas selam justas.
BN - O Sr. falou na Stock Car, e quanto à Formula Indy. Verdade que perdemos a disputa para o Rio de Janeiro?
DL - A Indy não está confirmada. Falei com o pessoal da Band e creio que a Indy nem venha mais para o Brasil. Olha, esse é um evento que exige uma disponibilidade de capital muito forte. Eles queriam R$ 60 milhões logo no primeiro momento. Fizemos uma contraproposta, eles não aceitaram. Eu acho que eles pedem mais do que o evento realmente vale. Mesmo assim, se o preço fosse justo, nós não teríamos recursos para tanto.
"O mesmo acontece no Litoral Norte e em Morro de São Paulo. O erro foi não pensar o turismo como indutor do desenvolvimento regional. Sabe de onde vem 80% do marisco consumido na Praia do Forte? Pernambuco"
BN - A descentralização dos investimentos na área do turismo não acabou afetando cartões postais da capital, a exemplo do Pelourinho e de todo o Centro Histórico? A manutenção do que já existia foi prejudicada com esse processo?
DL - Não. Absolutamente, não! Tudo o que o governo faz é menos do que o necessário. Isso não quer dizer que haja escassez ou descuido. Investimos mais em Salvador do que em qualquer outro lugar. O turismo no Pelourinho até melhorou. Saímos de uma casinha para um centro de atendimento com vídeo, internet, etc. A secretaria de Cultura também investiu naquela área. Temos a nova iluminação. Ah! O São João do Pelourinho foi fantástico, foi quase uma unanimidade. Nossas intervenções lá estão sendo bem sucedidas. Entretanto, acredito que o Pelourinho precisa de uma administração condominial compartilhada com moradores, empresários e o poder público.
BN - Não dá para esquecer a violência e as drogas.
DL - Há uma sensação de insegurança por conta dos pequenos furtos, mas o Pelô não é palco para grandes crimes. A droga, realmente, é um problema. O nosso governo está enfrentando uma realidade que nenhum outro enfrentou que é o crack. Uma droga barata e que vicia nas primeiras doses. Nunca houve uma massificação de uma droga como acontece com o crack. Ele absolve o ser humano completamente, o usuário de crack não faz nada além de consumir. A partir daí se desenvolveu uma grande rede de comércio ilegal. O combate deve ser feito pelo governo em parceria com a sociedade.
BN - Agora, para encerrar, duas outras questões: qual postura o Sr. adotará se Ciro Gomes for candidato à Presidência? O Sr. vai disputar algum cargo eletivo em 2010?
DL - A segunda pergunta é mais complicada (risos). Olha, acho que a candidatura de Ciro ainda não foi definida pelo PSB. Mas, acredito que hoje ele seja o melhor candidato, o mais preparado, o mais capaz, articulado e inteligente. Ele foi o que aprendeu mais, inclusive com as candidaturas anteriores. Entretanto, evidentemente ele não tem uma estrutura partidária para se lançar apenas como candidato do PSB. Todos sabem disso. Eu se fosse o presidente Lula examinaria a candidatura de Ciro como uma opção para a esquerda e colocaria Dilma Rousseff como vice. Acho que a opção do PSB nacional não deverá interferir no meu compromisso com o governador Jaques Wagner. Quanto à segundo pergunta, pode até parecer demagogia, mas estou trabalhando para não ser candidato (risos). Consolidada a candidatura de Lídice ao Senado, alguns companheiros nossos estão sendo convocados para disputar a eleição proporcional. Eu passei minha vida inteira na oposição. Agora, fico me perguntando se conseguiria ser um deputado governista (risos). Sendo governo, fico com a garganta coçando (risos). Por isso, tudo depende da decisão do partido.
