Alexandre Brust fala da sua relação com Brizola e do futuro mais próximo do PDT na Bahia - 07/09/2009

"Vamos exigir fidelidade de todos os nossos companheiros ao projeto de Wagner"
Por Alexandre Costa
Bahia Notícias – O senhor é considerado um brizolista nato. O PDT ainda pode ser considerado também um partido brizolista?
Alexandre Brust – Eu só conheço um PDT: aquele que foi fundado por Leonel Brizola há 29 anos.
BN – O senhor era muito amigo de Leonel Brizola. Deve a ele o ingresso na vida partidária, correto? Por isso muitas vezes é acusado de ser tão radical quanto ele?
AB – Como Brizola, eu sigo as determinações e resoluções partidárias, e tenho posições claras, por isso essa coisa de radical. Comecei na política aos 19 anos, quando ingressei na Mocidade Trabalhista e no PTB, em 1952. Brizola era prefeito de Porto Alegre na época. Em 1958, Brizola se elegeu governador do Rio Grande do Sul e trabalhei com ele, como assessor no gabinete. Nessa condição, concorri e assumi a presidência da Mocidade Trabalhista. Em 1964, quando a Ditadura acabou com os partidos, eu era presidente da Mocidade Trabalhista no Rio Grande do Sul. Aí Brizola foi para o exílio nos EUA e eu me exilei na Bahia, onde estou há 43 anos, completados no dia 9 deste mês.
BN – Depois do exílio, Brizola retorna ao Brasil e assume pela primeira vez o governo do Rio de Janeiro. O senhor o acompanhou também?
AB – Antes disso, eu cheguei a visitar Brizola duas vezes no exílio, em AtlÂntida, no Uruguai. A primeira visita foi em 1968, dois anos depois que cheguei na Bahia. Depois fui de novo visitá-lo em 1970. Ele voltou do exílio em 1979, e, em 1980, veio comemorar os 30 anos de casado com dona Neuza aqui na Bahia. Foi quando me disse que iria concorrer ao governo do Rio e que precisaria de minha ajuda novamente. Eu disse que aceitava numa boa, mas ele teria que pedir ao governo baiano que me liberasse, já que eu era funcionário da Coelba. Lembro que Brizola me disse na época que eu era a única pessoa no mundo que o faria pedir um favor a Antonio Carlos Magalhães. Bom, fui liberado e assumi a diretoria financeira e comercial da Companhia de Eletricidade do Rio. Por um período de seis meses, cheguei a acumular a presidência. Quando acabou o primeiro governo de Brizola no Rio, voltei para a Bahia, na época governada por Waldir Pires, que me convidou para ser presidente da Ceasa. Passei dois anos lá. Conseguimos arrumar a casa e a Ceasa, pela primeira vez na história, deu lucro. Depois de dois anos, fui convidado para assumir a diretoria financeira da Coelba, que estava dando prejuízo e passou a dar lucro como estatal, também pela primeira vez. No segundo governo de Brizola no Rio (1991-94), ele voltou a me requisitar para a mesma função do primeiro governo (1983-87).
BN – No segundo governo no Rio, Brizola foi bombardeado pela imprensa, principalmente pela Rede Globo. Como o senhor acompanhou esse período?
AB – Eu estava próximo a ele, como sempre fui, pois sempre fui bem tratado por ele e por dona Neusa. Brizola sempre foi muito combatido pela elite porque seus governos eram voltados para o povão. Claro que isso mexia em interesses maiores, como os da Globo. Mas Brizola batia de frente com a Globo. Na época, foi o único político a fazer isso. Veja que no segundo governo, ele deu prioridade completar os 500 Cieps (Centros Integrados de Educação Pública, idealizados pelo antropólogo Darcy Ribeiro, vice-governador na primeira gestão de Brizola). Foram 516 Cieps, onde os alunos tinham acesso à educação em tempo integral, saúde e alimentação. Além disso, em cada Ciep, 12 meninos e 12 meninas de rua eram acolhidos. De modo que os ataques da imprensa não mudaram em nada o rumo do governo. Brizola era muito combativo. Lembro que a Rede Globo batia muito porque Brizola só deixava a polícia subir ao morro com mandato, como a Justiça determina que seja.
BN – Os sucessores de Brizola acabaram com os Cieps porque diziam eles eram considerados muito caros para o Estado. Hoje, se busca um novo modelo de educação em tempo integral.
AB – Era caro porque era para atender os mais carentes. Se fosse para atender o filho do rico não era caro. A principal bandeira do PDT sempre foi a educação, que é um investimento, por mais caro que seja.
BN – O senhor acompanhou de perto as duas tentativas de Brizola de chegar à Presidência da República?
AB – Acompanhei sim. Em 1989 foi a primeira (a segunda foi em 1994). Acompanhei ele em várias viagens à Bahia. Ele sempre mandava eu ficar do lado dele porque dizia que a política na Bahia era muito complicada. Também acompanhei ele quando, depois, ele foi candidato a vice numa chapa encabeçada por Lula (1998).
BN – Depois ele viu o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva chegar à Presidência, em 2003. Mas ele morreu brigado com Lula, a quem chegou a chamar de “sapo barbudo” e fazer insinuações maldosas sobre o suposto alcoolismo do presidente.
AB – Ele defendeu com unhas e dentes a eleição de Lula, mas se decepcionou. Podemos dizer que Brizola morreu decepcionado com Lula. Isso porque Lula deu sequência à política econômica de Fernando Henrique Cardoso em seu primeiro mandato, que era o que Brizola mais combatia.
BN – Hoje o PDT virou lulista, e tem até ministro no governo, que é Carlos Lupi (Trabalho), presidente nacional licenciado do partido. Se Brizola estivesse vivo, o PDT faria parte da base do governo Lula?
AB - Acho que do primeiro governo não. Mas é possível que no segundo governo sim. Porque houve uma correção da rota. Houve um avanço grande no aspecto social, com a criação do Bolsa Família, que tirou da miséria milhões de patrícios. Brizola, e aí mais um exemplo de que ele não era radical, mas sim partidário, não tinha dúvidas em voltar atrás quando necessário. Quando concorreu com Lula e teve que apoiar o atual presidente num segundo turno (em 1989), ele respondeu que às vezes a gente é levado a engolir sapos, no caso um sapo barbudo. Teve um município próximo a Santa Rosa, onde eu nasci, no Rio Grande do Sul, que Brizola conseguiu transferir todos os votos que teve integralmente a Lula. Foi um caso inédito no país.
"Sou um soldado do meu partido, não me escondo atrás de trincheira"
BN – Por que, sendo tão ligado a Brizola, só agora o senhor assume a presidência do PDT na Bahia pela primeira vez?
AB – Quando o PDT foi fundado por Brizola, eu era funcionário da Coelba, e não poderia ocupar a função. Mas todas as indicações dos presidentes do PDT na Bahia passaram por mim, a pedido de Brizola. Depois que me aposentei, Brizola tentou várias vezes me fazer presidente do PDT na Bahia. A última foi após a presidência de Coriolano Sales (ex-deputado federal). Mas sempre achei que ser presidente de partido tinha implicações financeiras com as quais eu não poderia arcar. Agora aceitei ser presidente por uma imposição partidária. E sou um soldado do meu partido, não me escondo atrás de trincheira.
BN – O que representou para o PDT a vitória de João Henrique, que trocou o partido pelo PMDB, nas eleições de 2004 em Salvador?
AB - Para o PDT, foi um marco histórico. Afinal, o PDT venceu pela primeira vez na capital. E o PDT havia feito um investimento de 12 anos em João Henrique, um investimento muito grande. Por isso, a gente esperava que houvesse uma fidelidade total ao partido, às bandeiras do partido, que ele realmente marcasse a administração dele como uma administração pedetista. Não aconteceu isso. Tanto que renunciei à presidência da Limpurb porque João Henrique se desviou do partido.
BN – Mas o PDT está na base do prefeito, agora no segundo mandato, depois de apoiá-lo nas eleições do ano passado.
AB – Tem algumas pessoas filiadas ao PDT que possuem cargos na prefeitura, mas que são ligadas ao próprio prefeito. Mas nosso compromisso agora é com o PT, que é com quem temos afinidade ideológica, e não com o PMDB.
BN – A presidência da Limpurb foi seu último cargo público, não foi?
AB – Foi.
BN – E agora o senhor vai assumir a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM)...
AB – É. Eu pessoalmente me identifico muito com o governador Jaques Wagner. Ele joga limpo, aberto, como deve ser o jogo democrático.
BN – E qual será o seu maior desafio por lá? Já conhece a estrutura do órgão?
AB – Não conheço a área. Quando doutor Waldir (Pires) me convidou presidir Ceasa, eu disse a ele aceitaria como um desafio porque minha área é energia elétrica. Mas Waldir insistiu, afirmando que Brizola havia dito a ele que eu era um excelente administrador.
BN – Então você foi escolhido por Wagner por ter um perfil de administrador?
AB – Vou com esse perfil porque em minha vida toda administrei quatro empresas publicas, sendo uma mista. Agora será o meu quinto desafio. Espero me dar bem também na CBPM.
BN – Qual foi o critério adotado para a escolha do novo secretário de Ciência e Tecnologia, cuja indicação coube ao PDT após a debandada do PMDB do governo Wagner?
AB – Tínhamos indicado o companheiro Beto Lélis (ex-prefeito de Irecê), mas governador pediu ao ministro Carlos Lupi que a indicação fosse técnica, por se tratar de um órgão técnico. Aí surgiu o nome do companheiro Eduardo Ramos, que é uma figura histórica no PDT, pois tem mais de 20 anos de partido e já integrou a executiva estadual. Ele é preparado, pois tem quatro cursos nos EUA: mestrado, PhD, doutorado e pós-doutorado. De modo que a executiva aprovou o nome dele.
BN – E quais foram os critérios para as indicações dos outros cargos (Agerba e Fapesb)?
AB – Os mesmos critérios. Não fizemos indicações políticas. Até porque ano que vem tem eleição, e se colocássemos políticos nos cargos, eles só passariam seis meses nos cargos. Por isso fizemos essa opção.
BN – Por falar em eleições, soube que o PDT vai receber uma enxurrada de deputados estaduais nos próximos dias, como forma de agradar insatisfeitos na base do governo Wagner. É verdade?
AB – Ainda hoje conversei com o ministro Lupi sobre isso. Disse a ele que não devemos abrir as portas para inchar o partido. Se inchar, a tendência é murchar. Claro que a gente gostaria de ter em nossos quadros uma figura como o presidente da Assembleia, Marcelo Nilo (sem partido), o que nos honraria. Ele e mais um serão bem recebidos, até porque já estamos na expectativa de receber o deputado Jurandy Oliveira (PRTB). A nossa meta é eleger de cinco a seis estaduais, e de três a quatro federais. Por isso, não podemos permitir que venham três estaduais porque, se isso ocorresse, acabaríamos até por correr o risco de sacrificar os nossos. Daí, o ideal é que o PDT cresça, e não inche.
BN – Mas a situação de Jurandy Oliveira se complicou agora que um ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou o pedido dele de trocar de partido.
AB – Infelizmente na Bahia acontecem esses absurdos. A Bahia foi o único estado ode o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) julgou a resolução do TSE (sobre a fidelidade partidária) inconstitucional. Tanto que o PDT havia pedido 23 cassações (por infidelidade) e não tivemos êxito em nenhuma. Só não pedimos o mandato do prefeito João Henrique porque ele não ocupava cargo proporcional. Mas pedimos o de Sérgio Brito (deputado federal), o de Maria Luiza (deputada estadual hoje no PMDB), os de três vereadores em Salvador e outros no interior, e nossos pedidos foram arquivados pelo TRE. Por isso, não recorremos ao TSE. No caso de Jurandy, ele já obteve a carta de alforria do PRTB e ganhou aqui no TRE de forma unânime. Mas o PRTB achou por bem recorrer ao TSE, e vamos, agora, aguardar a decisão do mérito em Brasília.
BN – O senhor acha que um quadro como Jurandy Oliveira, que já trocou de partido inúmeras vezes para conseguir se reeleger, enriquece o PDT da Bahia?
AB – Quando Jurandy chegou aqui, ele declarou que se identificou tanto com o PDT que lastimava não ter conhecido o partido antes. Acho que as pessoas sempre tem o dia do arrependimento. Tenho a impressão que ele se arrependeu de não ter vindo antes. De modo que o PDT está aberto para ele.
BN – Como vai ficar a situação do deputado federal Severiano Alves, que entregou a presidência do PDT por não concordar com a aliança eleitoral com o PT para 2010, já que ele preferia ver o partido marchando com o PMDB?
AB – Ele já estava com o mandato de presidente do PDT vencido, já que nossa comissão estadual é provisória, de modo que não houve intervenção, como se chegou a dizer. Mas Severiano deixou Lupi a vontade porque tentou apoiar outro candidato de fora do governo Wagner. Nisso Lupi me telefonou dizendo que, infelizmente, Severiano preferia ficar com Geddel a ficar com o próprio Lupi. O ministro fez Severiano entender que, dessa forma, não poderia continuar no comando to partido na Bahia.
BN – Mas ele continua no PDT?
AB – Continua. Ao menos ele disse que vai continuar. Severiano é um brizolista. Tanto que nasceu num dia 12, que é o número do PDT.
BN – Então ele terá que subir no palanque do PT?
AB – Não, a princípio ele não precisa apoiar o PT, mas também não pode apoiar outro candidato. Se apoiar outro candidato, estará sujeito à regra da fidelidade partidária.
BN – O senhor é favorável à regra da fidelidade partidária?
AB – Sou totalmente a favor. Não pode haver partido forte sem fidelidade partidária. E não pode haver democracia forte sem partidos fortes.
BN – Não é uma incoerência, já que o senhor está recebendo aí deputados de outros partidos, a exemplo de Jurandy Oliveira e, provavelmente, Marcelo Nilo?
AB – Não. A questão é que Marcelo Nilo e Jurandy receberam carta de alforria. Acho que não é incoerência porque é uma decisão unilateral do cidadão, que arca com as conseqüências dos seus atos. Agora eu como dirigente partidário e como cidadão sou a favor da fidelidade partidária.
BN – O PDT estadual hoje é comandado por uma comissão provisória. O senhor pretende organizar o partido e instalar o diretório permanente?
AB – Isso depende da nacional. Por enquanto, minha presidência precisa ser renovada a cada seis meses. Agora, quando fui presidente do PDT em Salvador, organizei o partido, hoje presidido por Gilberto José. Passei nove meses na presidência em Salvador. O PDT nuca foi organizado em Salvador. Não tinha nem personalidade jurídica. Todos que comandaram o partido em Salvador, como Sérgio Brito e Marcos Medrado, não trataram de organizar o PDT, coisa que eu fiz.
BN – Com a saída de Severiano Alves da presidência, houve mudanças em diretórios municipais do partido?
AB – Por enquanto não.
BN – E naqueles municípios onde o PDT é controlado pelo PMDB, vai haver mudanças?
AB – Não temos conhecimento de que isso ocorra, até porque já conversei com quase todos os presidentes dos diretórios municipais.
BN – Vai haver uma orientação nos municípios para que o PDT não assuma compromissos eleitorais com candidatos do PMDB?
AB – Claro. Os que se rebelarem sofrerão alteração, no caso das comissões provisórias, ou intervenção, no caso das comissões permanentes. Vamos exigir fidelidade de todos os nossos companheiros ao projeto de Wagner.
BN – Bom, o senador João Durval certamente não será tratado da mesma forma. E ele, mesmo no PDT, deverá acompanhar o filho, o prefeito João Henrique, que estará no palanque do ministro Geddel Vieira Lima.
AB – Não conversei ainda com o senador João Durval. Mas acredito que ele esteja alinhado com o ministro Lupi. De modo que primeiro vou conversar com o senador.
BN – O PDT pode ter candidato à Presidência em 2010? O senador Cristóvam Buarque (DF), que disputou o cargo em 2006, é um bom nome?
AB – É um excelente nome e pode ser candidato. Ele é um dos quadros mais importantes do PDT, e que carrega a bandeira do partido, que é a educação. Ele é o Brizola de 60 anos atrás, que se elegeu deputado estadual aos 25 anos com a bandeira da educação para todos, que carregou quando foi eleito prefeito e governador.
BN – Nesse caso, o PDT teria dois palanques na Bahia: o do senador e o de Wagner. Não subiria no palanque da candidata de Lula, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), correto?
AB – Não acredito que o senador será candidato. E prefiro não discutir hipóteses.
BN – Como o senhor recebeu essas críticas da oposição de que o governo Wagner apelou para o fisiologismo na hora de preencher os cargos deixados pelo PMDB?
AB – Acho que, quando você concorre a uma eleição, concorre para conquistar poder. E não se chega ao poder sozinho. De modo que ocupar espaços conquistados não é fisiologismo. O fisiologismo fica por conta da intriga da oposição (risos).
BN – O PDT convidou o conselheiro Otto Alencar (TCM) para se filiar ao partido e concorrer ao Senado em 2010?
AB – Otto é meu amigo há mais de 30 anos. Tive um acidente logo depois que ele se formou e desde então é meu amigo pessoal. Claro que a gente conversou com ele sobre isso, mas só ficou na conversa mesmo.
