VIAGRA, INFARTO E RISCO DE MORTE

Jadelson Andrade
A disfunção erétil, fenômeno que se traduz pela incapacidade persistente ou recorrente do homem em manter uma ereção que lhe permita concretizar o ato sexual, se tornou bastante conhecida neste início de século, deixando de ser um tabu para se tornar presente como queixa constante em consultórios médicos.
Em determinadas situações, a ocorrência desta incapacidade, mesmo que transitória, leva a uma sensação de grande desconforto, insegurança, irritação, mal-estar e, a depender da forma como venha a ser encarada, com a perda da auto-estima, trazendo sérias conseqüências na relação entre casais.
Além dos fatores orgânicos já bem identificados, é sabido que o estilo de vida do homem moderno desempenha um papel preponderante nos mecanismos que desencadeiam esta situação clínica: sedentarismo, níveis elevados de stress, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool e diabetes exercem um papel fundamental para a ocorrência cada vez mais freqüente da incapacidade do homem em ter um desempenho sexual satisfatório.
A grande prevalência na população, o melhor conhecimento dos mecanismos físicos e biológicos (fisiopatologia) envolvidos no desenvolvimento desta síndrome, predispôs a que a indústria farmacêutica desenvolvesse drogas seguras e eficazes, que modificaram de forma sistemática o tratamento da disfunção erétil com resultados bastante positivos.
A partir da década de 90 surge a primeira destas drogas, a Sildenafil (Viagra) um inibidor seletivo de uma enzima, produzindo vasodilatação seletiva das artérias dos corpos cavernosos penianos, favorecendo e sustentando a ereção. Gerações mais eficazes, mais potentes e com mecanismo de ação mais prolongada foram desenvolvidas, surgindo na esteira do Viagra o Taladafil (Cialis) e o Vardenafil (Levitra).
Estas drogas, pela rapidez de ação eficácia e aparente segurança, passaram a ter grande aceitação dos que conviviam com o fantasma da disfunção erétil por verem agora a concreta possibilidade de ter a sua sexualidade resgatada, os relacionamentos refeitos e a auto-estima preservada. Outra grande parcela da população masculina, embora não sendo portadora desta situação, passou a utilizar de forma irrestrita esta droga com objetivo de melhorar e prolongar o seu desempenho sexual, reduzir inibições frente a parceiras mais jovens, ampliando em muito a sua aplicação universal. Isto se traduziu em elevado consumo, levando estas medicações a ocupar o topo das listas das drogas mais vendidas no mundo.
Embora com poucos efeitos colaterais e aparentemente seguras, estas drogas têm uma contra indicação determinante. São formalmente contra indicadas em pacientes que fazem uso de nitratos, medicamentos que promovem vasodilatação das artérias do coração, sendo os mais conhecidos: isordil, sustrate, monocordil, nitroglicerina. A interação entre as duas drogas potencializa a ação dos nitratos, levando a queda aguda da pressão arterial (hipotensão) com importantes conseqüências cardio circulatórias e até a ocorrência de morte. Médicos cardiologistas informam habitualmente aos seus pacientes que estão em uso regular de nitratos a impossibilidade da associação concomitante.
O outro cerne da questão é que a faixa etária que mais utiliza Viagra, Cialis, Levitra e cia. são homens acima de 50 anos. Ocorre que esta é a faixa da população masculina com maior risco de doença isquêmica do coração, como o infarto do miocárdio. Os sintomas do infarto se manifestam classicamente por forte dor no peito, surgindo de forma súbita, após atividade física intensa (sexual, por exemplo), emoções fortes, uso imoderado de álcool, cigarros, etc. Ao ocorrerem os sintomas de dor e desconforto no peito, seguido de intenso mal estar, os indivíduos são encaminhados às emergências dos hospitais, quer públicos ou privados. Ao serem atendidos, se ainda persistirem os sintomas, os protocolos de tratamento recomendam a aplicação imediata, dentre outras medidas, de nitrato na veia.
Na hipótese do paciente ter feito uso de Viagra ou algum dos seus congêneres, nas últimas 24 horas (quanto menor o tempo decorrido pior), ao ser administrado o nitrato venoso, evoluirá para um quadro grave de hipotensão arterial que no curso de Infarto Agudo poderá ser fatal. Por desconhecimento do uso recente da droga, a equipe médica atribuirá a uma provável evolução do infarto, as complicações circulatórias observadas e até mesmo a ocorrência de morte.
Recomenda-se hoje aos pacientes que, ao serem levados à emergência de um hospital com dor no peito, ao ser levantada a suspeita de infarto, que informem, quando for o caso, o uso prévio deste grupo de drogas, sem receios ou inibições, lembrando que a sua vida pode depender desta valiosa informação. E as equipes médicas que estabeleçam a rotina de questionar os pacientes portadores deste quadro clínico, de forma mais objetiva, sobre esta relevante questão, antes de administrar nitratos, quando indicados, nas emergências ou em unidades de tratamento intensivo.
Agindo desta forma, ambos, pacientes e médicos, estarão interagindo e contribuindo para a preservação da vida.
Jadelson Andrade é médico, especialista em Cardiologia: Sociedade Brasileira de Cardiologia; e superintendente do Hospital da Bahia
