O FUTURO DOS JORNAIS E OS JORNAIS DO FUTURO

Ricardo Luzbel
"Observatório da Imprensa" trouxe, na semana passada, um interessante artigo de Carlos Castilho, sobre a versão 2007 do informe “Estado da Imprensa”, divulgado recentemente nos Estados Unidos. O estudo chama a atenção para a urgência de um reposicionamento editorial dos jornais na era web.
O diagnóstico não é em si uma novidade. Os jornais, que sempre basearam suas receitas em publicidade, numa relação quase que diretamente proporcional à sua audiência, hoje concorrem com a web, classificada por Castilho como uma “mega páginas amarelas”, onde anunciantes falam diretamente com consumidores, sem necessariamente disputar espaço com o noticiário. O noticiário, por sua vez, torna-se também mais interessante na internet, capaz de viabilizar o Jornalismo em tempo real. E tudo isso de graça.
O importante do estudo é que ele expõe esse diagnóstico, incluindo informações objetivas sobre a queda da circulação pelo terceiro ano consecutivo, em taxas superiores às esperadas, e conseqüente queda do faturamento publicitário. Diminuiu também o número e a freqüência das assinaturas, especialmente nas grandes cidades. É como se a fratura exposta estivesse lá e ninguém quisesse olhar, para não ver o sangue. Mas, ou os donos de jornais tratam do problema ou a morte das empresas será certa.
Os Estados Unidos estão particularmente interessados num reposicionamento. Ao contrário do Brasil e de outros países, onde os jornais são de propriedade de pequenas empresas ou de empresas familiares, os jornais americanos têm suas ações negociadas em bolsa e dependem dos investidores para a sua sustentabilidade. Se o mercado de ações acreditar na possibilidade de uma recolocação do setor, investimentos serão feitos na direção do futuro desejado. Se não, os jornais ficarão à mercê de especulações até quando suportarem.
O “Estado da Imprensa”, no entanto, não é conclusivo sobre o que seria a solução da crise. Apenas mostra ser urgente a realização de um estudo de sustentabilidade financeira a médio e longo prazo e aponta como tendência a composição do Jornalismo impresso com o Jornalismo na web, tendência que parece válida também para outros veículos, como o rádio e a televisão.
O próprio informe aponta que a maioria dos leitores dos jornais impressos também consulta suas versões digitais e outros jornais virtuais. Estes sites também foram alvo do estudo*, em duas categorias: Jornalismo digital (internet) e on line (que inclui também podcasting e telefonia móvel). A conclusão, no entanto, é que ainda não há uma fórmula ou modelo para estes tipos de Jornalismo. As empresas estão trabalhando na tentativa e erro, com mudanças freqüentes. Percebe-se uma busca pelo equilíbrio entre agilidade e profundidade. O limite tênue entre esses dois aspectos, essências da notícia, tornou-se ainda mais delicado no universo virtual. Busca-se também as melhores alternativas para que se siga criando possibilidades atrativas para o anunciante, não só com audiência, mas também com qualificação e muita criatividade.
A pergunta que fica é se no Brasil, teremos cacife para dar conta destas tendências. A depender do caminho que se desenhe, as pequenas empresas e empresas familiares detentoras de jornais impressos poderão não ter recursos para investir nesse novo modelo de negócio. Neste caso, ou partimos para o profissionalismo efetivo, também entrando no mercado financeiro, ou nos rendemos, como já fizemos em outros setores, aos gigantes internacionais. Torço pelo profissionalismo, do contrário, os empresários da mídia sairão ainda mais ricos e os leitores correm o risco de saírem ainda mais prejudicados pela padronização da notícia.
* Todas as mídias foram pesquisadas e os resultados estão disponíveis no site www.journalism.org.
Ricardo Luzbel é radialista e empresário do entretenimento e da comunicação
