SEMENTES DA CONCÓRDIA

Paulo César Bastos
A Bahia possui a maior área do seu território inserida no semi-árido. Aí está concentrada grande parte da atividade pecuária do Estado. O sertão não virou mar, mas produz a comida de quem vive na beira do mar.
Durante muitos anos as caatingas foram desbravadas para pastagens, com a introdução dos capins já conhecidos nas zonas mais úmidas da mata litorânea, como o colonião, a grama de Europa e o guinézinho. Com o passar do tempo, essas gramíneas, variedades do panicum, começaram, ano após ano, a declinar, a produzir menos, chegando à degradação das pastagens.
Grande parte dos proprietários, por falta de opção e informação, insistiu nesse erro replantando forrageiras inadequadas ao solo e ao clima, sofrendo prejuízos financeiros e a continuidade da degradação.
Nesse ínterim surge o capim pangola, plantado através de mudas, que parecia ser a salvação da lavoura. Excelente, nos períodos bem chuvosos, também não suportou as adversidades freqüentes e inevitáveis da seca.
A partir de l970 começaram a surgir novos tipos de capim, em sua maioria, de origem africana, estudados e selecionados na Austrália e daí difundidos e cultivados em vários países, inclusive no Brasil, que possuem condições climáticas aproximadas das de determinadas regiões australianas.
Começava o plantio dos capins, com pomposos e sofisticados nomes, devidos aos idiomas das origens, mas que se tornaram, nos últimos trinta anos, bastante populares e conhecidos por este mundo velho da caatinga nordestina: o green panic, o buffel grass e o urochloa.
Tais gramíneas, apresentando maior resistência à seca e sobrevivendo às condições adversas, parecem, até o momento, as mais adequadas aos pastos sertanejos e, desse modo, vem tendo, naturalmente, as suas sementes bastante procuradas.
Posto isso, configura-se um paradoxo ou mais um dos absurdos da Bahia, como diria um falecido e ilustre ex-governador baiano. As sementes mais indicadas, procuradas e utilizadas não podem ser vendidas nas lojas especializadas porque não têm a certificação do Ministério da Agricultura. Só são disponibilizadas para venda as sementes recomendadas para o cerrado ou para regiões mais úmidas, uma vez que os produtores de sementes certificadas só existem nos estados com tais condições climáticas. Parece mentira, mas é a pura realidade.
Assim, para os produtores baianos só restaram duas alternativas: insistir nas gramíneas inadequadas ou comprar sementes sem nenhuma garantia de germinação, uma vez que são colhidas, armazenadas e vendidas de modo precário e rudimentar.
Apresenta-se, dessa maneira, um mercado em potencial a exigir a implantação de um setor produtivo de sementes certificadas de capim em nosso estado.
Tal fato vem ao encontro das idéias e propostas do novo governo estadual de levar para o campo e para os que precisam, a ciência, a tecnologia e o desenvolvimento a fim de permitir uma melhor qualidade de vida no ambiente rural. É uma forma de se aliar o lógico ao ideológico.
O conceito isolado de agropecuária é coisa do passado. Ninguém produz ou cultiva nada sozinho. O que funciona na verdade é o agronegócio, conceito moderno e abrangente que envolve as várias atividades interrelacionadas, nos seus diversos níveis e portes, desde o mais simples cultivo familiar até os mais pujantes empreendimentos produtivos empresariais. Isso inclui as atividades de pré-produção, a produção e pós-produção.
O Governo do Estado prestaria um serviço inestimável à Bahia se desenvolvesse e implantasse um programa, envolvendo a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, a Secretaria de Agricultura e a Secretaria de Indústria e Comércio, em colaboração com a EMBRAPA e as universidades estaduais e federais, para a pesquisa (pré-produção), a produção e o beneficiamento e certificação (pós-produção) de sementes de gramíneas e, também, de leguminosas adequadas aos climas e solos do
estado.
Não cabe, neste artigo, dizer como isso poderá ser feito. É assunto para os especialistas do setor. Vale, no entanto, ressaltar que além dos aumentos de produtividade na pecuária, devido à boa formação das pastagens com sementes de qualidade, para produzir essas sementes devem ser estabelecidos os campos de produção, o que será uma alternativa excelente para viabilizar a agricultura familiar.
Em algumas regiões do estado já existe certa tradição de famílias que vivem a colher sementes de capim. Tal vocação pode ser aprimorada, melhorada e modernizada, tornando-se uma atividade efetivamente produtiva. Através da extensão rural poderiam ser desenvolvidas campanhas de estímulo aos jovens para essa atividade, tornando-a atrativa com um bom apoio técnico. Além disso, as usinas de beneficiamento poderiam gerar emprego e renda movimentando a economia do interior, trazendo, por conseguinte a melhoria da qualidade de vida nessas comunidades, evitando o tenebroso êxodo rural. Estaríamos plantando, colhendo e disseminando as sementes da concórdia.
Paulo Cesar Bastos é engenheiro civil e pecuarista
