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Artigo

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Por ocasião do Sete de Setembro

Por Zilan Costa e Silva

Foto: Jamile Amine/ Bahia Notícias
Há quase duzentos anos atrás, um príncipe com dor de barriga - não se sabe se em razão da água salobra de Santos ou de um prato condimentado comido na noite anterior - parou às margens plácidas do Ipiranga.
 
Enquanto estava acocorado para “responder a mais um chamado da natureza” chegaram o major Antônio Ramos Cordeiro e o correio real Paulo Bregaro trazendo notícias perturbadoras e definitivas da Corte.
 
A correspondência lhe foi entregue enquanto abotoava a braguilha.
 
 Leu-as com atenção e tão irritado com o conteúdo das missivas ficou que as amassou, deitou-as ao chão e, por fim, as pisoteou.
 
Indignado, montou a sua “bela besta baia” e gritou à guarda de honra: “Amigos, as Cortes de Lisboa nos oprimem e querem nos escravizar... Deste dia em diante, nossas relações estão rompidas”.
 
Com ímpeto, arrancou as insígnias portuguesas do seu peito, sacou a espada e, às margens plácidas do Ipiranga, bradou, heroico e retumbante: “Por meu sangue, por minha honra e por deus: farei do Brasil um país livre”
 
Com pompa e estilo, ergueu-se nos estribos, alçou a espada ao alto e disse: “Brasileiros, de hoje em diante nosso lema será: Independência ou morte”.
 
Eram quatro horas da tarde do dia 7 de setembro de 1822 e, embora as circunstancias dos reais intestinos não fossem as mais indicadas para a “perpetração da façanha memorável”, o sol, em raios fúlgidos brilhou no céu da pátria naquele instante[1].
 
Quase duzentos anos depois, um vice tornado presidente, após um processo de impeachment, foi vaiado em plena cerimônia. E esse fato, que deveria ser corriqueiro, ocupou muito espaço nos meios de notícias e nas redes sociais.
 
A nossa jovem república já vive seu mais longo período democrático de sua história. Tropeços, soluços, descontentamentos e insatisfações à parte, as nossas instituições funcionam. Comemoremos.
 
Somos um país livre. Livre inclusive para pensar e fazer diferente.
 
Nesse momento de nossa história, o que realmente deveria contar não é contra o quê ou quem somos, mas a favor do quê. Quem nos lidera é efetivamente menos importante do quê nos motiva, quais as nossas convicções, onde está nossa coragem e nossa fé.
 
A verdade precisa ser dita: não há ganhos sem sofrimento. À frente: importantes decisões, não fáceis. Nosso caminho será longo, lento, custoso e só a força interior, a perseverança e a paciência assegurará a vitória.
 
Vitória sobretudo contra a tirania,  contra a pobreza. Precisamos derrotar a intolerância, preservar o estado de direito e a nossa democracia:
 
Independência ou morte.
 
Vivemos, hoje em dia, envoltos em uma atmosfera de medo: medo do crime, medo do terrorismo. Quem tem medo exige segurança, exige repressão e a consequência é a perda de direitos e de garantias. É a morte do estado de direito e da democracia. Precisamos combater isso.
 
Adlai Stevenson disse, falando sobre a eficiência dos regimes fascistas da Itália e da Alemanha, que o fundamental do governo é a política: más administrações podem destruir boas políticas, mas bons governos jamais podem consertar más políticas.
 
Nós precisamos de boas políticas e de boa administração. E isso depende apenas de nossas escolhas.
 
Precisamos sonhar com o ideal de um Brasil melhor e dar o primeiro passo para construí-lo coletivamente.  Andemos.



* Zilan Costa e Silva é advogado

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias



[1] Bueno, Eduardo. Brasil. Uma História. cinco séculos de um país em construção, Rio de Janeiro: Leya, 2012.

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