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Artigo

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O que os olhos não querem ver, um dia será sentido: reflexões sobre autoengano e miopia corporativa

Por Marta Castro

Foto: Acervo pessoal
A primeira vez que eu tive contato com o conceito de negação foi no livro Autoengano, do economista Eduardo Giannetti. Aquela leitura explicava vários comportamentos que eu via nos meus clientes de Coaching e, porque não admitir, que eu via e mim mesma.

O Coaching com base na Programação Neurolinguística (PNL) tem como uma de suas premissas que por trás de toda ação existe uma intenção positiva. Bom, pelo menos por parte de quem a gerou. O próprio Giannetti diz: “Sem o autoengano, a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto.”

Isto às vezes é difícil de entender e mais difícil ainda de aceitar, principalmente quando somos vítimas desta ação, seja ela vinda do outro ou de nós mesmos. A intenção positiva por trás do autoengano é a autopromoção ou a proteção. Ou uma falsa sensação de proteção. Se eu não vejo, eu não sofro. É assim vamos empurrando muitos aspectos da vida para debaixo do tapete, na doce ilusão de que a poeira não vai acumular: não faço checkup para não achar doença; não me peso para não ver que estou gordinha; não olho minha conta para não ver o tamanho da dívida; não discuto relações porque é mais fácil fingir que está tudo bem.

Se focar no problema (outra premissa da PNL) não ajuda, negá-lo muito menos. Gianetti lembra que é necessário analisar os caminhos que nos levam até as mentiras que contamos para encontrarmos a origem de grandes conquistas e alegrias, mas também dos sofrimentos que muitas vezes causamos a nós mesmos e às pessoas que nos cercam.

Tomar consciência, com tranquilidade, é o primeiro passo para resolver um problema. O segundo é construir soluções acessando nossos recursos internos e externos. O terceiro é colocar estas soluções em prática, também com muita tranquilidade. Nisso o processo de Coaching ajuda e muito.

O tema do autoengano reacendeu para mim recentemente, desta vez através de outro livro intitulado Miopia Corporativa: como a negação de fatos evidentes impede a tomada das melhores decisões e o que fazer a respeito, do professor emérito de Harvard Richard Tedlow. O mesmo erro cometido pelas pessoas também é cometido pelas empresas, o que não é de se estranhar, uma vez que as empresas são, na verdade, as pessoas que a integram. Recheado de casos, o livro traz logo no início esta conclusão, com a história de um médico que sabia que ia morrer e fingia que não: porque fazemos isso? Porque antes de sermos profissionais, somos seres humanos.

Nos vendamos aos temas desconfortáveis, temos dificuldade de ouvir contribuições ao nosso negócio e à nossa conduta profissional, somos imediatistas e queremos soluções de curto prazo e não querer ver suas consequências no longo prazo. Qual a intenção positiva por trás desses comportamentos no ambiente de trabalho?

Não sou uma especialistas em cultura, psicologia ou educação. Mas sou uma curiosa dos três temas e peço licença ao leitor para dar meus palpites.

Primeiro, não somos educados para lidar com o erro de uma forma positiva e construtiva. Erro na nossa cultura é sinônimo de fracasso. Quando alguém erra, o foco é na pessoa e não no fato. Ouvimos mais a afirmação "abafa o caso" do que as perguntas como "o que podemos aprender com isso?" ou "como podemos fazer diferente da próxima vez?"

Atrelado a isso, existe uma cultura midiática de sucesso que nos faz querer parecer sempre ricos, bonitos e felizes. Esse tema é muito falado, mas como não temos uma massa crítica suficiente para mudar o padrão, ele ainda me preocupa. No ambiente corporativo ele se reproduz de maneira sutil. Queremos pessoas positivas e operantes; enérgicas, proativas e bem apresentadas. “Não gostou? Tem quem goste.” “Não concorda? Se lembre que você não é pago para concordar, é pago para trabalhar.” Sei que existem muitos colaboradores do padrão hiena: “oh céus, oh vida, oh azar.” Mas tem muitos que apenas estão tentando tirar da sombra questões que precisam ser discutidas e melhoradas, mas nem todo mundo suporta à luz do esclarecimento ou o desconforto da mudança.

Depois, somos muito passionais, amigueiros, personalistas. Feedbacks positivos são interpretados como "o outro gosta de mim" e feedbacks negativos como "o outro não gosta de mim". Quem gosta contribui, desenvolve, desafia. É como dar uma bronca no filho para educa-lo. Quem não gosta, dissimula, ignora. Com isso, para manter relações estáveis, no trabalho ou na vida pessoal, muitas vezes fingimos que está tudo bem. A turma do deixa quieto.

Finalmente, não temos a cultura do planejamento pessoal e, arrisco dizer, até mesmo corporativo. Por que corporativo? Porque fazer um plano para mim não necessariamente planejar. Falo de planejamento como atitude e não como tarefa. Planejar porque acreditamos e não porque alguém mandou. Não se limitar a preencher formulário ou definir metas e sim passar pelo exercício inquietante de pensar o futuro com tudo que tem de bom e de ruim e encarar o presente com decisões coerentes e corajosas. Se as empresas brasileiras têm dificuldade de conciliar a visão estratégica com a gestão operacional e financeira do dia-a-dia, isso se torna ainda mais crítico em tempos de crise. Resolver o problema de hoje (sobrevivência) sem analisar suas consequências ou deixando para “ver no que vai dar” é sim uma negação.

Segundo Robert Trivers, também professor de Harvard e criador da sociobiologia, o autoengano não é um comportamento exclusivo dos seres humanos. Outros seres vivos como os vírus e as bactérias alteram sua estrutura física para iludir o sistema imunológico e sobreviver. Nos seres humanos, essas estratégias são mais sofisticadas: “as mentiras se tornam inconscientes e, de alguma forma, se transformam em verdades confiáveis.” A nossa vantagem é poder contar com processos como o Coaching e o Planejamento para nos ajudar a perceber estas mentiras, nos fortalecer e instrumentalizar para encarar a verdade e construir sobre ela. Não é fácil, mas é possível.

* Marta Castro é sócia-fundadora da MCL Desenvolvimento Humano e Organizacional, atua como Coach Executiva e de Carreira e como Consultora em Planejamento desde 2009. Administradora de empresas com especializações em Marketing, Administração e Recursos Humanos e mais de 200h de formação em Coaching de Vida, Executivo e Coaching Sistêmico.

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